Archive for the ‘Arts’ Category

Panem et circenses

O que me separa dos artistas circenses, atores e dançarinos não é só o meu sedentarismo. Ontem fui a um espetáculo de dança, num teatro. Aplaudi. Bonito mesmo o que esse pessoal é capaz de fazer. Mas funciona assim: eu na platéia, confortável, e eles no palco aos pulos, passos ensaiados, essas coisas. Juro que gostei.

Capitain Bauer (e outras considerações)

 

Acir Galvão, um amigo dos tempos em que atravessávamos noites desenhando ao som d’alguma banda grunge década de 90 – sim, tive essa fase -, tornou-se um grande artista. Enquanto o caminho que tomei foi o das letras e do jornalismo, ele tornou-se design e, hoje, estuda Belas Artes, fazendo cada vez melhor o que sempre soube fazer. O que eu queria dizer é o seguinte: ele tem uma teoria – posso dizer teoria? – de que o Capitão América contemporâneo é o Jack Bauer, o herói da cultuada série 24 Horas. Ele explica:

“O Capitão America de hoje não é o Steve Roger: É o Jack Bauer.O Capitão America foi criado não apenas para incentivar adolescentes a se alistarem, Mulher Maravilha não foi criada apenas para levar mulheres às industrias em tempos de guerra e incitar orgulho por parte de seus maridos e filhos que morreram lutando pelo estilo de vida americano. Eles existiram, ACIMA DE TUDO, para ensinar as CRIANÇAS e ADOLESCENTES os conceitos de uma AMÉRICA VITORIOSA contra a ameaça vermelha, mesmo que essa vitória sendo muito mais dos RUSSOS do que da própria América.

Hoje a América precisa justificar seus atos a partir  novos símbolos, novos heróis.Mostrando para os adolescentes e adultos de hoje as justificativas das medidas de retaliação extremas, invasões premeditadas, e outras medidas de precaução como a criação de armas letais em massa.Também estão preparando sua mente para aceitar mortes. Muitas mortes. Morte de pessoas aos montes, caindo como moscas, ainda que por um “bem maior”. Que é justamente o bem maior Deles.

Seria a ficção imitando a realidade?

Os Heróis são símbolos daquilo que é certo e direito. São ícones que, trabalhados de diversas formas, se utilizam de todos os arquétipos do consciente humano para se tornarem referência do conceito de certo e errado para nós mesmos.

Quando todo esse poder é utilizado de maneira irresponsável e egoísta, a crise se tornar algo incontrolável. É completamente possível e correto afirmar que o conceito de CERTO e ERRADO está muito distorcido hoje em dia. Também com heróis como os de hoje em dia, cada um defendendo um ponto de vista muito particular, simplesmente não dando a mínima para nada, não fico surpreso com esse tipo de resultado.Os heróis do novo século defendem a pena de morte. Defendem o roubo. Defendem o homossexualismo (nada contra, mas é um ponto de vista.) Os negros. Os brancos os asiáticos….

Eles deveriam defender o CERTO e o ERRADO:

MATAR é ERRADO, seja quem for. ROUBAR é ERRADO. PRECONCEITO é ERRADO. Ponto final.

Mas se o cara for um estuprador-assassino-ladrão-sonegador-de-imposto-filha-da-puta de marca maior? Se o ladrão estiver roubando para comer? E se o preconceito me defende das pessoas erradas?Os dias estão assim. Esses argumentos existem. E até mesmo os heróis da era de ouro mudaram seu ponto de vista em suas novas interpretações para o novo século. Até mesmo SUPERMAN matou dois caras no seu novo filme. E o pior:  a grande MAIORIA nem percebeu.

A colocação de Edsons Junior é muito correta e não vou me repetir aqui. A questão que fica no ar é:

Quem são os seus heróis? Quem são os heróis dos seus filhos?

É bom começarem a se perguntar isso, e a ver filmes e séries como algo que vai além do entretenimento. Porque é assim que se deve assistir.

E para finalizar sobre Jack BAUER:

Ele é um HERÓI que faz, sem hesitar, tudo aquilo que está ao SEU ALCANCE para salvar o dia, mas, diferente da AMÉRICA que ele tanto defende, ele não ganha ABSOLUTAMENTE NADA em troca… apenas se FODE e fica vivo para salvar mais um dia!”

Broken Vows

Essa época sempre me remete  ao último filme de John Huston, The Dead, adaptação de um conto homônimo de James Joyce, do livro Dubliners. O poema abaixo é lido por uma personagem (Mr. Grace) durante a ceia de fim de ano. É a beleza transfigurada em melancolia:

“Era tarde a noite passada
O cão falava de você
O pássaro cantava no pântano
Falava de você
Você é o pássaro solitário na floresta
Que você fique sem companhia até achar-me
Você prometeu e mentiu
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados
Eu assoviei e gritei cem vezes
E não achei nada lá
A não ser uma ovelha balindo
Prometeu-me algo difícil
Um navio de ouro sob um mastro prateado
Doze cidades e um mercado em todas elas
E uma branca e bela praça à beira mar
Você prometeu algo impossível
Que me daria luvas de pele de peixe
E sapatos de pele de ave
E roupa da melhor seda da Irlanda
Minha mãe disse para eu não falar com você
Nem hoje
Nem amanhã
Nem Domingo
Foi um mal momento para dizer-me isso
Como trancar a porta após a casa arrombada
Você tirou o Leste de mim
Tirou o Oeste de mim
Tirou o que existe à minha frente
Tirou o que há atrás
Tirou a Lua
Tirou o Sol de mim
E o meu medo é grande
Você tirou Deus de mim”

O filme é de 1987. Não deve ser fácil de encontrar, mas eu tenho uma cópia em VHS. Ganhei de um antigo professor de Literatura, há uns sete anos. É perfeito:

Ensina-me a sentir o sofrimento de outros,
A esconder os defeitos que eu perceber;

Que eu possa ter piedade por todos
Que por mim também demonstrem piedade.”

Bom, feliz Natal.

Pela sexta: porque me falta tempo para escrever e para pensar.

Slava Filippov - смачные гламурные фотографии

E, claro, porque minha noiva me deve. Ah, se deve.

–God bless the weekend–

Pergunte ao Pó

“Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (…) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O livro era Pergunte ao Pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda.

Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao Pó. Ele ainda está de pé, como as outras obras de Fante, mas esta é a minha favorita porque foi minha primeira descoberta da mágica.”
Charles Bukowski – 5/6/1979
 

“Haro, Nabi” Uma Análise da Representação da Cibercultura em Serial Experiments Lain, por André Lemos

RESUMO
Este texto faz uma análise da série de animação japonesa Serial Experiments Lain, enfocando o imaginário da cibercultura em seu enredo, especialmente nos seguintes aspectos: o corpo em relação com as máquinas na atualidade, as relações sociais mediadas pelas redes telemáticas, as novas configurações da religião em função do conhecimento, e as tecnologias cognitivas. O trabalho traz ainda considerações sobre animê e também sobre a cibercultura, elemento fundamental nas comparações e análise.

Continue lendo

O Renascentismo na Contemporaneidade

pop art

O que era protegido por paredes de vidro agora está nas tampinhas de garrafa e nas telas de cinema. A arte Renascentista, que durante os séc. XV e XVI, pregava a importância máxima da inteligência, do conhecimento e da arte, atualmente, está estampada em capas de caderno, livros, filmes, anúncios publicitários, quadrinhos e pôsteres. Tornou-se quebra-cabeça e máscaras de fantasia. A arte renascentista, principalmente a já desgastada Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, hoje é apenas mais um produto na Indústria Cultural. Vale ressaltar que esta banalização não é inerente à arte em si, mas ao homem. Note-se que a época Renascentista foi marcada pela valorização do homem, ao contrário da Idade Média, cuja vida devia ser centrada em Deus. Hoje, não se sabe ao certo no que o homem se concentra. O indivíduo parece perder cada vez mais o seu foco, quanto mais a humanidade avança. Não se sabe que tipo de arte teremos no futuro, mas há um certo temor quando analisadas as possibilidades. O que se pode ter certeza é que o homem se distancia cada vez mais de si mesmo, tornando-se um corpo sujeito a experimentações de todos os tipos, como um falso modelo que posa para um falso artista. Da Vinci não sabe, mas o homem hoje é uma Mona Lisa transfigurada.

O melhor dos mundos

Cândido, de Voltaire.

“Pangloss ensinava metafísico-teólogo-cosmolonigologia. Provava de modo admirável que não há efeito sem causa e que, neste mundo, o melhor dos mundos possíveis, o castelo de sua alteza o barão era o mais belo dos castelos e a senhora baroneza a melhor das baronezas possíveis. – Está demonstrado, dizia, que as coisas não podem ser de outra forma: pois, tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente feito para o melhor dos fins. Reparem que o nariz foi feito para sustentar os óculos, por isso temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para vestirem calças, por isso temos calças. As pedras foram formadas para serem talhadas e para construir castelos, por isso o senhor barão tem um castelo lindíssimo; o maior barão da província deve ter a melhor moradia; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, os que têm firmado que tudo está bem têm dito uma asneira, tinham que dizer que tudo está o melhor possível. “

Voltaire, num dos seus melhores livros, que lí há uns três anos, provando que nada melhor que uma mentira bem dita.

SemiÓtica no Digestivo

E um post meu foi linkado no Digestivo Cultural. O que me levou à conclusão do que já tem sido constatado: as pessoas não querem saber de matéria quente, elas gostam mesmo é de matéria fria, que seja auto-biográfca e que fale de modo despojado, puro, sincero e sem filtro. Meu post que foi parar no D.C. é bem assim; escrevi-o após uma noite curta de sono, quando o cansaço já me derrubava. Fui apenas sincero. Como um impulso, um reflexo. Por isso, quando o Spider Jerusalém (do segundo post abaixo, “Transmetropolitan”) diz que quando estamos “estressados, mortos, famintos e cheios de ódio” é que estamos perfeitos para fazer jornalismo, eu creio.