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O berço familiar

Em casa, somos uns pulhas. Em minha casa não há diálogo, não há bom dia e boa noite. Somos uns frios. Uns deselegantes. Uns mal educados. Mas tenho lá os meus motivos. Filho de pais devidamente divorciados, sou o homem, o primogênito. Moro com minha mãe – a quem, claro, os adjetivos acima não cabem – e irmãs. Duas irmãs, mais novas, além de pulhas, ecléticas. Para a minha sorte, passo a maior parte do dia fora de casa; no trabalho e na universidade. Ao chegar, à noite, passo direto pela sala e dirijo-me ao quarto, onde tenho alguma paz. Digo alguma pois não posso dizer plena. Se estou tentando dormir, a tv exibe toda a sua potência na sala. Se estou a estudar, sou constantemente incomodado pelo ecletismo que vem dos cômodos contíguos; pelas risadas altas às altas horas, pela falta de bom senso. Chamam-me velho e levanto as mãos a agradecer. Eu não voltaria à minha adolescência por nada, nada. Se atendem a um telefonema a mim dirigido, dizem “telefone” e logo sei. Se me chamam ao portão de minha casa, dizem “Estão lhe chamando lá fora” e logo também sei. É uma comunicação objetiva, direta, seca, quase  jornalística. Sem emoção, paixão, ênfase, sentimentalidade ou empatia. Sou quase o Teddy do conto do Salinger, mas perco no quesito dramaturgia. Não queria ser como os Corleone, pois as consequências de minha aversão não se limitariam a caretas de desaprovação e a textos como este. Melhor ser eu. Eu que, outro dia, acordei sobressaltado com batidas desesperadas à porta do meu quarto, em plena madrugada. Eram minhas irmãzinhas. Estavam assustadas: havia um ladrão caminhando lá fora, em nossa residência.

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Ah, um adendo:

Este que vos escreve irá gozar de férias do ofício a partir de hoje, por 30 dias. Sorriam felizes, acólitos; posto quando puder.