Archive for the ‘filosofia’ Category

wittgenstein: facts

“Ah, mas eu imaginava que a faculdade me mandaria ler os clássicos”. Eu também achava. Então, se você pretende ganhar uma discussão-de-estação-de-metrô ou, no mínimo, perdê-la honradamente, saia dessa mesa suja de bar e vá ler alguma coisa que preste.  

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Sou mesmo muito intrometido, e por isso vou um pouquinho além da bibliografia obrigatória do jornalismo – que, diga-se, é uma grande merda. Gosto dos Apocalípticos, da Escola de Frankfurt e tal, mas não é suficiente.  

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Deixem-me contar-lhes uma história que me apraz particularmente: a história de Wittgenstein. Ludwing Wittgenstein, em sua fase de acadêmico na Inglaterra, foi aluno de Bertrand Russel, cuja obra Principia Matematica, de 1913, tentava reduzir todo o imbróglio matemático à simples e pura lógica. Wittgenstein, ainda mais ambicioso e polemista que Russel, disse que seu primeiro livro, Tractatus Logico-Philosophicus (1922),  marcaria o fim da filosofia (caso ele tivesse um blog, este estaria desde já linkado). Após alguns anos lecionando numa escola Austríaca, Ludwing retorna à Inglaterra para declarar – vejam bem – que estava equivocado. Consequência? Passou os 18 anos seguintes liderando um grupinho de estudos (dando aulas particulares, diria-se hoje), em Cambridge. Uma lástima. Mas, voltando ao Tractatus, ele determinou que o mundo consiste de fatos. O mundo é uma totalidade de fatos, não de coisas. “Fato” é quando você faz uma verdadeira afirmação sobre algo (coisa). Um blog é uma coisa; a afirmação “este blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória” é um fato. O mundo como o conhecemos não passa de uma reunião de fatos conhecidos. Noutras palavras: é a linguagem a responsável pelo nosso senso de universo, nosso meio e nossas experiências (o que não pode ser dito, não pode ser conhecido). 

Os chamados Positivistas Lógicos, um então grupinho de jovens (arg) filósofos, foram profundamente influenciados pelas idéias de Wittgenstein. Eles acreditavam que tudo aquilo que não pudesse ser empiricamente demonstrado (na prática, you know) era mero contra-senso (como artes, literatura, etc). Wittgenstein não concordou com isso, no entanto e felizmente. Ele se interessava excessivamente pelo que não podia ser comprovado, e permaneceu obcecado por realidades não demonstráveis. Em sua segunda obra, Investigações Filosóficas (só publicada postumamente, em 1953), o ex-aluno de Russel pareceu abandonar totalmente o pensamento presente no Tractatus. Ele mesmo chegou a afirmar que suas primeiras idéias eram fruto de uma juventude ambiciosa demais e, mais que isso, simplista demais. Se antes Wittgenstein havia tratado as palavras como indicadores ou símbolos das coisas no mundo, em Investigações Filosóficas ele amplia essa visão: o significado das palavras não depende daquilo a que elas se referem, mas de como são utilizadas.

E com isso vos digo que não importa muito sobre o que eu escrevo aqui; mais uma vez digo Não me levem tão a sério, e, principalmente, não levem a si mesmos tão a sério. Trabalhem seus textos, que é coisa mais importante. 

Um abraço.

kriterion

Estou em estado de époche.

enquanto a filosofia não vem

Há dias em que eu acho tudo um grande porre. Uma colega da universidade me pediu emprestado A República, de Platão, e ficou com  ele uns três meses. Quando me devolveu, eu não perguntei se ela havia lido. E imagino que não. Pelo menos não completamente. Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta. E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna, afinal de contas. No entanto eu concordo que a filosofia seja “inútil e indispensável”, como escreve Josef Pieper:

É conhecido o prazer com que Sócrates – freqüentemente e de formas muitas vezes exageradas – gostava de ostentar o quão desajustado é o filósofo: ele mal sabe onde se localiza o fórum, não tem a menor idéia das disputas partidárias dos que almejam o poder, ignora completamente as questões relativas à ascendência nobre ou plebéia e mais – ironicamente referindo-se a si mesmo: “ele não sabe sequer que ignora tais coisas”. O riso da criada trácia que zomba de Tales por ter caído num poço, enquanto, caminhando, contemplava o céu, está reservado para todos os que se dedicam à filosofia em qualquer época.“Mas, não é o caso de ficarmos aqui repetindo o que todo mundo sabe. Além do mais, o próprio Sócrates não fala do filósofo como único objeto de riso. Também ele tem sua vez de rir quando, por exemplo, ouve “discursos pomposos” ou quando alguém louva o tirano. É então o filósofo quem ri, e, nesse caso, “a sério”, com fundamento na realidade. Contudo, não é tão importante saber quem ri de quem e com mais ou menos razão. Mais importante é, parece-me, indagar que significado poderia caber à filosofia na vida da sociedade humana.Quando falo aqui em “filosofia”, diga-se de passagem, não estou, é evidente, referindo-me a um determinado grupo de pessoas, nem a um grêmio de “especialistas”, cuja função social estaria em discussão. Sócrates afirmava que reconhecer a estirpe dos verdadeiros filósofos não é, de modo algum, tarefa fácil, mas “quase tão difícil como a dos deuses”. E recordemos suas palavras mais amargas: os maiores detratores da filosofia são aqueles que se autodenominam filósofos. Não estamos indagando, portanto, sobre a função de determinado grupo ou instituição, mas sobre o valor, para a comunidade humana, do filosofar em si mesmo, onde quer que ele se realize.O platônico Aristóteles expressa sua visão da filosofia na passagem da Metafísica em que afirma serem todas as ciências mais necessárias do que ela, embora nenhuma a supere em importância: necessariores omnes, nulla dignior. Ora, a “dignidade” da filosofia e a devida importância que possui no seio da comunidade humana deriva de que só ela pode produzir uma indispensável inquietação, formulada na seguinte questão: Em que consiste – uma vez que, com notável esforço de inteligência e trabalho, já tenhamos obtido tudo que é “necessário”, a satisfação de todas as necessidades vitais, a plenitude de recursos para manter a vida (em todos os sentidos) e a seguridade do viver -, em que consiste propriamente a vida (essa vida assim possibilitada), a vida verdadeiramente humana? Formular esta inquietante pergunta – em meio a todas as perfeições que o homem alcançou para si, no mundo -, e sustentar vigorosamente esta pergunta por um pensamento rigoroso e insubornável – esta é que é precisamente a função da filosofia e sua mais específica contribuição para o bem comum. Ainda que ela, por si mesma, não tenha capacidade de dar resposta cabal.