Coldbrainsnobodyfaultbutmyown

Agora que ponho-me a escrever são 21h19. Hoje recusei-me a sair de casa; na verdade mal pisei fora do meu quarto, exceto para ir ao salão – ter o cabelo bem aparado é obrigação de homens civilizados. Recusei-me hoje a toda atividade quotidiana: não escrevi (até agora), não almocei, não compareci à universidade, não li nada – salvo os acidentes, porque a leitura é muitas vezes um acidente. Sendo desnecessárias quaisquer justificativas para tais abstinências, listo duas: o frio e a decorrente preguiça, que só não configuram um clássico ardil22 pois, se a minha preguiça fizesse surgir o inverno, teríamos geada todo o ano. E eu não diria que passei o dia “olhando o tempo”, porque isso é coisa de gente sem o que fazer. Eu não olhei o tempo, e as cortinas de meu quarto mantiveram-se fechadas durante todo o dia para coibir qualquer chance de o sol aqui lançar suas luzes felicíssimas. Parêntesis: este é mais um motivo pelo qual não gosto do sol; essa idéia de que o astro quentinho simboliza alegria me mata de tédio e aborrecimento. Fim dos parêntesis. O pouco tempo que estive fora de minha cama usei-o para arrumar aqui umas coisas. Mais exatamente, para me livrar de alguns papéis e objetos; uns já destituídos de valor, outros, no momento, destituídos da capacidade de agradar-me como antes. Livrei-me, por exemplo, de um antigo aparelho de som no qual ouvia meus LPs. De modo que agora – e digo sem o menor remorso – não mais tenho onde reproduzir os chiados de David Bowie, Bob Dylan, Secos e Molhados, Caetano, Black Sabbath, Pink Floyd, Elvis, Beatles, Lennon, Doors, Yes, para citar alguns. E que bom, minha vida está mais limpa agora. Outras tralhas mantive ainda guardadas, mas não escapam à próxima arrumação. Sinto-me um taumaturgo ao ver toda a utilidade de um par de sapatos desaparecer no momento em que toca o cesto de lixo. O descompromisso é uma dádiva.

14 comments so far

  1. Mariana Borges on

    Edson,
    Sua crônica está excelente… Apesar de “pessimista” em alguns comentários, percebo sua habilidade em persuadir os invasores do seu blog!

    bjo

  2. Peterson on

    muito bom o seu blog. Instigante, inteligente, direto.
    Adorei a leitura como acidente…
    Ateh

  3. tina oiticica harris on

    Você está um arraso de bom de ler! Sofro de uma síndrome, mais uma, de guardar tudo. Após ler tua crônica, decidi-me a detonar coisas supérfluas o meu escritório.

    Beijos,

  4. Donato on

    E você deve saber que a preguiça não é um pecado, mas uma conseqüência dele. Portanto, nada de recriminações, nem mesmo dessas sobras de catolicismo frouxo que por vezes vistam a nossa solidão. Os pecados capitais foram fixados em número de sete por uma bula papal da Idade Média (não me lembro do ano). Antes os teólogos não concordavam quanto ao número. Houve um que chegou a propor 18, o que certamente inviabilizaria toda possibilidade de salvação. Os sete são: ventris ingluvies, ira, avaritia, inanis gloria, invidia, luxuria e tristitia. Sim, meu amigo, a tristeza é que é um pecado, e não preguiça. Se acreditássemos nessas coisas ainda, estaríamos condenados de antemão.

    Ainda escrevo um post sobre isso. Preciso tomar coragem.

  5. Caroline on

    Muitas novidades (apesar de você não perguntar e também não estar interessado, já que não manda nem um e-mail, ou coisa que o valha…)
    1) Hoje também foi dia de faxina aqui no setor… Joguei papeizinhos e mais papeizinhos fora das gavetas… Ahhhh…. um ambiente clean é outra coisa.
    2) Baixei Snow Patrol, Coldplay… um álbum de 2006.
    3) Ganhamos um micro novo! (êba!!) Pretinho básico, que aliás, está na sala da Cynthia. Agora temos 3 micros à disposição… Oh Yes Baby…
    4) São 17:49h, quase hora d´eu partir…

    Chega de novidades por hoje….
    Bjim na bun… e até… ah não, segunda você não vem né? Então até dia 1º.
    Hastaaaaaaaaa La vistaaaaaaaa

  6. Jean Piter Inzaghi on

    Parabéns duplo! Pelo texto e pelas ações. E viva ó ócio inteligente, ele faz maravilhas!

  7. Caroline Acefala! on

    Preguiça… deliciosa preguiça que poucos podem desfrutar! É uma dádiva mesmo! Doa a quem doer.

  8. Ninja on

    “quem estiver de sapato não sobra”

    Oh, yeah

  9. João Paulo on

    Algumas atividades e atitudes estão voltados à sociedade mesmo, ou seja, as exegências socias.
    1- Manter a aparência; ela cobra, mas faço isso por prazer, gosto de manter os cabelos cortados.
    2- Às vezes, a leitura é realmente um acidente, principalmente as imagens que nos aparecem.
    3- Devemos agradecer, pois poucos têm o privilégio de fazer tais leituras, mesmo que sejam por acidentes.

    O texto é simplesmente fantástico.
    Abração!!!

  10. Jorge Nobre on

    “a leitura é muitas vezes um acidente”.

    É. Principalmente a leitura de blogs. Eu passei da esquerda para direita praticamente por acidente. É uma longa história…

    “essa idéia de que o astro quentinho simboliza alegria me mata de tédio e aborrecimento”.

    A mim mata de rir.

    “E que bom, minha vida está mais limpa agora.”

    Qualquer hora, eu vou precisar do seu detergente.

    Abraços,
    JN

  11. Caio Marinho. on

    LP aqui, só do meu pai.

    Devia ter ido peoplewatching pelo sunny, sunny day, dood.

    Be seein’ ya.

  12. juliana on

    tu sabia que por tua culpa tem gente chegando lá no azar procurando por mulheres taradas?
    hahahahahahahahahahahahaha.

  13. Gabriela on

    O texto está tão bom que me deu vontade de livrar-me também do aparelho de som que reproduz LP. Claro que para isso seria preciso antes ter um aparelho de som. E LPs😛

  14. Natália on

    Bom, isso você não me contou, né?
    Mas tudo bem eu te desculpo.
    Incrível como sua opinião sobre algumas coisas mudou.
    Para quem não sabe, o Ed. tinha a seguinte idéia:
    Jamais se livrar do aparelho de som todo detonado que ficava tomando espaço no quarto dele. Chegou até a brigar comigo quando eu disse que quando casássemos, ele teria que se livrar de toda aquelas coisas “velhas”. Depois cheguei a mudar de idéia dizendo que ele teria um quartinho, só para ele e suas coisas “velhas”.
    Não tenho nada contra os objetos velhos deles, mas tenho a seguinte opinião, o que não serve mais para mim, pode ser útil a outras pessoas.

    Te amo meu amor!

    Beijos!


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