Archive for the ‘Opinião’ Category

Sigo, empertigado

Amiga a quem conheço pessoalmente argüiu-me outro dia sobre a minha conduta. A ela interessava saber se minha personalidade demonstrada aqui no blogue é também praticada ativamente no mundo real. Respondo: não, no mundo real sou pior. A vida real exige um certo nível de sutileza pouco praticada na prosa direitista, e é essa mesma sutileza o maior agravante presente no ato da dissimulação. Impede-me também o meu conservadorismo de entrar em discussão por coisa pouca; e estou sempre a me esquivar de conversas tortuosas, de companhias má vestidas, de ambientes desagradáveis, de sacripantas. Com tudo isso um sorrisinho forçado vai muito bem, além do quê não faz mal. E se insistem em saber acerca do sabor do cinismo, digo apenas que, tal como na culinária, a fome é o melhor tempero.

wittgenstein: facts

“Ah, mas eu imaginava que a faculdade me mandaria ler os clássicos”. Eu também achava. Então, se você pretende ganhar uma discussão-de-estação-de-metrô ou, no mínimo, perdê-la honradamente, saia dessa mesa suja de bar e vá ler alguma coisa que preste.  

***

Sou mesmo muito intrometido, e por isso vou um pouquinho além da bibliografia obrigatória do jornalismo – que, diga-se, é uma grande merda. Gosto dos Apocalípticos, da Escola de Frankfurt e tal, mas não é suficiente.  

***

Deixem-me contar-lhes uma história que me apraz particularmente: a história de Wittgenstein. Ludwing Wittgenstein, em sua fase de acadêmico na Inglaterra, foi aluno de Bertrand Russel, cuja obra Principia Matematica, de 1913, tentava reduzir todo o imbróglio matemático à simples e pura lógica. Wittgenstein, ainda mais ambicioso e polemista que Russel, disse que seu primeiro livro, Tractatus Logico-Philosophicus (1922),  marcaria o fim da filosofia (caso ele tivesse um blog, este estaria desde já linkado). Após alguns anos lecionando numa escola Austríaca, Ludwing retorna à Inglaterra para declarar – vejam bem – que estava equivocado. Consequência? Passou os 18 anos seguintes liderando um grupinho de estudos (dando aulas particulares, diria-se hoje), em Cambridge. Uma lástima. Mas, voltando ao Tractatus, ele determinou que o mundo consiste de fatos. O mundo é uma totalidade de fatos, não de coisas. “Fato” é quando você faz uma verdadeira afirmação sobre algo (coisa). Um blog é uma coisa; a afirmação “este blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória” é um fato. O mundo como o conhecemos não passa de uma reunião de fatos conhecidos. Noutras palavras: é a linguagem a responsável pelo nosso senso de universo, nosso meio e nossas experiências (o que não pode ser dito, não pode ser conhecido). 

Os chamados Positivistas Lógicos, um então grupinho de jovens (arg) filósofos, foram profundamente influenciados pelas idéias de Wittgenstein. Eles acreditavam que tudo aquilo que não pudesse ser empiricamente demonstrado (na prática, you know) era mero contra-senso (como artes, literatura, etc). Wittgenstein não concordou com isso, no entanto e felizmente. Ele se interessava excessivamente pelo que não podia ser comprovado, e permaneceu obcecado por realidades não demonstráveis. Em sua segunda obra, Investigações Filosóficas (só publicada postumamente, em 1953), o ex-aluno de Russel pareceu abandonar totalmente o pensamento presente no Tractatus. Ele mesmo chegou a afirmar que suas primeiras idéias eram fruto de uma juventude ambiciosa demais e, mais que isso, simplista demais. Se antes Wittgenstein havia tratado as palavras como indicadores ou símbolos das coisas no mundo, em Investigações Filosóficas ele amplia essa visão: o significado das palavras não depende daquilo a que elas se referem, mas de como são utilizadas.

E com isso vos digo que não importa muito sobre o que eu escrevo aqui; mais uma vez digo Não me levem tão a sério, e, principalmente, não levem a si mesmos tão a sério. Trabalhem seus textos, que é coisa mais importante. 

Um abraço.

Alguma felicidade

  

“Trabalha, trabalha, escreve, escreve tanto quanto possas, tanto quanto sejas arrebatado por tua musa. Este é o melhor corcel, a melhor carruagem para escapar da vida” [Gustave Flaubert] 

Pretendendo não me ater ao cliché de que a felicidade é feita de momentos, procurarei me ater, portanto, aos momentos – e que o encontro da felicidade seja um mero acaso, um acontecimento, uma fatalidade (como creio que, afinal, é mesmo). 

Não sei quanto a vocês, mas quanto mais tomo conhecimento de teorias várias sobre todo assunto possível de ser analisado, mais evito alguma citação – que minha tese será uma, quando se fizer necessária; e enquanto isso minhas referências vão aparecendo sublimadas, feitas inteligíveis a alguns bons olhos que me lêem. E sendo ainda mais franco, prefiro muitas vezes revelar meus pensamentos à la jazz, improvisados mesmo, bebop, ainda que sob o risco de escrever besteiras (neste ponto peço a vossa atenção; mais exatamente ao verbete ‘besteiras’, que mais adiante revelará grande relevância neste texto). 

Lembro-me de ter escrito aqui mesmo, já há algum tempo, que o presente não existe. Que tudo, absolutamente, pertence ao pretérito. E isso é uma grande felicidade, vejam bem. Há uma idéia muito difundida por aí que diz sobre a necessidade, melhor, sobre a obrigatoriedade de se viver o momento acima de todas as coisas. Essa idéia (cujo termo que a intitula é usualmente escrito em latim a fim de cheirar a alguma imponência ou pompa) é tão (desculpem) esburacada, tão cretina. E nem perco o meu tempo chamando-a totalitarista, ditatorial. Não chega a tanto. É, no mínimo, nome para livretos de auto-ajuda e, no máximo, idiota. E assim escrevo algumas linhas que vão julgar desnecessárias, mas não o são. Não o são: o fato de o tempo presente inexistir faz do carpediem um sonho à toa, uma tolice. (Pronto, a partir do parágrafo seguinte vocês podem trazer o tempo presente de volta, se preferirem.) 

E deixem-me escrever algumas palavrinhas sobre a liberdade – tão comumente ligada à felicidade. Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe. A liberdade incondicional não existe; a liberdade dos filmes de hollywood em carros a toda velocidade em estradas vazias, essa existe. É um raciocínio muito básico e verdadeiro: liberdade não é um estado físico, não é um lugar; liberdade não passa de uma sensação, de um tipo específico de sentimento que depende unicamente de grilhões, ocupações precedentes. É uma sorte que ninguém alcance a liberdade de que tanto falam, pois a liberdade perpétua é a maior das prisões. O homem não nasceu para isso, acreditem-me.  

Peço escusa para fazer aqui uma referência explícita à doutrina platônica da beleza, segundo a qual tudo o que é belo deve tal condição a uma idéia anterior e superior que lhe serviu de excepcional modelo. Noutras palavras, é contemplando as coisas belas que nossa alma pode ascender ao belo em si mesma. E o motor que é capaz de conduzir o homem a tal conhecer superior é o amor. Amor à literatura, ao conheciemento e à mulher (uma pequena apologia ao hedonismo).  

E eis aqui um texto escrito na horizontal, se me entendem. Felicidade. Acordei às 11h, peguei o livro ao lado da cama e pus-me a lê-lo esta manhã. Faz frio. Felicidade. Depois do café matinal, coloco uma música e volto à leitura. Toca o telefone e é a minha modelo; a voz macia do outro lado produz uma nota única, num certo tom de je t’aime. Felicidade. Falo besteiras e procrastino as obrigações. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Vejo meus livros sobre o móvel; os papéis desorganizados; os objetos incomunicáveis.  

Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade. Estar feliz é permitir-se momentos de suspensão do juízo. E se nada disso fizer sentido, tanto melhor. Assim é a felicidade. 

“Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola.” [Machado de Assis] 

Rev, um abraço.

Corta o que é inútil

Passo os dias a evitar certos assuntos, muitos assuntos, pautas chatíssimas. Levo o Inutila Truncat a sério demais e, mais que cortar palavras, corto textos inteiros, raciocínios completos. O papa que vem, o sul-coreano que mata mais de 30, Baudrillard que passa definitivamente à matrix. Dou de ombros. Dificilmente escrevo sobre temas que leio em mídias comuns, ou que a maioria dos blogs explore à exaustão. Então vos digo: leiam jornais, leiam muito, todos os dias, todos os cadernos; percorram os classificados, leiam economia e saberão sobre o que não falar. Proponho contrariar a idéia de que os jornais são responsáveis pelos assuntos sobre os quais trataremos com o amigo durante o almoço, ou no metrô, de volta à casa. Isso pois, se dependermos do jornalismo para termos boas conversas durante o nosso dia, estaremos irremediavelmente fodidos.

Ignorância é força

Acho literária a idéia evangelizada por aí de que o conhecimento corrompe. Acho até que este é um dos poucos pontos do cristianismo com o qual eu tenha alguma afinidade, ainda que por puro sadismo [apesar de Jó ter pedido sapiência a Deus quando lhe foi permitido um desejo]. Mas, vergonha a minha, nisso,  eu e PT concordamos concomitantemente.

Eu Lírico

Eu sofro de algum tipo de bloqueio intelectual quando em presença de amigos. Muito raramente falo de algo que escrevi aqui, e jamais, jamais digo “entre no meu blog” (e aconselho que façam o mesmo) , e nunca me referi a mim mesmo como blogueiro profissional, que é o que está na moda (E eu acho demodê). Não digo, porém, que amigos meus nunca entraram aqui e me leram. Já. E o resultado é sempre o mesmo: “nossa, você acha mesmo isso?”, “Você está sendo muito radical”, “As pessoas precisam ser mais flexíveis”. Razão? Os amigos não entendem nada de licença poética. Nada. Zero. That’s all. Então prefiro evitar que pessoas a quem conheço pessoalmente me leiam, porque eu morro, juro, morro de preguiça de me ficar explicando. Mas por que amigos não conseguem entender os excessos, as metáforas? Tenho um amigo, ainda jovem (19, creio), que insiste em me ler, ainda que raramente. Ele se encontra ainda naquela fase do Pseudo. Pseudo isso, Pseudo aquilo. E me chama de Comedor de Ovelhas, seja lá o que isso signifique na cabeça de uma pessoa de 19 anos. Então, ele lê alguns textos meus e discorda em tudo, uma beleza. Mas é claro que não contrapõe nenhum argumento, apenas não concorda. E vejam vocês que ele ainda não começou a ler Nietzsche (quando o fizer, será uma tragédia, porque pessoas que não entendem licença poética não podem, de jeito nenhum, ler Nietzsche; começam a levar tudo a sério demais, aliás um erro comum do século XXI).

Então, é isso o que eu queria dizer a vocês: não mostrem, em hipótese alguma, seus blogs a seus amigos (exceto às amigas pelas quais tenham alguma intenção não declarada; elas vão achar o máximo).

Do que eu não gosto em um texto jornalístico

Não gosto de tanta objetividade, não gosto do lead clássico. Onde está o drama? E por que eu, achando um acontecimento terrível, não posso chamá-lo terrível? Vou dizer: até entendo a tentativa do jornalista de ser imparcial, passivo de opinião própria – que os leitores somente e tão somente possam achar o que quiserem da notícia. Mas nesse ponto sinto um certo conflito de ideologias: se o jornalista deve informar com fidelidade os fatos, e se tais fatos são sim terríveis, por que não dizê-los logo terríveis? Mas divago. O que eu quero dizer é que gosto do nariz de cera. Gosto das introduções literárias, tão comuns nos jornais de há alguns anos – era tão mais viva a coisa toda, mais humana e sincera e tal. Jornalistas que precisam se ater às suas regrinhas tão chatinhas (quase todos) são todos iguais. Apenas uma minoria consegue desenvolver algum estilo peculiar mesmo presa aos grilhões da profissão. E por isso os colunistas são tão lidos; a classificação de opinativa dada às colunas dos jornais quer dizer que elas não possuem classificação – a não ser os setoristas, que só sabem sobre o que sabem. Para ter uma idéia do tipo de jornalista a que me refiro, pensem em Nelson Rodrigues, Paulo Francis. Estes e alguns outros poucos são (ou eram) jornalistas que valem mesmo a pena serem lidos.

canalha II

Estou ficando velho. Sei disso por já perceber em mim o rabugento civilizado que serei aos 40 anos. Até lá, no que toca a caráter, não mudarei muito. Até os sapatos que uso hoje são os mesmos que usarei mais tarde. O homem  aos 25 anos prefere pensar e agir como se mais velho fosse, como se estivesse irremediavelmente cansado. Enquanto que a mulher aos 25 é uma mulher aos 25, e só. Sou além de cínico, rabugento. No entanto sou bem quisto, bem amado, e não me espanta. Mulheres inteligentes (pouquíssimas, you know) têm predileção pelo homem de gênio; preferem o chato ao rapaz razoável. Ademais, os canalhas as defendem melhor em situação que peça reações mais enérgicas.

Esta é uma lição, se é que não me fiz compreender suficientemente bem.

canalha

Andam por aí a reclamar do uso exacerbado de metáforas. A mim aborrece mais a exposição exacerbada da realidade.

“Caudfield”

Salinger não merece os fãs que tem. Isso explica o fato de tantas pessoas – uma boa parte dos que se entendem intelectuais – não gostarem d’O Apanhador. E juro que agorinha, pesquisando comunidades no orkut, num instante de iluminação,  eu me uni ideologicamente a essas pessoas. Ler algo como “para todos que se identificam com o Holden Caudfield (…)” mata qualquer um de vergonha.

Nigger again

O branco é canalha às escondidas, já o negro o prefere ser às claras mesmo – principalmente perante câmeras,  microfones e outros aparatos de gente moderninha. Racismo é um negócio fascinante. O que faz espantar é a aura mitológica que há em volta do preto, negro, moreno, whatever. Acho que o mais prudente seria mesmo fazer pose de normal, assim como fazem brancos e amarelos. São tantas quotas, programas especiais, auxílios, empurrãozinhos que me fazem pensar no Estado como um pai que, tendo o filho uns 2000 anos, ainda o ensina lições sobre como andar de bicicleta. Domingo último passava no Fantástico uma reportagem sobre um tal novo tipo de preconceito: a obrigatoriedade de o negro ter boa aparência para se conseguir um emprego. (Microfone ligado e o negro a falar, como um coitado, que o fizeram cortar o cabelo, retirar os dreadlocks, só por causa de um trabalho. Dizia que o estilo de se vestir, o cabelo e tal era para reforçar sua identidade cultural. Ora, essa premissa da boa aparência vale para todos, não é?) Imagino o negro a trocar o terno por um bermudão após um dia de trabalho, colocar no pescoço uma corrente, modificar o modo de andar e sair à rua dizendo coisas como Yo! e Mano e o vizinho a perguntar: “Aonde vai vestido assim?”

__Vou alí, reforçar a minha identidade cultural.

E por favor, eu suplico, não me venham falar que eu me esqueci da história, do quanto os negros foram açoitados no passado, do quanto sofreram. Não me venham falar da Ku Klux Klan. Ou direi que justamente por isso, exatamente por terem passado por tantos percalços, eles têm a obrigação de se igualar moralmente não por meio de programas de governo ou por cabelos impermeáveis, mas através do intelecto. Mais que isso não peço nem espero.

*

Ainda sobre isso, um ótimo texto aqui.

Às vezes exigir de uma frase que ela seja um título é querer demais

 

Esses dias um amigo me disse que não era cult falar mal de ‘300’, só porque eu demonstrei a minha impaciência para com essa gente que não sabe falar d’outra coisa que não sobre mais uma adaptação dum quadrinho do Frank Miller para o cinema. O último, Sin City, eu vi e – com o perdão da palavra – achei uma droga. Eu não estava querendo parecer cult, que idéia! “Já é, né?”, disse a segunda pessoa do diálogo. “Você é quem diz”, eu disse para acabar com o papo. Por exemplo, estreou Scoop, do Woody Allen, e vocês não me viram aqui falando nem bem nem mal do filme, embora saibam que gosto de Woody Allen. Esse pessoal de blog gosta muito de opinar, e ainda que eu admire isso, há momentos em que é melhor ficar calado.

Sim, eu sou muito conservador. E disperso em relação a algumas coisas. Esqueci, por exemplo, que dia é a páscoa. Nunca me lembro desse negócio de segundo domingo de abril e toda essa lenga lenga. Perguntei para a menina do setor de frente e ela me disse “domingo”. E uau, porque eu não comprei lhufas para mon chou. Ainda.

Ontem saí aqui da OAB ao meio dia. Trabalho de radiojornalismo, entrevistas para serem feitas com algumas fontes na Polícia Federal e etc. Tema: crimes no orkut. E eu nunca falei de orkut aqui também, imagino. Mas, quê dizer? Sim, eu tenho, o link está aí ao lado e tudo, mas não sou nenhum orkutaholic. Tenho preguiça.

E essa semana dizem que é santa. Então ‘tá. Fato é que não trabalho amanhã, e isso sim é de uma santidade sem tamanho. Não gente, eu sou católico. Batizado e tudo. Com a água, é. Mas sou bastante avesso a religiões – inclusive com a minha -, mas ainda acho algumas igrejas bem bonitas, a arquitetura, o barroco, etc. E me lembrei de dizer uma coisa: quanto à notícia de que o papa vai impor que as igrejas católicas voltem a rezar as missas em latim, ela só vale para as igrejas de verdade. Pobres que mal entendem o português não têm que se preocupar, de jeito nenhum.

E eu não falei também do novo hábito que desenvolvi nos últimos meses: ler blogs impressos. Quer dizer, eu imprimo alguns textos de alguns blogs e levo para ler no ônibus ou durante uma aula chata na faculdade. Alguns blogs que recomendo a vocês, ótimos para serem lidos quando impressos: esse, esse outro, esse aqui, esse e esse. Não dá para comentar, é verdade, mas vá por mim, é legal.

That’s all, folks.

Enquanto corto as unhas

O problema da modernidade é assumir-se avant-guard demais.

Je ne suis pas le denier des hommes

Puro machismo

Já quase entramos em abril e comprei, ontem, a Playboy de março para ler o texto do Ruy Goiaba, a entrevista com o Millôr e o artigo do Roberto Jefferson sobre a direita brasileira. As fotos? Ah, as fotos são aperitivos – e eu vou apanhar por isso.

E isso me lembrou que nada supera a mulher quando o assunto é machismo. Todas a quem você diga que comprou uma revista dessas para ler um artigo vão rir da sua cara. Exemplo: quando fui até à banca, perguntei se ainda havia a Playboy de março e a senhora me disse num estalo: “Você quer a de abril, não é não?” Eu disse que não, que precisava da de março devido a alguns textos, etc. Aí a senhora sorriu com a maior malícia e me disse: “mas você vai aproveitar, né?” Outro exemplo que comprova o quanto mulheres são machistas: minha namorada, quando estava lendo O Retrato de Dorian Gray, veio correndo me perguntar se o Basil Hallward e o Dorian eram homossexuais. Parêntesis: sei que há muito homem por aí que acha a mesma coisa, mas eu não achei, e isso na verdade é o que menos importa no livro; já as mulheres ficam intrigadíssimas com a possibilidade de acontecer algo mais entre o pintor e seu modelo. E já que falei do Millôr aí em cima, deixe-me citá-lo:

(…) Hoje as mulheres usam até expressões que não são delas. Dizem “Não enche meu saco”, quando deveriam dizer “Não enche meu útero”. (…) As mulheres jamais conseguirão ser mais calhordas que os homens. Não tem jeito. A filha do Sarney tentou e não conseguiu.

Ademais, toda essa história de a mulher querer igualdade entre os sexos, querer seu espaço-não-sei-onde, querer ser independente etc, etc, não passa de machismo. O feminismo é uma fraude.

Do que se aprende nos ônibus

Eu francamente não entendo quando as pessoas me chamam de preconceituoso. Ontem, tarde da noite, no ônibus p’ra casa, ouvia a conversa de duas moças (fibras fortes). Uma dizia à outra que iria num show de axé, mas que preferiria estar solteira para poder pegar [SIC] bastante. A outra, sabidinha, nos revelou – a mim também, ora – que é besteira resistir; que se fosse ela pegava mesmo [SIC]. E contou uma historinha muito ilustrativa: uma outra amiga tinha ido ao axé no ano anterior e se recusado a ficar [SIC] com um rapaz; e acabou levando um soco para aprender. Para essas pessoas a vida não pode ficar muito melhor que isso.

É um mundo engraçado

O que acontece se eu sair por aí usando uma camiseta com os dizeres “100% Branco” ?

Sobre talentos e canalhas

Talentos não são gênios. São apenas pessoas comuns, dotadas das mesmas ferramentas mentais, porém com algo a mais que é quase intangível.” Ou seja, puxa-saquismo.

*

Vão dizer que gosto de reclamar, mas a verdade é que não dá para não falar sobre isso. Tenho pensado no assunto e considero, no mínimo, um ato de mau gosto o fato de as corporações (empresas, instituições) apostarem com tanta veemência no emburrecimento das pessoas. Há uma inversão de valores: o piegas tornou-se técnica motivacional, enquanto que a técnica fundamentada, inteligente, é posta de lado como, herr, ininteligível. Ao assistir uma palestra empresarial ou a uma aula de empreendedorismo, tenho a vaga impressão de que aquele mundo retratado pela fala do palestrante/ professor não é o meu, tampouco o dele. Vejo, nítida, a noção de idiotice estampada no semblante de quem fala. Tomei o exemplo do culto ao Talento Humano pois estou com um texto aqui ao lado (de um tal Eugênio M.) que parece pretender eliminar qualquer senso crítico do leitor, ou, em última análise, considerar o receptor já destituído d’alguma faculdade intelectual. São textos tão ruins que ofendem:

Aquelas que produzem, aquelas que dizem o que produzir, as que vendem o produzido, as que compram o necessário para produzir e por aí vai. E as pessoas que produzem, controlam, vendem e compram com qualidade acima da média, estas são consideradas os talentos.

Que quer dizer isso? Que os pobres assalariados que passam o dia sob o sol carregando latas de areia nas costas são, porque produzem, talentos reconhecidos? Quer dizer que o patrão corrupto que humilha hierarquicamente inferiores e diz o que deve ser feito é um talento fora de série? A moça do supermercado da esquina que trabalha para manter a casa e, por sorte, vende mais que a média é um talento? Tudo bem que sejam, cada um a seu modo, mas é isso mesmo que querem dizer os doutores do RH? Se ser talentoso é isso, o Brasil vai bem, obrigado.

É de pasmar a cara de pau com a qual os presidentes e diretores de empresas fazem vista grossa perante tanta idiotice. Me faz pensar naquela idéia de que conselhos, afinal, só servem para ser passados a outrem, jamais para serem utilizados.

Quando vejo um professor enchendo a boca para dizer  baboseiras tipo “vocês são o futuro do país” ou “vocês são talentos”, vejo um flagrante crime de Duplipensar [data vênia, Orwell] – e o pior é que os canalhas são bem pagos. Ah, sim, canalhice tem seu preço.

*

E não me entendam mal, isto não é  bravata. Não faço bravatas. O que ocorre é que tenho a little case com o assunto.

Apologia da preguiça

Eu sou o oposto do workaholic, o que não quer dizer que eu não goste de trabalhar. Gosto e trabalho desde os 18 anos (o que?, vocês trabalham desde os 15?), sem parar. Eu só não consigo entender a mente de uma pessoa que não vive, trabalha. Que nasce, trabalha e morre. E como ninguém consegue ficar calado enquanto eu discurso, ouço “Então o que é viver, Ed?”, e respondo que não sei, só sei que viver não é trabalhar; digo, não pode ser só isso. “Mas Ed, de onde você tirou essa sua idéia?, sua família sempre foi tão trabalhadora…” Eu li Russel. Li o safado do Betrand Russel e o negócio mudou minha vida; aquela história do Elogio ao Ócio, da redução da jornada de trabalho para 4 horas diárias – vejam bem, 20 horas destinadas ao júbilo e à rede na varanda, para quem gosta de rede na varanda.

Ah, sério, eu tenho pena de quem não consegue dizer algo tão simples como “ai, que preguiça”. Se viver de acordo com as idéias Russelianas é algo hoje improvável, eu me permito então, no mínimo, sentir a santa e sincera preguiça. Senti-la e assumi-la. Vejo por aí gente que já não aguenta mais tanto trabalho mas não consegue, não pode assumir sua própria preguiça, por medo de que isso vá demonstrar algum desvio de caráter. Ora, preguiça demonstra preguiça, não mais que isso. E os benefícios, imediatos: digo “que preguiça” e meus olhos se enchem duma lágrima quente, num misto de sono, emoção e liberdade.

Fitter, Happier more productive. Comfortable. Not drinking too much.

Eu não me dou bem com gente feliz demais, fico sem graça. Geralmente não sei o que dizer quando me perguntam se sou feliz. Que pergunta mais cretina. Respondo que vou bem, obrigado; mas assumir-me feliz, assim, uma pessoa feliz, eu não consigo. E quem convive comigo bem o sabe. Levo uma vida regrada, sem muitas aventuras: trabalho durante o dia, estudo à noite e leio no pouco tempo que me sobra entre uma atividade e outra. Não bebo, não fumo. Não tenho nenhum vício censurável – a não ser que os senhores leitores sejam por demais castos e me repreendam por libido exacerbada. Mas sou fiel, não me entendam mal. Namoro aos fins de semana e não devo me demorar muito mais para contrair casamento. Contrair, sim, mas não deixem que essas suas mentes espirituosas lhes remetam a algum tipo de enfermidade, que não é disso que trato. Voltando. Moro em casa, com família; tenho gato, cão e conforto. Apesar de estar sempre muito cansado, minha vida não é ruim. Ainda sim, me recuso a dizer que sou feliz. Acho que a felicidade está mais para uma paisagem mutável que para uma construção sólida. Tenho momentos muito bons, mas não os assumo. Gente feliz demais me irrita. Quem vive se dizendo feliz o tempo todo só pode estar praticando psicologia reversa.

não é uma tese

Vejo que todos estão muito ligados a essa coisa acreditar nas pessoas. Ter fé nas pessoas.  E meu primeiro impulso é colocar esse costume bonitinho frente à ordem cristã de que tolo é o homem que acredita no homem. Mas para falar a verdade eu estou com preguiça de escrever sobre isso.

semelhanças superficiais

Existe em todas as pessoas um desejo de superação em relação ao outro que, antes de ser uma teoria de Hobbes em Leviatã, é  característica primal do ser. Tal desejo de superação é tido pelas teorias modernistas como trunfo, como estratégia pensada a ser empregada em prol de uma, digamos, vida melhor. O tema é corrente em paletras institucionais e/ ou acadêmicas, utilizado sempre com o falso intuito de otimizar as ações humanas, como catalizador de vontades e desejos. Concordo que tal faculdade inerente ao homem seja, sim, motor para se atingir na vida certos objetivos. Concordo, resguardando-me de certas exceções, que é o desejo fator responsável por quaisquer conquistas que se possa adquirir. Mas entendo ser um argumento falacioso o utilizado em palestras, livros, programas de auditório e sites de conteúdo em tom auto-ajuda: o de que todo desejo de competição é benéfico. Mas divago.

E esse título não tem nada a ver mesmo, mas eu prefiro assim.

Não diga

Esses dias um colega da universidade comentou comigo que acha a Igreja Católica uma instituição falida. Vá achando.

que preguiça dos reacionários

Vejam só o que um indivíduo unlink comentou aqui:

Puxa, que post mais vazio!
Você pode ter lido, mas não entendeu “A república”.
“E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna” Pelo dito acima tanto faz o cara ler “A república” ou “Platão em 90 minutos”.  Para alguém afirmar que “Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta.”, o grau de autoconsciência deve ser muito baixo. Não leste o teu próprio post? Esse sim, longe de ser ‘inútil e indispensável’, é apenas inútil. O seu blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória: “uau! eu li todos os clássicos! Todos são obsoletos! eu os superei!” Leia mais, escreva menos.”

E sabem, eu morro de preguiça dessas criaturazinhas. Morro de preguiça. Então, Rodrigo, se me estiver lendo, saiba que eu não escrevo para você nem tampouco para a sua estirpe. Excetuando-se os meus poucos leitores, eu escrevo para mim mesmo. Eu teria vergonha de postar um comentário como o que você postou. De gente reacionária o país está cheio, e isso me faz sentir pena dos que, como você, acham bonito o fazer-se entendedor de todas as cousas. Você não me conhece e eu não escrevo para você, dá para entender? Já filosofia eu não me desgasto discutindo-a com você, que, pelo que vejo, ainda está encantado com os livretos que mandam ler no ensino médio. Eu mal tenho que provar algo para mim, muito menos para gente como você. E dou-lhe um conselho: vá ler Eleanor H. Porter, faz mais o seu tipo.

Santíssimo guaraná

Está tudo mesmo à beira do ridículo, e os cristãos são uns frouxos. Sábado, tarde da noite, encontrava-me sentado frente ao computador, absorto nalguma matéria, enquanto minha intelectual favorita ronronava sonolenta sobre a cama, atrás de mim. Comentei-lhe algo sobre o que eu estava lendo – não consigo me lembrar o quê – e ela me respondeu que há, se não se enganava, no Maranhão um refrigenrante chamado Jesus, muito famoso, tanto que a Coca-Cola estaria interessada em comprar a marca. Pesquisei e encontrei, o que me foi motivo de riso. Penso que se uma coisa dessas acontece no Oriente Médio com o nome de Alá, boa coisa não sai. Lembra-se das charges? Então. Espero não passar a impressão de que eu ligue para o fato, eu não ligo. Mas acho no mínimo engraçado que não haja reclamações por parte dos fanáticos – e se há, são demasiado tímidas. E se a marca Jesus tem feito tanto sucesso como se diz, bom, deve ser, se não mais, uma bênção, não?

O questionário de Proust

Bem, eu queria de volta o Iluminismo, como já escrevi, mas não seria nada mal que pelo menos, pelo menos, o século dezenove voltasse. E já que uma modinha dos idos de 1890 está de volta à baila, para o meu prazer, deixe que eu a adira. O Questionário de Proust é uma lista de 29 perguntas que (…), e tem esse nome por ter se tornado famoso após as respostas do francês que nasceu no mesmo dia que eu, etc., etc. Ei-lo por mim respondido:

1. Qual é a sua maior qualidade?

Eu tenho bom gosto e me orgulho muito disso. Desde muito jovem lia muito e me envolvia com pessoas mais velhas e mais inteligentes que eu, e creio que tenha sido esse o meu impulso primeiro às artes, à filosofia, à literatura e ao jornalismo. E ainda que sejamos obrigados a conviver com todo tipo de pessoa durante o nosso amadurecimento, não me deixei influenciar. De modo que sou hoje um homem incorruptível – exceto por Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Shakespeare, o próprio Proust, etc.

2. E seu maior defeito?

E esse deve ser um defeito bruto, pois de modo algum eu consigo considerá-lo defeito. mas o senso comum, você sabe. Eu sou completamente intolerante. Por exemplo: certa vez precisei ir a uma festa com a minha noiva – quando ainda éramos namorados – e fiquei meio contrariado, pois não gosto muito de festa por causa do aglomerado de gente, essas coisas. Mas, bom, era uma festa infantil e eu fui. Tudo ia bem até meia noite, quando as crianças presentes começaram a ir embora e os adultos mais jovens e os adolescentes idiotas começaram a ficar animadinhos. A música, que já era ruim, ficou pior. A Xuxa deu lugar ao funk e o resto vocês imaginam. Eu fiquei fora de mim, completamente exasperado; o que gerou briga, desconforto e pressa de ir embora.

3. A característica mais importante em um homem?

A Paixão. Não no sentido romântico, mas total. Paixão pelas parcas coisas boas no mundo: a mulher, a literatura, o conhecimento, o cinema, a música e o chocolate.

4. E em uma mulher?

Reconhecer os poucos homens com as características que citei acima. E, claro, a fidelidade – ou você está pensando que há algum comunista aqui?

5. O que você mais aprecia nos seus amigos?

A busca pela verdade! Brincadeira. Aprecio a inteligência, e procuro somente ser amigo de pessoas intelectualmente privilegiadas. Por que? Ora, para que eu mantenha o velho hábito infantil de aprender mais e mais com os sabidinhos – c’est la vie.

6. Sua atividade favorita é…

Uma discussãozinha. Mas que seja inteligente, pois do contrário eu tenho preguiça. Além de cinema, teatro, a leitura, enfim. Um adendo: eu sempre estou acompanhado em tais atividades, nunca só, jamais.

7. Qual a sua idéia de felicidade?

Eu e minha intelectual favorita, mais velhos, vivendo bem, confortáveis e afastados das coisas mundanas (leia-se música ruim, gente ruim, clima ruim).

8. E o que seria a maior das tragédias?

Ficar sem dinheiro num país tropical.

9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?

Lord Henry Wotton.

10. E onde gostaria de viver?

Se no Brasil, no sul. Porto Alegre, talvez. Se noutro país, Irlanda. Aprendi a gostar da Irlanda com o Garth Ennis.

11. Qual sua cor favorita?

Preto.

12. Uma flor?

A papoula.

13. Um pássaro?

A cotovia (eu não sei que diabo de pássaro é esse, mas é com certeza o nome de pássaro mais legal que eu conheço).

14. Seus autores preferidos?

Dickens, Shelley, Shakespeare, Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Proust, Machado de Assis, Shopenhauer, Hobbes, Kafka, Salinger, Francis, Mencken, Eco, Baudrillard, etc.

15. O os poetas que mais gosta?

Keats e Manuel Bandeira. E alguma coisa do Pessoa.

16. Quem são seus heróis de ficção?

Jesse Custer (Preacher), por ser um pastor protestante que perdeu a fé e quer ter uma boa conversinha com Deus. E o Spider Jerusalém (Transmetropolitan) que é um jornalista muito, muito corrupto.

17. E as heroínas?

Humn. Lolita, se se pode assim considerá-la.

18. Seu compositor favorito é…

Dylan.

19. E os pintores que você mais curte?

Bosh e Van Gogh.

20. Quem são suas heroínas na vida real?

Minha mãe, que é divorciada há uns 12 anos e tem uma força de vontade incrível, perto da qual eu sou um gurí, um preguiçoso. E Natália, que está comigo em tudo e para tudo.

21. E quem são seus heróis?

São os poucos pelos quais me deixo influenciar, como disse mais acima. Escritores, artistas, músicos, amigos. São aqueles cujos conselhos eu seguiria, se pelo menos a maioria estivesse viva.

22. Qual sua palavra favorita?

Isso varia. No momento é “asco”.

23. O que você mais detesta?

Não gosto de gente que fica por aí falando coisas como “nossa, como fulano é pobre de espírito”, então não me confunda, pois o que vou dizer é absolutamente distinto: não gosto de gente pobre de vontade, de desejo, de ânsia por conhecimento. Não gosto de estagnação. Não gosto do modo como a maioria das pessoas aceita tudo o que há de ruim como se fossem coisas boas. Não gosto da falta de senso crítico. Não gosto do moralismo exacerbado.

24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?

Goebbels, o ministro da propaganda nazista.

25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?

Bom humor, otimismo.

26. Como você gostaria de morrer?

Sentado num banco de madeira, sob frondosa árvore, no meio de uma leitura – mas tanto melhor se der para esperar eu terminar o livro.

27. Qual seu atual estado de espírito?

Ansioso.

28. Que defeito é mais fácil perdoar?

Um  corte de cabelo ruim. O resto é mais difícil.

29. Qual é o lema da sua vida?

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

(este sou eu, sem filtro.)

Se tiverem coragem e paciência, respondam Tina, Carol, Edward, Elisabeth, Cleber, Rosângela e quem mais estiver, digamos, disposto.

Epifania

É comum basear um texto numa só palavra, mas corre-se o risco de o post parecer poético e não há nada que eu deteste mais. Perdoe a digressão, mas deixe-me escrever sobre isso. Não sei, é bem provável que a psicologia tenha todas as explicações para o fato em seus livros de autores barbudos. Não sei. Estou pensando na tendência besta que todos temos, desde pequenos, emberbes: a propensão ao romantismo, à poesia. E é um assunto vasto. Budistas do Tibet escrevem poesias, ora. Mas, entenda, não estou escrevendo contra a poesia, não é o quero dizer. Quero dizer que, quando jovens, as pessoas, indivíduos, os serezinhos humanos, quando escrevem – e aqui acabo de excluir uma boa parcela da humanidade – desejam, mais que tudo, serem poéticos, românticos, tocantes. Eu mesmo já o fiz e sei que é uma coisa besta, bem besta mesmo. E só tem uma explicação: mulher. Quando o homem começa a escrever coisas como “me é um júbilo incomesurável ouvir a sua voz” ele só pode estar só, entregue aos próprios artifícios – se é que me entende. E quando a mulher é que escreve uma baboseira assim, ora, não é por nada. É permitido às mulheres escrever esse tipo de baboseira. Um dia passa; se não, torna-se depressão ou algo assim. Mas passa. O meu romantismo eu deixo nas minhas palavras, soltas ao vento, em uma só direção. E olhe só eu sendo romântico.

A Epifania? Deixe para uma outra hora, sim?

E amanhã responderei o Questionário de Proust.

Lord i guess i’ll never know

As pessoas são todas muito boazinhas, né? Tão, tão simpáticas.

(whispering)

Eu já concordei antes com a idéia de que, se o Brasil tivesse participado de uma guerra mundial, ele seria um lugar melhor para se viver. Mas agora é tarde. Acho que a fase das potências pós-guerra já passou. Hoje é tudo muito sublimado; ninguém declara guerra a outra nação, e sim guerra contra o terrorismo, contra a opressão, você sabe. Além do mais, se se gasta com programas sociais, não se pode gastar com armamento – isso em teoria, sim, claro. Mas divago.

Bom, se não temos a guerra, tragam-me de volta o Iluminismo.

estética en passant

Há quem gaste mais palavras para falar disso, e bem o faz; no entanto fugirei à regra: procuro ser mesmo simplista, especialmente numa tarde de segunda-feira. Pensando no que escrevi uns posts atrás, sobre já ter usado blusa com estampa do Che há uns anos, lembrei-me de um outro fato igualmente pejorativo. A fase blusas-de-banda-de-rock. Você sabe, aquelas pretas. Bom, ainda hoje tenho uma do Pearl Jam, mas hoje prezo um certo grau de sutileza inexistente outrora. Eu era um rebelde – um rebelde esteta. Como a maioria, não tinha uma causa. Gostava de incomodar, chamar a atenção, sem quaisquer justificativas. Gostava de ser barrado na porta da escola na qual cursei o ensino médio, só para ter motivos para discutir com o porteiro. E, sim, eu era bom em discussões nessa época. Era a aurora da minha vida literária (oh!) e eu gastava o verbo, fazia citações a esmo, só para impressionar. E usava blusas de bandas obscuras, pouco conhecidas; sempre pretas. Minhas calças jeans tinham buracos em ambos os joelhos. Era estilo. No pescoço, penduricalhos ridículos, sem o menor fundamento. Em tempos de frio, blusas de flanela. Era década de 90 e isso era moda; o xadrez, o all star, a coisa toda. E hoje penso “como a idiotice é necessária!”, como ela nos faz ter algum orgulho quando olhamos pra trás. Quem nunca foi idiota, continua idiota sempre.

E é claro que daqui a uns 10 anos vou ler estas linhas e pensar “que parvo!”

Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

*

Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

Lógica desvairada

É de uma graça lamentável a quantidade de blogues com a pretensão de fazer jornalismo. E, além disso, um desperdício em se tratando de bons blogueiros, pessoas com algum potencial criativo. Uma pergunta corrente em entrevistas a leitores de blogues é: “O que você busca quando entra num diário virtual?” Ora, o hipertexto não funciona assim. Quando vasculho a internet, o que busco são idéias novas, ousadas, de cunho opinativo, mesmo. E isso significa que eu não tenho um tema pré determinado; muito pelo contrário, o que me agrada é a diversidade de pensamentos que se cruzam, os debates, o blá blá blá. Se eu quisesse saber de notícia, francamente, eu entraria nos portais especializados ou comprava um jornal. É tão triste entrar num blogue e ler uma notícia copiada do Uol ou, sei lá, do Diário do Nordeste. Notícia precisa ter credibilidade, coisa que em terra de blogueiro é conto da carochinha. Claro, claro que há exceções e não tenho que citá-las – mas, ainda sim, os que a possuem a tem dentro de certos limites. Mas, sinceramente, quem se importa com credibilidade no que tange a blogues? Eu me esbaldo lendo as críticas de cinema de não-críticos; me divirto imensamente lendo as impressões que um livro causa nos não-literatos; e o mesmo com a política, com a música. E opinião é algo bonito. O cinema não é produzido para cineastas, tampouco a literatura para literatos; de modo que ler num blogue as reverberações do autor sobre Schopenhauer, por exemplo, é uma chance única de acesso a um tipo de opinião crua, sem gatekeepers editoriais. A crítica sem critério é valiosíssima. É como uma pesquisa de opinião voluntária.

Acho que as pessoas devem além de ler, escrever mais. Eu mesmo, aqui, acostumado a postar nada mais que opinião, já fui muitas vezes mal compreendido por leitores que ainda enxergam tudo com um olhar meio ditador; e não as culpo, é herança cultural esse negócio de que opinar é perigoso.

Termino com Marco Aurélio, vesgo, dizendo que ou você é você ou vai acabar sendo confundido com seres indiferentes; um parvo, no mínimo:

“De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo. Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz. É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob condição e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir. ”