Archive for the ‘Its a shame’ Category

Nigger again

O branco é canalha às escondidas, já o negro o prefere ser às claras mesmo – principalmente perante câmeras,  microfones e outros aparatos de gente moderninha. Racismo é um negócio fascinante. O que faz espantar é a aura mitológica que há em volta do preto, negro, moreno, whatever. Acho que o mais prudente seria mesmo fazer pose de normal, assim como fazem brancos e amarelos. São tantas quotas, programas especiais, auxílios, empurrãozinhos que me fazem pensar no Estado como um pai que, tendo o filho uns 2000 anos, ainda o ensina lições sobre como andar de bicicleta. Domingo último passava no Fantástico uma reportagem sobre um tal novo tipo de preconceito: a obrigatoriedade de o negro ter boa aparência para se conseguir um emprego. (Microfone ligado e o negro a falar, como um coitado, que o fizeram cortar o cabelo, retirar os dreadlocks, só por causa de um trabalho. Dizia que o estilo de se vestir, o cabelo e tal era para reforçar sua identidade cultural. Ora, essa premissa da boa aparência vale para todos, não é?) Imagino o negro a trocar o terno por um bermudão após um dia de trabalho, colocar no pescoço uma corrente, modificar o modo de andar e sair à rua dizendo coisas como Yo! e Mano e o vizinho a perguntar: “Aonde vai vestido assim?”

__Vou alí, reforçar a minha identidade cultural.

E por favor, eu suplico, não me venham falar que eu me esqueci da história, do quanto os negros foram açoitados no passado, do quanto sofreram. Não me venham falar da Ku Klux Klan. Ou direi que justamente por isso, exatamente por terem passado por tantos percalços, eles têm a obrigação de se igualar moralmente não por meio de programas de governo ou por cabelos impermeáveis, mas através do intelecto. Mais que isso não peço nem espero.

*

Ainda sobre isso, um ótimo texto aqui.

Do que se aprende nos ônibus

Eu francamente não entendo quando as pessoas me chamam de preconceituoso. Ontem, tarde da noite, no ônibus p’ra casa, ouvia a conversa de duas moças (fibras fortes). Uma dizia à outra que iria num show de axé, mas que preferiria estar solteira para poder pegar [SIC] bastante. A outra, sabidinha, nos revelou – a mim também, ora – que é besteira resistir; que se fosse ela pegava mesmo [SIC]. E contou uma historinha muito ilustrativa: uma outra amiga tinha ido ao axé no ano anterior e se recusado a ficar [SIC] com um rapaz; e acabou levando um soco para aprender. Para essas pessoas a vida não pode ficar muito melhor que isso.

Sobre talentos e canalhas

Talentos não são gênios. São apenas pessoas comuns, dotadas das mesmas ferramentas mentais, porém com algo a mais que é quase intangível.” Ou seja, puxa-saquismo.

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Vão dizer que gosto de reclamar, mas a verdade é que não dá para não falar sobre isso. Tenho pensado no assunto e considero, no mínimo, um ato de mau gosto o fato de as corporações (empresas, instituições) apostarem com tanta veemência no emburrecimento das pessoas. Há uma inversão de valores: o piegas tornou-se técnica motivacional, enquanto que a técnica fundamentada, inteligente, é posta de lado como, herr, ininteligível. Ao assistir uma palestra empresarial ou a uma aula de empreendedorismo, tenho a vaga impressão de que aquele mundo retratado pela fala do palestrante/ professor não é o meu, tampouco o dele. Vejo, nítida, a noção de idiotice estampada no semblante de quem fala. Tomei o exemplo do culto ao Talento Humano pois estou com um texto aqui ao lado (de um tal Eugênio M.) que parece pretender eliminar qualquer senso crítico do leitor, ou, em última análise, considerar o receptor já destituído d’alguma faculdade intelectual. São textos tão ruins que ofendem:

Aquelas que produzem, aquelas que dizem o que produzir, as que vendem o produzido, as que compram o necessário para produzir e por aí vai. E as pessoas que produzem, controlam, vendem e compram com qualidade acima da média, estas são consideradas os talentos.

Que quer dizer isso? Que os pobres assalariados que passam o dia sob o sol carregando latas de areia nas costas são, porque produzem, talentos reconhecidos? Quer dizer que o patrão corrupto que humilha hierarquicamente inferiores e diz o que deve ser feito é um talento fora de série? A moça do supermercado da esquina que trabalha para manter a casa e, por sorte, vende mais que a média é um talento? Tudo bem que sejam, cada um a seu modo, mas é isso mesmo que querem dizer os doutores do RH? Se ser talentoso é isso, o Brasil vai bem, obrigado.

É de pasmar a cara de pau com a qual os presidentes e diretores de empresas fazem vista grossa perante tanta idiotice. Me faz pensar naquela idéia de que conselhos, afinal, só servem para ser passados a outrem, jamais para serem utilizados.

Quando vejo um professor enchendo a boca para dizer  baboseiras tipo “vocês são o futuro do país” ou “vocês são talentos”, vejo um flagrante crime de Duplipensar [data vênia, Orwell] – e o pior é que os canalhas são bem pagos. Ah, sim, canalhice tem seu preço.

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E não me entendam mal, isto não é  bravata. Não faço bravatas. O que ocorre é que tenho a little case com o assunto.

Santíssimo guaraná

Está tudo mesmo à beira do ridículo, e os cristãos são uns frouxos. Sábado, tarde da noite, encontrava-me sentado frente ao computador, absorto nalguma matéria, enquanto minha intelectual favorita ronronava sonolenta sobre a cama, atrás de mim. Comentei-lhe algo sobre o que eu estava lendo – não consigo me lembrar o quê – e ela me respondeu que há, se não se enganava, no Maranhão um refrigenrante chamado Jesus, muito famoso, tanto que a Coca-Cola estaria interessada em comprar a marca. Pesquisei e encontrei, o que me foi motivo de riso. Penso que se uma coisa dessas acontece no Oriente Médio com o nome de Alá, boa coisa não sai. Lembra-se das charges? Então. Espero não passar a impressão de que eu ligue para o fato, eu não ligo. Mas acho no mínimo engraçado que não haja reclamações por parte dos fanáticos – e se há, são demasiado tímidas. E se a marca Jesus tem feito tanto sucesso como se diz, bom, deve ser, se não mais, uma bênção, não?

Carnavalle de mierda

Sou brasileiro não-praticante e não desisto nunca. Não, eu não gosto de carnaval, mas isso vocês já imaginavam. Toda a gente tem a mania (mania enjoada, digo outra vez) de extrair alguma vantagem do que é ruim. Afirmo resoluto que não estou fazendo isto, mas olha, é bom que essas pessoas que acham que o “carnaval nasceu no Brasil” e é cultura, que “é a cara do brasileiro” e tal, é bom que essas pessoas se reunam todas em seus guetos mal cheirosos; é bom que eles saibam que toda a música ruim é feita mesmo pra eles; é bom que aproveitem. Assim eu tenho mais sossego, eu e os meus. É bom que as coisas sejam assim bem definidas. Eu cá, eles lá. Eu detestaria ser confundido. Carnaval! Quem sabe se ele ainda fosse um costume exclusivamente europeu? Brasileiro estraga tudo, tudo.

Predileções

Ouço falar de gente que se diz “eclética” e me dá um certo nojo. Gente que se diverte – de verdade – em casas de forró, axé, funk carioca, pagode e todo esse tipo de apelação. É comum encontrar pessoas assim por aí, elas estão por toda parte. Ainda que eu evite qualquer contato, ocasionalmente é preciso ser no mínimo educado com essas pessoas, como por exemplo dentro do elevador ou na fila do supermercado (com educado quero dizer que você não tem que cuspir na pessoa). Eu já perguntei a uma dessas figuras:

-Você gosta mesmo dessas músicas?

E é engraçado que ela – a pessoa – olha você com aquela expressão “‘tá me tirando, heim?” e pergunta o motivo da dúvida. Eu, fingindo simplicidade, geralmente digo:

-Ah, não há conteúdo algum nas letras, umas coisas sem sentido, vulgares até.

E agora a parte que eu mais acho cretina:

-É, mas ‘tô nem aí pra letra. O ritmo é muito bom pra dançar, lava a alma, sabe?

E me dá uma vontadezinha de vomitar, mas aguento firme. São coisas assim que me fazem pensar, quanto mais o tempo avança (em direção a sabe lá o quê), que para se ter bom gosto é preciso ter um mínimo de instrução intelectual. E aqui não me refiro somente a música, mas a tudo. Todos tem a mania enjoada de dizer que “cada um tem um gosto” e que “o que é bom pra mim pode não ser bom pra você”, e creio nisso tanto quanto creio em Alá. Não, a qualidade de uma obra musical ou literária não depende da predileção de uma ou outra pessoa. Não me diga, por exemplo, que na sua opinião – ou no seu “gosto” – Eleanor H. Porter é melhor que Virgínia Woolf, porque não é, de jeito nenhum. E eu não gosto de nenhuma. Mas há o fato: Virgínia é melhor e ponto. Aí ouço “que comparação infame”. Pois é, comparações são infames, e elas servem para isso mesmo.

Há algum tempo eu me divertia em discussões assim. Não é sadismo, é que é realmente divertido ver uma pessoa defendendo sem argumentos algo sem valor. Aí eu empresto um livro leve – um Salinger -, um cd leve – um Radiohead -, e digo “leia”, “ouça”, com a melhor das intenções. Sim, eu já fiz isso, ainda que me custasse bastante emprestar certas coisas.

Acho mesmo que o bom gosto está relacionado com o nível de intelecto do sujeito. Isso não exclui, claro, as chances de haver nas universidades e nos meios acadêmicos cultos ao mau gosto, pois são também comuns nesses lugares gente de instrução atrofiada. Essas pessoas “ecléticas” estão por toda parte, em todos os níveis socias, e é difícil discutir com elas. Por isso não discuto mais, não pessoalmente. Ou acabo dizendo, para encerrar a conversa, que eu é que sou chato mesmo – o que não é verdade, não, nem de longe.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças socias, pelos políticos corrúptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

Há coisas que não se faz

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Estava outro dia na Avenida do Contorno quando pararam ao meu lado dois sujeitos que supus serem pai e filho. O menor em prantos, com umas figurinhas d’algum time de futebol nas mãos, e o não tão maior porém mais velho todo alterado, o cenho franzido, a barba por fazer, só fazia xingar o guri: “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!” O outro chorava, vermelho e sem resposta para as difíceis questões do pai tão mais experiente. Um público se formava em torno do show. De repente o pai, num salto, tomou das mãos da chorosa criança o pacote de figurinhas e lançou-o com força na sarjeta próxima. Chovia. Adeus figurinhas e não preciso escrever mais nada, exceto que há coisas que simplesmente não se faz. Não se deve gritar nem para uma criança nem para ninguém coisas tipo “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!”, porque, além da óbvia deselegância do ato, é um mau exemplo linguístico. Imagine se a criança, além de crescer revoltada e começar a ouvir Charlie Brown Jr., aprender a falar como o pai? Há coisas que não se faz, como, por exemplo, ficar assistindo a uma cena dessas.

I hope that you choke

Amiga minha acaba de me contar que, não sei onde, meliantes abordaram uma mulher na rua e roubaram – pasmem – seu cabelo. É, cortaram o negócio. Aposto que eram cabelos dourados.

*

Ah, leiam isso aqui. Diz tudo.

Pessimista, mas non troppo

Sabem, estou com o Folha de São Paulo aqui sobre a mesa e ia postar umas noticiazinhas pitorescas, mas não, isso não se faz, definitivamente. Mas ver a foto do Bush chorando na cerimônia em homenagem a mais um soldado americano morto no Iraque me enjoou um pouco porque ele, Bush, ofende os cínicos natos. Eu admiro qualquer cinismo que esteja abaixo da linha onde você precise ser ashohashin para estar em voga. Agrada-me o cinismo intelectual, o cinismo de Voltaire, Oscar Wilde e de Nelson Rodrigues, esses sim, grandes homens. Acho que um indivíduo ofende mais com farisaísmo como o do presidente que com ironia ou sarcasmo. É lamentável a constatação de que o sentimento inerente às sociedades contemporâneas não passe, no fim das contas, de vergonha, vergonha da humanidade, vergonha de ser parte dessa raça deprimente e, cada vez mais, decadente.

I’ll lay me down in a bunker

Outro dia, escrevi uma crítica a um livro que julguei ser auto-ajuda. O autor, em sua total razão, comentou o meu post, dizendo que eu estava errado, defendendo o seu trabalho. Certo, certíssimo. Eu faria o mesmo. Mas – quanta digressão! -, eis o que eu queria dizer: meu blog foi encontrado n’algum sistema de busca pela frase – pasmem: “livro de auto-ajuda para feio”. E como isso me deprime, Deus. Eu gostaria de demonstrar aqui as minhas condolências ao autor desta busca – quase espiritual, diga-se -, dessa odisséia por uma vida melhor, mais confortável e – por que não? – cheia de beleza.

Filosofias de Gueto, parte I

“Ah, eu vou ao baile funk* porque dá muita mulher.”

*Leia-se também ‘forró’, ‘axé’, ‘pagode’ ou coisa que o valha.