Archive for the ‘Literatura in Ótica’ Category

“Caudfield”

Salinger não merece os fãs que tem. Isso explica o fato de tantas pessoas – uma boa parte dos que se entendem intelectuais – não gostarem d’O Apanhador. E juro que agorinha, pesquisando comunidades no orkut, num instante de iluminação,  eu me uni ideologicamente a essas pessoas. Ler algo como “para todos que se identificam com o Holden Caudfield (…)” mata qualquer um de vergonha.

Notas

Então passei todo o sábado com a minha pequena. Sorvete, partidas de xadrez e algo mais que não me é permitido aqui dizer, sob risco de retaliação.

Ontem, domingo, calor infernal à tardezinha, pus-me novamente a jogar xadrez com um amigo. No media player tocava Is This It?, Strokes, enquanto eu fumava o bispo tombado do adversário. Na Last Night dei-lhe xeque.

À noite, shopping para buscar minha pequena – ela trabalha aos domingos, para a minha estupefação. Passei na Leitura e fiquei na dúvida entre o novo do Paul Auster, Viagens do Scriptorium, e o Nine Stories, do Salinger. Comprei o Salinger e, terminando o primeiro conto – “Feito isso, foi sentar-se na cama desocupada, olhou para a moça, apontou a pistola e deu um tiro em sua própria têmpora direita” – juro que fiquei bastante chocado.

Tapinhas nas costas

Tenho na estante um livro chamado Maravilhas Do Conto Francês, que já li mas que não me “acrescentou” nada – engraçado como todos querem ser o tempo todo acrescentados, que mania mais estranha. É uma reunião de autores como Guy de Maupassant, Stendhal, etc. Não estou com o livro em mãos; mas há um conto cujo nome não me lembro e autor idem que conta uma história no mínimo irônica, que quero comentar com vocês. Recorro puramente à memória, corrijam-me se eu me estiver equivocando. É a história de um jovem que procura um velho aristocrata a fim de solicitar um emprego. Dutante a entrevista, o senhor pergunta ao jovem a respeito de suas atribuições, essas coisas. O aristocrata dispensa o rapaz, dizendo que entraria em contato caso tomasse alguma decisão. Frente ao escritório do Serviço Público há uma praça pela qual o jovem precisa passar para chegar à rua de destino. O Aristocrata ia acompanhado com os olhos os passos do jovem através da praça, quando este se abaixa para apanhar algo no chão. Grita o velho:

__Rapaz, encaminhe-se de volta até aqui.

Chegando lá, imaginando ter conseguido o emprego, o jovem diz “pois não, senhor.”

__O que foi que você encontrou no chão da praça?

__Um alfinete, senhor.

__Que pena, rapaz. Você não serve para o serviço público; se atém a detalhes demais.

D.F. Wallace

Ótima resenha sobre o livro Oblivion, de David Foster Wallace, aqui.

Keats, Wilde, Proust & me

Eu não leio poesia, como já escrevi dantes, mas muito me agrada a história de John Keats (não, não li na wikipedia): rico e ocioso, passava os dias lendo; ou seja, a vida que eu queria ter. Keats morreu de tuberculose em 1821, e sobre seu túmulo foi inscrita a famosa sentença “Here lies one whose name was writ in water “, que ele mesmo escreveu. Conheci Keats num livro de ensaios de Oscar Wilde, Chá das Cinco com Aristóteles, no qual o dândi faz boas referências ao poeta, além de citar e comentar alguns poemas. E como a minha edição de Chá das Cinco é bilingue, dá para ter umas boas idéias da originalidade linguística de Keats, como trocadilhos e jogo de palavras, bem à maneira da literatura inglesa do século XIX. O Chá das Cinco, do Wilde, eu não conhecia até comprá-lo, há uns anos. Vasculhava as prateleiras duma Leitura aqui da capital quando ví a capa. Comprei no ato. É na verdade uma reunião de ensaios e críticas literária e social, do início da carreira de Oscar, antes de O Retrato de Dorian Gray ou qualquer outra obra conhecida. Wilde, vocês sabem, morreu em 1900, ano em que Proust fazia 29 anos e ainda não tinha publicado Em Busca do Tempo Perdido, cuja primeira parte só veio a público em 1913 e que só recentemente lí. Ai de nós que vivemos no século XXI.

Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

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Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontâneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno…, coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje… nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito.
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu…; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita.

Fiodor Dostoievski, in ‘Diário de um Escritor’

*

Comecei a leitura d’Os Irmãos Karamazov.

Meu vizinho Schopenhauer

Meu vizinho Arthur Schopenhauer jogava pedras sobre o meu telhado

Então que esse senhor, o Schopenhauer, morou algum tempo ao pé de minha casa. Falava sozinho e, em noites mais quentes, não dormia; ficava bastante agitado e punha-se a lançar pedras sobre os telhados das casas próximas. Certo dia acertou minha casa. Pus-me logo de pé, assustado mas já imaginando ser mais uma traquinagem do senhor Schop – era como o chamávamos. Disse a ele que não fizesse isso, que poderia quebrar minhas telhas, ao que ele me respondeu que minha casa não existia, tampouco as telhas. Dizia que tudo não passava de Representação.

 

Tinha umas idéias bem originais esse Schopenhauer, devo admitir.

Sexo Anal, um livro para românticos

 Sexo Anal, por Luiz Biajoni

Sexo Anal, de Luiz Biajoni, é um livro para o mais empertigado romântico. Não pelas incríveis histórias e acontecimentos que nele vão se sobrepondo, ou pelas demosntrações de amor de uma ou outra personagem no decorrer da narrativa, mas pela lição final que é nada menos que um tapa de luvas, sem as luvas, nas convenções, nos dogmas romanescos dos moralistas.  

Sexo Anal é arte maior pois seu autor, blogueiro, jornalista e escritor – “ma non troppo“, brinca Luiz – teve coragem de escrever sem papas na língua o que poucos tem a ousadia de sequer pensar. Não espere aqui metonímias, eufemismos, perífrases ou qualquer outra figura de linguagem que pretenda mitigar o sentido d’algum verbete pouco comum nos livros da sua estante. Luiz diz o que tem de ser dito:

“O cu é marrom, a merda é marrom, a imprensa é marrom e até a terra, pra onde a gente vai debaixo no fim, é marrom. A vida não tem cor! Que se fodam todos os hipócritas que não vêem isso! Que morram! Faço o meu trabalho e o meu trabalho é esse: contar as histórias que todos querem que eu conte. As histórias que a polícia quer quer eu conte, as histórias que o filho-da-puta do Beto quer que eu conte, as história que o público ignorante quer ler. Só isso. É tudo um interesse de merda! Os anunciantes estão pagando por essa merda, os leitores pagam por essa merda… E até você está nessa história por causa de toda essa merda!”

E chamá-lo obsceno é não compreendê-lo. Considerá-lo impudico é não ter tato o bastante para perceber o que nele há de peremptório no que tange a abordagem temática. O livro de Luiz Biajoni é, de longe, um romance de ruptura. Não é pop, mas rock. Não é a ducha limpa que você toma quando chega em casa, e sim a lama que um carro em alta velocidade lança sobre a barra da sua alva calça limpa. Leia o livro, sinta os espasmos no cenho, ódio – que seja. Nada melhor que umas boas doses de verdade crua para fazer com que nos sintamos vivos.

***

E só para constar: Sexo Anal foi lançado em 2005 e, até hoje, nenhuma editora brasileira que se preze se dispôs a publicá-lo. Isso mostra bem como o mercado editorial deste país é estúpido, não publicando a maior parte dos trabalhos que não seja produzida acima da linha do equador. O “país do futuro” me dá vergonha. O livro está disponível para download, em formato PDF, no blog do autor. 

A vida, o universo e tudo o mais

 “Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega do Braço Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos por cima, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo, e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.”

D.A.

É um bom começo

Acho que comecei mesmo bem o ano – pelo menos no tangente a literatura. Não vou citar outra vez os estrangeiros e famosos e clássicos e tal que tenho obrigação de ler; cito, sim, dois brasileiros: Luiz Biajoni e Daniel Galera. Terminei há uns dois dias a leitura de “Sexo Anal”, do Luiz, e postarei as minhas impressões no final de semana, com mais tempo para escrever, enfim (o livro está disponível para download no blog do autor). E comecei ontem a leitura de “Dentes Guardados”, do Galera, que é excelente, mesmo (igualmente disponível no blog). Quando estiver findada a leitura, escrevo a respeito.

Ao Vencedor, as Batatas

Citei Machado de Assis num post anterior, o que me fez lembrar de Quincas Borba, que, creio, é sua melhor obra. A teoria Humanitas, a idéia de que não há morte:

 — Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)

“A guerra é a conservação”, diz Machado; “Guerra é paz”, Diz George Orwell. Apesar da aparente concordância entre os autores, Quincas Borba é um livro impregnado de pessimismo e rabugice – assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas -, enquanto que 1984 de Orwell não: aqui o que há é um realismo assustador, quase imponderável, que nos faz pensar “esse livro é sobre nossos dias”. Quanto às batatas, quem as herdará?

O Lobo da Estepe e eu

A leitura desenvolve em nós desejos infames. É natural que uma criança, quando absorta num conto de fadas, imagine-se na história, rodando e rodando nos carrocéis da imaginação. Mas agora, eu, aos 24 anos, lendo O Lobo da Estepe, querer ser Harry Haller já é demais. Se bem que é um estilo sedutor de vida: não trabalhar, viver só, num quarto alugado, lendo, escrevendo, fumando e tomando vinho tinto italiano. É por isso que eu amo a literatura. Coisas tão…feéricas.

Books of year

Vou tentar listar os livros que lí em 2006. É bem provável que eu esqueça de citar alguns, mas vale a intenção – sem pieguice:

  • Salambô, Flaubert;
  • Leviatã, Hobbes;
  • A República, Platão;
  • A Ilha, Huxley;
  • O Documento R, Wallace;
  • Intenções, Wilde;
  • O que é Semiótica, Santaella;
  • O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão, Walter Benjamin;
  • Furacão Sobre Cuba, Sartre;
  • Tristessa, Kerouac;
  • Sidarta, Hesse;
  • Felicidade, Hesse;
  • O Elogio ao Ócio, Russel;
  • 1984, Orwell;
  • A Revolução dos Bichos, Orwell;
  • O Sol também se Levanta, Hemmingway;
  • Macbeth, Shakespeare;
  • O Óbvio Ululante, Nelson Rodrigues;
  • Cândido, Voltaire;
  • Sonhos de Bunker Hill, Fante;
  • Preacher, Ennis;
  • Reconhecimento de Padrões, Gibson;
  • Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams;
  • Prosa, Manuel Bandeira;
  • A Sangue Frio, Capote;
  • Um Amor de Swann, Proust (Ainda lendo).

Claro que aqui não entram aqueles que não terminei de ler. Os que lí para a faculdade, óbvios demais. E também não posto aqui aqueles que esqueci, claro. Quando lembrar d’outros, faço uma atualização. Todos os supracitados foram lidos, não necessariamente na ordem em que aparecem.

Desejo-lhes vinho, champanha e literatura. E um bom fim.

Quanta fealdade

Como tem gente que gosta de ditar o que os outros devem fazer. Nada mais deselegante. Eu nunca lí um livro de auto-ajuda em minha vida. Nunca. Sou o tipo de pessoa que julga, sim, o livro pela capa e, mais, pelo autor. Se percebo algo tentando conduzir minha vida de algum outro modo que não seja o meu, dou-lhe as costas. Há quem me chame chato. Não ligo. Acabo de ler sobre o lançamento de Nunca se Case Antes dos 30, de Heverton Anunciação:

“Herveton chegou a essa conclusão depois de analisar dados estatísticos e entrevistar diversas pessoas em 24 metrópoles mundiais. “Sempre quis entender o amor, a família e quero passar isso para as outras pessoas”(…)”

E me pergunto: as pessoas não deveriam viver a sua vida do modo como acham melhor? No entanto – reflito – talvez há quem ache agradável viver d’acordo com livros de auto-ajuda. E eu só posso dizer “que pena”. Não se pode fazer muito a respeito. Quanto a mim, declaro, resoluto, jamais escrever um livro desses.

Não me levem a mal

Se bebo, é pela literatura que o faço. Nada mais.

Broken Vows

Essa época sempre me remete  ao último filme de John Huston, The Dead, adaptação de um conto homônimo de James Joyce, do livro Dubliners. O poema abaixo é lido por uma personagem (Mr. Grace) durante a ceia de fim de ano. É a beleza transfigurada em melancolia:

“Era tarde a noite passada
O cão falava de você
O pássaro cantava no pântano
Falava de você
Você é o pássaro solitário na floresta
Que você fique sem companhia até achar-me
Você prometeu e mentiu
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados
Eu assoviei e gritei cem vezes
E não achei nada lá
A não ser uma ovelha balindo
Prometeu-me algo difícil
Um navio de ouro sob um mastro prateado
Doze cidades e um mercado em todas elas
E uma branca e bela praça à beira mar
Você prometeu algo impossível
Que me daria luvas de pele de peixe
E sapatos de pele de ave
E roupa da melhor seda da Irlanda
Minha mãe disse para eu não falar com você
Nem hoje
Nem amanhã
Nem Domingo
Foi um mal momento para dizer-me isso
Como trancar a porta após a casa arrombada
Você tirou o Leste de mim
Tirou o Oeste de mim
Tirou o que existe à minha frente
Tirou o que há atrás
Tirou a Lua
Tirou o Sol de mim
E o meu medo é grande
Você tirou Deus de mim”

O filme é de 1987. Não deve ser fácil de encontrar, mas eu tenho uma cópia em VHS. Ganhei de um antigo professor de Literatura, há uns sete anos. É perfeito:

Ensina-me a sentir o sofrimento de outros,
A esconder os defeitos que eu perceber;

Que eu possa ter piedade por todos
Que por mim também demonstrem piedade.”

Bom, feliz Natal.

A decadência da mentira

“Por mais paradoxal que seja – e os paradoxos são sempre perigosos -, a verdade é que a vida imita muito mais a arte do que a arte imita a vida. Basta que um grande artista invente um tipo para que a vida tente copiá-lo e reproduzi-lo em sua forma popular, como faria um editor de iniciativa”. [Vivian, em “A Decadência da Mentira” (1891)]

 Da minha edição de 1911 de Intenções, livro de ensaios de Oscar Wilde,  herdado de um amigo.

Un amour de Swann

“E a doença que era o amor de Swann se havia multiplicado tanto, estava tão estreitamente emaranhada a todos os seus hábitos, a todos os seus atos, a seu pensamento, sua saúde, seu sono, sua vida, até mesmo àquilo que desejava para depois de sua morte, formava com ele então praticamente um todo, que não se poderia arrancá-la dele sem destruí-lo quase por inteiro: como se diz em cirurgia, seu amor não era mais operável.”

Um amor de Swann é a segunda parte de No Caminho de Swann, um dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, romance magno de Marcel Proust, o canceriano. Por não depender do restante da obra, ou seja, por ser autônomo, Um Amor de Swann tem sido editado em separado. E é o meu presente de natal: from me to myself.

Woody Allen tinha razão

Sabem, é engraçado. Quando chego em casa tarde da noite, fico pensando no que é a vida. E sei, ela não passa de uma historinha que o Wood contou em 1977:

“É uma antiga piada: duas velhinhas em um hotel fazenda. Uma diz: ‘a comida aqui é um horror’. A outra diz: ‘eu sei, porções minúsculas’. É assim que eu vejo a vida: cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”.

É, não passa disso.

(Sei que serei repreendido por ser pessimista. Mas, a essa hora, quem liga?)

Mr. Mahaffy

Foi ele quem nos ensinou que, em sociedade, cada homem e mulher civilizados devem encarar como um dever a tarefa de dizer alguma coisa, mesmo nos momentos em que pronunciar qualquer palavra pareça ser uma missão das mais difíceis. Noutras palavras, nem sempre é melhor ficar calado.

Minhas  sinceras condolências à família e amigos do Gabriel, que tão cedo deixou este mundo. Não o conhecia, mas isso não importa agora.

“ O casamento nos dá ensejo a grandes excitações coletivas: se conseguíssemos suprimir o complexo de Édipo e o casamento, o que nos restaria para contar?” (Barthes)

Vidas Paralelas – Cinco Casamentos Vitorianos, livro de Phyllis Rose, professora de literatura inglesa da Wesleyan University, vale não pela autora, mas pelos autores nele retratados. Em seu livro, ela busca retirar lições sobre casamento (ou relações de união, etc) analisando as relações de cinco escritores ingleses da era Vitoriana: John Stuart Mill, John Ruskin, Thomas Carlyle, Charles Dickens e George Eliot. Quando lí esse livro, algo, no começo, me cansou:  a linguagem e o modo como Phyllis quis contar as histórias. Como posso explicar? Ela pretendia contar sobre a vida de cada escritor e, ao mesmo tempo, escrever uma novela. Quis biografá-los sem fazer biografia. E isso, em literatura, não funciona. Um livro é o que é. E Vidas Paralelas é um livro de biografias – gênero que particularmente detesto – que vale por passagens como essa, em que Stuart Mill renuncia aos direitos que lhe caberiam após o casamento: 

Estando a ponto, se tiver a felicidade de obter sua concordância, de ingressar na relação matrimonial com a única mulher que jamais conheci com quem aceitaria entrar nesse estado; e uma vez que o caráter do casamento tal como constutuído pela lei é tal que tanto eu como ela o rejeitamos, total e conscientemente, pela razão, entre outras, de conferir a uma das partes do contrato, poder e controle legal sobre a pessoa, a propriedade e a liberdade de ação da outra parte, independentemente de seus desejos e de sua vontade; eu, não dispondo de meios de despojar-me legalmente desses poderes odiosos…creio ser minha obrigação lavrar registro de um protesto formal contra a lei existente do casamento, na medida em que ela confere tais poderes; e de uma promessa solene de nunca, em caso algum ou em quaisquer cinrcunstâncias, deles lançar mão. E, na eventualidade do casamento entre a Sra. Taylor e eu, declaro ser m,inha vontade e intenção, e a condição do compromisso entre nós, que ela conserve em todos os aspectos a mesma absoluta liberdade para dispor de si mesma e de tudo que lhe pertença ou possa vir a pertencer-lhe em qualquer tempo, que teria se esse casamento não tivesse ocorrido; e renuncio terminantemente a qualquer pretensão, além de repudiá-la, a ter adquirido quaisquer direitos em virtude de tal casamento.

Suponhamos que eu acredite que os homens do século XIX – escritores ou não – fossem realmente assim. (Cá entre nós: uma carta como a supracitada tem mais efeito que “você é a minha princesa reluzente” ou “lhe amarei eternamente”.) Psicologia reversa, amigo.

Últimos Suspiros: “Deixem-me morrer em paz!”, disse Voltaire. E empacotou.

Remexendo aqui nas minhas papeladas, encontrei um número da já extinta revista Bundas, mais especificamente a número 21, de novembro de 1999. Lembrei-me imediatamente de um ótimo texto de Sérgio Augusto sobre os últimos suspiros de gente famosa, nela publicado. Não sei se se o encontra por aí, então reproduzo-o aqui, digitado, letra por letra:

Pé na cova

Nunca fui de colecionar objetos de forma obsessiva e sistemática. Ao contrário da maioria dos meus colegas de infância e adolescência, não me rendi à tentação de juntar, com desvelo, flâmulas, postais, estampas Eucalol, selos, moedas e caixas de fósforo. Guardei, sim, um monte de gibis, revistas e recortes, preferindo investir meu tempo e minha energia em algo que, se bem praticado, pode ser, segundo Walter Benjamin, uma arte: fazer anotações. Escrever é fácil, difícil é fazer anotações. (Esta eu anotei de memória, saindo quentinha da boca do Ivan Lessa.) Se vício de jornalista, não sei, pode ser. O fato é que, desde a mais tenra idade, eu anoto. Não tudo, mas um bocado de um bocado de coisas, que mais cedo ou mais tarde eu acabo compartilhando com vocês. Hoje, por exemplo, vou compartilhar com vocês a minha coletânea de últimos suspiros. Sim, eu poderia ter escolhido outro tema – as grandes gafes da história, as mais hilariantes mancadas do cinema, da ciência e da locução esportiva, as mais ridículas rimas da poesia, os mais fulminates passa-foras de todos os tempos, as primeiras e últimas frases  mais brilhantes da literatura, os trechos mais pernósticos e obscuros da sociologia e da teoria literária, as mais estapafúrdias desculpas de gente famosa para não tomar banho todo dia, etc. – mas, em homenagem a finados, optei pelas derradeiras palavras comprovadamente pronunciadas por figuras famosas em seu leito de morte.

Por ordem de entrada em cena, ou melhor, de saída de cena, Sócrates é o primeiro da lista. Ao abrochar a clâmide (naquele tempo, 399 a.c., não se abotoava o paletó ainda), ele disse a Crito: “Eu devo um galo e Esclépio; você vai se lembrar da dívida?”. Tamanha insipidez só ganhou posteridade por ser antiquíssima e socrática. Sabe-se que Platão morreu (em 347, a.C.) agradecendo ter nascido homem, grego e no século de Péricles, mas ninguém anotou sua lapidar despedida, se é que de fato foi lapidar. Tão lapidar quanto a de Nero (68 d.C.): “Que grande artista morre dentro de mim!”. Também há controvérsias sobre as últimas palavras de Rabelais (1553). Uns dizem que foi “Estou indo para o grande talvez”. Prefiro a outra: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

Rosseau e Voltaire morreram n0 mesmo ano (1778). O primeiro despediu-se mais, digamos, pomposamete (“Vou ver o por do sol pela última vez”) do que o segundo (“Me deixem morrer em paz”). Mas não tanto quanto Diderot, que ao bater as botas, seis anos depois, parecia estar no meio de uma conferência e não com o pé na cova. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, pontificou o enciclopedista, e em seguida apagou. Dos poetas ingleses do século XIX, nenhum, nem mesmo o exuberante Byron, esticou as canelas tão teatralmente quanto o tuberculoso John Keats (1821). Nos braços do pintor Joseph Severn, ouvindo uma sonata de Brahms, balbuciou: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim.” Byron apenas anunciou, em 1824, que ia ou tinha de dormir – e nunca mais acordou.

A despedida de Goethe (1832), citada a torto e a direito, talvez seja a mais célebre de todas: “Mais luz!”, pediu ele, súplica que o escritor americano O. Henry repetiria 78 anos depois: “Ascendam as luzes! Eu não quero ir pra casa no escuro.” Outro alemão, Hegel, que desencarnou um ano antes de Goethe, também deu um show, sobretudo de niilismo: “Só um homem conseguiu me entender… e ele não me entendeu direito”. Não foi menos incrédulo que o farewell, de James Joyce (1941): “Será que ninguém me entende?” – se é que eu entendi o sentido da frase original: “Does nobody understand?”

Em matéria de desespero, raros defuntaram como Edgar Allan poe (1849), segundo alguns, implorando que Deus tivese pena de sua “pobre alma”, e, segundo outros, rogando a um amiogo que lhe estourasse os miolos com uma pistola. O escritor Hector Hugh Munro, vulgo Saki, nem precisou implorar por um tiro, já que morreu do balaço de um franco-atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Suas últimas palavras? “Apague a porcaria desse cigarro”. O franco-atitador estava fumando, na escuridão da noite.

O historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle (1881) desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora…” – e mais não disse. Algo parecido murmurou Henry James antes de bafuntar, em 1916: “Então é isso, enfim, as coisas distintas…”. T.T. Barnum, o mais célebre dono de circos e mafuás do mundo, nem se deu conta de que estava prestes a bater o prego. Numa noite de 1891, perguntou: “Como foia a venda de ingressos hoje no Madison square Garden?”, e entregou sua alma a Deus. Oscar Wilde provou até o fim (1900) que era um frasista de gênio: pediu champanhe, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e empacotou. Tolstoi (1910) expirou perguntando sobre como morriam os camponeses e D.H. Lawrence (1930) dizendo para a enfermeira que estava se sentindo melhor. Bernard Shaw (1950) não se deixou enganar e sobre a enfermeira que dele cuidava despejou a seguinte imprecação: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Estava mesmo.

José Veríssimo, um dos seis amigos que acompanharam os últimos minutos de Machado de Assis (1908), jura que o bruxo do cosme velho comentou que “a vida é boa” antes de dar seu último suspiro. Por muito tempo pensei que Graciliano Ramos (1953) tivesse ido desta pra melhor passando a mão no rosto de sua mulher, Heloísa, e murmurando “Mamãezinha”, mas um recém biógrafo assegura que suas derradeiras palavras foram “Estou acabado”. Sérgio Porto (1968) apagou pedindo à empregada de sua mãe que não olhasse pra ele, prova de que nem todo humorista morre fazendo piada. José do Patrocínio Filho era um tremendo gozador e nem quando esticou o pernil, em 1929, franziu o cenho. Condenado pelos médicos a tomar leite humano, pois mais nada o apetecia, à primeira demonstração de dificuldade da enfermeira para por numa colherzinha o leite extraído dos alvos e belos seios de uma ama-seca, Zeca abriu um olho e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?” – e nem sequer para mamar abriu mais a boca.

Blasfêmias Oficiais

Não sei bem onde começou, mas lembro-me de ter lido algo do tipo num blog americano, que também não sei qual. Mas isso não interessa. O negócio é que o assunto chegou por aqui. Lí primeiro no blog no Cleber, e agora o meme me foi passado pela Evelyn, de cujos textos gosto muito. É simples: devo escolher três escritores que, por uma razão ou outra, desisti de ler. É blasfêmia na certa, mas é aí que reside o quê da coisa toda. À questão:

  • Graciliano Ramos: Por Deus, eu não consigo ler o alagoano por nada neste mundo. Meus ex-professores me excomungariam, eu sei. Assim como há muitos aí fascinados por Vidas Secas e Angústia – duas de suas principais obras – que, se pudessem, armariam-me um cerco numa esquina escura. Tentei ler quando cursava o Ensino Médio, tentei ler para a ocasião em que prestei vestibular, e nada. Meus motivos para não conseguir lê-lo não são nada especiais. Em verdade, digo que acho um porre, digo, uma chatice seus livros, sua linguagem, seu estilo. Ah, também detesto seus neologismos. Já cansou.
  • D. H. Lawrence: Eu sei, sei que esta é uma blasfêmia das grandes, uma heresia, quase. Mas o que vale é a veracidade dos depoimentos preconceituosos. Sempre lí literatura inglesa; gosto da pompa, dos trejeitos, da língua. Mas Lawrence eu não consegui. Tenho em minha estante um exemplar de Women in Love – que é considerado seu romance mais importante – que já tentei ler umas duzentas vezes. Não dá. Este romance despertou em mim o preconceito por toda a sua respeitadíssima obra, de modo que nem perdi meu tempo tentando ler Lady Chatterley’s Lover.
  • Vladimir Nabokov: Okay, confesso que amo Lolita. Sou homem e, no fundo, tenho algum instinto primitivo que não me permite qualquer aversão ao tema que Vladimir abordou. Ví os filmes, reagi às imagens e comprei o livro. Tentei, tentei, tentei. Mas não passei da metade. Não tenho certeza se foi culpa da linguagem ou da tradução. Não gostei do rítimo. Não gostei da estrutura. E também não me agradam livros estilo diário, e Lolita tem um pouco disso. Gosto de Lolita (s), mas desisti do autor.

É isso. Repasso o meme à amiga Mariana, à Fernanda,  à Tina, à Alessandra, ao Lino e à Caroline.

O elogio ao ócio

             “Acho que as pessoas trabalham demais hoje em dia”, frase dita pela primeira vez em 1935 pelo filósofo Betrand Russel, traduz perfeitamente o meu sentimento em relação às sociedades contemporâneas, ditas civilizadas. À medida que o homem deixou de trabalhar para viver e passou a viver para trabalhar, houve uma queda exorbitanete da capacidade criativa do indivíduo, que, hoje, não é mais livre para fazer coisas de que realmente goste. Por que isso acontece? Imagino a obviedade desta resposta, nos dias de hoje. O modelo político regente é como uma bota sobre as nossas cabeças. Mas não é meu desígnio, aqui, fazer bravata contra um ou outro modelo de Estado, tampouco idealizar uma política libertária, que nos vá amparar.

            O ócio atualmente é visto com maus olhos, como vadiação, mediocridade e, principalmente, como sinal de miséria. Esquece-se, porém, da importância da despreocupação e da diversão na educação de um jovem, por exemplo, ou de como o ócio foi (e é ) essencial à literatura e à filosofia. Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos. Aqui, gostaria de ressaltar um ponto crucial ao entendimento do meu texto. Quando os pensadores gregos, após anos de dedicação, finalmente conceberam suas obras, eles pensavam em angariar algum tipo de lucro? Não. Esse pensamento de que de que o trabalho lucrativo é o principal objetivo da vida é um erro, e Russel nos alerta sobre isso: 

A idéia de que as atividades desejáveis são aqueleas que dão lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas.           

E ainda: 

O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empresgos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho.O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo (…). Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida. 

            Esta visão não tem o objetivo utópico de eliminar o trabalho, mas fazer pensar uma reestruturação, baseada nas possibilidades abertas pelos modernos métodos de produção. O “conhecimento inútil” é o objetivo do ócio, e mais pessoas deveriam ter a chance de praticá-lo. Diz a história: o viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, em Nápoles, disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada.

Godard Literato

Estive ontem na abertura da I Mostra de Cinema da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Em palestra, o psicólogo, cineasta e doutorando em literatura comparada Mário Alves Coutinho disse que em sua tese pretende provar que Jean Luc Godard, o polêmico cineasta francês, conseguiu com sua obra produzir, concomitantemente, cinema e literatura. Voíla.

*

A capa da Piauí n°2:

*

E vocês já conhecem o Universo Anárquico?

Pergunte ao Pó

“Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (…) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O livro era Pergunte ao Pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.

Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao Pó. Ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita porque foi minha primeira descoberta da mágica.”
Charles Bukowski – 5/6/1979
 

O Amor é uma Falácia – Leitura para o final de semana.

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.

Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito,  Compreendam, mas sem nada lá
em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Pettey, no entanto, não pensava assim.

      Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.

– Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.

– Marmota – balbuciou ele.

– Marmota? – disse eu, interrompendo a minha corrida.

– Quero um casaco de pele de marmota – disse.

Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.

– Por que você quer um casaco de pele de marmota?

– Eu devia ter adivinhado – gritou ele, socando a cabeça – Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar um casaco de pele de marmota!

– Quer dizer – perguntei incrédulo – que estão mesmo usando Casacos de pele de marmota outra vez?

– Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?

– Na biblioteca – respondi, citando um lugar não freqüentado pelas pessoas importantes da Universidade.

Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

– Preciso conseguir um casaco de pele de marmota- disse, exaltado – Preciso mesmo.

– Por que, Pettey? Veja a coisa racionalmente. Casacos de pele de marmota são anti-higiênicos, são pesados, são feios, são …

– Você não compreende – interrompeu ele com impaciência – é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?

– Não – respondi, sinceramente.

– Pois eu sim – declarou ele – daria tudo para ter um casaco de pele de marmota. Tudo.

Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.

– Tudo? – perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.

– Tudo – confirmou ele, em tom dramático.

Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar um casaco de pele de marmota. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um baú, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.

Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.

Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.

Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.

Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa – um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho – sem nem sequer umedecer os dedos.

Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.

– Petey – perguntei – você ama Polly Spy?

– Eu acho que ela é interessante – respondeu – mas não sei se chamaria isso de amor. Por que?

– Você – continuei – tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?

– Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por que?

– Existe alguém – perguntei – algum outro homem que ela goste de maneira especial?

– Que eu saiba não. Por que?

Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.

– Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?

– Acho que sim. Aonde você quer chegar?

– Nada, anda – respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.

– Onde é que você vai? – quis saber Pettey.

– Passar o fim de semana em casa.

Atirei algumas roupas dentro da mala.

– Escute – disse Pettey, apegando-se com força ao meu braço – em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar um casaco de pele de marmota?

– Posso até fazer mais do que isso – respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.

– Olhe – disse a Pettey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.

– Santo Pai – exclamou Pettey com reverência. Passou as mãos no casaco e depois no rosto.

– Santo Pai – repetiu, umas quinze ou vinte vezes.

– Você gostaria de ficar com ele? – perguntei.

– Sim – gritou ele, apertando a coisa contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. – O que quer em troca?

– A sua namorada – disse eu, não desperdiçando palavras.

– Polly? – sussurrou Pettey, horrorizado. – Você quer a Polly?

– Isso mesmo.

Ele jogou a jaqueta pra longe.

– Nunca – declarou resoluto.

Dei de ombros.

– Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.

Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Pettey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido
em dois. Primeiro olhava para o casaco com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para o casaco. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para o casaco com pura lascívia.

– Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly – balbuciou. – Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.

– Isso mesmo – murmurei.

– Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?

– Nada – respondi.

– Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.

– Experimente – disse eu.

Ele obedeceu. O casaco caía até os pés. Ele parecia um monte de marmotas mortas

– Serve perfeitamente – disse, contente.

Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.

– Negócio feito?

Ele engoliu a seco.

– Feito – disse, e apertou a minha mão.

Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.

O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.

– Puxa, que jantar bacana! – disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.

– Puxa, que filme bacana! – disse ela, quando saímos do cinema.

Levei-a para casa.

– Puxa, foi um programa bacana! – disse ela, ao nos despedirmos.

Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Pettey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.

Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.

– Polly – disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. – Esta noite vamos até o parque conversar.

– Ah, que bacana! – respondeu ela.

Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.

Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.

– Sobre o que vamos conversar? – perguntou.

– Sobre Lógica.

Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:

– bacana!

– A Lógica – comecei, limpando a garganta – é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.

– bacana! – exclamou ela, batendo palmas de alegria.

Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.

– Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.

– Vamos – animou-se ela, piscando os olhos com animação.

Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.

– Eu estou de acordo – disse Polly, fervorosamente. – Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.

– Polly – disse eu, com ternura – o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?

– Não – confessou ela. – Mas isso é bacana. Quero mais. Quero mais!

– Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa – disse eu e, quando ela parou, continuei:

– Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.

– É mesmo? – espantou-se Polly. – Ninguém?

Contive a minha impaciência.

– É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.

– Você conhece outras falácias? – perguntou ela, animada. – Isto é até melhor do que dançar.

– Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.

– A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.

– Eu conheço uma pessoa exatamente assim – exclamou Polly. – Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique…

– Polly – interrompi, com energia – é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo
em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.

– Nunca mais farei isso – prometeu ela, constrangida. – Você está brabo comigo?

– Não Polly – suspirei. – Não estou brabo.

– Então conte outra falácia.

– Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.– Vamos – exclamou ela alegremente.

Franzi a testa, mas continuei.

– Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?

– É claro – respondeu ela imediatamente.

– Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.

– É mesmo – disse ela, pensativa. – Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.

– Mas ele pode fazer tudo – lembrei-lhe.

Ela coçou a cabeça linda e vazia.

– Estou confusa – admitiu.

– É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?

– Conte outra dessas histórias bacanas – disse Polly, entusiasmada.

Consultei o relógio.

– Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.

Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente bacana, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.

Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.

Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:

– Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.

Ela estremeceu de emoção.

– Ouça com atenção – comecei – Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.

Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.

– Isso é horrível, horrível! – soluçou.

– É horrível – concordei – mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?

Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.

– A seguir – disse, controlando o tom da voz – discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

– Pois olhe – disse ela entusiasmada – está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.

– Polly – disse eu com impaciência – o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.

– Continuo achando a idéia interessante – disse Polly.

– Santo Cristo! – murmurei, com impaciência.

– A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.

– Essa parece ser boa – foi a reação de Polly.

– Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.

– É mesmo, é mesmo – concordou Polly, sacudindo a cabeça. – Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.

– Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos – disse eu, friamente – gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.

– Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes – disse Polly – Eu quase não vejo ele no cinema.

Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.

– A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.

– Que engraçadinho! – deliciou-se Polly.

– Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?

Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência – o primeiro que vira – surgiu nos seus olhos.

– Não é justo! – disse ela com indignação – Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar… Polly, estou orgulhoso de você.

– Ora – murmurou ela, ruborizando de prazer.

– Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.

– Vamos lá – disse ela, com um abano distraído da mão.

Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.

Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.

Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.

– Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore – hoje não falaremos de falácias.

– Puxa! – disse ela, desapontada.

– Minha querida – prossegui, favorecendo-a com um sorriso – hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.

Generalização apressada – exclamou ela, alegremente.

– Perdão – disse eu.

Generalização apressada – repetiu ela. – Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?

Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.

– Minha querida – disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão – cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.

Falsa Analogia – disse Polly prontamente – eu não sou um bolo, sou uma pessoa.

Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.

– Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.

Pronto, pensei; está liquidado o assunto.

Ad misericordiam – disse Polly.

Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.

– Bem, Polly – disse, forçando um sorriso – não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.

– Aprendi mesmo – respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.

– E quem foi que ensinou a você, Polly?

– Foi você.

– Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.

Hipótese Contrária ao Fato – disse ela sem pestanejar.

Enxuguei o suor do rosto.

– Polly – insisti, com voz rouca – você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.

Dicto Simpliciter – brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.

Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.

– Você vai ou não vai me namorar?

– Não vou – respondeu ela.

– Por que não? – exigi.

– Porque hoje à tarde eu prometi a Pettey Bellows que eu seria a namorada dele.

Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!

– Aquele rato! – gritei, chutando a grama. – Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.

Envenenar o poço – disse Polly – E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.

Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.

– Muito bem – disse – você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Pettey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Pettey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Pettey Bellows?

– Posso sim – declarou Polly – Ele tem um casaco de pele de marmota.

 

Max Shulman

 

O Óbvio Ululante

Já disse que estou lendo o Óbvio Ululante, de Nelson Rodrigues. Estou me esbaldando. A crônica que lí ontem, indo pra casa tarde da noite, é uma que fala de como os idiotas estão dominando o mundo. Há um trecho em que ele cita Mao Tse – ” Se a bomba atômica matar 400 bilhões de chineses, ainda sobrarão outros 400 bilhões”, ou algo assim – e comenta: “Com um piparote, o idiota mata metade da sua nação e ninguém diz nada. Coisa normal matar 400 bilhões de pessoas. Estranho mundo idiota.” Que ele chamou Mao Tse de idiota, não é necessário ser dito. Mas e no Brasil? E quanto à idiotice dominante neste país? Quem é mais idiota? O Governo ou o povo que o elege?