não é uma tese

Vejo que todos estão muito ligados a essa coisa acreditar nas pessoas. Ter fé nas pessoas.  E meu primeiro impulso é colocar esse costume bonitinho frente à ordem cristã de que tolo é o homem que acredita no homem. Mas para falar a verdade eu estou com preguiça de escrever sobre isso.

uncategorized

E no final das contas nada tem fim.

semelhanças superficiais

Existe em todas as pessoas um desejo de superação em relação ao outro que, antes de ser uma teoria de Hobbes em Leviatã, é  característica primal do ser. Tal desejo de superação é tido pelas teorias modernistas como trunfo, como estratégia pensada a ser empregada em prol de uma, digamos, vida melhor. O tema é corrente em paletras institucionais e/ ou acadêmicas, utilizado sempre com o falso intuito de otimizar as ações humanas, como catalizador de vontades e desejos. Concordo que tal faculdade inerente ao homem seja, sim, motor para se atingir na vida certos objetivos. Concordo, resguardando-me de certas exceções, que é o desejo fator responsável por quaisquer conquistas que se possa adquirir. Mas entendo ser um argumento falacioso o utilizado em palestras, livros, programas de auditório e sites de conteúdo em tom auto-ajuda: o de que todo desejo de competição é benéfico. Mas divago.

E esse título não tem nada a ver mesmo, mas eu prefiro assim.

Não diga

Esses dias um colega da universidade comentou comigo que acha a Igreja Católica uma instituição falida. Vá achando.

D.F. Wallace

Ótima resenha sobre o livro Oblivion, de David Foster Wallace, aqui.

Uma história triste

Cap. 1

Vou contar uma história triste, porém muito ilustrativa para vocês. Educativa até, eu diria. Preciso voltar um pouco à minha doce infância, período no qual foram plantadas as sementes (sempre quis dizer isso!) para o que relatarei mais adiante. Eu tinha uns 10, 11 anos de idade. Em primeiro lugar, eu era um garoto muito displicente. Batia nas minhas irmãs, arrancava as cabeças de suas bonecas Bebê e passava a maior parte do tempo na rua, brincando de pega-pega, pique-esconde, futebol, etc. Na época eu cursava o 4° ano, estudava no período matutino e, apesar de ser o oposto de um cdf, tirava boas notas e tinha facilidade para aprender as matérias – Estudos Sociais, Ciências, História e tais. Já na época eu tinha um melhor amigo, que era o exemplo de aluno a ser seguido: estudioso, disciplinado, sério. Ele fazia todos os para-casas, ao contrário de mim que preferia, quando não estava na rua, jogar Atari. Esse meu amigo – chamemo-lo R. – era um ano mais velho que eu e já cursava o 5° ano; quando eu o chamava para que pudéssemos brincar na rua, respondia-me com voz calma:

_Não posso sair para brincar senão meu pai me bate, tenho que varrer o terreiro.

E não importava o quanto eu insistia, ele era muito, muito disciplinado. Outro dia, chamei R. novamente e ele me disse:

_Não posso sair para brincar, tenho que fazer o dever de casa.

E assim era. Lembro-me de incontáveis vezes ter ouvido minha mãe dizer: “Junior, não vá para a rua, faça como o R., vá estudar!” E eu ficava meio irritado, pois afinal de contas o R., apesar de meu amigo de infância, era tido como o idiota do bairro. Mas eu, sempre muito bom, não deixava de chamá-lo para brincar, ainda que a resposta fosse sempre negativa. Minha mãe ainda insistiu durante muito tempo para que eu seguisse o exemplo de R.: fosse mais dedicado aos estudos e ajudasse nos afazeres de casa. Eu jamais cedi.

Cap. 2

Alguns anos se passaram e eu acabei me afastando de R. Não por intenção, mas porque novas amizades foram sendo feitas, enfim, sabem como é. Eu tinha aqui uns 16 anos e já havia começado a ler livros como Dom Casmurro e Triste Fim de Policarpo Quaresma, e começava a sentir uma pontinha de prazer nisso. Lia quadrinhos e juntava dinheiro para comprar Graphic Novels no final do mês. Foi uma boa fase. Um dia uma notícia aterradora, inacreditável corria as ruas do meu bairro: R. havia levado bomba na escola. Esse foi o fim das comparações feitas pela minha mãe; alcancei R. e agora éramos da mesma sala, sentávamos lado a lado e minha notas não eram muito diferentes das suas; às vezes, melhores. O desespero de R. era visível por eu tê-lo alcançado, e, mais do que nunca, ele se trancava em casa para poder estudar e me mostrar quem era mais inteligente, quem se dava melhor em matemática, essas coisas de moleque. Minha alma blasé imperava e eu não dava a mínima, continuava brincando na rua e jogando vídeo-game até altas horas. Outro fim de ano e R. toma outra bomba, ficando para trás. O que era engraçado começava a ficar sério, estranho demais. Ele estudava tanto, era tão obediente aos pais, varria o terreiro, santo deus! Tempos depois eu soube que R. havia saído da escola, bem no ano em que terminei o 3° ano do Ensino Médio e me formei. Comecei a trabalhar e a ler muito, muito. Não tinha mais tempo para a rua e pouco para o vídeo-game, de modo que eu não via mais meu antigo amigo R. Tomamos caminhos distintos. Às vezes eu ouvia falar dele, mas somente comentários esparsos, desinteressantes. Mais algum tempo e eu estava na faculdade, lendo ainda mais e trabalhando. Em minha rua, nenhum rapaz que fosse exemplo pra mim. Eu era o exemplo.

Cap. 3 – final

No último natal, a mãe de R. convidou minha família para ir à sua casa, “como nos velhos tempos”. Fomos: eu, minha noiva e minha mãe. A mãe de R. me olhava e dizia “como cresceu, gente” e eu sorria sem graça. R. fez supletivo para se livrar do Ensino Médio e se converteu ao evangelho, sendo a Bíblia o único livro que lê, quando lê. Toca música góspel no violão e sonha em gravar um cd em inglês. Não estuda. Trabalhava, mas por algum motivo não o faz mais. Está com 25 anos. Há umas semanas, atendendo a um convite educado que fiz na noite de 25 de dezembro, foi à minha casa para conversarmos. Ficamos na sala, onde fica a maior parte dos meus livros, na estante. Ele me perguntou com o que estou trabalhando e respondi. Perguntou como é a faculdade, se eu gosto e tal. Eu disse que sim, que não é como eu esparava, porém agradável, e disse que ele devia fazer. Perguntei por qual curso ele se interessa e ele me respondeu “História”. Algo que notei a princípio enquanto conversávamos foi a sua falta de atenção ao que estava falando; ele comete digressões incríveis ao contar uma história, mais que o normal. “Talvez seja o jeito dele”, pensei. R. viu meus livros e se interessou. Quis ver alguns e eu disse que ficasse à vontade. Pegou o Introdução à Psicologia e perguntou-me se eu já o havia lido. Sim. Perguntou se já li a Bíblia. “Sim, a maior parte”, eu disse. Então eu o aconselhei a ler mais coisas além das escrituras e perguntei qual o último livro que ele havia lido, ao que me respondeu:

_O Escaravelho do Diabo! Nossa, é muito bom! Assim: tem lá o bicho, o escaravelho, e quando ele pica a pessoa, a pessoa vai para o lado negro!

Pensei em fazer uma piada com Star Wars mas imaginei que ele não entenderia. Eu me lembro de quando nos mandavam ler O Escaravelho, e isso já tem uns 15 anos. É um livro infantil da antiga Coleção Vagalume. Emprestei-lhe o Introdução à Psicologia e lhe recomendei que lesse com calma, estudando. Então ele olhou no relógio e falou que precisava ir embora, tinha que tomar um remédio. “Que remédio?”, perguntei surpreso. “Um aí, para fortalecer a mente”, ele me respondeu. Não entendi – ou entendi mas me fiz de parvo. Eu tinha só mais uma pergunta:

_R., por que você não está mais trabalhando?, o que houve?

_Estou com depressão, Edson. Eles me afastaram do trabalho.

 *

Moral: Não se pode forçar uma pessoa a ser inteligente; não se pode forçar uma pessoa a nada. A pressão tem constantemente efeito contrário; como um prego que, sob a força do martelo, entorta.

carta à minha intelectual favorita

Vou me despir de qualquer pompa lingüística, verborragia ou lugares-comuns para escrever este texto, que não só se faz necessário devido ao dia de hoje, mas, principalmente, em razão dos dias e anos que se passaram, durante os quais nos tornamos mais íntimos, cúmplices; mais visceralmente ligados e dependentes um do outro. Por mais cético que eu aparente ser quanto à maioria das coisas, incluindo relacionamentos, com você eu vivo uma outra realidade, na qual minhas concepções adquiridas ao longo do tempo são postas a um nível quase imperceptível. Ao seu lado, minhas certezas niilistas e minha visão apocalíptica do mundo entram em estado de suspensão. Você que suporta as minhas músicas muitas vezes estranhas, undergrounds demais para uma mulher; você que ouve sem reclamar os meus discursos mais inflamados quando estou no meio de uma argumentação, você que ri dos meus gritos roucos ao cantar uma música velha no seu videokê. Qualquer definição de amor que me apresentem eu a refuto, pois eu não preciso de definições, nós não precisamos de definições; somos o nosso próprio conceito, alheios – e eu agradeço – às opiniões de outrem. Chegamos a um ponto em que estamos acima; olhamos à frente e podemos ver mais que o horizonte: avistamos um futuro que se nos apresenta breve, iminente. E como você é a praticidade que em mim falta, você dirá “eu te amo, meu amor”, enquanto que eu me demoro, me alongo, tergiverso. Você é o meu fator de equilíbrio; você é o meu bom-senso. Em você eu encontro os motivos mais inescrutáveis para viver, pois, e você me conhece, eu não levo a vida a sério – ou pelo menos não levava antes de você surgir. Repito que estamos acima de qualquer definição – e essa é a minha opinião irredutível, não sujeita a questionamentos ou argumentos contrários. Você me fez melhor há tempos, e eu lhe sou grato de uma forma que talvez você não possa imaginar, mas sei que você pode sentir quando me olha com esses olhos claros e luminosos, e sorri, simples, de uma maneira que, em silêncio, é capaz de expressar tudo. Nosso amor não cabe no espaço de um beijo [data vênia, Drummond], mas está presente em cada pequena coisa que fazemos juntos. E eu amo você por motivos demais, tantos e incontáveis que nem contrariando a primeira linha deste texto eu me poderia fazer entender totalmente. Nosso amor é uno. Eu diria que você me é tão necessária quanto o ar, o sol, a lua; mas faço melhor: não digo. Vejamos até onde vai a imaginação da minha intelectual favorita, minha querida e amada, minha estrela.Amo você, até o fim do mundo. 

kriterion

Estou em estado de époche.

que preguiça dos reacionários

Vejam só o que um indivíduo unlink comentou aqui:

Puxa, que post mais vazio!
Você pode ter lido, mas não entendeu “A república”.
“E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna” Pelo dito acima tanto faz o cara ler “A república” ou “Platão em 90 minutos”.  Para alguém afirmar que “Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta.”, o grau de autoconsciência deve ser muito baixo. Não leste o teu próprio post? Esse sim, longe de ser ‘inútil e indispensável’, é apenas inútil. O seu blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória: “uau! eu li todos os clássicos! Todos são obsoletos! eu os superei!” Leia mais, escreva menos.”

E sabem, eu morro de preguiça dessas criaturazinhas. Morro de preguiça. Então, Rodrigo, se me estiver lendo, saiba que eu não escrevo para você nem tampouco para a sua estirpe. Excetuando-se os meus poucos leitores, eu escrevo para mim mesmo. Eu teria vergonha de postar um comentário como o que você postou. De gente reacionária o país está cheio, e isso me faz sentir pena dos que, como você, acham bonito o fazer-se entendedor de todas as cousas. Você não me conhece e eu não escrevo para você, dá para entender? Já filosofia eu não me desgasto discutindo-a com você, que, pelo que vejo, ainda está encantado com os livretos que mandam ler no ensino médio. Eu mal tenho que provar algo para mim, muito menos para gente como você. E dou-lhe um conselho: vá ler Eleanor H. Porter, faz mais o seu tipo.

enquanto a filosofia não vem

Há dias em que eu acho tudo um grande porre. Uma colega da universidade me pediu emprestado A República, de Platão, e ficou com  ele uns três meses. Quando me devolveu, eu não perguntei se ela havia lido. E imagino que não. Pelo menos não completamente. Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta. E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna, afinal de contas. No entanto eu concordo que a filosofia seja “inútil e indispensável”, como escreve Josef Pieper:

É conhecido o prazer com que Sócrates – freqüentemente e de formas muitas vezes exageradas – gostava de ostentar o quão desajustado é o filósofo: ele mal sabe onde se localiza o fórum, não tem a menor idéia das disputas partidárias dos que almejam o poder, ignora completamente as questões relativas à ascendência nobre ou plebéia e mais – ironicamente referindo-se a si mesmo: “ele não sabe sequer que ignora tais coisas”. O riso da criada trácia que zomba de Tales por ter caído num poço, enquanto, caminhando, contemplava o céu, está reservado para todos os que se dedicam à filosofia em qualquer época.“Mas, não é o caso de ficarmos aqui repetindo o que todo mundo sabe. Além do mais, o próprio Sócrates não fala do filósofo como único objeto de riso. Também ele tem sua vez de rir quando, por exemplo, ouve “discursos pomposos” ou quando alguém louva o tirano. É então o filósofo quem ri, e, nesse caso, “a sério”, com fundamento na realidade. Contudo, não é tão importante saber quem ri de quem e com mais ou menos razão. Mais importante é, parece-me, indagar que significado poderia caber à filosofia na vida da sociedade humana.Quando falo aqui em “filosofia”, diga-se de passagem, não estou, é evidente, referindo-me a um determinado grupo de pessoas, nem a um grêmio de “especialistas”, cuja função social estaria em discussão. Sócrates afirmava que reconhecer a estirpe dos verdadeiros filósofos não é, de modo algum, tarefa fácil, mas “quase tão difícil como a dos deuses”. E recordemos suas palavras mais amargas: os maiores detratores da filosofia são aqueles que se autodenominam filósofos. Não estamos indagando, portanto, sobre a função de determinado grupo ou instituição, mas sobre o valor, para a comunidade humana, do filosofar em si mesmo, onde quer que ele se realize.O platônico Aristóteles expressa sua visão da filosofia na passagem da Metafísica em que afirma serem todas as ciências mais necessárias do que ela, embora nenhuma a supere em importância: necessariores omnes, nulla dignior. Ora, a “dignidade” da filosofia e a devida importância que possui no seio da comunidade humana deriva de que só ela pode produzir uma indispensável inquietação, formulada na seguinte questão: Em que consiste – uma vez que, com notável esforço de inteligência e trabalho, já tenhamos obtido tudo que é “necessário”, a satisfação de todas as necessidades vitais, a plenitude de recursos para manter a vida (em todos os sentidos) e a seguridade do viver -, em que consiste propriamente a vida (essa vida assim possibilitada), a vida verdadeiramente humana? Formular esta inquietante pergunta – em meio a todas as perfeições que o homem alcançou para si, no mundo -, e sustentar vigorosamente esta pergunta por um pensamento rigoroso e insubornável – esta é que é precisamente a função da filosofia e sua mais específica contribuição para o bem comum. Ainda que ela, por si mesma, não tenha capacidade de dar resposta cabal.

 

uma falsa idéia

Eu já disse que minhas aulas na faculdade estão decepcionantes? Engraçado é que estive comentando sobre isso com uns amigos e com minha noiva, e então quando li o ensaio do Soares Silva na Bravo deste mês ví que ele tratava do mesmo assunto. As instituições de ensino, se por um lado aumentarm em número, perderam em qualidade. Passei um semestre inteiro “aprendendo” como é o clima dentro duma redação jornalística (…). Mas deixemos de coisas óbvias.

Keats, Wilde, Proust & me

Eu não leio poesia, como já escrevi dantes, mas muito me agrada a história de John Keats (não, não li na wikipedia): rico e ocioso, passava os dias lendo; ou seja, a vida que eu queria ter. Keats morreu de tuberculose em 1821, e sobre seu túmulo foi inscrita a famosa sentença “Here lies one whose name was writ in water “, que ele mesmo escreveu. Conheci Keats num livro de ensaios de Oscar Wilde, Chá das Cinco com Aristóteles, no qual o dândi faz boas referências ao poeta, além de citar e comentar alguns poemas. E como a minha edição de Chá das Cinco é bilingue, dá para ter umas boas idéias da originalidade linguística de Keats, como trocadilhos e jogo de palavras, bem à maneira da literatura inglesa do século XIX. O Chá das Cinco, do Wilde, eu não conhecia até comprá-lo, há uns anos. Vasculhava as prateleiras duma Leitura aqui da capital quando ví a capa. Comprei no ato. É na verdade uma reunião de ensaios e críticas literária e social, do início da carreira de Oscar, antes de O Retrato de Dorian Gray ou qualquer outra obra conhecida. Wilde, vocês sabem, morreu em 1900, ano em que Proust fazia 29 anos e ainda não tinha publicado Em Busca do Tempo Perdido, cuja primeira parte só veio a público em 1913 e que só recentemente lí. Ai de nós que vivemos no século XXI.

Santíssimo guaraná

Está tudo mesmo à beira do ridículo, e os cristãos são uns frouxos. Sábado, tarde da noite, encontrava-me sentado frente ao computador, absorto nalguma matéria, enquanto minha intelectual favorita ronronava sonolenta sobre a cama, atrás de mim. Comentei-lhe algo sobre o que eu estava lendo – não consigo me lembrar o quê – e ela me respondeu que há, se não se enganava, no Maranhão um refrigenrante chamado Jesus, muito famoso, tanto que a Coca-Cola estaria interessada em comprar a marca. Pesquisei e encontrei, o que me foi motivo de riso. Penso que se uma coisa dessas acontece no Oriente Médio com o nome de Alá, boa coisa não sai. Lembra-se das charges? Então. Espero não passar a impressão de que eu ligue para o fato, eu não ligo. Mas acho no mínimo engraçado que não haja reclamações por parte dos fanáticos – e se há, são demasiado tímidas. E se a marca Jesus tem feito tanto sucesso como se diz, bom, deve ser, se não mais, uma bênção, não?

O questionário de Proust

Bem, eu queria de volta o Iluminismo, como já escrevi, mas não seria nada mal que pelo menos, pelo menos, o século dezenove voltasse. E já que uma modinha dos idos de 1890 está de volta à baila, para o meu prazer, deixe que eu a adira. O Questionário de Proust é uma lista de 29 perguntas que (…), e tem esse nome por ter se tornado famoso após as respostas do francês que nasceu no mesmo dia que eu, etc., etc. Ei-lo por mim respondido:

1. Qual é a sua maior qualidade?

Eu tenho bom gosto e me orgulho muito disso. Desde muito jovem lia muito e me envolvia com pessoas mais velhas e mais inteligentes que eu, e creio que tenha sido esse o meu impulso primeiro às artes, à filosofia, à literatura e ao jornalismo. E ainda que sejamos obrigados a conviver com todo tipo de pessoa durante o nosso amadurecimento, não me deixei influenciar. De modo que sou hoje um homem incorruptível – exceto por Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Shakespeare, o próprio Proust, etc.

2. E seu maior defeito?

E esse deve ser um defeito bruto, pois de modo algum eu consigo considerá-lo defeito. mas o senso comum, você sabe. Eu sou completamente intolerante. Por exemplo: certa vez precisei ir a uma festa com a minha noiva – quando ainda éramos namorados – e fiquei meio contrariado, pois não gosto muito de festa por causa do aglomerado de gente, essas coisas. Mas, bom, era uma festa infantil e eu fui. Tudo ia bem até meia noite, quando as crianças presentes começaram a ir embora e os adultos mais jovens e os adolescentes idiotas começaram a ficar animadinhos. A música, que já era ruim, ficou pior. A Xuxa deu lugar ao funk e o resto vocês imaginam. Eu fiquei fora de mim, completamente exasperado; o que gerou briga, desconforto e pressa de ir embora.

3. A característica mais importante em um homem?

A Paixão. Não no sentido romântico, mas total. Paixão pelas parcas coisas boas no mundo: a mulher, a literatura, o conhecimento, o cinema, a música e o chocolate.

4. E em uma mulher?

Reconhecer os poucos homens com as características que citei acima. E, claro, a fidelidade – ou você está pensando que há algum comunista aqui?

5. O que você mais aprecia nos seus amigos?

A busca pela verdade! Brincadeira. Aprecio a inteligência, e procuro somente ser amigo de pessoas intelectualmente privilegiadas. Por que? Ora, para que eu mantenha o velho hábito infantil de aprender mais e mais com os sabidinhos – c’est la vie.

6. Sua atividade favorita é…

Uma discussãozinha. Mas que seja inteligente, pois do contrário eu tenho preguiça. Além de cinema, teatro, a leitura, enfim. Um adendo: eu sempre estou acompanhado em tais atividades, nunca só, jamais.

7. Qual a sua idéia de felicidade?

Eu e minha intelectual favorita, mais velhos, vivendo bem, confortáveis e afastados das coisas mundanas (leia-se música ruim, gente ruim, clima ruim).

8. E o que seria a maior das tragédias?

Ficar sem dinheiro num país tropical.

9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?

Lord Henry Wotton.

10. E onde gostaria de viver?

Se no Brasil, no sul. Porto Alegre, talvez. Se noutro país, Irlanda. Aprendi a gostar da Irlanda com o Garth Ennis.

11. Qual sua cor favorita?

Preto.

12. Uma flor?

A papoula.

13. Um pássaro?

A cotovia (eu não sei que diabo de pássaro é esse, mas é com certeza o nome de pássaro mais legal que eu conheço).

14. Seus autores preferidos?

Dickens, Shelley, Shakespeare, Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Proust, Machado de Assis, Shopenhauer, Hobbes, Kafka, Salinger, Francis, Mencken, Eco, Baudrillard, etc.

15. O os poetas que mais gosta?

Keats e Manuel Bandeira. E alguma coisa do Pessoa.

16. Quem são seus heróis de ficção?

Jesse Custer (Preacher), por ser um pastor protestante que perdeu a fé e quer ter uma boa conversinha com Deus. E o Spider Jerusalém (Transmetropolitan) que é um jornalista muito, muito corrupto.

17. E as heroínas?

Humn. Lolita, se se pode assim considerá-la.

18. Seu compositor favorito é…

Dylan.

19. E os pintores que você mais curte?

Bosh e Van Gogh.

20. Quem são suas heroínas na vida real?

Minha mãe, que é divorciada há uns 12 anos e tem uma força de vontade incrível, perto da qual eu sou um gurí, um preguiçoso. E Natália, que está comigo em tudo e para tudo.

21. E quem são seus heróis?

São os poucos pelos quais me deixo influenciar, como disse mais acima. Escritores, artistas, músicos, amigos. São aqueles cujos conselhos eu seguiria, se pelo menos a maioria estivesse viva.

22. Qual sua palavra favorita?

Isso varia. No momento é “asco”.

23. O que você mais detesta?

Não gosto de gente que fica por aí falando coisas como “nossa, como fulano é pobre de espírito”, então não me confunda, pois o que vou dizer é absolutamente distinto: não gosto de gente pobre de vontade, de desejo, de ânsia por conhecimento. Não gosto de estagnação. Não gosto do modo como a maioria das pessoas aceita tudo o que há de ruim como se fossem coisas boas. Não gosto da falta de senso crítico. Não gosto do moralismo exacerbado.

24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?

Goebbels, o ministro da propaganda nazista.

25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?

Bom humor, otimismo.

26. Como você gostaria de morrer?

Sentado num banco de madeira, sob frondosa árvore, no meio de uma leitura – mas tanto melhor se der para esperar eu terminar o livro.

27. Qual seu atual estado de espírito?

Ansioso.

28. Que defeito é mais fácil perdoar?

Um  corte de cabelo ruim. O resto é mais difícil.

29. Qual é o lema da sua vida?

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

(este sou eu, sem filtro.)

Se tiverem coragem e paciência, respondam Tina, Carol, Edward, Elisabeth, Cleber, Rosângela e quem mais estiver, digamos, disposto.

Epifania

É comum basear um texto numa só palavra, mas corre-se o risco de o post parecer poético e não há nada que eu deteste mais. Perdoe a digressão, mas deixe-me escrever sobre isso. Não sei, é bem provável que a psicologia tenha todas as explicações para o fato em seus livros de autores barbudos. Não sei. Estou pensando na tendência besta que todos temos, desde pequenos, emberbes: a propensão ao romantismo, à poesia. E é um assunto vasto. Budistas do Tibet escrevem poesias, ora. Mas, entenda, não estou escrevendo contra a poesia, não é o quero dizer. Quero dizer que, quando jovens, as pessoas, indivíduos, os serezinhos humanos, quando escrevem – e aqui acabo de excluir uma boa parcela da humanidade – desejam, mais que tudo, serem poéticos, românticos, tocantes. Eu mesmo já o fiz e sei que é uma coisa besta, bem besta mesmo. E só tem uma explicação: mulher. Quando o homem começa a escrever coisas como “me é um júbilo incomesurável ouvir a sua voz” ele só pode estar só, entregue aos próprios artifícios – se é que me entende. E quando a mulher é que escreve uma baboseira assim, ora, não é por nada. É permitido às mulheres escrever esse tipo de baboseira. Um dia passa; se não, torna-se depressão ou algo assim. Mas passa. O meu romantismo eu deixo nas minhas palavras, soltas ao vento, em uma só direção. E olhe só eu sendo romântico.

A Epifania? Deixe para uma outra hora, sim?

E amanhã responderei o Questionário de Proust.

Lord i guess i’ll never know

As pessoas são todas muito boazinhas, né? Tão, tão simpáticas.

(whispering)

Eu já concordei antes com a idéia de que, se o Brasil tivesse participado de uma guerra mundial, ele seria um lugar melhor para se viver. Mas agora é tarde. Acho que a fase das potências pós-guerra já passou. Hoje é tudo muito sublimado; ninguém declara guerra a outra nação, e sim guerra contra o terrorismo, contra a opressão, você sabe. Além do mais, se se gasta com programas sociais, não se pode gastar com armamento – isso em teoria, sim, claro. Mas divago.

Bom, se não temos a guerra, tragam-me de volta o Iluminismo.

estética en passant

Há quem gaste mais palavras para falar disso, e bem o faz; no entanto fugirei à regra: procuro ser mesmo simplista, especialmente numa tarde de segunda-feira. Pensando no que escrevi uns posts atrás, sobre já ter usado blusa com estampa do Che há uns anos, lembrei-me de um outro fato igualmente pejorativo. A fase blusas-de-banda-de-rock. Você sabe, aquelas pretas. Bom, ainda hoje tenho uma do Pearl Jam, mas hoje prezo um certo grau de sutileza inexistente outrora. Eu era um rebelde – um rebelde esteta. Como a maioria, não tinha uma causa. Gostava de incomodar, chamar a atenção, sem quaisquer justificativas. Gostava de ser barrado na porta da escola na qual cursei o ensino médio, só para ter motivos para discutir com o porteiro. E, sim, eu era bom em discussões nessa época. Era a aurora da minha vida literária (oh!) e eu gastava o verbo, fazia citações a esmo, só para impressionar. E usava blusas de bandas obscuras, pouco conhecidas; sempre pretas. Minhas calças jeans tinham buracos em ambos os joelhos. Era estilo. No pescoço, penduricalhos ridículos, sem o menor fundamento. Em tempos de frio, blusas de flanela. Era década de 90 e isso era moda; o xadrez, o all star, a coisa toda. E hoje penso “como a idiotice é necessária!”, como ela nos faz ter algum orgulho quando olhamos pra trás. Quem nunca foi idiota, continua idiota sempre.

E é claro que daqui a uns 10 anos vou ler estas linhas e pensar “que parvo!”

Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

*

Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

O labirinto do fauno

O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, é o melhor filme lançado em muito tempo. Enquanto assistia-o, eu via, nítido, o Frodo e toda a trupe de Lord of the Rings sendo envergonhada, desacreditada. Noutro momento, o Fauno sai das sombras e dá tapinhas de luva na cara lavada do leão de Nárnia, o messias. O Labirinto do Fauno representa o fim da fantasia, o fim do Conto de Fada – ou mais propriamente a sua impossibilidade de coexistir com o atual e corrompido mundo real, que há muito superou ficção. É um filme triste, obscuro. Mas o melhor adjetivo que se aplica à obra de Del Toro é pungente. É um filme que incomoda: quanto mais próximo do final, mais caótico ele se nos apresenta, mais melancólico, mais real.

Lógica desvairada

É de uma graça lamentável a quantidade de blogues com a pretensão de fazer jornalismo. E, além disso, um desperdício em se tratando de bons blogueiros, pessoas com algum potencial criativo. Uma pergunta corrente em entrevistas a leitores de blogues é: “O que você busca quando entra num diário virtual?” Ora, o hipertexto não funciona assim. Quando vasculho a internet, o que busco são idéias novas, ousadas, de cunho opinativo, mesmo. E isso significa que eu não tenho um tema pré determinado; muito pelo contrário, o que me agrada é a diversidade de pensamentos que se cruzam, os debates, o blá blá blá. Se eu quisesse saber de notícia, francamente, eu entraria nos portais especializados ou comprava um jornal. É tão triste entrar num blogue e ler uma notícia copiada do Uol ou, sei lá, do Diário do Nordeste. Notícia precisa ter credibilidade, coisa que em terra de blogueiro é conto da carochinha. Claro, claro que há exceções e não tenho que citá-las – mas, ainda sim, os que a possuem a tem dentro de certos limites. Mas, sinceramente, quem se importa com credibilidade no que tange a blogues? Eu me esbaldo lendo as críticas de cinema de não-críticos; me divirto imensamente lendo as impressões que um livro causa nos não-literatos; e o mesmo com a política, com a música. E opinião é algo bonito. O cinema não é produzido para cineastas, tampouco a literatura para literatos; de modo que ler num blogue as reverberações do autor sobre Schopenhauer, por exemplo, é uma chance única de acesso a um tipo de opinião crua, sem gatekeepers editoriais. A crítica sem critério é valiosíssima. É como uma pesquisa de opinião voluntária.

Acho que as pessoas devem além de ler, escrever mais. Eu mesmo, aqui, acostumado a postar nada mais que opinião, já fui muitas vezes mal compreendido por leitores que ainda enxergam tudo com um olhar meio ditador; e não as culpo, é herança cultural esse negócio de que opinar é perigoso.

Termino com Marco Aurélio, vesgo, dizendo que ou você é você ou vai acabar sendo confundido com seres indiferentes; um parvo, no mínimo:

“De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo. Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz. É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob condição e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir. ”

oui, oui

Chamam-me cínico, chato, irônico, elitista e o diabo. I don’t mind. Certo é que o que somos perante os outros é que nos garante a place no mundo como seres, criaturas. Penso que a faculdade de pungir está diretamente vinculada à qualidade de existência humana. Tanto é assim que somente sob situações de fome é que sentimos existir em nós algo cunhado estômago [data venia, Platão].

Vergonha da classe

Uma historinha verídica: amigo meu, bêbado, num bar, ao ver passar um cabeludo com uma camiseta com estampa do Che Guevara:

__Ô, esquerdinha! (gritando)

__Quando você deixar seu cabelo crescer, venha falar comigo!

__Pensei que estávamos falando de política…(sussurrando)

Eu também era de extrema esquerda até há uns anos, quando adolescente. Lia Marx e dava tudo por uma camiseta com estampa do Che – peça que, hoje, se vejo alguém usando, sorrio sarcástico. Não é que com o tempo nos tornamos direitistas; é que, com o tempo, vemos o quanto nossos professores falavam sério quando diziam ser o comunismo nada mais que utopia. E com extrema esquerda quero dizer que eu não comia na Mc Donald’s, lia Caros Amigos e colocava a culpa no sistema.

Francamente.

Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontâneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno…, coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje… nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito.
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu…; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita.

Fiodor Dostoievski, in ‘Diário de um Escritor’

*

Comecei a leitura d’Os Irmãos Karamazov.

Cold

MySpace do artista/MySpace

Um post sem ranço, para não desagradar minha amiga Tina. Começam hoje os shows do Coldplay, em São Paulo. Ouço bastante o A Rush of Blood to the Head aos fins de semana, em casa; pricipalmente porque minha noiva não reclama muito das canções, ao contrário do que acontece quando ponho para tocar Marilyn Manson, imaginem só. Conheci Coldplay como todos – creio -: ouvindo Yellow, música do primeiro album, Parachutes. E gostei. Mas não fico fazendo comparações como quem não tem o que fazer. Por exemplo: dei uma lida rápida nas revistas Bizz e Rolling Stone Brasil de fevereiro   (cujas capas são quase idênticas) e a primeira compara a banda de Chris Martin ao Radiohead, enquanto a segunda coloca o U2 do outro lado da balança. É chato isso. Não gosto de Coldplay por se parecer com alguma outra coisa; gosto, simplesmente. E eu gostaria de ir aos shows, apesar de não gostar do aglomerado de gente. Gente é algo que irrita (Ed, olha o ranço!). Bom, não vou pois os ingressos esgotaram em dois dias e, além do mais, não moro em São Paulo. Enjoy.

Wit

O restaurante no qual eu almoço é caro porque a proprietária é escocesa e dá aula de inglês para marmanjos. Eu com isso? Ora, eu pago por isso. E no Brasil as coisas são mesmo assim: a gente vive pagando por assuntos que não nos competem. Só para citar um assunto recente – e me desculpem por estar falando de política; sei da deselegância disso -, a exemplo, o governinho quer usar o fgts do povinho para a realização do Plano de Aceleração do vocês sabem o quê. E pergunto: o pt tem a idéia magnífica e nós é que pagamos por tal? Acho melhor então um governo sem idéias, no piloto-automático. É isso, coloquem esse governo no piloto-automático. E me dizem “mas esse já não é um governo sem idéias?” Não, o pior é que não. A esquerda é cheia de idéias. Os barbados e bigodudos Lêem Marx e ficam cheios de idéias, as mais variadas. E neste ponto ouço sussurros aos meus ouvidos a dizerem que toda idéia é mesmo arriscada, que há de ser assim. Tudo bem, vá lá, que se arrisquem, ora, eu não ligo. Mas, e eu com isso?

Oh, os portugueses

Ainda que eu não acredite que eles tenham “descoberto” este país, há uns bons escritores portugueses que vêm chamando a atenção. O Cleber me apresentou na última semana o Pif-Paf, blog de Tiago Galvão, um gajo que tem muito a dizer – e o diz muito bem. Leiam por si mesmos, criaturinhas:

Sacaninha: J. D. Salinger é um sacaninha. Descobri The Catcher in the Rye, por mero acaso, enquanto procurava bom Jazz. Depois de uma dezena de páginas de uma biografia inútil de John Coltrane, seguido do morfanço glutão de dois hambúrgueres caseiros com meio quilo de queijo da serra cada, começo a leitura do Salinger. A verdade é que não sou um leitor muito sofisticado. Devoto da Experiência de Ler de C. S. Lewis, sou um excomungado. Ponho os senhores do Jazz como barulho de fundo, deito-me na cama, sobre uma almofada gigante comprada de propósito para o acto e, enquanto arroto batatas fritas, abato em pacotes aquilo que aumento em peso. No fundo, sou um porco, desde bolachas a tripas à moda do Minho ressequidas vai tudo para o bandulho. Digamos que a minha Experiência de Ler é todo um programa de engorda (Não contem: na adolescência, enquanto lia Eça, chegava a tocar uma nas descrições).

Mas vamos ao que interessa: Salinger é um filho da puta. A gente começa a ler, a gente começa a gostar, nos três primeiros capítulos, o gajo dá-nos uma boa piada por página como se de heroína se tratasse e, quando damos por nós, o livro acaba e estamos completamente viciados. Solução? Esquecer Salinger rapidamente, rezar para que os autores seguintes não saiam muito afectados e ler um livro de merda pelo meio para atenuar a comparação. Mas vamos ao fundo da questão, ao cerne da minha tese, ao busílis da minha dúvida metafísica (sempre desejei ter a eloquência de Cícero e dizer coisas à Prado Coelho), ou seja, a filha da putice de J. D. Salinger. Recuperado do choque e da falta de mais Salinger´s para digerir, contei sobre o senhor a amiga de confiança. A senhora, curiosa, faz pergunta central: «sobre que era o livro?». «O quê?», estranho eu. «A história, qual era a história?». Não há. A verdade é que não há história, não há enredo, não há nada. Só boa escrita. Só o bom do Salinger a passar duzentas páginas à frente da nossa cara a dizer: «olha como eu sou bom, olha como eu sou bom, olha como eu sou mesmo mesmo bom». E era. E é. Salinger limita-se a escrever bem. É preguiçoso e filho da puta, e escreve bem.

De resto, cada livro do senhor é um ponto a favor da saúde mental de qualquer indivíduo. Mark Chapman, inspirado por The Catcher in the Rye, esvaziou uma trinta e oito na peitaça de John Lennon. Eu mesmo, dotado de uma incomparável lucidez, a meio do livro, já engendrava planos deliciosamente maquiavélicos para dar um tiro nas nádegas do Al Gore, abrir a aorta da Hillary Clinton e mirar uma caçadeira na boca escancarada da Angelina Jolie. “

Ok computer

Oi, povo. Estive off-line desde sábado, 17.02. Alguém lá em cima não me queria blogando durante o carnaval, de modo que um raio – raio que o parta! – desceu à terra e queimou o meu modem. Deve ser pecado estar conectado durante o carnaval, ora.

About me

“O SemiÓtica é um dos melhores blogs por conseguir se destacar nunca indo pelo caminho mais fácil da linkania desvairada e seguindo por um terreno perigoso e muito díficil: ele registra pensamentos próprios.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças sociais, pelos políticos corruptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

Postagens que eu destaco: Como fazer a diferença com blogs, eu acho que sempre suspeitei de que o amor é uma falácia mas este texto confirmou, uma crítica aos ateus dos dias de hoje e uma questão lógica para terminar.

SemiÓtica
De:Ed
Primeiro post: 09/07/2006
No Technorati

Daqui: 1001 Gatos.

Carnavalle de mierda

Sou brasileiro não-praticante e não desisto nunca. Não, eu não gosto de carnaval, mas isso vocês já imaginavam. Toda a gente tem a mania (mania enjoada, digo outra vez) de extrair alguma vantagem do que é ruim. Afirmo resoluto que não estou fazendo isto, mas olha, é bom que essas pessoas que acham que o “carnaval nasceu no Brasil” e é cultura, que “é a cara do brasileiro” e tal, é bom que essas pessoas se reunam todas em seus guetos mal cheirosos; é bom que eles saibam que toda a música ruim é feita mesmo pra eles; é bom que aproveitem. Assim eu tenho mais sossego, eu e os meus. É bom que as coisas sejam assim bem definidas. Eu cá, eles lá. Eu detestaria ser confundido. Carnaval! Quem sabe se ele ainda fosse um costume exclusivamente europeu? Brasileiro estraga tudo, tudo.

Sobre editorias

Leio cultura, cidade e política, principalmente. Cultura porque – e isso deve ser óbvio – o assunto me atrai, geralmente. Também gosto da linguagem que, certamente, é direcionada ao leitor mais instruído. Contudo, acho que os cadernos de cultura deveriam ser maiores, digo, deveriam conter mais textos. E as fotos deveriam ser menores. Leio política por considerar um dever. Passei pela fase em que eu achava tedioso e leio sempre, se não em jornal impresso, em sites. E aqui muito me chama a atenção o cuidado que os jornalistas têm em relação à linguagem, à abordagem e tal. Incrível como independência é uma qualidade (e um requisito) cada vez mais escassa nos jornais do país, ainda que se afirme o contrário. Mas leio, é bom saber dos assuntos que envolvem os governantes, ainda que pela metade. Sun Tzu é que tinha razão: é preciso conhecer o inimigo.

Das editorias que leio, cidades é a que leio menos. Minha própria cidade não é um assunto que faça parte das minhas prioridades no que tange a informação, digo sinceramente. E sei, sei que essa não é uma conduta aconselhável para quem quer que queira se tornar um jornalista, mas eu não disse que não leio. Leio, mas não muito. Não leio esportes, automóveis e economia. Sobre esportes, francamente, eu nem tenho muito que dizer. Tenho uma só palavra para aquelas páginas preenchidas com fotos de jogadores que não conheço e aqueles textos cheios de jargões tão pobres: asco.

Olha, o caderno de automóveis eu nem abro. Acho bonito, acho bacana, mas há o que ler? Não são só fotos? Não sei. Já economia eu gostaria muito de ler. É como um dever que, ainda, não consigo cumprir. Mas esse é um caso temporário. Não leio porque não entendo bem os gráficos todos, os termos, essas coisas. Mas ler e entender o caderno de economia é uma meta.

Quanto ao fato de alguns cadernos como cultura e economia estarem perdendo espaço nos tablóides populares de Belo Horizonte: bom, acho mesmo que faz total sentido tal fenômeno. Um sentido péssimo, diga-se. Jornais como o “Aqui” e o “Super” são direcionados a classes menos privilegiadas e para pessoas – e aqui não importa a classe – que têm preguiça de ir a uma banca e comprar um jornal decente. Entendo que não haja caderno de cultura nos jornais populares, pois a maior parte dessa gente não se interessa por cultura, tampouco economia. Ainda que pobreza não justifique falta de intelecto. Uma amiga disse que as pessoas estão lendo mais; se isso é assim tão bom eu não sei. E creio ser desnecessário dizer que eu acho o fato um disparate. É sabido que as empresas que produzem tais tablóides lucram, e muito, com o número exorbitante de vendas, mas, ora, os jornais não deveriam estar a serviço do leitor? Não seria esse um jornalismo de desinformação?

Waits

“Her hair spilled like root bear.”

Tom Waits

Só por dizer

Manhã de quinta-feira e minhas olheiras chegam às minhas orelhas – sem trocadilho.

Então, porque o coração gasta-se, é que escrevo. Poderia escrever a esmo, a qualquer outro, ou a outro qualquer, mas é essa magnetização – de imã – que me faz pender a este lado. E dizem que se morre aos poucos logo depois que se nasce.  Morro um pouquinho todos os dias, a cada momento mais, principalmente pela manhã, ao acordar. Aliás, esse acordar é quase um morrer, de tão doloroso, de tão triste, de tão mórbido, mesmo. Morro muito pela manhã. Aí vivo durante o dia. Só não espere que eu venha com papo de luz do sol e tal, eu é que não; não gosto da luz do sol. Nem é a luz. É a temperatura da luz que me incomoda. Então trabalho muito, à sombra. Aí vem faculdade, bate aquele cansaço e a vontade de apertar o fuck-you no teclado. Mas isso é charme que só, porque não se tem esse luxo. Isso é outra coisa. Aí morro mais um pouquinho à noite, tarde da noite, quando já não dá mais. E durmo e acordo pra morrer mais uma vez. E assim é que se vive a vida: morrendo aos pouquinhos para se viver um pouco melhor.

Quê dizer mais? Dormi com a Introdução à Economia ao meu lado e tive sonhos de grandeza.

Panem et circenses

O que me separa dos artistas circenses, atores e dançarinos não é só o meu sedentarismo. Ontem fui a um espetáculo de dança, num teatro. Aplaudi. Bonito mesmo o que esse pessoal é capaz de fazer. Mas funciona assim: eu na platéia, confortável, e eles no palco aos pulos, passos ensaiados, essas coisas. Juro que gostei.

Modos

Então que esse rapaz, o Noronha, passou-me mais uma daquelas coqueluches* blogosferianas. Devo revelar os meus modos pra com os leitores deste blog – que não são muitos, eu bem sei. (Tarde chuvosa, uma preguiça que impera, os pés apertados dentro dos sapatos pretos: acho mesmo que é uma bela ocasião para revelar os meus modos pra com meus parcos leitores.) Divago, mas pelo prazer de fazê-lo.

Eu sou uma boa pessoa, apesar de ser às vezes confundido como chato ou até mesmo elitista – vejam só. Mas é só uma confusão, não passa disso. (Veja como saio do assunto para, mais adiante, retomá-lo.) E me deu vontade de citar Mencken: “É pecado pensar mal dos outros, mas raramente é engano.” Não uma vontade à toa. Cito especificamente tal frase pois é comum que, ao conhecer um novo blog, eu logo pense “Oh, que chatice esse blog” e, tão logo penso isso, esses blogs que a priori imaginei tediosos e enfadonhos, se tornam os meus prediletos. Torno-me leitor fiel, comentador fiel, etc. Mas voltemos: eu devo falar dos meus leitores e não do Eu Leitor.

Eu os trato assim: Sabe quando você recebe em casa aquela visita que há muito não vê, de quem gosta muito e a quem quer agradar? Pois sou assim com a maiora dos meus leitores, mantendo-os na sala, confortáveis e tendo todas as respostas às suas, digamos, curiosidades. Dou atenção. Se algum dia a visita não vem, vou eu até lá, como quem diz “eu faço questão”. Não vou negar que há ocasiões – raríssimas, raríssimas – em que eu fico distante, como o anfitrião que fica na cozinha se ocupando de outras coisas enquanto a visita se deixa estar na sala, com sede, mexendo nos seus retratos de família.

Sem mais.

Carol, Edward e Jorge Nobre, façam a gentileza.

*Verbete aqui utilizado no sentido ridículo adquirido nos anos 70, se não me engano, que quer dizer mania, hábito, essas coisas.

Predileções

Ouço falar de gente que se diz “eclética” e me dá um certo nojo. Gente que se diverte – de verdade – em casas de forró, axé, funk carioca, pagode e todo esse tipo de apelação. É comum encontrar pessoas assim por aí, elas estão por toda parte. Ainda que eu evite qualquer contato, ocasionalmente é preciso ser no mínimo educado com essas pessoas, como por exemplo dentro do elevador ou na fila do supermercado (com educado quero dizer que você não tem que cuspir na pessoa). Eu já perguntei a uma dessas figuras:

-Você gosta mesmo dessas músicas?

E é engraçado que ela – a pessoa – olha você com aquela expressão “‘tá me tirando, heim?” e pergunta o motivo da dúvida. Eu, fingindo simplicidade, geralmente digo:

-Ah, não há conteúdo algum nas letras, umas coisas sem sentido, vulgares até.

E agora a parte que eu mais acho cretina:

-É, mas ‘tô nem aí pra letra. O ritmo é muito bom pra dançar, lava a alma, sabe?

E me dá uma vontadezinha de vomitar, mas aguento firme. São coisas assim que me fazem pensar, quanto mais o tempo avança (em direção a sabe lá o quê), que para se ter bom gosto é preciso ter um mínimo de instrução intelectual. E aqui não me refiro somente a música, mas a tudo. Todos tem a mania enjoada de dizer que “cada um tem um gosto” e que “o que é bom pra mim pode não ser bom pra você”, e creio nisso tanto quanto creio em Alá. Não, a qualidade de uma obra musical ou literária não depende da predileção de uma ou outra pessoa. Não me diga, por exemplo, que na sua opinião – ou no seu “gosto” – Eleanor H. Porter é melhor que Virgínia Woolf, porque não é, de jeito nenhum. E eu não gosto de nenhuma. Mas há o fato: Virgínia é melhor e ponto. Aí ouço “que comparação infame”. Pois é, comparações são infames, e elas servem para isso mesmo.

Há algum tempo eu me divertia em discussões assim. Não é sadismo, é que é realmente divertido ver uma pessoa defendendo sem argumentos algo sem valor. Aí eu empresto um livro leve – um Salinger -, um cd leve – um Radiohead -, e digo “leia”, “ouça”, com a melhor das intenções. Sim, eu já fiz isso, ainda que me custasse bastante emprestar certas coisas.

Acho mesmo que o bom gosto está relacionado com o nível de intelecto do sujeito. Isso não exclui, claro, as chances de haver nas universidades e nos meios acadêmicos cultos ao mau gosto, pois são também comuns nesses lugares gente de instrução atrofiada. Essas pessoas “ecléticas” estão por toda parte, em todos os níveis socias, e é difícil discutir com elas. Por isso não discuto mais, não pessoalmente. Ou acabo dizendo, para encerrar a conversa, que eu é que sou chato mesmo – o que não é verdade, não, nem de longe.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças socias, pelos políticos corrúptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

Questões lógicas

Mas a vida não é toda um tradeoff?

Um lado, o outro lado

Agora a moda são blogs de direita, de esquerda e, se houvesse alguma outra definição porca, ela haveria de ser igualmente utilizada. Francamente, será que essa trupe não leu o que escreveu aquele dândi inglês que foi encarcerado por crime de homossexualismo? Como era mesmo? “Definir é limitar”. É, é isso.

07.02.07

Clodovil chamou Chinaglia de mal-educado, como se todos no plenário fossem educadíssimos e letrados.

*

Na China já estão à venda balões em formato de porcos rosas em homenagem ao ano do suíno, que começa no dia 18. Agora você entende porque no Brasil vendê-se balões de todos os formatos, de todos os bichos.

*

E outro pacote-bomba explodiu na Grã-Betanha. Que medo do PAC.

Mnemósine

Voltaire escreveu isso há quanto tempo mesmo?

“Aquele que está disposto a matar pela sua fé é um crente falso. Persegue os outros porque não tem certeza em sua crença. Um cientista nunca se disporá a lutar pelos fatos que aponta. Nenhuma guerra foi originada pela solução de um teorema geométrico. Mas os padres têm a arrogância de assassinar seus semelhantes por um sistema de teologia que não passa de um mito  e por um conjunto de dogmas que não são mais que opiniões. Tais homens são lunáticos perigosos, e sua atividade perniciosa deve ser represada a todo custo.”

Hey man, slow down

Chamo fariseus aqueles que me chamam preguiçoso. Sentir preguiça é uma graça, só isso. Perceba que escrevo sentir, pois praticá-la me é ainda um tabu. Ainda. Alguns valores são necessários para se manter uma preguiça saudável.

Não, Tina, não me esqueci da “importância” conferida à ONU desde sua criação, no pós Segunda Guerra. Eu é que nunca ví uma Organização mais desorganizada. Quanto ao Protocolo de Kyoto, não vou nem comentar. It’s a shame.

Não tenho o hábito de ler biografias, tendo poucos livros do gênero em minha estante: um sobre John Lennon, outro sobre Jim Morrison e, ainda sobre música, um sobre os Beatles. E  dois sobre Hitler (que também cantava, né?), sendo um deles Anatomia de Uma Tirania, do alemão Herman Zumerman, se me recordo bem. O que eu queria dizer é que tenho me interessado por algumas biografias de escritores e jornalistas, como Nabokov e Paulo Francis. Mas não vou linkar, estou com preguiça. Alguém me sugere uma boa biografia?

E a partir de hoje eu não vou p’ra casa ao sair daqui. Recomeçam as aulas e recomeça o meu esforço para suportar a verborragia dos professores acadêmicos. Sorte p’ra mim.

Eu disse que estou com preguiça?

ONU (óbvio, nações unidas)

Leio que a ONU está culpando o homem pelas mudanças no clima, o efeito estufa, essas coisas. Quanta novidade! É como se minha mãe me culpasse pelo derretimento da margarina que deixei fora da geladeira.

A reminder

Um belo texto aqui: 

“A Internet é o fim da profissão de jornalista. Ou pelo menos da dignidade dela. O mais digno, barrigudo e pomposo jornalista corre o risco de ser xingado por um molequinho em Mogi das Cruzes. Ou de ser contestado num detalhe qualquer por um sujeito vagamente desequilibrado que mora entre pilhas de jornais velhos no Baixo Leblon. Não importa se o texto estava liricamente, solenemente, melancolicamente, maravilhosamente escrito. O sujeito do Baixo Leblon coloca logo abaixo do texto: “Adolpho Bloch nunca disse isso, e posso provar” – seguido de nove parágrafos com citações, inclusive, do próprio Adolpho Bloch dizendo que nunca disse isso. Logo abaixo, uma mensagem do molequinho de Mogi das Cruzes: “Hua hua hua hua! O cara mentiu malandro! Se liga mané!!!!!!! Valeeeeeeuuuuuuu!!!!” ” (Alexandre Soares Silva)

E uma bela resenha aqui:

“Como eu tenho o péssimo costume de não falar sobre sexo, vivo procurando outros meios para me destacar e claro que nunca consigo porque é realmente difícil competir a atenção com alguém que está sem as calças. Não é verdade? Todo mundo acha muito legal, muito descolado falar sobre sexo na frente dos outros, muito natural, porque, alôoo, estamos no século XXI e etc., mas eu acho tão inconveniente falar sobre pinto e bunda. Será que só eu acho isso? Será que só eu acho de mau gosto uma conversa sobre pinto e bunda? Pra mim é estranho entender como alguém, tendo todos os assuntos do mundo, resolve falar sobre pinto e sobre bunda. A esta altura, minhas leitoras moderninhas já estão pensando “vai ordenhar vaca, ô puritano filho-da-puta”, mas não é puritanismo, não recrimino o sexo. Só acho que as pessoas deveriam ter a tendência natural de evitar falar sobre isso, como deveriam ter a tendência natural de evitar comer com os pés. Só isso.” (Edward Bloom)

*

Eu vou levando. Ando com a leitura um bocado esburacada, tenho começado alguns livros mas não terminado. Bom, terminei O Caminho de Swann. Lí Biajoni e Galera. Reli uns trechos de Lolita. E falando em Nabokov, estou bastante ansioso para ler Ada ou Ardor. Semana que vem recomeçam as minhas aulas e terei que lidar com economia. Okay. Ótimo.

Minha noiva leu De Profundis, do Oscar, e ficou de me escrever suas impressões para que eu postasse, mas ainda não o fez. Acho que jamais conheci uma mulher que tivesse lido De Profundis, no duro mesmo.

Vou alí almoçar, sim?

Há coisas que não se faz

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Estava outro dia na Avenida do Contorno quando pararam ao meu lado dois sujeitos que supus serem pai e filho. O menor em prantos, com umas figurinhas d’algum time de futebol nas mãos, e o não tão maior porém mais velho todo alterado, o cenho franzido, a barba por fazer, só fazia xingar o guri: “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!” O outro chorava, vermelho e sem resposta para as difíceis questões do pai tão mais experiente. Um público se formava em torno do show. De repente o pai, num salto, tomou das mãos da chorosa criança o pacote de figurinhas e lançou-o com força na sarjeta próxima. Chovia. Adeus figurinhas e não preciso escrever mais nada, exceto que há coisas que simplesmente não se faz. Não se deve gritar nem para uma criança nem para ninguém coisas tipo “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!”, porque, além da óbvia deselegância do ato, é um mau exemplo linguístico. Imagine se a criança, além de crescer revoltada e começar a ouvir Charlie Brown Jr., aprender a falar como o pai? Há coisas que não se faz, como, por exemplo, ficar assistindo a uma cena dessas.

Capitain Bauer (e outras considerações)

 

Acir Galvão, um amigo dos tempos em que atravessávamos noites desenhando ao som d’alguma banda grunge década de 90 – sim, tive essa fase -, tornou-se um grande artista. Enquanto o caminho que tomei foi o das letras e do jornalismo, ele tornou-se design e, hoje, estuda Belas Artes, fazendo cada vez melhor o que sempre soube fazer. O que eu queria dizer é o seguinte: ele tem uma teoria – posso dizer teoria? – de que o Capitão América contemporâneo é o Jack Bauer, o herói da cultuada série 24 Horas. Ele explica:

“O Capitão America de hoje não é o Steve Roger: É o Jack Bauer.O Capitão America foi criado não apenas para incentivar adolescentes a se alistarem, Mulher Maravilha não foi criada apenas para levar mulheres às industrias em tempos de guerra e incitar orgulho por parte de seus maridos e filhos que morreram lutando pelo estilo de vida americano. Eles existiram, ACIMA DE TUDO, para ensinar as CRIANÇAS e ADOLESCENTES os conceitos de uma AMÉRICA VITORIOSA contra a ameaça vermelha, mesmo que essa vitória sendo muito mais dos RUSSOS do que da própria América.

Hoje a América precisa justificar seus atos a partir  novos símbolos, novos heróis.Mostrando para os adolescentes e adultos de hoje as justificativas das medidas de retaliação extremas, invasões premeditadas, e outras medidas de precaução como a criação de armas letais em massa.Também estão preparando sua mente para aceitar mortes. Muitas mortes. Morte de pessoas aos montes, caindo como moscas, ainda que por um “bem maior”. Que é justamente o bem maior Deles.

Seria a ficção imitando a realidade?

Os Heróis são símbolos daquilo que é certo e direito. São ícones que, trabalhados de diversas formas, se utilizam de todos os arquétipos do consciente humano para se tornarem referência do conceito de certo e errado para nós mesmos.

Quando todo esse poder é utilizado de maneira irresponsável e egoísta, a crise se tornar algo incontrolável. É completamente possível e correto afirmar que o conceito de CERTO e ERRADO está muito distorcido hoje em dia. Também com heróis como os de hoje em dia, cada um defendendo um ponto de vista muito particular, simplesmente não dando a mínima para nada, não fico surpreso com esse tipo de resultado.Os heróis do novo século defendem a pena de morte. Defendem o roubo. Defendem o homossexualismo (nada contra, mas é um ponto de vista.) Os negros. Os brancos os asiáticos….

Eles deveriam defender o CERTO e o ERRADO:

MATAR é ERRADO, seja quem for. ROUBAR é ERRADO. PRECONCEITO é ERRADO. Ponto final.

Mas se o cara for um estuprador-assassino-ladrão-sonegador-de-imposto-filha-da-puta de marca maior? Se o ladrão estiver roubando para comer? E se o preconceito me defende das pessoas erradas?Os dias estão assim. Esses argumentos existem. E até mesmo os heróis da era de ouro mudaram seu ponto de vista em suas novas interpretações para o novo século. Até mesmo SUPERMAN matou dois caras no seu novo filme. E o pior:  a grande MAIORIA nem percebeu.

A colocação de Edsons Junior é muito correta e não vou me repetir aqui. A questão que fica no ar é:

Quem são os seus heróis? Quem são os heróis dos seus filhos?

É bom começarem a se perguntar isso, e a ver filmes e séries como algo que vai além do entretenimento. Porque é assim que se deve assistir.

E para finalizar sobre Jack BAUER:

Ele é um HERÓI que faz, sem hesitar, tudo aquilo que está ao SEU ALCANCE para salvar o dia, mas, diferente da AMÉRICA que ele tanto defende, ele não ganha ABSOLUTAMENTE NADA em troca… apenas se FODE e fica vivo para salvar mais um dia!”

Meu vizinho Schopenhauer

Meu vizinho Arthur Schopenhauer jogava pedras sobre o meu telhado

Então que esse senhor, o Schopenhauer, morou algum tempo ao pé de minha casa. Falava sozinho e, em noites mais quentes, não dormia; ficava bastante agitado e punha-se a lançar pedras sobre os telhados das casas próximas. Certo dia acertou minha casa. Pus-me logo de pé, assustado mas já imaginando ser mais uma traquinagem do senhor Schop – era como o chamávamos. Disse a ele que não fizesse isso, que poderia quebrar minhas telhas, ao que ele me respondeu que minha casa não existia, tampouco as telhas. Dizia que tudo não passava de Representação.

 

Tinha umas idéias bem originais esse Schopenhauer, devo admitir.

Call the indians

Fausto Wolff no JB, ontem:

“(…) Países tecnicamente mais bem equipados do que nós estão sofrendo bem mais os estragos promovidos pelas súbitas mudanças atmosféricas. Entretanto, há muito estavam informados dessa possibilidade e montaram suas defesas. No Brasil, se os cientistas informaram ao governo, este não informou a imprensa, que não informou ao povo. Resultado: o Brasil enfrenta a maior catástrofe climática de sua história e nada foi feito para evitá-la. Sugiro que contratem índios – não os que têm muito contato com os urbanóides e correm o risco de serem incendiados – para vigiar à beira dos rios. Assim que a primeira cobra subir correndo numa árvore, é hora de remover as populações ribeirinhas para lugares mais seguros.”

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Feriado hoje em São Paulo. Sortudos.

Sexo Anal, um livro para românticos

 Sexo Anal, por Luiz Biajoni

Sexo Anal, de Luiz Biajoni, é um livro para o mais empertigado romântico. Não pelas incríveis histórias e acontecimentos que nele vão se sobrepondo, ou pelas demosntrações de amor de uma ou outra personagem no decorrer da narrativa, mas pela lição final que é nada menos que um tapa de luvas, sem as luvas, nas convenções, nos dogmas romanescos dos moralistas.  

Sexo Anal é arte maior pois seu autor, blogueiro, jornalista e escritor – “ma non troppo“, brinca Luiz – teve coragem de escrever sem papas na língua o que poucos tem a ousadia de sequer pensar. Não espere aqui metonímias, eufemismos, perífrases ou qualquer outra figura de linguagem que pretenda mitigar o sentido d’algum verbete pouco comum nos livros da sua estante. Luiz diz o que tem de ser dito:

“O cu é marrom, a merda é marrom, a imprensa é marrom e até a terra, pra onde a gente vai debaixo no fim, é marrom. A vida não tem cor! Que se fodam todos os hipócritas que não vêem isso! Que morram! Faço o meu trabalho e o meu trabalho é esse: contar as histórias que todos querem que eu conte. As histórias que a polícia quer quer eu conte, as histórias que o filho-da-puta do Beto quer que eu conte, as história que o público ignorante quer ler. Só isso. É tudo um interesse de merda! Os anunciantes estão pagando por essa merda, os leitores pagam por essa merda… E até você está nessa história por causa de toda essa merda!”

E chamá-lo obsceno é não compreendê-lo. Considerá-lo impudico é não ter tato o bastante para perceber o que nele há de peremptório no que tange a abordagem temática. O livro de Luiz Biajoni é, de longe, um romance de ruptura. Não é pop, mas rock. Não é a ducha limpa que você toma quando chega em casa, e sim a lama que um carro em alta velocidade lança sobre a barra da sua alva calça limpa. Leia o livro, sinta os espasmos no cenho, ódio – que seja. Nada melhor que umas boas doses de verdade crua para fazer com que nos sintamos vivos.

***

E só para constar: Sexo Anal foi lançado em 2005 e, até hoje, nenhuma editora brasileira que se preze se dispôs a publicá-lo. Isso mostra bem como o mercado editorial deste país é estúpido, não publicando a maior parte dos trabalhos que não seja produzida acima da linha do equador. O “país do futuro” me dá vergonha. O livro está disponível para download, em formato PDF, no blog do autor. 

(SIC)

Janer Cristaldo:

“Leio que a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil posicionou-se contra o uso da chamada “pílula do dia seguinte” por considerar que o médoto pode ser um abortivo. Para o secretário geral da CNBB, Dom Odilo Scherer, a pílula é um método contraceptivo emergencial, ou seja, é uma substância ingerida para impedir a ocorrência de uma gravidez, mesmo tendo havido uma concepção. Deixem de papas na língua, senhores bispos. Digam logo: “Nós, segundo milenar tradição da Igreja, somos contra todos os prazeres que o corpo possa usufruir. Se houver prazer, que haja punição. Sexo, só para procriar. Se alguém quiser ter onze filhos, só tem direito a onze relações durante toda sua vida”.

E todo demais prazer anátema seja!”

Daqui.

Antifashion

Sabem o Mr. Manson, do cocadaboa.com? Pois é. Ele também foi convidado para “cobrir” o SPFW (…).

(ex)perimentalismo

Parou no topo do morro e inspirou o ar que achava puro, num momento de íntima paz que raramente se tem num dia dos dias de hoje, e disse que para si mesmo que seria feliz, mas que não o seria exatamente naquele momento porque a felicidade é coisa que afasta a inspiração, e isso ele aprendeu com o poeta que leu. Quis olhar estrelas, mas era dia e só o que via era o sol queimando a feia  paisagem que se podia ver alí, daquele monte sujo mas romanticamente amarelado.