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Uma história triste

Cap. 1

Vou contar uma história triste, porém muito ilustrativa para vocês. Educativa até, eu diria. Preciso voltar um pouco à minha doce infância, período no qual foram plantadas as sementes (sempre quis dizer isso!) para o que relatarei mais adiante. Eu tinha uns 10, 11 anos de idade. Em primeiro lugar, eu era um garoto muito displicente. Batia nas minhas irmãs, arrancava as cabeças de suas bonecas Bebê e passava a maior parte do tempo na rua, brincando de pega-pega, pique-esconde, futebol, etc. Na época eu cursava o 4° ano, estudava no período matutino e, apesar de ser o oposto de um cdf, tirava boas notas e tinha facilidade para aprender as matérias – Estudos Sociais, Ciências, História e tais. Já na época eu tinha um melhor amigo, que era o exemplo de aluno a ser seguido: estudioso, disciplinado, sério. Ele fazia todos os para-casas, ao contrário de mim que preferia, quando não estava na rua, jogar Atari. Esse meu amigo – chamemo-lo R. – era um ano mais velho que eu e já cursava o 5° ano; quando eu o chamava para que pudéssemos brincar na rua, respondia-me com voz calma:

_Não posso sair para brincar senão meu pai me bate, tenho que varrer o terreiro.

E não importava o quanto eu insistia, ele era muito, muito disciplinado. Outro dia, chamei R. novamente e ele me disse:

_Não posso sair para brincar, tenho que fazer o dever de casa.

E assim era. Lembro-me de incontáveis vezes ter ouvido minha mãe dizer: “Junior, não vá para a rua, faça como o R., vá estudar!” E eu ficava meio irritado, pois afinal de contas o R., apesar de meu amigo de infância, era tido como o idiota do bairro. Mas eu, sempre muito bom, não deixava de chamá-lo para brincar, ainda que a resposta fosse sempre negativa. Minha mãe ainda insistiu durante muito tempo para que eu seguisse o exemplo de R.: fosse mais dedicado aos estudos e ajudasse nos afazeres de casa. Eu jamais cedi.

Cap. 2

Alguns anos se passaram e eu acabei me afastando de R. Não por intenção, mas porque novas amizades foram sendo feitas, enfim, sabem como é. Eu tinha aqui uns 16 anos e já havia começado a ler livros como Dom Casmurro e Triste Fim de Policarpo Quaresma, e começava a sentir uma pontinha de prazer nisso. Lia quadrinhos e juntava dinheiro para comprar Graphic Novels no final do mês. Foi uma boa fase. Um dia uma notícia aterradora, inacreditável corria as ruas do meu bairro: R. havia levado bomba na escola. Esse foi o fim das comparações feitas pela minha mãe; alcancei R. e agora éramos da mesma sala, sentávamos lado a lado e minha notas não eram muito diferentes das suas; às vezes, melhores. O desespero de R. era visível por eu tê-lo alcançado, e, mais do que nunca, ele se trancava em casa para poder estudar e me mostrar quem era mais inteligente, quem se dava melhor em matemática, essas coisas de moleque. Minha alma blasé imperava e eu não dava a mínima, continuava brincando na rua e jogando vídeo-game até altas horas. Outro fim de ano e R. toma outra bomba, ficando para trás. O que era engraçado começava a ficar sério, estranho demais. Ele estudava tanto, era tão obediente aos pais, varria o terreiro, santo deus! Tempos depois eu soube que R. havia saído da escola, bem no ano em que terminei o 3° ano do Ensino Médio e me formei. Comecei a trabalhar e a ler muito, muito. Não tinha mais tempo para a rua e pouco para o vídeo-game, de modo que eu não via mais meu antigo amigo R. Tomamos caminhos distintos. Às vezes eu ouvia falar dele, mas somente comentários esparsos, desinteressantes. Mais algum tempo e eu estava na faculdade, lendo ainda mais e trabalhando. Em minha rua, nenhum rapaz que fosse exemplo pra mim. Eu era o exemplo.

Cap. 3 – final

No último natal, a mãe de R. convidou minha família para ir à sua casa, “como nos velhos tempos”. Fomos: eu, minha noiva e minha mãe. A mãe de R. me olhava e dizia “como cresceu, gente” e eu sorria sem graça. R. fez supletivo para se livrar do Ensino Médio e se converteu ao evangelho, sendo a Bíblia o único livro que lê, quando lê. Toca música góspel no violão e sonha em gravar um cd em inglês. Não estuda. Trabalhava, mas por algum motivo não o faz mais. Está com 25 anos. Há umas semanas, atendendo a um convite educado que fiz na noite de 25 de dezembro, foi à minha casa para conversarmos. Ficamos na sala, onde fica a maior parte dos meus livros, na estante. Ele me perguntou com o que estou trabalhando e respondi. Perguntou como é a faculdade, se eu gosto e tal. Eu disse que sim, que não é como eu esparava, porém agradável, e disse que ele devia fazer. Perguntei por qual curso ele se interessa e ele me respondeu “História”. Algo que notei a princípio enquanto conversávamos foi a sua falta de atenção ao que estava falando; ele comete digressões incríveis ao contar uma história, mais que o normal. “Talvez seja o jeito dele”, pensei. R. viu meus livros e se interessou. Quis ver alguns e eu disse que ficasse à vontade. Pegou o Introdução à Psicologia e perguntou-me se eu já o havia lido. Sim. Perguntou se já li a Bíblia. “Sim, a maior parte”, eu disse. Então eu o aconselhei a ler mais coisas além das escrituras e perguntei qual o último livro que ele havia lido, ao que me respondeu:

_O Escaravelho do Diabo! Nossa, é muito bom! Assim: tem lá o bicho, o escaravelho, e quando ele pica a pessoa, a pessoa vai para o lado negro!

Pensei em fazer uma piada com Star Wars mas imaginei que ele não entenderia. Eu me lembro de quando nos mandavam ler O Escaravelho, e isso já tem uns 15 anos. É um livro infantil da antiga Coleção Vagalume. Emprestei-lhe o Introdução à Psicologia e lhe recomendei que lesse com calma, estudando. Então ele olhou no relógio e falou que precisava ir embora, tinha que tomar um remédio. “Que remédio?”, perguntei surpreso. “Um aí, para fortalecer a mente”, ele me respondeu. Não entendi – ou entendi mas me fiz de parvo. Eu tinha só mais uma pergunta:

_R., por que você não está mais trabalhando?, o que houve?

_Estou com depressão, Edson. Eles me afastaram do trabalho.

 *

Moral: Não se pode forçar uma pessoa a ser inteligente; não se pode forçar uma pessoa a nada. A pressão tem constantemente efeito contrário; como um prego que, sob a força do martelo, entorta.

Broken Vows

Essa época sempre me remete  ao último filme de John Huston, The Dead, adaptação de um conto homônimo de James Joyce, do livro Dubliners. O poema abaixo é lido por uma personagem (Mr. Grace) durante a ceia de fim de ano. É a beleza transfigurada em melancolia:

“Era tarde a noite passada
O cão falava de você
O pássaro cantava no pântano
Falava de você
Você é o pássaro solitário na floresta
Que você fique sem companhia até achar-me
Você prometeu e mentiu
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados
Eu assoviei e gritei cem vezes
E não achei nada lá
A não ser uma ovelha balindo
Prometeu-me algo difícil
Um navio de ouro sob um mastro prateado
Doze cidades e um mercado em todas elas
E uma branca e bela praça à beira mar
Você prometeu algo impossível
Que me daria luvas de pele de peixe
E sapatos de pele de ave
E roupa da melhor seda da Irlanda
Minha mãe disse para eu não falar com você
Nem hoje
Nem amanhã
Nem Domingo
Foi um mal momento para dizer-me isso
Como trancar a porta após a casa arrombada
Você tirou o Leste de mim
Tirou o Oeste de mim
Tirou o que existe à minha frente
Tirou o que há atrás
Tirou a Lua
Tirou o Sol de mim
E o meu medo é grande
Você tirou Deus de mim”

O filme é de 1987. Não deve ser fácil de encontrar, mas eu tenho uma cópia em VHS. Ganhei de um antigo professor de Literatura, há uns sete anos. É perfeito:

Ensina-me a sentir o sofrimento de outros,
A esconder os defeitos que eu perceber;

Que eu possa ter piedade por todos
Que por mim também demonstrem piedade.”

Bom, feliz Natal.

Passeio

Nada melhor que um pé depois do outro.

Xmas time

Eu não sei mais o que é o natal. Quando criança, talvez soubesse. Lembro-me da minha época de neurônios atrofiados. Época feliz. Acho mesmo que a única felicidade consiste em ser ignorante. Além disso, o que há são momentos, hiatos de fugaz alegria. Lembro-me de seguir procissões católicas pelas ruas do meu bairro – uma fila de senhorinhas fiéis e netos curiosos, todos segurando uma vela acesa na mão queimada pela cera. Época em que eu levava para casa ramos abençoados pela santa água do padre da paróquia. Havia também um pão. Não sei se o chamavam d’outra coisa. Mas era um pão, duro, que devíamos colocar no armário da cozinha a fim de não faltar alimento. Esses e outros rituais. Época feliz. O natal tinha o maior significado. As mínimas coisas tinham valor. Volto, por exemplo, a um desses natais de minha infância. Recordo-me que minha mãe, não tendo suficientes condições para presentear-me com um vídeo-game de última geração ou coisa que o valha, deu-me um daqueles quebra-cabeças numéricos, de mão. Aqueles em que você deve mexer os números na vertical e na horizontal até que consiga colocá-los na ordem, de 1 a 9. lembro-me e quase escorre uma lágrima – sou muito sentimental por esses dias. Vocês não podem imaginar a felicidade que tal presente me deu. Vocês não fazem idéia de como tal acontecimento permanece em minha memória, fixo, como se houvesse ocorrido ontem. Isso faz uns 18 anos. Coisa que hoje já não existe mais. As crianças de hoje são umas esnobes. Os jovens, uns cretinos. Dá-me asco, só de imaginar. E eu tenho pena. Muita pena. Faz alguns anos que não piso numa igreja, mas o período em que o fiz foi importante para mim. Igualmente, há anos não celebro o natal como o fazia antes, mas minha infância ignóbil foi peça fundamental para o meu crescimento. O natal hoje é ainda mais piegas que no meu tempo. Mais feito de out-doors e garrafas pet recicladas que com o que chamam coração.