Archive for the ‘jornalismo in Ótica’ Category

Na aula de jornalismo

“Ser idiota é a nossa especialidade.”

Do que eu não gosto em um texto jornalístico

Não gosto de tanta objetividade, não gosto do lead clássico. Onde está o drama? E por que eu, achando um acontecimento terrível, não posso chamá-lo terrível? Vou dizer: até entendo a tentativa do jornalista de ser imparcial, passivo de opinião própria – que os leitores somente e tão somente possam achar o que quiserem da notícia. Mas nesse ponto sinto um certo conflito de ideologias: se o jornalista deve informar com fidelidade os fatos, e se tais fatos são sim terríveis, por que não dizê-los logo terríveis? Mas divago. O que eu quero dizer é que gosto do nariz de cera. Gosto das introduções literárias, tão comuns nos jornais de há alguns anos – era tão mais viva a coisa toda, mais humana e sincera e tal. Jornalistas que precisam se ater às suas regrinhas tão chatinhas (quase todos) são todos iguais. Apenas uma minoria consegue desenvolver algum estilo peculiar mesmo presa aos grilhões da profissão. E por isso os colunistas são tão lidos; a classificação de opinativa dada às colunas dos jornais quer dizer que elas não possuem classificação – a não ser os setoristas, que só sabem sobre o que sabem. Para ter uma idéia do tipo de jornalista a que me refiro, pensem em Nelson Rodrigues, Paulo Francis. Estes e alguns outros poucos são (ou eram) jornalistas que valem mesmo a pena serem lidos.

Sobre editorias

Leio cultura, cidade e política, principalmente. Cultura porque – e isso deve ser óbvio – o assunto me atrai, geralmente. Também gosto da linguagem que, certamente, é direcionada ao leitor mais instruído. Contudo, acho que os cadernos de cultura deveriam ser maiores, digo, deveriam conter mais textos. E as fotos deveriam ser menores. Leio política por considerar um dever. Passei pela fase em que eu achava tedioso e leio sempre, se não em jornal impresso, em sites. E aqui muito me chama a atenção o cuidado que os jornalistas têm em relação à linguagem, à abordagem e tal. Incrível como independência é uma qualidade (e um requisito) cada vez mais escassa nos jornais do país, ainda que se afirme o contrário. Mas leio, é bom saber dos assuntos que envolvem os governantes, ainda que pela metade. Sun Tzu é que tinha razão: é preciso conhecer o inimigo.

Das editorias que leio, cidades é a que leio menos. Minha própria cidade não é um assunto que faça parte das minhas prioridades no que tange a informação, digo sinceramente. E sei, sei que essa não é uma conduta aconselhável para quem quer que queira se tornar um jornalista, mas eu não disse que não leio. Leio, mas não muito. Não leio esportes, automóveis e economia. Sobre esportes, francamente, eu nem tenho muito que dizer. Tenho uma só palavra para aquelas páginas preenchidas com fotos de jogadores que não conheço e aqueles textos cheios de jargões tão pobres: asco.

Olha, o caderno de automóveis eu nem abro. Acho bonito, acho bacana, mas há o que ler? Não são só fotos? Não sei. Já economia eu gostaria muito de ler. É como um dever que, ainda, não consigo cumprir. Mas esse é um caso temporário. Não leio porque não entendo bem os gráficos todos, os termos, essas coisas. Mas ler e entender o caderno de economia é uma meta.

Quanto ao fato de alguns cadernos como cultura e economia estarem perdendo espaço nos tablóides populares de Belo Horizonte: bom, acho mesmo que faz total sentido tal fenômeno. Um sentido péssimo, diga-se. Jornais como o “Aqui” e o “Super” são direcionados a classes menos privilegiadas e para pessoas – e aqui não importa a classe – que têm preguiça de ir a uma banca e comprar um jornal decente. Entendo que não haja caderno de cultura nos jornais populares, pois a maior parte dessa gente não se interessa por cultura, tampouco economia. Ainda que pobreza não justifique falta de intelecto. Uma amiga disse que as pessoas estão lendo mais; se isso é assim tão bom eu não sei. E creio ser desnecessário dizer que eu acho o fato um disparate. É sabido que as empresas que produzem tais tablóides lucram, e muito, com o número exorbitante de vendas, mas, ora, os jornais não deveriam estar a serviço do leitor? Não seria esse um jornalismo de desinformação?

07.02.07

Clodovil chamou Chinaglia de mal-educado, como se todos no plenário fossem educadíssimos e letrados.

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Na China já estão à venda balões em formato de porcos rosas em homenagem ao ano do suíno, que começa no dia 18. Agora você entende porque no Brasil vendê-se balões de todos os formatos, de todos os bichos.

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E outro pacote-bomba explodiu na Grã-Betanha. Que medo do PAC.

ONU (óbvio, nações unidas)

Leio que a ONU está culpando o homem pelas mudanças no clima, o efeito estufa, essas coisas. Quanta novidade! É como se minha mãe me culpasse pelo derretimento da margarina que deixei fora da geladeira.

Capitain Bauer (e outras considerações)

 

Acir Galvão, um amigo dos tempos em que atravessávamos noites desenhando ao som d’alguma banda grunge década de 90 – sim, tive essa fase -, tornou-se um grande artista. Enquanto o caminho que tomei foi o das letras e do jornalismo, ele tornou-se design e, hoje, estuda Belas Artes, fazendo cada vez melhor o que sempre soube fazer. O que eu queria dizer é o seguinte: ele tem uma teoria – posso dizer teoria? – de que o Capitão América contemporâneo é o Jack Bauer, o herói da cultuada série 24 Horas. Ele explica:

“O Capitão America de hoje não é o Steve Roger: É o Jack Bauer.O Capitão America foi criado não apenas para incentivar adolescentes a se alistarem, Mulher Maravilha não foi criada apenas para levar mulheres às industrias em tempos de guerra e incitar orgulho por parte de seus maridos e filhos que morreram lutando pelo estilo de vida americano. Eles existiram, ACIMA DE TUDO, para ensinar as CRIANÇAS e ADOLESCENTES os conceitos de uma AMÉRICA VITORIOSA contra a ameaça vermelha, mesmo que essa vitória sendo muito mais dos RUSSOS do que da própria América.

Hoje a América precisa justificar seus atos a partir  novos símbolos, novos heróis.Mostrando para os adolescentes e adultos de hoje as justificativas das medidas de retaliação extremas, invasões premeditadas, e outras medidas de precaução como a criação de armas letais em massa.Também estão preparando sua mente para aceitar mortes. Muitas mortes. Morte de pessoas aos montes, caindo como moscas, ainda que por um “bem maior”. Que é justamente o bem maior Deles.

Seria a ficção imitando a realidade?

Os Heróis são símbolos daquilo que é certo e direito. São ícones que, trabalhados de diversas formas, se utilizam de todos os arquétipos do consciente humano para se tornarem referência do conceito de certo e errado para nós mesmos.

Quando todo esse poder é utilizado de maneira irresponsável e egoísta, a crise se tornar algo incontrolável. É completamente possível e correto afirmar que o conceito de CERTO e ERRADO está muito distorcido hoje em dia. Também com heróis como os de hoje em dia, cada um defendendo um ponto de vista muito particular, simplesmente não dando a mínima para nada, não fico surpreso com esse tipo de resultado.Os heróis do novo século defendem a pena de morte. Defendem o roubo. Defendem o homossexualismo (nada contra, mas é um ponto de vista.) Os negros. Os brancos os asiáticos….

Eles deveriam defender o CERTO e o ERRADO:

MATAR é ERRADO, seja quem for. ROUBAR é ERRADO. PRECONCEITO é ERRADO. Ponto final.

Mas se o cara for um estuprador-assassino-ladrão-sonegador-de-imposto-filha-da-puta de marca maior? Se o ladrão estiver roubando para comer? E se o preconceito me defende das pessoas erradas?Os dias estão assim. Esses argumentos existem. E até mesmo os heróis da era de ouro mudaram seu ponto de vista em suas novas interpretações para o novo século. Até mesmo SUPERMAN matou dois caras no seu novo filme. E o pior:  a grande MAIORIA nem percebeu.

A colocação de Edsons Junior é muito correta e não vou me repetir aqui. A questão que fica no ar é:

Quem são os seus heróis? Quem são os heróis dos seus filhos?

É bom começarem a se perguntar isso, e a ver filmes e séries como algo que vai além do entretenimento. Porque é assim que se deve assistir.

E para finalizar sobre Jack BAUER:

Ele é um HERÓI que faz, sem hesitar, tudo aquilo que está ao SEU ALCANCE para salvar o dia, mas, diferente da AMÉRICA que ele tanto defende, ele não ganha ABSOLUTAMENTE NADA em troca… apenas se FODE e fica vivo para salvar mais um dia!”

Call the indians

Fausto Wolff no JB, ontem:

“(…) Países tecnicamente mais bem equipados do que nós estão sofrendo bem mais os estragos promovidos pelas súbitas mudanças atmosféricas. Entretanto, há muito estavam informados dessa possibilidade e montaram suas defesas. No Brasil, se os cientistas informaram ao governo, este não informou a imprensa, que não informou ao povo. Resultado: o Brasil enfrenta a maior catástrofe climática de sua história e nada foi feito para evitá-la. Sugiro que contratem índios – não os que têm muito contato com os urbanóides e correm o risco de serem incendiados – para vigiar à beira dos rios. Assim que a primeira cobra subir correndo numa árvore, é hora de remover as populações ribeirinhas para lugares mais seguros.”

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Feriado hoje em São Paulo. Sortudos.

Antifashion

Sabem o Mr. Manson, do cocadaboa.com? Pois é. Ele também foi convidado para “cobrir” o SPFW (…).

I hope that you choke

Amiga minha acaba de me contar que, não sei onde, meliantes abordaram uma mulher na rua e roubaram – pasmem – seu cabelo. É, cortaram o negócio. Aposto que eram cabelos dourados.

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Ah, leiam isso aqui. Diz tudo.

Je suis Blasé

Permitam que eu não fale do caso YouTube/ Cicarelli. Já cansou e, no fim das contas, não deu muita coisa mesmo. Já desbloquearam a coisa toda.

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Tempo tresloucado por aqui: sol do 5º inferno pela manhã e, agora, está para desabar o céu lá fora. Digo, muita chuva, no duro mesmo.

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E deixem eu indicar o blog do “jovem economista kantiano observa o mundo, dois parágrafos de cada vez.”

Quanta fealdade

Como tem gente que gosta de ditar o que os outros devem fazer. Nada mais deselegante. Eu nunca lí um livro de auto-ajuda em minha vida. Nunca. Sou o tipo de pessoa que julga, sim, o livro pela capa e, mais, pelo autor. Se percebo algo tentando conduzir minha vida de algum outro modo que não seja o meu, dou-lhe as costas. Há quem me chame chato. Não ligo. Acabo de ler sobre o lançamento de Nunca se Case Antes dos 30, de Heverton Anunciação:

“Herveton chegou a essa conclusão depois de analisar dados estatísticos e entrevistar diversas pessoas em 24 metrópoles mundiais. “Sempre quis entender o amor, a família e quero passar isso para as outras pessoas”(…)”

E me pergunto: as pessoas não deveriam viver a sua vida do modo como acham melhor? No entanto – reflito – talvez há quem ache agradável viver d’acordo com livros de auto-ajuda. E eu só posso dizer “que pena”. Não se pode fazer muito a respeito. Quanto a mim, declaro, resoluto, jamais escrever um livro desses.

O protesto dos protestantes

Depois falam que eu sou herege, francamente.

[Update] Carolaine, minha amiga dos trocadalhos do carilho, herr…“homenageou” nosso novo herói.

“ O casamento nos dá ensejo a grandes excitações coletivas: se conseguíssemos suprimir o complexo de Édipo e o casamento, o que nos restaria para contar?” (Barthes)

Vidas Paralelas – Cinco Casamentos Vitorianos, livro de Phyllis Rose, professora de literatura inglesa da Wesleyan University, vale não pela autora, mas pelos autores nele retratados. Em seu livro, ela busca retirar lições sobre casamento (ou relações de união, etc) analisando as relações de cinco escritores ingleses da era Vitoriana: John Stuart Mill, John Ruskin, Thomas Carlyle, Charles Dickens e George Eliot. Quando lí esse livro, algo, no começo, me cansou:  a linguagem e o modo como Phyllis quis contar as histórias. Como posso explicar? Ela pretendia contar sobre a vida de cada escritor e, ao mesmo tempo, escrever uma novela. Quis biografá-los sem fazer biografia. E isso, em literatura, não funciona. Um livro é o que é. E Vidas Paralelas é um livro de biografias – gênero que particularmente detesto – que vale por passagens como essa, em que Stuart Mill renuncia aos direitos que lhe caberiam após o casamento: 

Estando a ponto, se tiver a felicidade de obter sua concordância, de ingressar na relação matrimonial com a única mulher que jamais conheci com quem aceitaria entrar nesse estado; e uma vez que o caráter do casamento tal como constutuído pela lei é tal que tanto eu como ela o rejeitamos, total e conscientemente, pela razão, entre outras, de conferir a uma das partes do contrato, poder e controle legal sobre a pessoa, a propriedade e a liberdade de ação da outra parte, independentemente de seus desejos e de sua vontade; eu, não dispondo de meios de despojar-me legalmente desses poderes odiosos…creio ser minha obrigação lavrar registro de um protesto formal contra a lei existente do casamento, na medida em que ela confere tais poderes; e de uma promessa solene de nunca, em caso algum ou em quaisquer cinrcunstâncias, deles lançar mão. E, na eventualidade do casamento entre a Sra. Taylor e eu, declaro ser m,inha vontade e intenção, e a condição do compromisso entre nós, que ela conserve em todos os aspectos a mesma absoluta liberdade para dispor de si mesma e de tudo que lhe pertença ou possa vir a pertencer-lhe em qualquer tempo, que teria se esse casamento não tivesse ocorrido; e renuncio terminantemente a qualquer pretensão, além de repudiá-la, a ter adquirido quaisquer direitos em virtude de tal casamento.

Suponhamos que eu acredite que os homens do século XIX – escritores ou não – fossem realmente assim. (Cá entre nós: uma carta como a supracitada tem mais efeito que “você é a minha princesa reluzente” ou “lhe amarei eternamente”.) Psicologia reversa, amigo.

Últimos Suspiros: “Deixem-me morrer em paz!”, disse Voltaire. E empacotou.

Remexendo aqui nas minhas papeladas, encontrei um número da já extinta revista Bundas, mais especificamente a número 21, de novembro de 1999. Lembrei-me imediatamente de um ótimo texto de Sérgio Augusto sobre os últimos suspiros de gente famosa, nela publicado. Não sei se se o encontra por aí, então reproduzo-o aqui, digitado, letra por letra:

Pé na cova

Nunca fui de colecionar objetos de forma obsessiva e sistemática. Ao contrário da maioria dos meus colegas de infância e adolescência, não me rendi à tentação de juntar, com desvelo, flâmulas, postais, estampas Eucalol, selos, moedas e caixas de fósforo. Guardei, sim, um monte de gibis, revistas e recortes, preferindo investir meu tempo e minha energia em algo que, se bem praticado, pode ser, segundo Walter Benjamin, uma arte: fazer anotações. Escrever é fácil, difícil é fazer anotações. (Esta eu anotei de memória, saindo quentinha da boca do Ivan Lessa.) Se vício de jornalista, não sei, pode ser. O fato é que, desde a mais tenra idade, eu anoto. Não tudo, mas um bocado de um bocado de coisas, que mais cedo ou mais tarde eu acabo compartilhando com vocês. Hoje, por exemplo, vou compartilhar com vocês a minha coletânea de últimos suspiros. Sim, eu poderia ter escolhido outro tema – as grandes gafes da história, as mais hilariantes mancadas do cinema, da ciência e da locução esportiva, as mais ridículas rimas da poesia, os mais fulminates passa-foras de todos os tempos, as primeiras e últimas frases  mais brilhantes da literatura, os trechos mais pernósticos e obscuros da sociologia e da teoria literária, as mais estapafúrdias desculpas de gente famosa para não tomar banho todo dia, etc. – mas, em homenagem a finados, optei pelas derradeiras palavras comprovadamente pronunciadas por figuras famosas em seu leito de morte.

Por ordem de entrada em cena, ou melhor, de saída de cena, Sócrates é o primeiro da lista. Ao abrochar a clâmide (naquele tempo, 399 a.c., não se abotoava o paletó ainda), ele disse a Crito: “Eu devo um galo e Esclépio; você vai se lembrar da dívida?”. Tamanha insipidez só ganhou posteridade por ser antiquíssima e socrática. Sabe-se que Platão morreu (em 347, a.C.) agradecendo ter nascido homem, grego e no século de Péricles, mas ninguém anotou sua lapidar despedida, se é que de fato foi lapidar. Tão lapidar quanto a de Nero (68 d.C.): “Que grande artista morre dentro de mim!”. Também há controvérsias sobre as últimas palavras de Rabelais (1553). Uns dizem que foi “Estou indo para o grande talvez”. Prefiro a outra: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

Rosseau e Voltaire morreram n0 mesmo ano (1778). O primeiro despediu-se mais, digamos, pomposamete (“Vou ver o por do sol pela última vez”) do que o segundo (“Me deixem morrer em paz”). Mas não tanto quanto Diderot, que ao bater as botas, seis anos depois, parecia estar no meio de uma conferência e não com o pé na cova. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, pontificou o enciclopedista, e em seguida apagou. Dos poetas ingleses do século XIX, nenhum, nem mesmo o exuberante Byron, esticou as canelas tão teatralmente quanto o tuberculoso John Keats (1821). Nos braços do pintor Joseph Severn, ouvindo uma sonata de Brahms, balbuciou: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim.” Byron apenas anunciou, em 1824, que ia ou tinha de dormir – e nunca mais acordou.

A despedida de Goethe (1832), citada a torto e a direito, talvez seja a mais célebre de todas: “Mais luz!”, pediu ele, súplica que o escritor americano O. Henry repetiria 78 anos depois: “Ascendam as luzes! Eu não quero ir pra casa no escuro.” Outro alemão, Hegel, que desencarnou um ano antes de Goethe, também deu um show, sobretudo de niilismo: “Só um homem conseguiu me entender… e ele não me entendeu direito”. Não foi menos incrédulo que o farewell, de James Joyce (1941): “Será que ninguém me entende?” – se é que eu entendi o sentido da frase original: “Does nobody understand?”

Em matéria de desespero, raros defuntaram como Edgar Allan poe (1849), segundo alguns, implorando que Deus tivese pena de sua “pobre alma”, e, segundo outros, rogando a um amiogo que lhe estourasse os miolos com uma pistola. O escritor Hector Hugh Munro, vulgo Saki, nem precisou implorar por um tiro, já que morreu do balaço de um franco-atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Suas últimas palavras? “Apague a porcaria desse cigarro”. O franco-atitador estava fumando, na escuridão da noite.

O historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle (1881) desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora…” – e mais não disse. Algo parecido murmurou Henry James antes de bafuntar, em 1916: “Então é isso, enfim, as coisas distintas…”. T.T. Barnum, o mais célebre dono de circos e mafuás do mundo, nem se deu conta de que estava prestes a bater o prego. Numa noite de 1891, perguntou: “Como foia a venda de ingressos hoje no Madison square Garden?”, e entregou sua alma a Deus. Oscar Wilde provou até o fim (1900) que era um frasista de gênio: pediu champanhe, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e empacotou. Tolstoi (1910) expirou perguntando sobre como morriam os camponeses e D.H. Lawrence (1930) dizendo para a enfermeira que estava se sentindo melhor. Bernard Shaw (1950) não se deixou enganar e sobre a enfermeira que dele cuidava despejou a seguinte imprecação: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Estava mesmo.

José Veríssimo, um dos seis amigos que acompanharam os últimos minutos de Machado de Assis (1908), jura que o bruxo do cosme velho comentou que “a vida é boa” antes de dar seu último suspiro. Por muito tempo pensei que Graciliano Ramos (1953) tivesse ido desta pra melhor passando a mão no rosto de sua mulher, Heloísa, e murmurando “Mamãezinha”, mas um recém biógrafo assegura que suas derradeiras palavras foram “Estou acabado”. Sérgio Porto (1968) apagou pedindo à empregada de sua mãe que não olhasse pra ele, prova de que nem todo humorista morre fazendo piada. José do Patrocínio Filho era um tremendo gozador e nem quando esticou o pernil, em 1929, franziu o cenho. Condenado pelos médicos a tomar leite humano, pois mais nada o apetecia, à primeira demonstração de dificuldade da enfermeira para por numa colherzinha o leite extraído dos alvos e belos seios de uma ama-seca, Zeca abriu um olho e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?” – e nem sequer para mamar abriu mais a boca.

Godard Literato

Estive ontem na abertura da I Mostra de Cinema da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Em palestra, o psicólogo, cineasta e doutorando em literatura comparada Mário Alves Coutinho disse que em sua tese pretende provar que Jean Luc Godard, o polêmico cineasta francês, conseguiu com sua obra produzir, concomitantemente, cinema e literatura. Voíla.

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A capa da Piauí n°2:

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E vocês já conhecem o Universo Anárquico?

Muro de Berlim que nada


“Saddam Hussein achou genial a decisão de Bush de construir um muro para manter mexicanos longe dos EUA. Lamentou não ter tido a idéia antes no Iraque para impedir a invasão americana.” ( Tutty Vasques ) 

Leroux Shakespereano

Estava no ônibus, tentando dormir. Atrás de mim, um rapaz e uma moça conversavam. Os assuntos mais diversos: trabalho, livros de Dan Brown, filhos, roupas, e filmes. Nesta parte acordei, definitivamente. A moça, que falava com a maior propriedade sobre todos os temas, começou a citar seus filmes diletos e os últimos que havia assistido. Num certo momento ela diz:

___ Nossa, assisti ao O Fantasma da Ópera, de Shakespeare (…)

Quase me virei para dar-lhe um soco, ou coisa que o valha.  Não preciso nem falar da honra dos escritores que ela envolveu, pois eu, eu, fiquei ofendido.

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Ainda hoje, no caminho para o trabalho, ví algumas daquelas placas de campanha do Geraldo Alckmin feitas de casa, lar, por moradores de rua. Votos ganhos.

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Ontem comecei a ler O Óbvio Ululante, de Nelson Rodrigues. Cinismo essencial.

O Renascentismo na Contemporaneidade

pop art

O que era protegido por paredes de vidro agora está nas tampinhas de garrafa e nas telas de cinema. A arte Renascentista, que durante os séc. XV e XVI, pregava a importância máxima da inteligência, do conhecimento e da arte, atualmente, está estampada em capas de caderno, livros, filmes, anúncios publicitários, quadrinhos e pôsteres. Tornou-se quebra-cabeça e máscaras de fantasia. A arte renascentista, principalmente a já desgastada Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, hoje é apenas mais um produto na Indústria Cultural. Vale ressaltar que esta banalização não é inerente à arte em si, mas ao homem. Note-se que a época Renascentista foi marcada pela valorização do homem, ao contrário da Idade Média, cuja vida devia ser centrada em Deus. Hoje, não se sabe ao certo no que o homem se concentra. O indivíduo parece perder cada vez mais o seu foco, quanto mais a humanidade avança. Não se sabe que tipo de arte teremos no futuro, mas há um certo temor quando analisadas as possibilidades. O que se pode ter certeza é que o homem se distancia cada vez mais de si mesmo, tornando-se um corpo sujeito a experimentações de todos os tipos, como um falso modelo que posa para um falso artista. Da Vinci não sabe, mas o homem hoje é uma Mona Lisa transfigurada.

SemiÓtica no Digestivo

E um post meu foi linkado no Digestivo Cultural. O que me levou à conclusão do que já tem sido constatado: as pessoas não querem saber de matéria quente, elas gostam mesmo é de matéria fria, que seja auto-biográfca e que fale de modo despojado, puro, sincero e sem filtro. Meu post que foi parar no D.C. é bem assim; escrevi-o após uma noite curta de sono, quando o cansaço já me derrubava. Fui apenas sincero. Como um impulso, um reflexo. Por isso, quando o Spider Jerusalém (do segundo post abaixo, “Transmetropolitan”) diz que quando estamos “estressados, mortos, famintos e cheios de ódio” é que estamos perfeitos para fazer jornalismo, eu creio.