Archive for the ‘Cult’ Category

Às vezes exigir de uma frase que ela seja um título é querer demais

 

Esses dias um amigo me disse que não era cult falar mal de ‘300’, só porque eu demonstrei a minha impaciência para com essa gente que não sabe falar d’outra coisa que não sobre mais uma adaptação dum quadrinho do Frank Miller para o cinema. O último, Sin City, eu vi e – com o perdão da palavra – achei uma droga. Eu não estava querendo parecer cult, que idéia! “Já é, né?”, disse a segunda pessoa do diálogo. “Você é quem diz”, eu disse para acabar com o papo. Por exemplo, estreou Scoop, do Woody Allen, e vocês não me viram aqui falando nem bem nem mal do filme, embora saibam que gosto de Woody Allen. Esse pessoal de blog gosta muito de opinar, e ainda que eu admire isso, há momentos em que é melhor ficar calado.

Sim, eu sou muito conservador. E disperso em relação a algumas coisas. Esqueci, por exemplo, que dia é a páscoa. Nunca me lembro desse negócio de segundo domingo de abril e toda essa lenga lenga. Perguntei para a menina do setor de frente e ela me disse “domingo”. E uau, porque eu não comprei lhufas para mon chou. Ainda.

Ontem saí aqui da OAB ao meio dia. Trabalho de radiojornalismo, entrevistas para serem feitas com algumas fontes na Polícia Federal e etc. Tema: crimes no orkut. E eu nunca falei de orkut aqui também, imagino. Mas, quê dizer? Sim, eu tenho, o link está aí ao lado e tudo, mas não sou nenhum orkutaholic. Tenho preguiça.

E essa semana dizem que é santa. Então ‘tá. Fato é que não trabalho amanhã, e isso sim é de uma santidade sem tamanho. Não gente, eu sou católico. Batizado e tudo. Com a água, é. Mas sou bastante avesso a religiões – inclusive com a minha -, mas ainda acho algumas igrejas bem bonitas, a arquitetura, o barroco, etc. E me lembrei de dizer uma coisa: quanto à notícia de que o papa vai impor que as igrejas católicas voltem a rezar as missas em latim, ela só vale para as igrejas de verdade. Pobres que mal entendem o português não têm que se preocupar, de jeito nenhum.

E eu não falei também do novo hábito que desenvolvi nos últimos meses: ler blogs impressos. Quer dizer, eu imprimo alguns textos de alguns blogs e levo para ler no ônibus ou durante uma aula chata na faculdade. Alguns blogs que recomendo a vocês, ótimos para serem lidos quando impressos: esse, esse outro, esse aqui, esse e esse. Não dá para comentar, é verdade, mas vá por mim, é legal.

That’s all, folks.

Capitain Bauer (e outras considerações)

 

Acir Galvão, um amigo dos tempos em que atravessávamos noites desenhando ao som d’alguma banda grunge década de 90 – sim, tive essa fase -, tornou-se um grande artista. Enquanto o caminho que tomei foi o das letras e do jornalismo, ele tornou-se design e, hoje, estuda Belas Artes, fazendo cada vez melhor o que sempre soube fazer. O que eu queria dizer é o seguinte: ele tem uma teoria – posso dizer teoria? – de que o Capitão América contemporâneo é o Jack Bauer, o herói da cultuada série 24 Horas. Ele explica:

“O Capitão America de hoje não é o Steve Roger: É o Jack Bauer.O Capitão America foi criado não apenas para incentivar adolescentes a se alistarem, Mulher Maravilha não foi criada apenas para levar mulheres às industrias em tempos de guerra e incitar orgulho por parte de seus maridos e filhos que morreram lutando pelo estilo de vida americano. Eles existiram, ACIMA DE TUDO, para ensinar as CRIANÇAS e ADOLESCENTES os conceitos de uma AMÉRICA VITORIOSA contra a ameaça vermelha, mesmo que essa vitória sendo muito mais dos RUSSOS do que da própria América.

Hoje a América precisa justificar seus atos a partir  novos símbolos, novos heróis.Mostrando para os adolescentes e adultos de hoje as justificativas das medidas de retaliação extremas, invasões premeditadas, e outras medidas de precaução como a criação de armas letais em massa.Também estão preparando sua mente para aceitar mortes. Muitas mortes. Morte de pessoas aos montes, caindo como moscas, ainda que por um “bem maior”. Que é justamente o bem maior Deles.

Seria a ficção imitando a realidade?

Os Heróis são símbolos daquilo que é certo e direito. São ícones que, trabalhados de diversas formas, se utilizam de todos os arquétipos do consciente humano para se tornarem referência do conceito de certo e errado para nós mesmos.

Quando todo esse poder é utilizado de maneira irresponsável e egoísta, a crise se tornar algo incontrolável. É completamente possível e correto afirmar que o conceito de CERTO e ERRADO está muito distorcido hoje em dia. Também com heróis como os de hoje em dia, cada um defendendo um ponto de vista muito particular, simplesmente não dando a mínima para nada, não fico surpreso com esse tipo de resultado.Os heróis do novo século defendem a pena de morte. Defendem o roubo. Defendem o homossexualismo (nada contra, mas é um ponto de vista.) Os negros. Os brancos os asiáticos….

Eles deveriam defender o CERTO e o ERRADO:

MATAR é ERRADO, seja quem for. ROUBAR é ERRADO. PRECONCEITO é ERRADO. Ponto final.

Mas se o cara for um estuprador-assassino-ladrão-sonegador-de-imposto-filha-da-puta de marca maior? Se o ladrão estiver roubando para comer? E se o preconceito me defende das pessoas erradas?Os dias estão assim. Esses argumentos existem. E até mesmo os heróis da era de ouro mudaram seu ponto de vista em suas novas interpretações para o novo século. Até mesmo SUPERMAN matou dois caras no seu novo filme. E o pior:  a grande MAIORIA nem percebeu.

A colocação de Edsons Junior é muito correta e não vou me repetir aqui. A questão que fica no ar é:

Quem são os seus heróis? Quem são os heróis dos seus filhos?

É bom começarem a se perguntar isso, e a ver filmes e séries como algo que vai além do entretenimento. Porque é assim que se deve assistir.

E para finalizar sobre Jack BAUER:

Ele é um HERÓI que faz, sem hesitar, tudo aquilo que está ao SEU ALCANCE para salvar o dia, mas, diferente da AMÉRICA que ele tanto defende, ele não ganha ABSOLUTAMENTE NADA em troca… apenas se FODE e fica vivo para salvar mais um dia!”

Folk you

 Literatura – Histórias Fantásticas, Adolfo Bioy Casares
Por Rodrigo Damasceno
Histórias Fantásticas reúne contos publicados entre 1948 e 1969; uma década de produção que já coloca o nome de Casares entre os grandes da literatura latino-americana.

Top Seven Scream & Yell: os melhores livros do último ano, os melhores filmes, blogs e toda essa coisa de cultura pop.

Emagreça dormindo

“A maior parte das frases de efeito e de mentiras por vaidade que foram gastas desde que o mundo é mundo por pessoas a quem estas apenas diminuíam foram empregadas com inferiores.”

Proust é confuso. E o faz propositalmente, a fim de enganar o inimigo. Mas o que ele quer dizer é simples: quem usa frases de efeito só o faz perante pessoas que considera inferiores. Ou, ainda, que pessoas importantes só fazem questão de assim parecerem na presença de humildes. Imaginem só o embaraço de um burguês ao ser confundido com um prole por um prole. Já entre ilustres, tal preocupação é inexistente. Noutras palavras – como posso dizer? -, os Sus scrofa se reconhecem entre sí – pelo cheiro. 

Os ateus não têm mais classe

*trilha: Marylin Manson

 Essa gentinha me irrita. Não vou tratar aqui dos motivos todos que levam um homem (?) contemporâneo a dizer-se ateu, mas cito uma: a má educação religiosa. Em famílias católicas – não que em protestantes seja muito diferente – é hábito fazer com que os filhos participem do catecismo – aos 7, 8 anos –  na igreja mais próxima, façam a primeira comunhão e, fechando o cilco, crismem – geralmente aos 14, 15 anos. Ou seja, o ensino termina exatamente quando as dúvidas começam. A não ser que o indivíduo seja muito crente e queira se tornar vigário, após a crisma é só perdição. Exagero, mas é para melhor compreensão. Há aqueles cuja mente é ainda imatura para desenvolver quaisquer dúvidas e voltam para casa sentindo-se abençoados e salvos, no céu. E há os que perguntam – Por que Cain matou Abel? Adão tinha umbigo? – mas não têm quem lhes responda. Naturalmente, tais questionamentos são muitas vezes esquecidos. Ou, ainda, tornam-se impulsos positivos, permitindo às mentes inquietas buscar conhecimento e respostas – assim nascem os teólogos. E há a pior raça, que, hoje, vê-se em todo centro urbano, nas esquinas, de preto, com um cigarro barato entre os dedos imundos e um crucifixo de ponta a cabeça pendurado no pescoço: os (pseudo) ateus. Ateu é aquele que não crê em Deus. Que o renunciou assim que soube que ele poderia existir. Ou que não sabe nada mesmo, ignorante como uma porta.

Tenho algumas, mas faço duas considerações a respeito: a) ateu não usa crucifixos no pescoço, nem de ponta a cabeça nem em posição alguma; b) ateu não clama o nome de Deus quando sob ameaça ou temor – aliás, deixem-me reiterar, que gentinha! Passam a vida afirmando, para quem não quer ouvir, que Deus não existe sem que tenha o menor argumento p’ra isso e, quando atacados na rua por um cão, saem a murmurar “ai, meus Deus!” Então vocês pensam: “Ed, quem usa crucifixo ao contrário não é ateu, é anticristo”, e vos digo: essa gente não sabe a diferença. Têm a imaginação mui subdesenvolvida, são quase bestas – não a do apocalipse, que eles já ouviram falar mas também não conhecem.

Os descrentes perderam a classe. Eram ateus respeitáveis: Nietzsche, Denis Diderot, Lord Byron, Voltaire, Jean-Paul Sartre, Schopenhauer, Bertrand Russel, Freud, entre outros. Bons tempos esses em que, até para duvidar, fazia-se necessária alguma inteligência:

“A crença em Deus subsiste devido ao desejo de um pai protetor e imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência humana.”              Sigmund Freud

“O Universo não apresenta qualquer evidência de uma mente dirigente (…) Todos os bons intelectos têm repetido, desde o tempo de Bacon, que não pode haver qualquer conhecimento real senão aquele baseado em fatos observáveis.”     Auguste Comte – Filósofo francês

“Mesmo hoje, eu acredito que estou agindo de acordo com a vontade do Todo Poderoso Criador: me defendendo dos Judeus, estou lutando para o trabalho do Senhor.” Adolph Hitler – Mein Kampf

“Não somente há deus nenhum, mas tente achar um encanador em fins de semana.” Woody Allen – Diretor, ator e escritor americano

Hoje os idiotas dizem que não crêem em Deus porque querem impressionar, chamar a atenção, ser “diferentes”. E realmente o são: tão diferentes que mal têm consciência do próprio lugar no mundo – físico, digo; pois dizer intelectual seria querer demais.

Woody Allen tinha razão

Sabem, é engraçado. Quando chego em casa tarde da noite, fico pensando no que é a vida. E sei, ela não passa de uma historinha que o Wood contou em 1977:

“É uma antiga piada: duas velhinhas em um hotel fazenda. Uma diz: ‘a comida aqui é um horror’. A outra diz: ‘eu sei, porções minúsculas’. É assim que eu vejo a vida: cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”.

É, não passa disso.

(Sei que serei repreendido por ser pessimista. Mas, a essa hora, quem liga?)

“ O casamento nos dá ensejo a grandes excitações coletivas: se conseguíssemos suprimir o complexo de Édipo e o casamento, o que nos restaria para contar?” (Barthes)

Vidas Paralelas – Cinco Casamentos Vitorianos, livro de Phyllis Rose, professora de literatura inglesa da Wesleyan University, vale não pela autora, mas pelos autores nele retratados. Em seu livro, ela busca retirar lições sobre casamento (ou relações de união, etc) analisando as relações de cinco escritores ingleses da era Vitoriana: John Stuart Mill, John Ruskin, Thomas Carlyle, Charles Dickens e George Eliot. Quando lí esse livro, algo, no começo, me cansou:  a linguagem e o modo como Phyllis quis contar as histórias. Como posso explicar? Ela pretendia contar sobre a vida de cada escritor e, ao mesmo tempo, escrever uma novela. Quis biografá-los sem fazer biografia. E isso, em literatura, não funciona. Um livro é o que é. E Vidas Paralelas é um livro de biografias – gênero que particularmente detesto – que vale por passagens como essa, em que Stuart Mill renuncia aos direitos que lhe caberiam após o casamento: 

Estando a ponto, se tiver a felicidade de obter sua concordância, de ingressar na relação matrimonial com a única mulher que jamais conheci com quem aceitaria entrar nesse estado; e uma vez que o caráter do casamento tal como constutuído pela lei é tal que tanto eu como ela o rejeitamos, total e conscientemente, pela razão, entre outras, de conferir a uma das partes do contrato, poder e controle legal sobre a pessoa, a propriedade e a liberdade de ação da outra parte, independentemente de seus desejos e de sua vontade; eu, não dispondo de meios de despojar-me legalmente desses poderes odiosos…creio ser minha obrigação lavrar registro de um protesto formal contra a lei existente do casamento, na medida em que ela confere tais poderes; e de uma promessa solene de nunca, em caso algum ou em quaisquer cinrcunstâncias, deles lançar mão. E, na eventualidade do casamento entre a Sra. Taylor e eu, declaro ser m,inha vontade e intenção, e a condição do compromisso entre nós, que ela conserve em todos os aspectos a mesma absoluta liberdade para dispor de si mesma e de tudo que lhe pertença ou possa vir a pertencer-lhe em qualquer tempo, que teria se esse casamento não tivesse ocorrido; e renuncio terminantemente a qualquer pretensão, além de repudiá-la, a ter adquirido quaisquer direitos em virtude de tal casamento.

Suponhamos que eu acredite que os homens do século XIX – escritores ou não – fossem realmente assim. (Cá entre nós: uma carta como a supracitada tem mais efeito que “você é a minha princesa reluzente” ou “lhe amarei eternamente”.) Psicologia reversa, amigo.

Últimos Suspiros: “Deixem-me morrer em paz!”, disse Voltaire. E empacotou.

Remexendo aqui nas minhas papeladas, encontrei um número da já extinta revista Bundas, mais especificamente a número 21, de novembro de 1999. Lembrei-me imediatamente de um ótimo texto de Sérgio Augusto sobre os últimos suspiros de gente famosa, nela publicado. Não sei se se o encontra por aí, então reproduzo-o aqui, digitado, letra por letra:

Pé na cova

Nunca fui de colecionar objetos de forma obsessiva e sistemática. Ao contrário da maioria dos meus colegas de infância e adolescência, não me rendi à tentação de juntar, com desvelo, flâmulas, postais, estampas Eucalol, selos, moedas e caixas de fósforo. Guardei, sim, um monte de gibis, revistas e recortes, preferindo investir meu tempo e minha energia em algo que, se bem praticado, pode ser, segundo Walter Benjamin, uma arte: fazer anotações. Escrever é fácil, difícil é fazer anotações. (Esta eu anotei de memória, saindo quentinha da boca do Ivan Lessa.) Se vício de jornalista, não sei, pode ser. O fato é que, desde a mais tenra idade, eu anoto. Não tudo, mas um bocado de um bocado de coisas, que mais cedo ou mais tarde eu acabo compartilhando com vocês. Hoje, por exemplo, vou compartilhar com vocês a minha coletânea de últimos suspiros. Sim, eu poderia ter escolhido outro tema – as grandes gafes da história, as mais hilariantes mancadas do cinema, da ciência e da locução esportiva, as mais ridículas rimas da poesia, os mais fulminates passa-foras de todos os tempos, as primeiras e últimas frases  mais brilhantes da literatura, os trechos mais pernósticos e obscuros da sociologia e da teoria literária, as mais estapafúrdias desculpas de gente famosa para não tomar banho todo dia, etc. – mas, em homenagem a finados, optei pelas derradeiras palavras comprovadamente pronunciadas por figuras famosas em seu leito de morte.

Por ordem de entrada em cena, ou melhor, de saída de cena, Sócrates é o primeiro da lista. Ao abrochar a clâmide (naquele tempo, 399 a.c., não se abotoava o paletó ainda), ele disse a Crito: “Eu devo um galo e Esclépio; você vai se lembrar da dívida?”. Tamanha insipidez só ganhou posteridade por ser antiquíssima e socrática. Sabe-se que Platão morreu (em 347, a.C.) agradecendo ter nascido homem, grego e no século de Péricles, mas ninguém anotou sua lapidar despedida, se é que de fato foi lapidar. Tão lapidar quanto a de Nero (68 d.C.): “Que grande artista morre dentro de mim!”. Também há controvérsias sobre as últimas palavras de Rabelais (1553). Uns dizem que foi “Estou indo para o grande talvez”. Prefiro a outra: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

Rosseau e Voltaire morreram n0 mesmo ano (1778). O primeiro despediu-se mais, digamos, pomposamete (“Vou ver o por do sol pela última vez”) do que o segundo (“Me deixem morrer em paz”). Mas não tanto quanto Diderot, que ao bater as botas, seis anos depois, parecia estar no meio de uma conferência e não com o pé na cova. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, pontificou o enciclopedista, e em seguida apagou. Dos poetas ingleses do século XIX, nenhum, nem mesmo o exuberante Byron, esticou as canelas tão teatralmente quanto o tuberculoso John Keats (1821). Nos braços do pintor Joseph Severn, ouvindo uma sonata de Brahms, balbuciou: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim.” Byron apenas anunciou, em 1824, que ia ou tinha de dormir – e nunca mais acordou.

A despedida de Goethe (1832), citada a torto e a direito, talvez seja a mais célebre de todas: “Mais luz!”, pediu ele, súplica que o escritor americano O. Henry repetiria 78 anos depois: “Ascendam as luzes! Eu não quero ir pra casa no escuro.” Outro alemão, Hegel, que desencarnou um ano antes de Goethe, também deu um show, sobretudo de niilismo: “Só um homem conseguiu me entender… e ele não me entendeu direito”. Não foi menos incrédulo que o farewell, de James Joyce (1941): “Será que ninguém me entende?” – se é que eu entendi o sentido da frase original: “Does nobody understand?”

Em matéria de desespero, raros defuntaram como Edgar Allan poe (1849), segundo alguns, implorando que Deus tivese pena de sua “pobre alma”, e, segundo outros, rogando a um amiogo que lhe estourasse os miolos com uma pistola. O escritor Hector Hugh Munro, vulgo Saki, nem precisou implorar por um tiro, já que morreu do balaço de um franco-atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Suas últimas palavras? “Apague a porcaria desse cigarro”. O franco-atitador estava fumando, na escuridão da noite.

O historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle (1881) desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora…” – e mais não disse. Algo parecido murmurou Henry James antes de bafuntar, em 1916: “Então é isso, enfim, as coisas distintas…”. T.T. Barnum, o mais célebre dono de circos e mafuás do mundo, nem se deu conta de que estava prestes a bater o prego. Numa noite de 1891, perguntou: “Como foia a venda de ingressos hoje no Madison square Garden?”, e entregou sua alma a Deus. Oscar Wilde provou até o fim (1900) que era um frasista de gênio: pediu champanhe, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e empacotou. Tolstoi (1910) expirou perguntando sobre como morriam os camponeses e D.H. Lawrence (1930) dizendo para a enfermeira que estava se sentindo melhor. Bernard Shaw (1950) não se deixou enganar e sobre a enfermeira que dele cuidava despejou a seguinte imprecação: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Estava mesmo.

José Veríssimo, um dos seis amigos que acompanharam os últimos minutos de Machado de Assis (1908), jura que o bruxo do cosme velho comentou que “a vida é boa” antes de dar seu último suspiro. Por muito tempo pensei que Graciliano Ramos (1953) tivesse ido desta pra melhor passando a mão no rosto de sua mulher, Heloísa, e murmurando “Mamãezinha”, mas um recém biógrafo assegura que suas derradeiras palavras foram “Estou acabado”. Sérgio Porto (1968) apagou pedindo à empregada de sua mãe que não olhasse pra ele, prova de que nem todo humorista morre fazendo piada. José do Patrocínio Filho era um tremendo gozador e nem quando esticou o pernil, em 1929, franziu o cenho. Condenado pelos médicos a tomar leite humano, pois mais nada o apetecia, à primeira demonstração de dificuldade da enfermeira para por numa colherzinha o leite extraído dos alvos e belos seios de uma ama-seca, Zeca abriu um olho e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?” – e nem sequer para mamar abriu mais a boca.

O elogio ao ócio

             “Acho que as pessoas trabalham demais hoje em dia”, frase dita pela primeira vez em 1935 pelo filósofo Betrand Russel, traduz perfeitamente o meu sentimento em relação às sociedades contemporâneas, ditas civilizadas. À medida que o homem deixou de trabalhar para viver e passou a viver para trabalhar, houve uma queda exorbitanete da capacidade criativa do indivíduo, que, hoje, não é mais livre para fazer coisas de que realmente goste. Por que isso acontece? Imagino a obviedade desta resposta, nos dias de hoje. O modelo político regente é como uma bota sobre as nossas cabeças. Mas não é meu desígnio, aqui, fazer bravata contra um ou outro modelo de Estado, tampouco idealizar uma política libertária, que nos vá amparar.

            O ócio atualmente é visto com maus olhos, como vadiação, mediocridade e, principalmente, como sinal de miséria. Esquece-se, porém, da importância da despreocupação e da diversão na educação de um jovem, por exemplo, ou de como o ócio foi (e é ) essencial à literatura e à filosofia. Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos. Aqui, gostaria de ressaltar um ponto crucial ao entendimento do meu texto. Quando os pensadores gregos, após anos de dedicação, finalmente conceberam suas obras, eles pensavam em angariar algum tipo de lucro? Não. Esse pensamento de que de que o trabalho lucrativo é o principal objetivo da vida é um erro, e Russel nos alerta sobre isso: 

A idéia de que as atividades desejáveis são aqueleas que dão lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas.           

E ainda: 

O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empresgos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho.O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo (…). Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida. 

            Esta visão não tem o objetivo utópico de eliminar o trabalho, mas fazer pensar uma reestruturação, baseada nas possibilidades abertas pelos modernos métodos de produção. O “conhecimento inútil” é o objetivo do ócio, e mais pessoas deveriam ter a chance de praticá-lo. Diz a história: o viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, em Nápoles, disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada.

Godard Literato

Estive ontem na abertura da I Mostra de Cinema da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Em palestra, o psicólogo, cineasta e doutorando em literatura comparada Mário Alves Coutinho disse que em sua tese pretende provar que Jean Luc Godard, o polêmico cineasta francês, conseguiu com sua obra produzir, concomitantemente, cinema e literatura. Voíla.

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A capa da Piauí n°2:

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E vocês já conhecem o Universo Anárquico?

Mostra de Cinema

Essa semana haverá mostra de cinema nacional na Faculdade Estácio de sá aqui de Belo horizonte, no Prado. Diretores, atores e cineastas convidados para um bate-papo após cada sessão. O jornalismo, a publicidade e o Marketing estarão lá.

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Saddam Hussein havia dito, há uns meses, que merecia ser fuzilado, que queria morrer com a honra de um militar. Pois, pois. “Saddam Hussein foi condenado à morte na forca pela matança de 148 habitantes xiitas do povoado de Dujail, ao norte de Bagdá, em 1982.”

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“Às vezes um charuto é apenas um charuto.” (Freud)

Pergunte ao Pó

“Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (…) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O livro era Pergunte ao Pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.

Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao Pó. Ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita porque foi minha primeira descoberta da mágica.”
Charles Bukowski – 5/6/1979
 

O Amor é uma Falácia – Leitura para o final de semana.

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.

Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito,  Compreendam, mas sem nada lá
em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Pettey, no entanto, não pensava assim.

      Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.

– Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.

– Marmota – balbuciou ele.

– Marmota? – disse eu, interrompendo a minha corrida.

– Quero um casaco de pele de marmota – disse.

Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.

– Por que você quer um casaco de pele de marmota?

– Eu devia ter adivinhado – gritou ele, socando a cabeça – Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar um casaco de pele de marmota!

– Quer dizer – perguntei incrédulo – que estão mesmo usando Casacos de pele de marmota outra vez?

– Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?

– Na biblioteca – respondi, citando um lugar não freqüentado pelas pessoas importantes da Universidade.

Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.

– Preciso conseguir um casaco de pele de marmota- disse, exaltado – Preciso mesmo.

– Por que, Pettey? Veja a coisa racionalmente. Casacos de pele de marmota são anti-higiênicos, são pesados, são feios, são …

– Você não compreende – interrompeu ele com impaciência – é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?

– Não – respondi, sinceramente.

– Pois eu sim – declarou ele – daria tudo para ter um casaco de pele de marmota. Tudo.

Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.

– Tudo? – perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.

– Tudo – confirmou ele, em tom dramático.

Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar um casaco de pele de marmota. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um baú, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.

Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.

Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.

Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.

Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa – um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho – sem nem sequer umedecer os dedos.

Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.

– Petey – perguntei – você ama Polly Spy?

– Eu acho que ela é interessante – respondeu – mas não sei se chamaria isso de amor. Por que?

– Você – continuei – tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?

– Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por que?

– Existe alguém – perguntei – algum outro homem que ela goste de maneira especial?

– Que eu saiba não. Por que?

Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.

– Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?

– Acho que sim. Aonde você quer chegar?

– Nada, anda – respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.

– Onde é que você vai? – quis saber Pettey.

– Passar o fim de semana em casa.

Atirei algumas roupas dentro da mala.

– Escute – disse Pettey, apegando-se com força ao meu braço – em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar um casaco de pele de marmota?

– Posso até fazer mais do que isso – respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.

– Olhe – disse a Pettey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.

– Santo Pai – exclamou Pettey com reverência. Passou as mãos no casaco e depois no rosto.

– Santo Pai – repetiu, umas quinze ou vinte vezes.

– Você gostaria de ficar com ele? – perguntei.

– Sim – gritou ele, apertando a coisa contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. – O que quer em troca?

– A sua namorada – disse eu, não desperdiçando palavras.

– Polly? – sussurrou Pettey, horrorizado. – Você quer a Polly?

– Isso mesmo.

Ele jogou a jaqueta pra longe.

– Nunca – declarou resoluto.

Dei de ombros.

– Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.

Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Pettey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido
em dois. Primeiro olhava para o casaco com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para o casaco. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para o casaco com pura lascívia.

– Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly – balbuciou. – Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.

– Isso mesmo – murmurei.

– Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?

– Nada – respondi.

– Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.

– Experimente – disse eu.

Ele obedeceu. O casaco caía até os pés. Ele parecia um monte de marmotas mortas

– Serve perfeitamente – disse, contente.

Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.

– Negócio feito?

Ele engoliu a seco.

– Feito – disse, e apertou a minha mão.

Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.

O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.

– Puxa, que jantar bacana! – disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.

– Puxa, que filme bacana! – disse ela, quando saímos do cinema.

Levei-a para casa.

– Puxa, foi um programa bacana! – disse ela, ao nos despedirmos.

Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Pettey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.

Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.

– Polly – disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. – Esta noite vamos até o parque conversar.

– Ah, que bacana! – respondeu ela.

Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.

Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.

– Sobre o que vamos conversar? – perguntou.

– Sobre Lógica.

Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:

– bacana!

– A Lógica – comecei, limpando a garganta – é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.

– bacana! – exclamou ela, batendo palmas de alegria.

Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.

– Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.

– Vamos – animou-se ela, piscando os olhos com animação.

Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.

– Eu estou de acordo – disse Polly, fervorosamente. – Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.

– Polly – disse eu, com ternura – o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?

– Não – confessou ela. – Mas isso é bacana. Quero mais. Quero mais!

– Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa – disse eu e, quando ela parou, continuei:

– Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.

– É mesmo? – espantou-se Polly. – Ninguém?

Contive a minha impaciência.

– É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.

– Você conhece outras falácias? – perguntou ela, animada. – Isto é até melhor do que dançar.

– Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.

– A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.

– Eu conheço uma pessoa exatamente assim – exclamou Polly. – Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique…

– Polly – interrompi, com energia – é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo
em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.

– Nunca mais farei isso – prometeu ela, constrangida. – Você está brabo comigo?

– Não Polly – suspirei. – Não estou brabo.

– Então conte outra falácia.

– Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.– Vamos – exclamou ela alegremente.

Franzi a testa, mas continuei.

– Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?

– É claro – respondeu ela imediatamente.

– Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.

– É mesmo – disse ela, pensativa. – Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.

– Mas ele pode fazer tudo – lembrei-lhe.

Ela coçou a cabeça linda e vazia.

– Estou confusa – admitiu.

– É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?

– Conte outra dessas histórias bacanas – disse Polly, entusiasmada.

Consultei o relógio.

– Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.

Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente bacana, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.

Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.

Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:

– Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.

Ela estremeceu de emoção.

– Ouça com atenção – comecei – Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.

Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.

– Isso é horrível, horrível! – soluçou.

– É horrível – concordei – mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?

Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.

– A seguir – disse, controlando o tom da voz – discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?

– Pois olhe – disse ela entusiasmada – está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.

– Polly – disse eu com impaciência – o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.

– Continuo achando a idéia interessante – disse Polly.

– Santo Cristo! – murmurei, com impaciência.

– A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.

– Essa parece ser boa – foi a reação de Polly.

– Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.

– É mesmo, é mesmo – concordou Polly, sacudindo a cabeça. – Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.

– Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos – disse eu, friamente – gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.

– Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes – disse Polly – Eu quase não vejo ele no cinema.

Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.

– A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.

– Que engraçadinho! – deliciou-se Polly.

– Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: ‘o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser’. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?

Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência – o primeiro que vira – surgiu nos seus olhos.

– Não é justo! – disse ela com indignação – Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar… Polly, estou orgulhoso de você.

– Ora – murmurou ela, ruborizando de prazer.

– Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.

– Vamos lá – disse ela, com um abano distraído da mão.

Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.

Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.

Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.

– Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore – hoje não falaremos de falácias.

– Puxa! – disse ela, desapontada.

– Minha querida – prossegui, favorecendo-a com um sorriso – hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.

Generalização apressada – exclamou ela, alegremente.

– Perdão – disse eu.

Generalização apressada – repetiu ela. – Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?

Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.

– Minha querida – disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão – cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.

Falsa Analogia – disse Polly prontamente – eu não sou um bolo, sou uma pessoa.

Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.

– Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.

Pronto, pensei; está liquidado o assunto.

Ad misericordiam – disse Polly.

Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.

– Bem, Polly – disse, forçando um sorriso – não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.

– Aprendi mesmo – respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.

– E quem foi que ensinou a você, Polly?

– Foi você.

– Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.

Hipótese Contrária ao Fato – disse ela sem pestanejar.

Enxuguei o suor do rosto.

– Polly – insisti, com voz rouca – você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.

Dicto Simpliciter – brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.

Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.

– Você vai ou não vai me namorar?

– Não vou – respondeu ela.

– Por que não? – exigi.

– Porque hoje à tarde eu prometi a Pettey Bellows que eu seria a namorada dele.

Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!

– Aquele rato! – gritei, chutando a grama. – Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.

Envenenar o poço – disse Polly – E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.

Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.

– Muito bem – disse – você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Pettey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Pettey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Pettey Bellows?

– Posso sim – declarou Polly – Ele tem um casaco de pele de marmota.

 

Max Shulman

 

“Haro, Nabi” Uma Análise da Representação da Cibercultura em Serial Experiments Lain, por André Lemos

RESUMO
Este texto faz uma análise da série de animação japonesa Serial Experiments Lain, enfocando o imaginário da cibercultura em seu enredo, especialmente nos seguintes aspectos: o corpo em relação com as máquinas na atualidade, as relações sociais mediadas pelas redes telemáticas, as novas configurações da religião em função do conhecimento, e as tecnologias cognitivas. O trabalho traz ainda considerações sobre animê e também sobre a cibercultura, elemento fundamental nas comparações e análise.

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O Renascentismo na Contemporaneidade

pop art

O que era protegido por paredes de vidro agora está nas tampinhas de garrafa e nas telas de cinema. A arte Renascentista, que durante os séc. XV e XVI, pregava a importância máxima da inteligência, do conhecimento e da arte, atualmente, está estampada em capas de caderno, livros, filmes, anúncios publicitários, quadrinhos e pôsteres. Tornou-se quebra-cabeça e máscaras de fantasia. A arte renascentista, principalmente a já desgastada Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, hoje é apenas mais um produto na Indústria Cultural. Vale ressaltar que esta banalização não é inerente à arte em si, mas ao homem. Note-se que a época Renascentista foi marcada pela valorização do homem, ao contrário da Idade Média, cuja vida devia ser centrada em Deus. Hoje, não se sabe ao certo no que o homem se concentra. O indivíduo parece perder cada vez mais o seu foco, quanto mais a humanidade avança. Não se sabe que tipo de arte teremos no futuro, mas há um certo temor quando analisadas as possibilidades. O que se pode ter certeza é que o homem se distancia cada vez mais de si mesmo, tornando-se um corpo sujeito a experimentações de todos os tipos, como um falso modelo que posa para um falso artista. Da Vinci não sabe, mas o homem hoje é uma Mona Lisa transfigurada.

O melhor dos mundos

Cândido, de Voltaire.

“Pangloss ensinava metafísico-teólogo-cosmolonigologia. Provava de modo admirável que não há efeito sem causa e que, neste mundo, o melhor dos mundos possíveis, o castelo de sua alteza o barão era o mais belo dos castelos e a senhora baroneza a melhor das baronezas possíveis. – Está demonstrado, dizia, que as coisas não podem ser de outra forma: pois, tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente feito para o melhor dos fins. Reparem que o nariz foi feito para sustentar os óculos, por isso temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para vestirem calças, por isso temos calças. As pedras foram formadas para serem talhadas e para construir castelos, por isso o senhor barão tem um castelo lindíssimo; o maior barão da província deve ter a melhor moradia; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, os que têm firmado que tudo está bem têm dito uma asneira, tinham que dizer que tudo está o melhor possível. “

Voltaire, num dos seus melhores livros, que lí há uns três anos, provando que nada melhor que uma mentira bem dita.

SemiÓtica no Digestivo

E um post meu foi linkado no Digestivo Cultural. O que me levou à conclusão do que já tem sido constatado: as pessoas não querem saber de matéria quente, elas gostam mesmo é de matéria fria, que seja auto-biográfca e que fale de modo despojado, puro, sincero e sem filtro. Meu post que foi parar no D.C. é bem assim; escrevi-o após uma noite curta de sono, quando o cansaço já me derrubava. Fui apenas sincero. Como um impulso, um reflexo. Por isso, quando o Spider Jerusalém (do segundo post abaixo, “Transmetropolitan”) diz que quando estamos “estressados, mortos, famintos e cheios de ódio” é que estamos perfeitos para fazer jornalismo, eu creio.