Archive for the ‘Coração pensante’ Category

Inspire, expire

Sabem aquela cena do filme Beleza Americana em que uma personagem, num dos melhores momentos do filme, capta, com uma filmadora, uma sacola plástica rodopiando ao vento enquanto descreve a cena como uma das coisas mais belas que já viu? É um belo momento. Hoje, quando sentado no banco do ônibus esperando  sua partida, eu olhava para fora, através da janela, entre o sono que hoje me massacra e a obrigação de vir para o trabalho. Ví um pássaro. Acho que era um pardal, mas não sou especialista em pássaros nem nada. Ele estava no canteiro. Pulava de um lugar para outro. Às vezes beliscava algo que encontrava, às vezes não encontrava nada mas me parecia bem feliz em estar alí, em poder, no mínimo, procurar por algo. Como se valesse mesmo a pena. Não que eu tenha que assumir uma posição otimista para iniciar um novo ano. Não é isso e isso não faz o meu tipo. A questão é que tenho muito o que fazer. Há muito a ser feito. Ontem, primeiro dia do ano, eu ouvi:

__Vamos trocar de alianças em outubro?

E sinto que há coisas que me afetam profundamente. Eu sou um cético 99%, e o que me resta de crença eu deposito em algumas poucas coisas realmente importantes em minha vida. Ainda que blasé, eu, no fundo, me preocupo demais com as coisas e com as pessoas à minha volta. Isso me atinge. É isso. Acho que este é um texto otimista, ao meu modo. As coisas – como chamam – acontecem. Eu só quero, agora mais que nunca, ter algum controle sobre elas.

Woody Allen tinha razão

Sabem, é engraçado. Quando chego em casa tarde da noite, fico pensando no que é a vida. E sei, ela não passa de uma historinha que o Wood contou em 1977:

“É uma antiga piada: duas velhinhas em um hotel fazenda. Uma diz: ‘a comida aqui é um horror’. A outra diz: ‘eu sei, porções minúsculas’. É assim que eu vejo a vida: cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”.

É, não passa disso.

(Sei que serei repreendido por ser pessimista. Mas, a essa hora, quem liga?)

Eu sou tão empertigado

Os vizinhos ouvem uma música ruim. E claro, óbvio, eu tenho um gosto excelente. Mal cheguei e já estou reclamando, é verdade. Um aniversário, me parece. Na casa dos vizinhos. Vocês já ouviram falar em boa vizinhança? Eu já, mas só em teoria. As pessoas das casas ao lado são sempre muito enjoadas. Suas músicas são sempre muito ruins. E altas, são sempre muito altas também. Okay, eu não tenho que fazer sentido. É madrugada agora. Arredo a cama para perto do computador para escrever deitado. Um luxo. Ao lado, um Aurélio e um exemplar de Lolita, edição de 1968 – estou dando mais uma chance. Numa xícara, coca. Ouço Is It Wicked Not To Care?, Belle & Sebastian. É uma boa música para se ouvir enquanto se escreve de madrugada. Sinto-me bem. Como têm mal-gosto os vizinhos. Olhos ardendo. Há pouco me olhei no espelho do banheiro. Olheiras. Acho que elas já não desaparecem mais, por mais que eu durma. Faz tempo desde que dormi bem pela última vez. Digo, muito bem. Tenho um probleminha. Quando trabalho e estudo a semana toda, tudo o que quero é chegar em casa para poder dormir. Deitar no travesseiro os problemas e as preocupações, desligar os holofotes que iluminam as desgraças do mundo. E, quando tenho tempo para tal, não o faço. Não há graça em dormir quando se pode dormir. Estou escrevendo pausadamente, vês? Sinto-me melancólico à essa hora. Além da música. Mas não, não. Ela é perfeita. Escrevo pausadamente pois é como me surgem os pensamentos, agora. Neste instante fugaz. Oscar in Reading. Mas o que estou dizendo? Que diabo, qüiproquó. Minha cabeça pende entre uma palavra e outra. Não consigo colocar uma idéia em cada frase. Idéias divididas em várias frases. Indo e voltando. Digressões saudéveis. A coca que já perdeu o gás. E escrever deitado dá torcicolo, acreditem-me. Mas querem saber? Vale a pena. Hoje eu já dancei (desengonçado) The Delgados até quase cair, morri algumas vezes ouvindo Mogwai – se é que me entendem – e dormi com a minha noiva ao som de The Smiths. Nada como uma boa trilha sonora. Nada como ter um tempinho para fazer o que eu quiser no próximo segundo. Mesmo que seja nada. Já não ouço os vizinhos. Mas, ora, o que eu estou dizendo?

*

Aqui, minha homenagem ao tão querido natal.

Amour

Ora, meu amor, acessar minha caixa de e-mail logo de manhã, hoje, dia 14, e ter me aguardando um texto tão lindo e inspirado é mais que um presente. É uma dádiva. Sou o homem mais feliz quando você me demonstra esse amor maravilhoso, esse sentimento tão puro e, cada vez mais, crescente. Há em mim uma alma pulsante, ansiosa demais pelo futuro, pela vida que é nossa e que temos de viver, juntos. Olho para o meu passado, de solslaio, e não vejo mais que sombras, névoas espessas, brumas. Você representa demais para mim. Você é símbolo, é ícone e é índice. Você é ciência exata. É um coeficiente perfeito. É a minha prova particular e irrefutável de que existe o amor, ainda que a ele possamos dar nomes diversos e ainda que sua conotação esteja, nesses dias tão estranhos, corrompida. Você é maior porque se difere do meio.Você é minha Lótus que nasce em meio à lama. Você é meu budismo. Meu politeísmo e meu monoteísmo.