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Sétimo dia

Concordo que o sábado seja dia de descanso total. Às vezes até penso em entrar para uma igreja adventista, mas sou imediatamente desarmado por outros motivos. Enfim. Acordei cedo no sábado, cumpri minhas obrigações higiênicas, peguei o café e corri para a sala. No dvd, The Godfather I. Ainda que meio sonolento, assiti as três horas de filme sem nenhum labor. Após a sessão Coppola, voltei ao meu quarto – que estava uma bagunça infernal. Se minha noiva chegasse e encontrasse o quarto como estava, ai de mim. Organizei a papelada em pastas. Coisas de faculdade numa, blogs impressos noutra e documentos vários numa terceira. Tirei o pó, varri o taco, troquei o lençol da cama. Coloquei os livros em ordem de tamanho, com as lombadas alinhadas. Guardei as revistas. Tirei a poeira do computador e lhe passei na tela um pano úmido. Trabalho quase teminado, ela chegou: “Quê é isso?” Ora, amor, estou arrumando o quarto pra você. Sorriso. “Pega água pra mim?” Claro, amor. ( É dever de todo homem pegar água para uma mulher.) Cada coisa em seu lugar, fui ao banho. Uma hora depois eu estava lindo, you know. Minha independência como homem é vigente em dias úteis; aos fins de semana eu sirvo a ela e ela me serve. Uma relação de mútua servidão, como deve ser. Pois bem. Ela quis sorvete e dirigimo-nos à sorveteria. Chocolate suíço e quetais. Ósculos gelados. No caminho de volta à casa, ela deseja frutas. Vamos ao mercado. Pêras, ameixas e caquis (que ela passou mais ou menos meia hora tocando com a ponta dos dedos, com cuidado, para fazer uma boa escolha). Detesto caqui. Vamos ao caixa, pagamos. Ela me entrega a sacola e diz “toma”, com um sorrisinho sublimado. Casa; quarto; partida de xadrez. Dou-lhe xeque em poucas jogadas e ela deixa cair o corpo para trás, demonstrando desistência.

(parte censurada, este é um blog conservador)

Início de noite, deitamo-nos lado a lado a ler Calvin & Hobbes. “Que tal colocar no forno a lasanha?”, ela diz. Claro, amor. Vou à cozinha, parte da casa por mim muito pouco frequentada. Com um ruído irritante, ligo o fogão elétrico. Ajusto o timer para 45 minutos e volto ao quarto. Ligo o computador. Um amigo está on-line. Lasanha pronta, vamos os dois à cozinha. Ela prepara o suco enquanto eu queimo as mãos. Jantamos. Ela se deita e adormece. Deveria acordá-la para que pudéssemos cumprir uma vez mais a atividade conjugal, mas tenho dó. À meia-noite, falo baixinho aos ouvidos dela que ela deveria colocar uma roupa de dormir e ir ao banheiro. Ela o faz. Deitamo-nos e ela novamente adormece. Eu ainda passo algumas horas acordado, pensando em minhas posses e em nada – coisas que, aliás, se confundem.

carta à minha intelectual favorita

Vou me despir de qualquer pompa lingüística, verborragia ou lugares-comuns para escrever este texto, que não só se faz necessário devido ao dia de hoje, mas, principalmente, em razão dos dias e anos que se passaram, durante os quais nos tornamos mais íntimos, cúmplices; mais visceralmente ligados e dependentes um do outro. Por mais cético que eu aparente ser quanto à maioria das coisas, incluindo relacionamentos, com você eu vivo uma outra realidade, na qual minhas concepções adquiridas ao longo do tempo são postas a um nível quase imperceptível. Ao seu lado, minhas certezas niilistas e minha visão apocalíptica do mundo entram em estado de suspensão. Você que suporta as minhas músicas muitas vezes estranhas, undergrounds demais para uma mulher; você que ouve sem reclamar os meus discursos mais inflamados quando estou no meio de uma argumentação, você que ri dos meus gritos roucos ao cantar uma música velha no seu videokê. Qualquer definição de amor que me apresentem eu a refuto, pois eu não preciso de definições, nós não precisamos de definições; somos o nosso próprio conceito, alheios – e eu agradeço – às opiniões de outrem. Chegamos a um ponto em que estamos acima; olhamos à frente e podemos ver mais que o horizonte: avistamos um futuro que se nos apresenta breve, iminente. E como você é a praticidade que em mim falta, você dirá “eu te amo, meu amor”, enquanto que eu me demoro, me alongo, tergiverso. Você é o meu fator de equilíbrio; você é o meu bom-senso. Em você eu encontro os motivos mais inescrutáveis para viver, pois, e você me conhece, eu não levo a vida a sério – ou pelo menos não levava antes de você surgir. Repito que estamos acima de qualquer definição – e essa é a minha opinião irredutível, não sujeita a questionamentos ou argumentos contrários. Você me fez melhor há tempos, e eu lhe sou grato de uma forma que talvez você não possa imaginar, mas sei que você pode sentir quando me olha com esses olhos claros e luminosos, e sorri, simples, de uma maneira que, em silêncio, é capaz de expressar tudo. Nosso amor não cabe no espaço de um beijo [data vênia, Drummond], mas está presente em cada pequena coisa que fazemos juntos. E eu amo você por motivos demais, tantos e incontáveis que nem contrariando a primeira linha deste texto eu me poderia fazer entender totalmente. Nosso amor é uno. Eu diria que você me é tão necessária quanto o ar, o sol, a lua; mas faço melhor: não digo. Vejamos até onde vai a imaginação da minha intelectual favorita, minha querida e amada, minha estrela.Amo você, até o fim do mundo.