Archive for the ‘Id/Ego’ Category

Sétimo dia

Concordo que o sábado seja dia de descanso total. Às vezes até penso em entrar para uma igreja adventista, mas sou imediatamente desarmado por outros motivos. Enfim. Acordei cedo no sábado, cumpri minhas obrigações higiênicas, peguei o café e corri para a sala. No dvd, The Godfather I. Ainda que meio sonolento, assiti as três horas de filme sem nenhum labor. Após a sessão Coppola, voltei ao meu quarto – que estava uma bagunça infernal. Se minha noiva chegasse e encontrasse o quarto como estava, ai de mim. Organizei a papelada em pastas. Coisas de faculdade numa, blogs impressos noutra e documentos vários numa terceira. Tirei o pó, varri o taco, troquei o lençol da cama. Coloquei os livros em ordem de tamanho, com as lombadas alinhadas. Guardei as revistas. Tirei a poeira do computador e lhe passei na tela um pano úmido. Trabalho quase teminado, ela chegou: “Quê é isso?” Ora, amor, estou arrumando o quarto pra você. Sorriso. “Pega água pra mim?” Claro, amor. ( É dever de todo homem pegar água para uma mulher.) Cada coisa em seu lugar, fui ao banho. Uma hora depois eu estava lindo, you know. Minha independência como homem é vigente em dias úteis; aos fins de semana eu sirvo a ela e ela me serve. Uma relação de mútua servidão, como deve ser. Pois bem. Ela quis sorvete e dirigimo-nos à sorveteria. Chocolate suíço e quetais. Ósculos gelados. No caminho de volta à casa, ela deseja frutas. Vamos ao mercado. Pêras, ameixas e caquis (que ela passou mais ou menos meia hora tocando com a ponta dos dedos, com cuidado, para fazer uma boa escolha). Detesto caqui. Vamos ao caixa, pagamos. Ela me entrega a sacola e diz “toma”, com um sorrisinho sublimado. Casa; quarto; partida de xadrez. Dou-lhe xeque em poucas jogadas e ela deixa cair o corpo para trás, demonstrando desistência.

(parte censurada, este é um blog conservador)

Início de noite, deitamo-nos lado a lado a ler Calvin & Hobbes. “Que tal colocar no forno a lasanha?”, ela diz. Claro, amor. Vou à cozinha, parte da casa por mim muito pouco frequentada. Com um ruído irritante, ligo o fogão elétrico. Ajusto o timer para 45 minutos e volto ao quarto. Ligo o computador. Um amigo está on-line. Lasanha pronta, vamos os dois à cozinha. Ela prepara o suco enquanto eu queimo as mãos. Jantamos. Ela se deita e adormece. Deveria acordá-la para que pudéssemos cumprir uma vez mais a atividade conjugal, mas tenho dó. À meia-noite, falo baixinho aos ouvidos dela que ela deveria colocar uma roupa de dormir e ir ao banheiro. Ela o faz. Deitamo-nos e ela novamente adormece. Eu ainda passo algumas horas acordado, pensando em minhas posses e em nada – coisas que, aliás, se confundem.

oui, oui

Chamam-me cínico, chato, irônico, elitista e o diabo. I don’t mind. Certo é que o que somos perante os outros é que nos garante a place no mundo como seres, criaturas. Penso que a faculdade de pungir está diretamente vinculada à qualidade de existência humana. Tanto é assim que somente sob situações de fome é que sentimos existir em nós algo cunhado estômago [data venia, Platão].

Meu vizinho Schopenhauer

Meu vizinho Arthur Schopenhauer jogava pedras sobre o meu telhado

Então que esse senhor, o Schopenhauer, morou algum tempo ao pé de minha casa. Falava sozinho e, em noites mais quentes, não dormia; ficava bastante agitado e punha-se a lançar pedras sobre os telhados das casas próximas. Certo dia acertou minha casa. Pus-me logo de pé, assustado mas já imaginando ser mais uma traquinagem do senhor Schop – era como o chamávamos. Disse a ele que não fizesse isso, que poderia quebrar minhas telhas, ao que ele me respondeu que minha casa não existia, tampouco as telhas. Dizia que tudo não passava de Representação.

 

Tinha umas idéias bem originais esse Schopenhauer, devo admitir.

Ao Vencedor, as Batatas

Citei Machado de Assis num post anterior, o que me fez lembrar de Quincas Borba, que, creio, é sua melhor obra. A teoria Humanitas, a idéia de que não há morte:

 — Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)

“A guerra é a conservação”, diz Machado; “Guerra é paz”, Diz George Orwell. Apesar da aparente concordância entre os autores, Quincas Borba é um livro impregnado de pessimismo e rabugice – assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas -, enquanto que 1984 de Orwell não: aqui o que há é um realismo assustador, quase imponderável, que nos faz pensar “esse livro é sobre nossos dias”. Quanto às batatas, quem as herdará?

Vertigens

Juro que vou vomitar.

*

Minha noiva é tão boazinha e zen e tudo o mais. Parece o Dalai Lama.

*

E o Machado falava com propriedade quando disse ser o homem uma contradição. É engraçado (não tem nada de engraçado) que, com o tempo, a gente adquira uns hábitos estranhos. Devo estar mesmo ficando velho, sei lá. Pois ontem cheguei em casa com vontade de ouvir Jethro Tull enquanto lia umas matérias da piauí deste mês e, concomitantemente, o livro do Luiz Biajoni. Pensei em ligar o pc mas logo desisti: só consigo ouvir Jethro Tull, Pink Floyd e a maioria das bandas anos 70 se for em LP. E eu tenho um daqueles sons velhos da Sharp, preto, que não mais grava, não mais sintoniza perfeitamente as minhas rádios diletas mas, sim, ainda toca os meus discos antigos. E assim foi. Liguei a velharia e voilà: senti aquela agulha limpando a poeira do vinil, tão barulhenta quanto um trem descarrilhado.

I’ll lay me down in a bunker

Outro dia, escrevi uma crítica a um livro que julguei ser auto-ajuda. O autor, em sua total razão, comentou o meu post, dizendo que eu estava errado, defendendo o seu trabalho. Certo, certíssimo. Eu faria o mesmo. Mas – quanta digressão! -, eis o que eu queria dizer: meu blog foi encontrado n’algum sistema de busca pela frase – pasmem: “livro de auto-ajuda para feio”. E como isso me deprime, Deus. Eu gostaria de demonstrar aqui as minhas condolências ao autor desta busca – quase espiritual, diga-se -, dessa odisséia por uma vida melhor, mais confortável e – por que não? – cheia de beleza.

Je suis Blasé

Permitam que eu não fale do caso YouTube/ Cicarelli. Já cansou e, no fim das contas, não deu muita coisa mesmo. Já desbloquearam a coisa toda.

***

Tempo tresloucado por aqui: sol do 5º inferno pela manhã e, agora, está para desabar o céu lá fora. Digo, muita chuva, no duro mesmo.

***

E deixem eu indicar o blog do “jovem economista kantiano observa o mundo, dois parágrafos de cada vez.”

It’s too late, baby

Havia hoje no ônibus, ao meu lado, uma senhora – uns 50, 55 anos – lendo “O Porquê do Hímem”. Não entendi, juro que não. Esta vida é um mistério.

Meus clichês

Então o Ibrahim mandou-me um e-mail convidando-me a escrever sobre os meus planos para este ano. Okay: (Não farei tópicos) Primeiro, ficarei rico. Bom, não tão rico. Mas ganharei algum dinheiro, isso sim. Afinal, tenho muito o que fazer – coisas relativas a meu noivado oficial, casa e carro (Deixem-me com minha utopia). Também vou ler muito. Pretendo ler mais que ano passado, que, diga-se, não foi um ano ruim. E escrever. Não só aqui no blog, mas noutros meios também. E vou continuar evitando os chatos e os funkeiros, assim como em 2006. Não converso com quem ouve funk. Não olho para quem ouve funk. Não tenho nenhum tipo de relação com quem ouve funk. E também tenho asco de quem mexe o pezinho ao som de…vocês sabem. Este ano vou ser também um aluno exemplar na faculdade. Em verdade, sempre o fui, mas no último semestre eu estive desmotivado com a coisa toda, o que resultou num trabalhinho especial. Vou continuar não participando de amigo-ocultos, vou continuar não tomando sol e continuar mantendo as cortinas do meu quarto fechadas – aliás, cortinas servem para ficar fechadas, do contrário elas tornar-se-iam obsoletas. Quanto à minha barba ruiva, não sei se a deixo crescer. Natália não gosta. Mas seria uma boa mudar esteticamente. Continuo cínico, irônico, sarcástico. Mas não sádico, eu não sou sádico.

Picardia

Então que eu estava lendo Hesse e ela, minha noiva, o tomou de mim ontem. Vou voltar ao Proust.

Ahamn

Enforcaram o Saddam e ele virou mártir lá pelas bandas do Oriente Médio. Aqui nos enforcam todos os dias e o que nos tornamos? Martini?

Inspire, expire

Sabem aquela cena do filme Beleza Americana em que uma personagem, num dos melhores momentos do filme, capta, com uma filmadora, uma sacola plástica rodopiando ao vento enquanto descreve a cena como uma das coisas mais belas que já viu? É um belo momento. Hoje, quando sentado no banco do ônibus esperando  sua partida, eu olhava para fora, através da janela, entre o sono que hoje me massacra e a obrigação de vir para o trabalho. Ví um pássaro. Acho que era um pardal, mas não sou especialista em pássaros nem nada. Ele estava no canteiro. Pulava de um lugar para outro. Às vezes beliscava algo que encontrava, às vezes não encontrava nada mas me parecia bem feliz em estar alí, em poder, no mínimo, procurar por algo. Como se valesse mesmo a pena. Não que eu tenha que assumir uma posição otimista para iniciar um novo ano. Não é isso e isso não faz o meu tipo. A questão é que tenho muito o que fazer. Há muito a ser feito. Ontem, primeiro dia do ano, eu ouvi:

__Vamos trocar de alianças em outubro?

E sinto que há coisas que me afetam profundamente. Eu sou um cético 99%, e o que me resta de crença eu deposito em algumas poucas coisas realmente importantes em minha vida. Ainda que blasé, eu, no fundo, me preocupo demais com as coisas e com as pessoas à minha volta. Isso me atinge. É isso. Acho que este é um texto otimista, ao meu modo. As coisas – como chamam – acontecem. Eu só quero, agora mais que nunca, ter algum controle sobre elas.

Books of year

Vou tentar listar os livros que lí em 2006. É bem provável que eu esqueça de citar alguns, mas vale a intenção – sem pieguice:

  • Salambô, Flaubert;
  • Leviatã, Hobbes;
  • A República, Platão;
  • A Ilha, Huxley;
  • O Documento R, Wallace;
  • Intenções, Wilde;
  • O que é Semiótica, Santaella;
  • O Conceito de Crítica de Arte no Romantismo Alemão, Walter Benjamin;
  • Furacão Sobre Cuba, Sartre;
  • Tristessa, Kerouac;
  • Sidarta, Hesse;
  • Felicidade, Hesse;
  • O Elogio ao Ócio, Russel;
  • 1984, Orwell;
  • A Revolução dos Bichos, Orwell;
  • O Sol também se Levanta, Hemmingway;
  • Macbeth, Shakespeare;
  • O Óbvio Ululante, Nelson Rodrigues;
  • Cândido, Voltaire;
  • Sonhos de Bunker Hill, Fante;
  • Preacher, Ennis;
  • Reconhecimento de Padrões, Gibson;
  • Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams;
  • Prosa, Manuel Bandeira;
  • A Sangue Frio, Capote;
  • Um Amor de Swann, Proust (Ainda lendo).

Claro que aqui não entram aqueles que não terminei de ler. Os que lí para a faculdade, óbvios demais. E também não posto aqui aqueles que esqueci, claro. Quando lembrar d’outros, faço uma atualização. Todos os supracitados foram lidos, não necessariamente na ordem em que aparecem.

Desejo-lhes vinho, champanha e literatura. E um bom fim.

I just don’t know what to do w/ myself

Edward Bloom me alertou. Comecei a ler Proust, mas há dois dias não pego no livro. Mas vá lá, é final de ano. A gente fica com essa sensação estranha de que tudo vai recomeçar a partir de 01 de janeiro. Nunca ví besteira maior.

Passeio

Nada melhor que um pé depois do outro.

C’est la vie

Trabalhar com pessoas é treinar a arte de ser dissimulado todos os dias.

Os ateus não têm mais classe

*trilha: Marylin Manson

 Essa gentinha me irrita. Não vou tratar aqui dos motivos todos que levam um homem (?) contemporâneo a dizer-se ateu, mas cito uma: a má educação religiosa. Em famílias católicas – não que em protestantes seja muito diferente – é hábito fazer com que os filhos participem do catecismo – aos 7, 8 anos –  na igreja mais próxima, façam a primeira comunhão e, fechando o cilco, crismem – geralmente aos 14, 15 anos. Ou seja, o ensino termina exatamente quando as dúvidas começam. A não ser que o indivíduo seja muito crente e queira se tornar vigário, após a crisma é só perdição. Exagero, mas é para melhor compreensão. Há aqueles cuja mente é ainda imatura para desenvolver quaisquer dúvidas e voltam para casa sentindo-se abençoados e salvos, no céu. E há os que perguntam – Por que Cain matou Abel? Adão tinha umbigo? – mas não têm quem lhes responda. Naturalmente, tais questionamentos são muitas vezes esquecidos. Ou, ainda, tornam-se impulsos positivos, permitindo às mentes inquietas buscar conhecimento e respostas – assim nascem os teólogos. E há a pior raça, que, hoje, vê-se em todo centro urbano, nas esquinas, de preto, com um cigarro barato entre os dedos imundos e um crucifixo de ponta a cabeça pendurado no pescoço: os (pseudo) ateus. Ateu é aquele que não crê em Deus. Que o renunciou assim que soube que ele poderia existir. Ou que não sabe nada mesmo, ignorante como uma porta.

Tenho algumas, mas faço duas considerações a respeito: a) ateu não usa crucifixos no pescoço, nem de ponta a cabeça nem em posição alguma; b) ateu não clama o nome de Deus quando sob ameaça ou temor – aliás, deixem-me reiterar, que gentinha! Passam a vida afirmando, para quem não quer ouvir, que Deus não existe sem que tenha o menor argumento p’ra isso e, quando atacados na rua por um cão, saem a murmurar “ai, meus Deus!” Então vocês pensam: “Ed, quem usa crucifixo ao contrário não é ateu, é anticristo”, e vos digo: essa gente não sabe a diferença. Têm a imaginação mui subdesenvolvida, são quase bestas – não a do apocalipse, que eles já ouviram falar mas também não conhecem.

Os descrentes perderam a classe. Eram ateus respeitáveis: Nietzsche, Denis Diderot, Lord Byron, Voltaire, Jean-Paul Sartre, Schopenhauer, Bertrand Russel, Freud, entre outros. Bons tempos esses em que, até para duvidar, fazia-se necessária alguma inteligência:

“A crença em Deus subsiste devido ao desejo de um pai protetor e imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência humana.”              Sigmund Freud

“O Universo não apresenta qualquer evidência de uma mente dirigente (…) Todos os bons intelectos têm repetido, desde o tempo de Bacon, que não pode haver qualquer conhecimento real senão aquele baseado em fatos observáveis.”     Auguste Comte – Filósofo francês

“Mesmo hoje, eu acredito que estou agindo de acordo com a vontade do Todo Poderoso Criador: me defendendo dos Judeus, estou lutando para o trabalho do Senhor.” Adolph Hitler – Mein Kampf

“Não somente há deus nenhum, mas tente achar um encanador em fins de semana.” Woody Allen – Diretor, ator e escritor americano

Hoje os idiotas dizem que não crêem em Deus porque querem impressionar, chamar a atenção, ser “diferentes”. E realmente o são: tão diferentes que mal têm consciência do próprio lugar no mundo – físico, digo; pois dizer intelectual seria querer demais.

Ócio, man. Ócio

Estou oficialmente de férias (Segundo o Fernando, eu já estava de férias há muito; mas não é verdade). Não é nenhum tratado de Russel, mas vou tentar viver um ócio criativo até fevereiro. Comecei por Proust, e a leitura já está avançada.

Além disso, vou jogar vídeo-game e dormir até babar.

E hoje eu estou aqui, homenageado por um grande amigo. O sujeito cabisbaixo no canto inferior esquerdo sou eu.

Woody Allen tinha razão

Sabem, é engraçado. Quando chego em casa tarde da noite, fico pensando no que é a vida. E sei, ela não passa de uma historinha que o Wood contou em 1977:

“É uma antiga piada: duas velhinhas em um hotel fazenda. Uma diz: ‘a comida aqui é um horror’. A outra diz: ‘eu sei, porções minúsculas’. É assim que eu vejo a vida: cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”.

É, não passa disso.

(Sei que serei repreendido por ser pessimista. Mas, a essa hora, quem liga?)

Xmas time

Eu não sei mais o que é o natal. Quando criança, talvez soubesse. Lembro-me da minha época de neurônios atrofiados. Época feliz. Acho mesmo que a única felicidade consiste em ser ignorante. Além disso, o que há são momentos, hiatos de fugaz alegria. Lembro-me de seguir procissões católicas pelas ruas do meu bairro – uma fila de senhorinhas fiéis e netos curiosos, todos segurando uma vela acesa na mão queimada pela cera. Época em que eu levava para casa ramos abençoados pela santa água do padre da paróquia. Havia também um pão. Não sei se o chamavam d’outra coisa. Mas era um pão, duro, que devíamos colocar no armário da cozinha a fim de não faltar alimento. Esses e outros rituais. Época feliz. O natal tinha o maior significado. As mínimas coisas tinham valor. Volto, por exemplo, a um desses natais de minha infância. Recordo-me que minha mãe, não tendo suficientes condições para presentear-me com um vídeo-game de última geração ou coisa que o valha, deu-me um daqueles quebra-cabeças numéricos, de mão. Aqueles em que você deve mexer os números na vertical e na horizontal até que consiga colocá-los na ordem, de 1 a 9. lembro-me e quase escorre uma lágrima – sou muito sentimental por esses dias. Vocês não podem imaginar a felicidade que tal presente me deu. Vocês não fazem idéia de como tal acontecimento permanece em minha memória, fixo, como se houvesse ocorrido ontem. Isso faz uns 18 anos. Coisa que hoje já não existe mais. As crianças de hoje são umas esnobes. Os jovens, uns cretinos. Dá-me asco, só de imaginar. E eu tenho pena. Muita pena. Faz alguns anos que não piso numa igreja, mas o período em que o fiz foi importante para mim. Igualmente, há anos não celebro o natal como o fazia antes, mas minha infância ignóbil foi peça fundamental para o meu crescimento. O natal hoje é ainda mais piegas que no meu tempo. Mais feito de out-doors e garrafas pet recicladas que com o que chamam coração.

Eu sou tão empertigado

Os vizinhos ouvem uma música ruim. E claro, óbvio, eu tenho um gosto excelente. Mal cheguei e já estou reclamando, é verdade. Um aniversário, me parece. Na casa dos vizinhos. Vocês já ouviram falar em boa vizinhança? Eu já, mas só em teoria. As pessoas das casas ao lado são sempre muito enjoadas. Suas músicas são sempre muito ruins. E altas, são sempre muito altas também. Okay, eu não tenho que fazer sentido. É madrugada agora. Arredo a cama para perto do computador para escrever deitado. Um luxo. Ao lado, um Aurélio e um exemplar de Lolita, edição de 1968 – estou dando mais uma chance. Numa xícara, coca. Ouço Is It Wicked Not To Care?, Belle & Sebastian. É uma boa música para se ouvir enquanto se escreve de madrugada. Sinto-me bem. Como têm mal-gosto os vizinhos. Olhos ardendo. Há pouco me olhei no espelho do banheiro. Olheiras. Acho que elas já não desaparecem mais, por mais que eu durma. Faz tempo desde que dormi bem pela última vez. Digo, muito bem. Tenho um probleminha. Quando trabalho e estudo a semana toda, tudo o que quero é chegar em casa para poder dormir. Deitar no travesseiro os problemas e as preocupações, desligar os holofotes que iluminam as desgraças do mundo. E, quando tenho tempo para tal, não o faço. Não há graça em dormir quando se pode dormir. Estou escrevendo pausadamente, vês? Sinto-me melancólico à essa hora. Além da música. Mas não, não. Ela é perfeita. Escrevo pausadamente pois é como me surgem os pensamentos, agora. Neste instante fugaz. Oscar in Reading. Mas o que estou dizendo? Que diabo, qüiproquó. Minha cabeça pende entre uma palavra e outra. Não consigo colocar uma idéia em cada frase. Idéias divididas em várias frases. Indo e voltando. Digressões saudéveis. A coca que já perdeu o gás. E escrever deitado dá torcicolo, acreditem-me. Mas querem saber? Vale a pena. Hoje eu já dancei (desengonçado) The Delgados até quase cair, morri algumas vezes ouvindo Mogwai – se é que me entendem – e dormi com a minha noiva ao som de The Smiths. Nada como uma boa trilha sonora. Nada como ter um tempinho para fazer o que eu quiser no próximo segundo. Mesmo que seja nada. Já não ouço os vizinhos. Mas, ora, o que eu estou dizendo?

*

Aqui, minha homenagem ao tão querido natal.

Eu sou Sexta

Tenho em meu quarto um pôster colado na parede que diz “Eu Sou londres”. O negócio não faz o mínimo sentido p’ra mim, é verdade, mas lá está, há tempos, e não pretendo tirá-lo. Mas, hoje, eu sou Sexta. Tipo, sou a sexta na quinta. Não o Sexta-feira, amigo do Robinson Crusoé – não conheci o Robinson nem nada. Sou sexta porque amanhã é feriado e este é o país do futuro – é o que dizem.

Mr. Mahaffy

Foi ele quem nos ensinou que, em sociedade, cada homem e mulher civilizados devem encarar como um dever a tarefa de dizer alguma coisa, mesmo nos momentos em que pronunciar qualquer palavra pareça ser uma missão das mais difíceis. Noutras palavras, nem sempre é melhor ficar calado.

Minhas  sinceras condolências à família e amigos do Gabriel, que tão cedo deixou este mundo. Não o conhecia, mas isso não importa agora.

Peixe Grande

Фотограф Олег Трэшер

Férias. Eu quero férias.

***

Indico: O Hermenauta

Amigo Oculto

Eu poderia falar da chateação de se ter de andar pelos corredores lotados das Lojas Americanas, tendo os pés pisoteados e o olfato nocauteado pelo cheiro do povo – essa espécie tão difundida –; poderia discorrer sobre o dinheiro mal investido em presentes descartáveis – porque hoje todo presente é descartável –; poderia ainda detalhar o quão enjoativos são aqueles abraços das tias do interior que você nunca, nunca vê, mas que no dia 25 aparecem só para lhe dar uns tapinhas no rosto e dizer “como você cresceu, querido”; ou dizer sobre quando estamos cansados, precisando dormir – e daí que é natal? – e não conseguimos, tantos são os fogos de artifício estourando sobre as nossas cabeças, de todas as cores e formas. Há também os vinhos ruins, a farofa – há algo pior que farofa? –, o peru que esfriou, o churrasco inoportuno, a fumaça, os bêbados, a música ruim de madrugada, a nostalgia, as promessas, os vestidos bregas, os penteados e toda essa coisa natalina. Mas vou me ater ao amigo-oculto. Você sabe: é aquele ritual besta de fim de ano em que você escreve seu nome num papelzinho, mistura noutros papeizinhos com nomes d’outras pessoas e põe tudo num saco ou caixa de sapato e agita. Aqui começa a avacalhação: o nome que você tirar é o seu amigo-oculto. Descrevo: geralmente essa pessoa misteriosa – o mistério é o principal detalhe – é oculta mesmo, até para você. Você lê a letra torta, pensa, e não consegue descobrir quem é – afinal, há na casa: primos de segundo, terceiro graus; o namorado da irmã da sua cunhada que levou a família e amigos; vizinhos; a irmã e o namorado da empregada; tios e tias distantes; avós; a comadre da sua mãe; o amigo de infância que há anos não aparecia; aquele garoto carente que mora na sua rua e sempre vai lhe desejar boas-festas; os colegas de faculdade que só querem a sua cerveja e as menininhas ingênuas que querem realmente ganhar um lindo presente do amigo-oculto bonzinho. Isso pra mim é o fim da festa, se é que houve alguma. Podem chamar-me ranzinza ou do que for, eu não vou ligar. Fato é que dar presente pra quem não se conhece é detestável, e tenho certeza de que essa é a opinião de muitos – opinião não declarada, claro. Não há nada pior que você tirar o maldito papelzinho e descobrir que tem que comprar um presente para o irmão da tia da sua namorada que você não faz idéia se vai com a sua cara. Aliás, você também não vai com a cara dele. Mas pior que presentear, é ser presenteado. Imagine você: ter que abraçar aquela madrinha que você nem sabia que tinha, sentindo de perto o perfume importado do país vizinho, e ainda ter de dizer “nossa, adorei!”. Isso, sorrindo. Sorrindo sempre. E há o inimigo-oculto, equivalente inverso da brincadeira. Ou seja, você pode ser presenteado com um sapo, uma lagartixa, uma lagarta, um cd de uma banda que você odeia ou um abraço – o que eu acho mais pavoroso – daquela pessoa de cuja cara você tem asco. Mas apesar disso, eu prefiro os inimigos – que são essenciais. Eles são mais sinceros, mais transparentes. Apesar de oculto, não há nada mais explícito que um inimigo.

Blasfêmias Oficiais

Não sei bem onde começou, mas lembro-me de ter lido algo do tipo num blog americano, que também não sei qual. Mas isso não interessa. O negócio é que o assunto chegou por aqui. Lí primeiro no blog no Cleber, e agora o meme me foi passado pela Evelyn, de cujos textos gosto muito. É simples: devo escolher três escritores que, por uma razão ou outra, desisti de ler. É blasfêmia na certa, mas é aí que reside o quê da coisa toda. À questão:

  • Graciliano Ramos: Por Deus, eu não consigo ler o alagoano por nada neste mundo. Meus ex-professores me excomungariam, eu sei. Assim como há muitos aí fascinados por Vidas Secas e Angústia – duas de suas principais obras – que, se pudessem, armariam-me um cerco numa esquina escura. Tentei ler quando cursava o Ensino Médio, tentei ler para a ocasião em que prestei vestibular, e nada. Meus motivos para não conseguir lê-lo não são nada especiais. Em verdade, digo que acho um porre, digo, uma chatice seus livros, sua linguagem, seu estilo. Ah, também detesto seus neologismos. Já cansou.
  • D. H. Lawrence: Eu sei, sei que esta é uma blasfêmia das grandes, uma heresia, quase. Mas o que vale é a veracidade dos depoimentos preconceituosos. Sempre lí literatura inglesa; gosto da pompa, dos trejeitos, da língua. Mas Lawrence eu não consegui. Tenho em minha estante um exemplar de Women in Love – que é considerado seu romance mais importante – que já tentei ler umas duzentas vezes. Não dá. Este romance despertou em mim o preconceito por toda a sua respeitadíssima obra, de modo que nem perdi meu tempo tentando ler Lady Chatterley’s Lover.
  • Vladimir Nabokov: Okay, confesso que amo Lolita. Sou homem e, no fundo, tenho algum instinto primitivo que não me permite qualquer aversão ao tema que Vladimir abordou. Ví os filmes, reagi às imagens e comprei o livro. Tentei, tentei, tentei. Mas não passei da metade. Não tenho certeza se foi culpa da linguagem ou da tradução. Não gostei do rítimo. Não gostei da estrutura. E também não me agradam livros estilo diário, e Lolita tem um pouco disso. Gosto de Lolita (s), mas desisti do autor.

É isso. Repasso o meme à amiga Mariana, à Fernanda,  à Tina, à Alessandra, ao Lino e à Caroline.

Coisas, non sense coisas

Aí vem a Lispector dizer que a vida é um soco no estômago. Já Salinger me diz, com seu ar blasé, que não há grandes aspirações na vida, a não ser ser, no máximo, um apanhador num campo de centeio (…). E penso: tenho mesmo é que me preparar para o futuro. Penso e paro, porque me lembro do Orwell dizendo “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”. São personas experientes que me dizem tais coisas. E eu confio. O que vou fazer? Confio. E sorrio, sarcástico, quando penso nas frases de efeito que por aí há para refutar o pessimismo, tipo aquela do mago Paulo que já não suporto mais: “O universo conspira a nosso favor”. Francamente, eu fico com o pessimismo. Obrigado.

***

Ontem eu dormi cedo. Como um anjo, dizem. Há tempos não fazia isso e, hoje, acordei tonto, com ressaca de sono. E foi bom. Um prazer quase, eu diria.

Come on die young

Porque o domingo é uma janela para o muro do vizinho é que aqui estou entregue à letargia dominical, quase um legume morto ouvindo mogwai e escrevendo em espasmos e convulsões num fluxo não pontuado como um Kerouac à morfina nossa de cada dia. E chove lá fora.

O elogio ao ócio

             “Acho que as pessoas trabalham demais hoje em dia”, frase dita pela primeira vez em 1935 pelo filósofo Betrand Russel, traduz perfeitamente o meu sentimento em relação às sociedades contemporâneas, ditas civilizadas. À medida que o homem deixou de trabalhar para viver e passou a viver para trabalhar, houve uma queda exorbitanete da capacidade criativa do indivíduo, que, hoje, não é mais livre para fazer coisas de que realmente goste. Por que isso acontece? Imagino a obviedade desta resposta, nos dias de hoje. O modelo político regente é como uma bota sobre as nossas cabeças. Mas não é meu desígnio, aqui, fazer bravata contra um ou outro modelo de Estado, tampouco idealizar uma política libertária, que nos vá amparar.

            O ócio atualmente é visto com maus olhos, como vadiação, mediocridade e, principalmente, como sinal de miséria. Esquece-se, porém, da importância da despreocupação e da diversão na educação de um jovem, por exemplo, ou de como o ócio foi (e é ) essencial à literatura e à filosofia. Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos. Aqui, gostaria de ressaltar um ponto crucial ao entendimento do meu texto. Quando os pensadores gregos, após anos de dedicação, finalmente conceberam suas obras, eles pensavam em angariar algum tipo de lucro? Não. Esse pensamento de que de que o trabalho lucrativo é o principal objetivo da vida é um erro, e Russel nos alerta sobre isso: 

A idéia de que as atividades desejáveis são aqueleas que dão lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas.           

E ainda: 

O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empresgos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho.O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo (…). Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida. 

            Esta visão não tem o objetivo utópico de eliminar o trabalho, mas fazer pensar uma reestruturação, baseada nas possibilidades abertas pelos modernos métodos de produção. O “conhecimento inútil” é o objetivo do ócio, e mais pessoas deveriam ter a chance de praticá-lo. Diz a história: o viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, em Nápoles, disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada.

Amour

Ora, meu amor, acessar minha caixa de e-mail logo de manhã, hoje, dia 14, e ter me aguardando um texto tão lindo e inspirado é mais que um presente. É uma dádiva. Sou o homem mais feliz quando você me demonstra esse amor maravilhoso, esse sentimento tão puro e, cada vez mais, crescente. Há em mim uma alma pulsante, ansiosa demais pelo futuro, pela vida que é nossa e que temos de viver, juntos. Olho para o meu passado, de solslaio, e não vejo mais que sombras, névoas espessas, brumas. Você representa demais para mim. Você é símbolo, é ícone e é índice. Você é ciência exata. É um coeficiente perfeito. É a minha prova particular e irrefutável de que existe o amor, ainda que a ele possamos dar nomes diversos e ainda que sua conotação esteja, nesses dias tão estranhos, corrompida. Você é maior porque se difere do meio.Você é minha Lótus que nasce em meio à lama. Você é meu budismo. Meu politeísmo e meu monoteísmo.

O presente não existe

O presente é uma falácia. O que chamamos de tempo presente é tão relativo, tão fugaz. Esse condicionamento barato. Essa psique alterada. Eu digo que só existem dois tempos: o passado e o futuro. Vamos, faça o teste. Diga “agora”, e quando terminar a palavra, ela já será pretérito. Pense em fazer algo. Planeje o futuro. E, ação realizada, ela deixa de existir no futuro e passa a fazer parte do passado. Mas e o exato momento em que se realiza a ação?, você se pergunta. Eu digo que tal momento é um fenômeno. É a exata transição temporal, extremamente sutil. Penso em escrever essa frase e, a cada palavra, cada letra digitada, vejo o passado tomando aquilo que era futuro. Vêem? A concepção de “presente” nos vale para alimentar filosofias clichês como “viva intensamente”, “viva o presente” e “consuma hoje, você pode não estar vivo amanhã”. O presente consola pois “o hoje nos pertence” e, além dele, não possuímos mais nada. Uma ova! Se há alguém aí com provas de que esse tal “presente” existe, por gentileza, reportem-me.

1984/ 2006

É realmente incrível a qualidade premonitória da obra máxima de George Orwell. Há alguns meses lí no A Folha de São Paulo que operadoras de telefonia fixa dos EUA mantém contratos sigilosos com o governo. Objetivo? Armazenar informações sobre os cidadãos americanos: quais os seus contatos, para onde ligam diariamente e com que frequência. Isso, claro, para a segurança do país pós 11/9. Mas não é dos EUA que quero falar. Que diabo de história é essa de “regulamentar a internet”? Quer dizer que, como se já não bastasse todos os cadastros identificatórios que precisamos realizar desde que nascemos (tipo sanguineo, impressão digital, pesinho (!), identidade, cpf, pis, carterinha disso e daquilo e sei mais lá o quê!), ainda teremos que informar todos os nossos dados para ler uma notícia num portal ou para entrar num blog? Valha-me! O estado já é detentor de toda informação a nosso respeito. Essa tal proposta de lei (cuja votação foi adiada ontem), que pretende livrar-nos dos crimes virtuais, parece não prever a facilidade com a qual ela pode ser burlada. Há, aqui, um perigo iminente. Se aprovada tal lei, nós teremos nossos dados, completinhos, circulando na rede, cadastrados em tudo quanto é site que acessemos. Claro que o proposto é assegurar a segurança, a nossa. Mas vá saber. Isso me parece mais uma facilidade para hackers de plantão, que não precisarão mais instalar aquelas geringonças clonadoras de cartão de crédito no seu Caixa Eletrônico. Estaremos (agora mais no centro) das mãos do Grande Irmão.

Minha namorada indie e outras histórias

Ela é indie e nem sabia. Mas sempre levou o maior jeito pra coisa. Bonita, branquinha, meiguinha e “falsa-magra”, como chamam. Os cabelos pretos sobre a face alva sempre me causaram aquela impressão cinematográfica de maquilagem. Mas eu vejo em zoom e constato: não há pó de areia ou d’outra coisa. Sem maquilagem. A  franja que eu sempre insisti para que ela deixasse, ela deixou. Linda. E é mais linda que as modelos das fashion week porque não é superficial. Porque sei da beleza que lá dentro mora, digo, habita. Pois, pois. Então eu insisti que ela era índie, mas ela dizia que não. Aí eu disse que compraria um par de tênis All Star pra ela. E brancos, que são mais característicos. Então ela foi lá e comprou os tênis primeiro que eu. Ela é tão prática, sabem? Agora, começou a andar de All Star branco e de blusa listada, só para me impressionar. Aos fins de semana ela ouve, comigo, Black Rebel Motorcycle Club e faz troça de uma música que, segundo seu ouvido afiado, se parece com Quê-co-cê-foi-fazer-lá-mato-Maria-Chiquinha, aquela breguice. Ela faz troça, mas acha bonito e até confunde com a trilha de Cowbe, que ela também adora. Mas eis o que eu queria dizer: ontem, em plena terça-feira (que pra mim é mais dia dos mortos que 02/11), chegou de surpresa em minha casa, sob chuva. Os cabelos presos, os pés molhados, cansada e bela. Foi uma surpresa bem boa. Ela é indie e se parece com uma das Cansei de Ser Sexy. Digo isso e ela faz um gesto, colocando a mão direita sobre a fronte, dizendo: “cansei!”.

I don’t like the drugs but the drugs like me

Sabe quando bate aquela preguiça? É, então. Deve ser sintoma de segunda-feira. Tsc. Vou para a faculdade lendo Kerouac. Isso é mais. Menos é mais.

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 Uma pergunta: que roupa você vestiu hoje? E vai vestir o quê amanhã?

Proustiano. Parte I

Já lhes contei sobre o jardim de infância? Lembro-me de ter chorado baldes no meu primeiro dia. Era uma escolinha particular que ficava no meu bairro, colorida, não muito grande, e feliz. Era feliz demais. Havia palhaços pintados nos muros. Sentia-me indefeso, preso, longe dos meus pais e da minha casa, como num campo de concentração. Na parede da minha sala havia um daqueles quadros que, na época, era moda ter: um menino chorando, desesperado. Porque ele chorava, ninguém sabia (hoje, sabe-se que há no quadro uma daquelas mensagens idiotas, que chamam subliminares). Certo é que eu olhava aquela imagem e chorava, chorava muito. Ninguém entendia. As carteiras da escolinha eram outro martírio. Eu não me sentava sozinho: à minha frente havia, distribuídos, mais três rostos desconhecidos, feios e tão desesperados quanto o meu. Mas logo aprendi a me virar. Ignorava-os. Mais: eu sempre tive asco aos divertimentos gratuítos, inúteis, baratos. Quando no intervalo de recreação, sentava-me à sombra do cajueiro – árvore anacardiácea – , pegava a minha merendeira do Snoop, abria-a, e fazia o meu lanche, olhando, com certo desdém, os garotos e garotas que brincavam, pulando e escorregando irracionalmente nos brinquedos quentes como o quê, sob o sol lancinante. Eu jamais brincava, jamais. Vinha a educadora, que ainda hoje conheço e é muito boa gente: 

___Vamos, Edson. Brinque um pouco. 

Mas eu era resoluto. Minhas únicas companhias eram a merendeira do Snoop e a sombra do cajueiro. Alguém dirá: “você não teve infância”, e eu direi:  

___Ora, e como não? Enquanto vocês torravam sob o sol, eu me divertia por dentro, me esbaldava, sentindo-me a criancinha mais especial de todas, bajulada pelas professoras e temida pelo meninos bobões. Eu, sim, tive infância.

Viajando no cavalo de Hoffman

Trabalhar depois de um feriado é um martírio. Minha mente está absorta entre ontem e amanhã, ou em qualquer outro dia, menos no hoje, dia presente, tempo presente.

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Passei na banca e comprei, enfim,  a Piauí. Vejamos.

Olá. Enfim comprei a Piauí. Ainda não lí mais que uma página, mas lerei mais ainda hoje. Cheguei aqui na empresa e coloquei-a sobre a mesa. Um colega passou: “você viu Jô Soares ontem?” Não, eu disse. Então ele me explicou que alguém da revista esteve no programa, falando da revista e tal, das capas…
Agora, pensando bem, Piauí é a típica revista para ser comentada no programa do Jô – Cult, ainda que pseudo.

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Também estou lendo a Rolling Stone Brasil, n°1.

Matérias boas, apesar de um esforço visível para se aproximar dos textos da original americana. Boas entrevistas. Boas fotos.

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Esse barulho do ar-condicionado às vezes me enche.

Produzir a diferença (blogs)

Mas o que é produzir? Pergunto isso e me calo. Lendo no blog do Lino sobre o que as pessoas procuram quando acessam blogs, ví que alguns comentários diziam bem o que eu penso: as pessoas procuram aquilo que não encontram em mídias tradicionais. Isso quer dizer, muitas vezes, que leitores de blogs não procuram necessariamente notícias quentes – excetuando-se, claro, casos como o Noblat -, mas opiniões, mesmo, sobre quaisquer assuntos. E quanto mais ácida a linguagem, melhor. Mais uma vez, caímos na questão da diferenciação. Blogueiros não têm editores para lhes crivar o texto e/ou censurar esta ou aquela expressão, e isso dá-nos uma certa sensação de liberdade. Claro, há de haver o bom e velho bom-senso, pois, do contrário, alguém pode dar com os burros n’água, como já aconteceu. Deixemos de reflexão, por agora.

Estou escrevendo deitado, tamanha é a preguiça. É, hoje eu tenho esse luxo

Os vizinhos ouvem uma música estranha, então coloco What difference does it, Smiths, para abafar. O excesso de luz lá fora me faz mal. O calor. Hoje a casa vazia, fecho-me no quarto. Sinto uma certa ansiedadezinha quanto ao resultado de hoje – eleições. Ainda que o verecdito seja obvious demais. Voltando: Estou trancado ño meu quarto. Livros rodeiam-me; revistas, idem. Não sinto interesse em ler, por agora. Sede. Saudade do futuro. Meus pés descalços, tão naturalíssimos. Os olhos apertados (metade cinismo, metade sono), e essa preguiça gratuita. Tudo isso inflama-me. Ópio, por favor.

De resto

O “Colega” é o último refúgio das considerações.

                                                                            Edd.

Eis o que há para ser dito

Não vou escrever sobre as eleições nem nada. Quanto mais ela se aproxima, mais ela nos cansa. O resultado de domingo já se nos apresenta há tempos. Mas eu disse que não escreveria sobre. Eis o que eu queria dizer: Estou cansado. Sei que é toda semana a mesma história – chega a quinta-feira, já não aguentamos mais: trabalho, estresse, faculdade, ônibus cheios demais, metrôs noir demais -, mas a verdade é que somos uma geração sedentária, sem muito jeito para os transtornos fashion contemporâneos. Digo fashion porque há quem nem precise de uma rotina massacrante, mas precisa parecê-lo. Sei de gente que anda com livros e/ou revistas sob o braço a semana toda, sem nunca tê-los lido, só para passar uma imagem de “como minha vida é dura” ou “trabalho e estudo, estou cansado”. Se estivesse mesmo, não gostaria de estar. Quem está, reclama. Mas não gostaria de deixar de estar. Não sei bem do que falo, nem se falo com clareza. Certo é que, este meu estado, e de outros muitos, deixa a gente meio desatinado. E parafrasio o Holden: “Às vezes finjo ser um pouco maluco, só para não ficar entediado.”

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To you Nat: I love you, i miss you.

Sofismando

São 8 da manhã e já tomei chuva e já passei raiva dentro do ônibus: um idiota ao meu lado, trocando mensagem – ou coisa que o valha – não sabia colocar o celular no modo silencioso.

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E, como diria o Nelson, o ser humano adora um ajuntamento.

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Também estou lendo a monografia do Cleber Corrêa.

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Meu médico disse que não posso falar de coisas muito sérias após as 20 horas.

Para um e-mail que recebi, a minha resposta

Quanto à minha crítica ao P. Coelho: Em verdade nem foi uma crítica assim tão direta ao mago; foi, sim, uma opinião pessoal de quem vê uma coisa todos os dias e, uma hora, se cansa. Engraçado foi você dizer “pelo menos estão lendo”. Sim. Sabe, ontem mesmo, no metrô, indo pra casa, ví, de longe, um rapaz lendo. Fico feliz quando vejo isso. Quando o metrô chegou na estação terminal, levantamos para sair, passei perto do tal rapaz e ví que o que ele lia era um dos livros de banca do Paulo coelho. Então pensei: “pelo menos está lendo”, como você. Mas a verdade é que não gosto de escrever otimismos, soa mal. O otimismo é um sentimento muito pessoal, introspectivo. Eu diria até que é um sentimento muito semelhante à fé, ou a própria fé.

O referido post chama-se Popular Demais, e é de uns dias atrás.

O Óbvio Ululante

Já disse que estou lendo o Óbvio Ululante, de Nelson Rodrigues. Estou me esbaldando. A crônica que lí ontem, indo pra casa tarde da noite, é uma que fala de como os idiotas estão dominando o mundo. Há um trecho em que ele cita Mao Tse – ” Se a bomba atômica matar 400 bilhões de chineses, ainda sobrarão outros 400 bilhões”, ou algo assim – e comenta: “Com um piparote, o idiota mata metade da sua nação e ninguém diz nada. Coisa normal matar 400 bilhões de pessoas. Estranho mundo idiota.” Que ele chamou Mao Tse de idiota, não é necessário ser dito. Mas e no Brasil? E quanto à idiotice dominante neste país? Quem é mais idiota? O Governo ou o povo que o elege?

Leroux Shakespereano

Estava no ônibus, tentando dormir. Atrás de mim, um rapaz e uma moça conversavam. Os assuntos mais diversos: trabalho, livros de Dan Brown, filhos, roupas, e filmes. Nesta parte acordei, definitivamente. A moça, que falava com a maior propriedade sobre todos os temas, começou a citar seus filmes diletos e os últimos que havia assistido. Num certo momento ela diz:

___ Nossa, assisti ao O Fantasma da Ópera, de Shakespeare (…)

Quase me virei para dar-lhe um soco, ou coisa que o valha.  Não preciso nem falar da honra dos escritores que ela envolveu, pois eu, eu, fiquei ofendido.

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Ainda hoje, no caminho para o trabalho, ví algumas daquelas placas de campanha do Geraldo Alckmin feitas de casa, lar, por moradores de rua. Votos ganhos.

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Ontem comecei a ler O Óbvio Ululante, de Nelson Rodrigues. Cinismo essencial.

Dominical post

Não muito conectado.

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Faz um calor insuportável dentro deste quarto, mas me é difícil deixá-lo; há muita luz lá fora. Incômodo. Aqui, dedico-me à música e à literatura, à meia luz. Oscilo entre a cadeira defronte ao pc e a  cama. Perco a noção do tempo. Tenho uma vaga idéia do meu estado. Não muito conectado.

Pessoal Post

É engraçado: escrevo mais constantemente quando estou no trabalho; justamente quando eu não deveria escrever, pelo menos num blog. Mas me deu vontade fazer um post pessoal.

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Ontem fui para a casa da tia da minha namorada comer feijoada. Comi pouco. Minha educação não me permite mais, ainda que Natália insista. Permaneci por algum tempo lá. Após o almoço, jogamos bingo – ou vispa, como chamam. Ganhei duas vezes, mas sem muito entusiasmo. Não sou muito de jogos.

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Mais à tardinha, sorvete. Ela pagou. Eu quis aproveitar e peguei várias bolas de vários sabores. A última bola que peguei foi de um tal “amor em pedaços” – um tom amarelado, gotas de chocolate – e me arrependi. O maldito não era de creme como pensei, mas de abacaxi, e contaminou todos os outros sabores que eu havia colocado antes. Tipo: fui obrigado a tomar sorvete de chocolate com gosto de abacaxi.

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Então, ainda falando de ontem, viemos para cá, minha casa, e, bom, namoramos. Balançamos as pernas livres, sentados na marquise da varanda; o vento amenizando o calor. E ela é bastante calorenta.

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Hoje. Acordamos tarde. Fizemos hora na cama até levantarmos. Tomamos achocolatado e comemos misto no café da manhã.

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Jogamos Heroes – rpg – no pc a tarde toda, até cansarmos. Deitamo-nos. No Media Player, Belle and Sebastian,  Coldplay, U2 (…). Então tiramos uma soneca. Que preguiça.

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Mais à noite terminamos de assistir Serial Experiments Lain. Putz, eu já recomendei isso aqui. É necessário que todos assistam, para que possa haver um maior número de explicação para a coisa toda, que, puxa, não é fácil. Eu já havia visto; Nat não. Ficou confusa igual não-sei-o-quê.

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Então, namoramos. (não entremos no mérito da questão, sim?)

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Isso, sim,  é feriado.

O Renascentismo na Contemporaneidade

pop art

O que era protegido por paredes de vidro agora está nas tampinhas de garrafa e nas telas de cinema. A arte Renascentista, que durante os séc. XV e XVI, pregava a importância máxima da inteligência, do conhecimento e da arte, atualmente, está estampada em capas de caderno, livros, filmes, anúncios publicitários, quadrinhos e pôsteres. Tornou-se quebra-cabeça e máscaras de fantasia. A arte renascentista, principalmente a já desgastada Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, hoje é apenas mais um produto na Indústria Cultural. Vale ressaltar que esta banalização não é inerente à arte em si, mas ao homem. Note-se que a época Renascentista foi marcada pela valorização do homem, ao contrário da Idade Média, cuja vida devia ser centrada em Deus. Hoje, não se sabe ao certo no que o homem se concentra. O indivíduo parece perder cada vez mais o seu foco, quanto mais a humanidade avança. Não se sabe que tipo de arte teremos no futuro, mas há um certo temor quando analisadas as possibilidades. O que se pode ter certeza é que o homem se distancia cada vez mais de si mesmo, tornando-se um corpo sujeito a experimentações de todos os tipos, como um falso modelo que posa para um falso artista. Da Vinci não sabe, mas o homem hoje é uma Mona Lisa transfigurada.

Aquilo que me obriga não faz parte de mim.

Que semana mais filha da puta. Esse tempo disforme que ora passa rápido demais ora estagna. Bastardo. Ódio. Incômodo. Essas campanhas políticas idiotas que subestimam o intelecto de todo mundo. O cheiro. Às vezes o cheiro de tudo é insuportável. A textura, até a textura da cidade imunda é uma porfia. O som das vozes juntas, a celeuma, é uma nota desafinada. 

 “Existem momentos na vida em que é necessário economizar seu desprezo devido ao grande número de necessitados.” (Chateaubriand) 

Ed.

Espirituoso

Ah, mas a cidade é toda muito dissimulada. São todos, na cidade, uns dissimulados, olhos de ressaca, oblíquos (…). Chega um tempo em nossa vida em que ficamos cansados. Cansados de tudo um pouco.

Post Scriptum

Hoje não tive lá muito tempo. Queria falar de Camus, de Hemmingway, de Orwell, de Proust, de Salinger, de Wilde… mas é parco o meu tempo, hoje.

(*Continua)