Archive for the ‘cinema’ Category

Corleone

Don Michael Corleone

“Mantenha seus amigos próximos. Seus inimigos, mais próximos ainda.”

Às vezes exigir de uma frase que ela seja um título é querer demais

 

Esses dias um amigo me disse que não era cult falar mal de ‘300’, só porque eu demonstrei a minha impaciência para com essa gente que não sabe falar d’outra coisa que não sobre mais uma adaptação dum quadrinho do Frank Miller para o cinema. O último, Sin City, eu vi e – com o perdão da palavra – achei uma droga. Eu não estava querendo parecer cult, que idéia! “Já é, né?”, disse a segunda pessoa do diálogo. “Você é quem diz”, eu disse para acabar com o papo. Por exemplo, estreou Scoop, do Woody Allen, e vocês não me viram aqui falando nem bem nem mal do filme, embora saibam que gosto de Woody Allen. Esse pessoal de blog gosta muito de opinar, e ainda que eu admire isso, há momentos em que é melhor ficar calado.

Sim, eu sou muito conservador. E disperso em relação a algumas coisas. Esqueci, por exemplo, que dia é a páscoa. Nunca me lembro desse negócio de segundo domingo de abril e toda essa lenga lenga. Perguntei para a menina do setor de frente e ela me disse “domingo”. E uau, porque eu não comprei lhufas para mon chou. Ainda.

Ontem saí aqui da OAB ao meio dia. Trabalho de radiojornalismo, entrevistas para serem feitas com algumas fontes na Polícia Federal e etc. Tema: crimes no orkut. E eu nunca falei de orkut aqui também, imagino. Mas, quê dizer? Sim, eu tenho, o link está aí ao lado e tudo, mas não sou nenhum orkutaholic. Tenho preguiça.

E essa semana dizem que é santa. Então ‘tá. Fato é que não trabalho amanhã, e isso sim é de uma santidade sem tamanho. Não gente, eu sou católico. Batizado e tudo. Com a água, é. Mas sou bastante avesso a religiões – inclusive com a minha -, mas ainda acho algumas igrejas bem bonitas, a arquitetura, o barroco, etc. E me lembrei de dizer uma coisa: quanto à notícia de que o papa vai impor que as igrejas católicas voltem a rezar as missas em latim, ela só vale para as igrejas de verdade. Pobres que mal entendem o português não têm que se preocupar, de jeito nenhum.

E eu não falei também do novo hábito que desenvolvi nos últimos meses: ler blogs impressos. Quer dizer, eu imprimo alguns textos de alguns blogs e levo para ler no ônibus ou durante uma aula chata na faculdade. Alguns blogs que recomendo a vocês, ótimos para serem lidos quando impressos: esse, esse outro, esse aqui, esse e esse. Não dá para comentar, é verdade, mas vá por mim, é legal.

That’s all, folks.

Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

*

Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

O labirinto do fauno

O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, é o melhor filme lançado em muito tempo. Enquanto assistia-o, eu via, nítido, o Frodo e toda a trupe de Lord of the Rings sendo envergonhada, desacreditada. Noutro momento, o Fauno sai das sombras e dá tapinhas de luva na cara lavada do leão de Nárnia, o messias. O Labirinto do Fauno representa o fim da fantasia, o fim do Conto de Fada – ou mais propriamente a sua impossibilidade de coexistir com o atual e corrompido mundo real, que há muito superou ficção. É um filme triste, obscuro. Mas o melhor adjetivo que se aplica à obra de Del Toro é pungente. É um filme que incomoda: quanto mais próximo do final, mais caótico ele se nos apresenta, mais melancólico, mais real.