Archive for the ‘lost in translation’ Category

kriterion

Estou em estado de époche.

Please could you stop the noise?

O pensamento é um letreiro de aeroporto. Já pararam para pensar sobre o milhão de coisas que se pensa em um segundo? Tina me disse que Proust escrevia como pensava, daí sua escrita prolixa – foi a melhor descrição que ouvi sobre o autor de O Caminho de Swann. Mas não falo disso. Pensa-se muito, faz-se pouco, verdade. 90% do nosso pensamento é reprimido não porque ele vá incomodar ou ser incoveniente, mas porque é inútil. Inutila Truncat. Pensa-se muito  e melhor quando se está caminhando. Dizem que no consultório de Freud havia um pequeno declive no chão, bem no meio da sala – ele pensava andando de um lado para outro. Não, não vou caminhar aqui agora, não. Penso, aqui sentado na cama, no suco de maracujá que há pouco tomei, penso no filme que assisti. No emprego que ainda não consegui e nas causas do mau tempo. Penso que vocês leriam mais devagar este texto se soubessem como o escrevi. Não, não  estou bêbado, vou desapontar. Eu sempre estou assim sábados à noite, mas é uma solidão boa, necessária até. O dia já foi cheio. Full Time. Mais que pensar, eu sinto que o suco de que vos falei começa a fazer algum efeito. Penso em literatura russa, inglesa, francesa, alemã, mas, por fim, penso que literatura não é geografia.

Inspire, expire

Sabem aquela cena do filme Beleza Americana em que uma personagem, num dos melhores momentos do filme, capta, com uma filmadora, uma sacola plástica rodopiando ao vento enquanto descreve a cena como uma das coisas mais belas que já viu? É um belo momento. Hoje, quando sentado no banco do ônibus esperando  sua partida, eu olhava para fora, através da janela, entre o sono que hoje me massacra e a obrigação de vir para o trabalho. Ví um pássaro. Acho que era um pardal, mas não sou especialista em pássaros nem nada. Ele estava no canteiro. Pulava de um lugar para outro. Às vezes beliscava algo que encontrava, às vezes não encontrava nada mas me parecia bem feliz em estar alí, em poder, no mínimo, procurar por algo. Como se valesse mesmo a pena. Não que eu tenha que assumir uma posição otimista para iniciar um novo ano. Não é isso e isso não faz o meu tipo. A questão é que tenho muito o que fazer. Há muito a ser feito. Ontem, primeiro dia do ano, eu ouvi:

__Vamos trocar de alianças em outubro?

E sinto que há coisas que me afetam profundamente. Eu sou um cético 99%, e o que me resta de crença eu deposito em algumas poucas coisas realmente importantes em minha vida. Ainda que blasé, eu, no fundo, me preocupo demais com as coisas e com as pessoas à minha volta. Isso me atinge. É isso. Acho que este é um texto otimista, ao meu modo. As coisas – como chamam – acontecem. Eu só quero, agora mais que nunca, ter algum controle sobre elas.

I just don’t know what to do w/ myself

Edward Bloom me alertou. Comecei a ler Proust, mas há dois dias não pego no livro. Mas vá lá, é final de ano. A gente fica com essa sensação estranha de que tudo vai recomeçar a partir de 01 de janeiro. Nunca ví besteira maior.

Passeio

Nada melhor que um pé depois do outro.

C’est la vie

Trabalhar com pessoas é treinar a arte de ser dissimulado todos os dias.

Xmas time

Eu não sei mais o que é o natal. Quando criança, talvez soubesse. Lembro-me da minha época de neurônios atrofiados. Época feliz. Acho mesmo que a única felicidade consiste em ser ignorante. Além disso, o que há são momentos, hiatos de fugaz alegria. Lembro-me de seguir procissões católicas pelas ruas do meu bairro – uma fila de senhorinhas fiéis e netos curiosos, todos segurando uma vela acesa na mão queimada pela cera. Época em que eu levava para casa ramos abençoados pela santa água do padre da paróquia. Havia também um pão. Não sei se o chamavam d’outra coisa. Mas era um pão, duro, que devíamos colocar no armário da cozinha a fim de não faltar alimento. Esses e outros rituais. Época feliz. O natal tinha o maior significado. As mínimas coisas tinham valor. Volto, por exemplo, a um desses natais de minha infância. Recordo-me que minha mãe, não tendo suficientes condições para presentear-me com um vídeo-game de última geração ou coisa que o valha, deu-me um daqueles quebra-cabeças numéricos, de mão. Aqueles em que você deve mexer os números na vertical e na horizontal até que consiga colocá-los na ordem, de 1 a 9. lembro-me e quase escorre uma lágrima – sou muito sentimental por esses dias. Vocês não podem imaginar a felicidade que tal presente me deu. Vocês não fazem idéia de como tal acontecimento permanece em minha memória, fixo, como se houvesse ocorrido ontem. Isso faz uns 18 anos. Coisa que hoje já não existe mais. As crianças de hoje são umas esnobes. Os jovens, uns cretinos. Dá-me asco, só de imaginar. E eu tenho pena. Muita pena. Faz alguns anos que não piso numa igreja, mas o período em que o fiz foi importante para mim. Igualmente, há anos não celebro o natal como o fazia antes, mas minha infância ignóbil foi peça fundamental para o meu crescimento. O natal hoje é ainda mais piegas que no meu tempo. Mais feito de out-doors e garrafas pet recicladas que com o que chamam coração.

Happiness is a warm gun

So… meet me in Montauk.

Eu sou tão empertigado

Os vizinhos ouvem uma música ruim. E claro, óbvio, eu tenho um gosto excelente. Mal cheguei e já estou reclamando, é verdade. Um aniversário, me parece. Na casa dos vizinhos. Vocês já ouviram falar em boa vizinhança? Eu já, mas só em teoria. As pessoas das casas ao lado são sempre muito enjoadas. Suas músicas são sempre muito ruins. E altas, são sempre muito altas também. Okay, eu não tenho que fazer sentido. É madrugada agora. Arredo a cama para perto do computador para escrever deitado. Um luxo. Ao lado, um Aurélio e um exemplar de Lolita, edição de 1968 – estou dando mais uma chance. Numa xícara, coca. Ouço Is It Wicked Not To Care?, Belle & Sebastian. É uma boa música para se ouvir enquanto se escreve de madrugada. Sinto-me bem. Como têm mal-gosto os vizinhos. Olhos ardendo. Há pouco me olhei no espelho do banheiro. Olheiras. Acho que elas já não desaparecem mais, por mais que eu durma. Faz tempo desde que dormi bem pela última vez. Digo, muito bem. Tenho um probleminha. Quando trabalho e estudo a semana toda, tudo o que quero é chegar em casa para poder dormir. Deitar no travesseiro os problemas e as preocupações, desligar os holofotes que iluminam as desgraças do mundo. E, quando tenho tempo para tal, não o faço. Não há graça em dormir quando se pode dormir. Estou escrevendo pausadamente, vês? Sinto-me melancólico à essa hora. Além da música. Mas não, não. Ela é perfeita. Escrevo pausadamente pois é como me surgem os pensamentos, agora. Neste instante fugaz. Oscar in Reading. Mas o que estou dizendo? Que diabo, qüiproquó. Minha cabeça pende entre uma palavra e outra. Não consigo colocar uma idéia em cada frase. Idéias divididas em várias frases. Indo e voltando. Digressões saudéveis. A coca que já perdeu o gás. E escrever deitado dá torcicolo, acreditem-me. Mas querem saber? Vale a pena. Hoje eu já dancei (desengonçado) The Delgados até quase cair, morri algumas vezes ouvindo Mogwai – se é que me entendem – e dormi com a minha noiva ao som de The Smiths. Nada como uma boa trilha sonora. Nada como ter um tempinho para fazer o que eu quiser no próximo segundo. Mesmo que seja nada. Já não ouço os vizinhos. Mas, ora, o que eu estou dizendo?

*

Aqui, minha homenagem ao tão querido natal.

Coisas, non sense coisas

Aí vem a Lispector dizer que a vida é um soco no estômago. Já Salinger me diz, com seu ar blasé, que não há grandes aspirações na vida, a não ser ser, no máximo, um apanhador num campo de centeio (…). E penso: tenho mesmo é que me preparar para o futuro. Penso e paro, porque me lembro do Orwell dizendo “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”. São personas experientes que me dizem tais coisas. E eu confio. O que vou fazer? Confio. E sorrio, sarcástico, quando penso nas frases de efeito que por aí há para refutar o pessimismo, tipo aquela do mago Paulo que já não suporto mais: “O universo conspira a nosso favor”. Francamente, eu fico com o pessimismo. Obrigado.

***

Ontem eu dormi cedo. Como um anjo, dizem. Há tempos não fazia isso e, hoje, acordei tonto, com ressaca de sono. E foi bom. Um prazer quase, eu diria.

Come on die young

Porque o domingo é uma janela para o muro do vizinho é que aqui estou entregue à letargia dominical, quase um legume morto ouvindo mogwai e escrevendo em espasmos e convulsões num fluxo não pontuado como um Kerouac à morfina nossa de cada dia. E chove lá fora.

Amour

Ora, meu amor, acessar minha caixa de e-mail logo de manhã, hoje, dia 14, e ter me aguardando um texto tão lindo e inspirado é mais que um presente. É uma dádiva. Sou o homem mais feliz quando você me demonstra esse amor maravilhoso, esse sentimento tão puro e, cada vez mais, crescente. Há em mim uma alma pulsante, ansiosa demais pelo futuro, pela vida que é nossa e que temos de viver, juntos. Olho para o meu passado, de solslaio, e não vejo mais que sombras, névoas espessas, brumas. Você representa demais para mim. Você é símbolo, é ícone e é índice. Você é ciência exata. É um coeficiente perfeito. É a minha prova particular e irrefutável de que existe o amor, ainda que a ele possamos dar nomes diversos e ainda que sua conotação esteja, nesses dias tão estranhos, corrompida. Você é maior porque se difere do meio.Você é minha Lótus que nasce em meio à lama. Você é meu budismo. Meu politeísmo e meu monoteísmo.

O presente não existe

O presente é uma falácia. O que chamamos de tempo presente é tão relativo, tão fugaz. Esse condicionamento barato. Essa psique alterada. Eu digo que só existem dois tempos: o passado e o futuro. Vamos, faça o teste. Diga “agora”, e quando terminar a palavra, ela já será pretérito. Pense em fazer algo. Planeje o futuro. E, ação realizada, ela deixa de existir no futuro e passa a fazer parte do passado. Mas e o exato momento em que se realiza a ação?, você se pergunta. Eu digo que tal momento é um fenômeno. É a exata transição temporal, extremamente sutil. Penso em escrever essa frase e, a cada palavra, cada letra digitada, vejo o passado tomando aquilo que era futuro. Vêem? A concepção de “presente” nos vale para alimentar filosofias clichês como “viva intensamente”, “viva o presente” e “consuma hoje, você pode não estar vivo amanhã”. O presente consola pois “o hoje nos pertence” e, além dele, não possuímos mais nada. Uma ova! Se há alguém aí com provas de que esse tal “presente” existe, por gentileza, reportem-me.

Proustiano. Parte I

Já lhes contei sobre o jardim de infância? Lembro-me de ter chorado baldes no meu primeiro dia. Era uma escolinha particular que ficava no meu bairro, colorida, não muito grande, e feliz. Era feliz demais. Havia palhaços pintados nos muros. Sentia-me indefeso, preso, longe dos meus pais e da minha casa, como num campo de concentração. Na parede da minha sala havia um daqueles quadros que, na época, era moda ter: um menino chorando, desesperado. Porque ele chorava, ninguém sabia (hoje, sabe-se que há no quadro uma daquelas mensagens idiotas, que chamam subliminares). Certo é que eu olhava aquela imagem e chorava, chorava muito. Ninguém entendia. As carteiras da escolinha eram outro martírio. Eu não me sentava sozinho: à minha frente havia, distribuídos, mais três rostos desconhecidos, feios e tão desesperados quanto o meu. Mas logo aprendi a me virar. Ignorava-os. Mais: eu sempre tive asco aos divertimentos gratuítos, inúteis, baratos. Quando no intervalo de recreação, sentava-me à sombra do cajueiro – árvore anacardiácea – , pegava a minha merendeira do Snoop, abria-a, e fazia o meu lanche, olhando, com certo desdém, os garotos e garotas que brincavam, pulando e escorregando irracionalmente nos brinquedos quentes como o quê, sob o sol lancinante. Eu jamais brincava, jamais. Vinha a educadora, que ainda hoje conheço e é muito boa gente: 

___Vamos, Edson. Brinque um pouco. 

Mas eu era resoluto. Minhas únicas companhias eram a merendeira do Snoop e a sombra do cajueiro. Alguém dirá: “você não teve infância”, e eu direi:  

___Ora, e como não? Enquanto vocês torravam sob o sol, eu me divertia por dentro, me esbaldava, sentindo-me a criancinha mais especial de todas, bajulada pelas professoras e temida pelo meninos bobões. Eu, sim, tive infância.