Alguma felicidade

  

“Trabalha, trabalha, escreve, escreve tanto quanto possas, tanto quanto sejas arrebatado por tua musa. Este é o melhor corcel, a melhor carruagem para escapar da vida” [Gustave Flaubert] 

Pretendendo não me ater ao cliché de que a felicidade é feita de momentos, procurarei me ater, portanto, aos momentos – e que o encontro da felicidade seja um mero acaso, um acontecimento, uma fatalidade (como creio que, afinal, é mesmo). 

Não sei quanto a vocês, mas quanto mais tomo conhecimento de teorias várias sobre todo assunto possível de ser analisado, mais evito alguma citação – que minha tese será uma, quando se fizer necessária; e enquanto isso minhas referências vão aparecendo sublimadas, feitas inteligíveis a alguns bons olhos que me lêem. E sendo ainda mais franco, prefiro muitas vezes revelar meus pensamentos à la jazz, improvisados mesmo, bebop, ainda que sob o risco de escrever besteiras (neste ponto peço a vossa atenção; mais exatamente ao verbete ‘besteiras’, que mais adiante revelará grande relevância neste texto). 

Lembro-me de ter escrito aqui mesmo, já há algum tempo, que o presente não existe. Que tudo, absolutamente, pertence ao pretérito. E isso é uma grande felicidade, vejam bem. Há uma idéia muito difundida por aí que diz sobre a necessidade, melhor, sobre a obrigatoriedade de se viver o momento acima de todas as coisas. Essa idéia (cujo termo que a intitula é usualmente escrito em latim a fim de cheirar a alguma imponência ou pompa) é tão (desculpem) esburacada, tão cretina. E nem perco o meu tempo chamando-a totalitarista, ditatorial. Não chega a tanto. É, no mínimo, nome para livretos de auto-ajuda e, no máximo, idiota. E assim escrevo algumas linhas que vão julgar desnecessárias, mas não o são. Não o são: o fato de o tempo presente inexistir faz do carpediem um sonho à toa, uma tolice. (Pronto, a partir do parágrafo seguinte vocês podem trazer o tempo presente de volta, se preferirem.) 

E deixem-me escrever algumas palavrinhas sobre a liberdade – tão comumente ligada à felicidade. Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe. A liberdade incondicional não existe; a liberdade dos filmes de hollywood em carros a toda velocidade em estradas vazias, essa existe. É um raciocínio muito básico e verdadeiro: liberdade não é um estado físico, não é um lugar; liberdade não passa de uma sensação, de um tipo específico de sentimento que depende unicamente de grilhões, ocupações precedentes. É uma sorte que ninguém alcance a liberdade de que tanto falam, pois a liberdade perpétua é a maior das prisões. O homem não nasceu para isso, acreditem-me.  

Peço escusa para fazer aqui uma referência explícita à doutrina platônica da beleza, segundo a qual tudo o que é belo deve tal condição a uma idéia anterior e superior que lhe serviu de excepcional modelo. Noutras palavras, é contemplando as coisas belas que nossa alma pode ascender ao belo em si mesma. E o motor que é capaz de conduzir o homem a tal conhecer superior é o amor. Amor à literatura, ao conheciemento e à mulher (uma pequena apologia ao hedonismo).  

E eis aqui um texto escrito na horizontal, se me entendem. Felicidade. Acordei às 11h, peguei o livro ao lado da cama e pus-me a lê-lo esta manhã. Faz frio. Felicidade. Depois do café matinal, coloco uma música e volto à leitura. Toca o telefone e é a minha modelo; a voz macia do outro lado produz uma nota única, num certo tom de je t’aime. Felicidade. Falo besteiras e procrastino as obrigações. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Vejo meus livros sobre o móvel; os papéis desorganizados; os objetos incomunicáveis.  

Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade. Estar feliz é permitir-se momentos de suspensão do juízo. E se nada disso fizer sentido, tanto melhor. Assim é a felicidade. 

“Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola.” [Machado de Assis] 

Rev, um abraço.

27 comments so far

  1. elisabetecunha on

    POXA!🙂

  2. elisabetecunha on

    “..Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe… ”
    Poxa, que legal o seu texto!ok?🙂

  3. kkkarol on

    Depois dizem que o trabalho enobrece o homem. Báh….

  4. Rosangela on

    Legal que alguém veja a felicidade de forma realista. Acho que cansei daquela coisa de “sorria, a vida é bela!”. Adorei o texto!!

    Abraços!!

  5. jorge nobre on

    “Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade”.

    Eu poderia ser um cachaceiro como Christopher Hitchens, se pudesse ficar bêbedo o tempo todo.

    Shit’s life!

    Perguntaram ao inglês se nada havia na Bíblia que o agradasse, e ele respondeu que sim, a parte em que Jesus transforma agua em vinho. No dia em que um pastor realizar tal milagre, eu me converto na hora.

  6. Putaqueparilizado Társis on

    Felicidade? Liberdade?
    Existe isso? Vc ACREDITA nisso?

    Daqui a pouco vc vai achar que Galo vai ganhar o Brasileirão desse ano!
    😉

  7. Ana C. on

    Adorei o texto…faz bem ler coisas boas!! Abs.

  8. Carolzinha Acefala! on

    Vira e mexe eu sempre esbarro com um e outro que me diz: “o meu maior sonho é ser feliz!” isso é algo que me irrita profundamente. o inverno ta chegando!!! eita maravilha!

  9. Caio Marinho. on

    “Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe. A liberdade incondicional não existe; a liberdade dos filmes de hollywood em carros a toda velocidade em estradas vazias, essa existe.”

    Tava discutindo isso um dia desses com um xará meu, e ele disse praticamente a mesma coisa, com o mesmo exemplo (vide Easy Rider).

    ***

    É, má, foda: liberdade não existe, felicidade está nos momentos, amor incondicional é falácia e o ser humano é um fela-da-puta egoísta até que se prove o contrário.

    All that’s left to do is keep on keepin’ on.

    ***

    Good words, btw. I liked ‘em.

  10. Carla - puny on

    Lembro-me de ter escrito aqui mesmo, já há algum tempo, que o presente não existe. Que tudo, absolutamente, pertence ao pretérito.

    Discuto isso citando o Borges:

    “Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo: argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente, que o passado não tem realidade senão como lembrança presente.”

    (Ficções; Tlön, Uqbar, Orbis Tertius)

    Ainda não formei opinião a respeito; entretanto, gostei muito do teu texto. Eu costumo aproveitar os momentos, mais por costume que por recomendações alheias. Teus exemplos de felicidade são pra mim exemplos de alguém aproveitando o momento. Eu considero que cinco minutinhos a mais na cama significam felicidade; isso é aproveitar o momento, oras. Creio estar com problemas graves de interpretação, talvez, mas enfim.

    Eu prefiro negar o passado a viver de saudosismos e não pensar no futuro a programar o imprevisível. Considero-me uma criatura bem feliz.

  11. maria on

    Mais um belíssimo texto. Nem sei que diga. Sim, a felicidade são escolhas, são momentos, são pedaços de nós, não necessariamente coerentes nem explicáveis, mas também, how cares? Somos felizes. Um abraço, um óptimo fim-de-semana.

  12. elisabetecunha on

    Bom final de semana!:)

  13. Jean Piter Inzaghi on

    Felicidade e liberdade não estão obrigatóriamente juntas. É possível ter só uma delas.
    A propósito, são tão subjetivas que cada um vê, vive ou sonha de uma forma.

    Entretanto, pergunto aos metodologistas:
    Já vivemos irrevogávelmete debaixo de tantas regras, para que criar regras para feliciade ou para liberdade?

  14. breno. on

    não concordo que se alcance beleza por contemplar o belo. de qualquer maneira, gostaria de me abster da sobriedade neste momento. boa felicidade pra ti. abraço.

  15. elisabetecunha on

    Tenha uma bela semana!:)

  16. Rita Copetti de Queiroz on

    Hee! Engraçado a vida, não sei se as pessoas se dão conta que elas podem fazer a diferença. Gosto bastante do que tu escreve, hoje estava aqui atualizando minha leitura de blogs favoritos e passei pra dar uma olhadinha, o título do post me agradou, vim ler e fiquei feliz com o que li.

    “Felicidade. Acordei às 11h, peguei o livro ao lado da cama e pus-me a lê-lo esta manhã. Faz frio. Felicidade. Depois do café matinal, coloco uma música e volto à leitura. Toca o telefone e é a minha modelo; a voz macia do outro lado produz uma nota única, num certo tom de je t’aime. Felicidade. Falo besteiras e procrastino as obrigações. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Vejo meus livros sobre o móvel; os papéis desorganizados; os objetos incomunicáveis. ”

    Eehehe, minha irmã sempre diz que a rotina de casa é uma felicidade! Pra quem passa a semana trabalhando longe de casa, passar o fim de semana em casa é uma maravilha, ver toda programação favorita da tv, acordar com o fuço gelado do cachorro na tua cara pedindo pra ti acordar pq já é dia, tomar café da manhã no jardim, caminhar na praia, conversas em famíla, trabalhar no jardim, cozinhar, ohh essa lista vai longe!

    Sabe o que que me incuca, pq as pessoas complicam tanto??

    MARAVILHA! Boa semana! bjinhos!

  17. Rita Copetti de Queiroz on

    Mas tu é muito ligeiro! estava lá escrevendo um post pra falar deste texto! passa lá e da uma olhadinha! obrigada pelo comentário! boa semana!

  18. Michelle on

    “Tristeza não tem fim, felicidade sim…”

  19. lunna on

    Tudo na vida é ponto de vista. O horizonte nem chega a ser horizonte para algumas pessoas. É apenas um efeito que a ciência é capaz de descrever com perfeição e nada mais.
    Felicidade? Coisa simples que a explicação não alcança. Pra mim é claro. Meu sorriso agora já é uma felicidade.
    Abraços

    Ps. Estou arrumando a casa lá no Lenta Composição, por isso estou avisando os amigos que os estou linkando por lá. Os mais novos, os mais velhos… Bem, caso não concorde com isso, basta enviar uma circular em 3 vias, selada, carimbada, registrada e mais algum outro ada que eu tenha esquecido e dentre uns 45 anos aproximadamente, responderemos. Caso canse de esperar a resposta… Faça um desabafo nos coments.
    Beijos a sua alma e o desejo de uma semana maravilhosa.
    Lunna

  20. kkkarol on

    Vamos estar tentando estar postando aqui ou não?!
    =P
    Seu sapato tá aqui ainda? =D
    Bjuuu, saudade.

  21. Nathália on

    Sempre penso que presente é um privilégio só pra quem vive num impulso…

    Amei o texto!
    Espero que não se importe.
    Adicionei seu blog aos meus links!😉

  22. tina oiticica harris on

    Não vejo o carpe diem como sendo incompatível com a noção do Proust sobre o tempo: a ausência palpável do presente, que torna-se passado no momento em que nos conscientizamos dele. E daí o presente não existir, somente enquanto passado.
    Isto não impede que muitas pessoas devotem-se a curtir a percepção de presente, seja ele proustianamente falando passado, ou não.
    Em verdade, esperar pra gozar no paraíso é uma besteira.
    Pensei que você estava de férias…

  23. João Paulo on

    Isso porque vc falou que estaria de férias!!! Pensando cada vez mais!!!!

    Abraços!!!

  24. Lia Winter on

    Gostei muito, de cada linha.🙂

    beijo

  25. ritaloureiro on

    “Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade. Estar feliz é permitir-se momentos de suspensão do juízo. E se nada disso fizer sentido, tanto melhor. Assim é a felicidade.”

    …É, sempre me dizem que não é preciso fazer sentido para ser bom.

  26. Cgou on

    O imprefeito tao prefeito a simplicidade que nos faz querer o ja temos….

    Adorei o texto

  27. Elsie Harding on

    If only I had a buck for every time I came to eddcaulfield.wordpress.com.. Great article.


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