Archive for maio \28\UTC 2007|Monthly archive page

Sigo, empertigado

Amiga a quem conheço pessoalmente argüiu-me outro dia sobre a minha conduta. A ela interessava saber se minha personalidade demonstrada aqui no blogue é também praticada ativamente no mundo real. Respondo: não, no mundo real sou pior. A vida real exige um certo nível de sutileza pouco praticada na prosa direitista, e é essa mesma sutileza o maior agravante presente no ato da dissimulação. Impede-me também o meu conservadorismo de entrar em discussão por coisa pouca; e estou sempre a me esquivar de conversas tortuosas, de companhias má vestidas, de ambientes desagradáveis, de sacripantas. Com tudo isso um sorrisinho forçado vai muito bem, além do quê não faz mal. E se insistem em saber acerca do sabor do cinismo, digo apenas que, tal como na culinária, a fome é o melhor tempero.

Coldbrainsnobodyfaultbutmyown

Agora que ponho-me a escrever são 21h19. Hoje recusei-me a sair de casa; na verdade mal pisei fora do meu quarto, exceto para ir ao salão – ter o cabelo bem aparado é obrigação de homens civilizados. Recusei-me hoje a toda atividade quotidiana: não escrevi (até agora), não almocei, não compareci à universidade, não li nada – salvo os acidentes, porque a leitura é muitas vezes um acidente. Sendo desnecessárias quaisquer justificativas para tais abstinências, listo duas: o frio e a decorrente preguiça, que só não configuram um clássico ardil22 pois, se a minha preguiça fizesse surgir o inverno, teríamos geada todo o ano. E eu não diria que passei o dia “olhando o tempo”, porque isso é coisa de gente sem o que fazer. Eu não olhei o tempo, e as cortinas de meu quarto mantiveram-se fechadas durante todo o dia para coibir qualquer chance de o sol aqui lançar suas luzes felicíssimas. Parêntesis: este é mais um motivo pelo qual não gosto do sol; essa idéia de que o astro quentinho simboliza alegria me mata de tédio e aborrecimento. Fim dos parêntesis. O pouco tempo que estive fora de minha cama usei-o para arrumar aqui umas coisas. Mais exatamente, para me livrar de alguns papéis e objetos; uns já destituídos de valor, outros, no momento, destituídos da capacidade de agradar-me como antes. Livrei-me, por exemplo, de um antigo aparelho de som no qual ouvia meus LPs. De modo que agora – e digo sem o menor remorso – não mais tenho onde reproduzir os chiados de David Bowie, Bob Dylan, Secos e Molhados, Caetano, Black Sabbath, Pink Floyd, Elvis, Beatles, Lennon, Doors, Yes, para citar alguns. E que bom, minha vida está mais limpa agora. Outras tralhas mantive ainda guardadas, mas não escapam à próxima arrumação. Sinto-me um taumaturgo ao ver toda a utilidade de um par de sapatos desaparecer no momento em que toca o cesto de lixo. O descompromisso é uma dádiva.

Olá

Estive a preparar um post, mas sigo tentando guardá-lo, melhor, reservá-lo para momento mais oportuno, a exemplo do amigo Rafael. E que ridículo isso de escrever um post que, na verdade, não é um post mas um aviso, uma verdadeira satisfação quem me lê dirigida. À metalinguagem o meu mais sonoro não. Até a vista.

não me esperem por esses dias

Sendo a paciência uma virtude o preguiçoso está a salvo.

wittgenstein: facts

“Ah, mas eu imaginava que a faculdade me mandaria ler os clássicos”. Eu também achava. Então, se você pretende ganhar uma discussão-de-estação-de-metrô ou, no mínimo, perdê-la honradamente, saia dessa mesa suja de bar e vá ler alguma coisa que preste.  

***

Sou mesmo muito intrometido, e por isso vou um pouquinho além da bibliografia obrigatória do jornalismo – que, diga-se, é uma grande merda. Gosto dos Apocalípticos, da Escola de Frankfurt e tal, mas não é suficiente.  

***

Deixem-me contar-lhes uma história que me apraz particularmente: a história de Wittgenstein. Ludwing Wittgenstein, em sua fase de acadêmico na Inglaterra, foi aluno de Bertrand Russel, cuja obra Principia Matematica, de 1913, tentava reduzir todo o imbróglio matemático à simples e pura lógica. Wittgenstein, ainda mais ambicioso e polemista que Russel, disse que seu primeiro livro, Tractatus Logico-Philosophicus (1922),  marcaria o fim da filosofia (caso ele tivesse um blog, este estaria desde já linkado). Após alguns anos lecionando numa escola Austríaca, Ludwing retorna à Inglaterra para declarar – vejam bem – que estava equivocado. Consequência? Passou os 18 anos seguintes liderando um grupinho de estudos (dando aulas particulares, diria-se hoje), em Cambridge. Uma lástima. Mas, voltando ao Tractatus, ele determinou que o mundo consiste de fatos. O mundo é uma totalidade de fatos, não de coisas. “Fato” é quando você faz uma verdadeira afirmação sobre algo (coisa). Um blog é uma coisa; a afirmação “este blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória” é um fato. O mundo como o conhecemos não passa de uma reunião de fatos conhecidos. Noutras palavras: é a linguagem a responsável pelo nosso senso de universo, nosso meio e nossas experiências (o que não pode ser dito, não pode ser conhecido). 

Os chamados Positivistas Lógicos, um então grupinho de jovens (arg) filósofos, foram profundamente influenciados pelas idéias de Wittgenstein. Eles acreditavam que tudo aquilo que não pudesse ser empiricamente demonstrado (na prática, you know) era mero contra-senso (como artes, literatura, etc). Wittgenstein não concordou com isso, no entanto e felizmente. Ele se interessava excessivamente pelo que não podia ser comprovado, e permaneceu obcecado por realidades não demonstráveis. Em sua segunda obra, Investigações Filosóficas (só publicada postumamente, em 1953), o ex-aluno de Russel pareceu abandonar totalmente o pensamento presente no Tractatus. Ele mesmo chegou a afirmar que suas primeiras idéias eram fruto de uma juventude ambiciosa demais e, mais que isso, simplista demais. Se antes Wittgenstein havia tratado as palavras como indicadores ou símbolos das coisas no mundo, em Investigações Filosóficas ele amplia essa visão: o significado das palavras não depende daquilo a que elas se referem, mas de como são utilizadas.

E com isso vos digo que não importa muito sobre o que eu escrevo aqui; mais uma vez digo Não me levem tão a sério, e, principalmente, não levem a si mesmos tão a sério. Trabalhem seus textos, que é coisa mais importante. 

Um abraço.

Meus sentimentos

E eu me sinto como um velho  precoce, sentado na cadeira de balanço na varanda de minha casa; olho para o tempo e é como se eu já houvesse vivido tudo o que há para se viver. Olho o tempo e as pessoas, principalmente as pessoas, e tudo o que consigo pensar é Que merda.

Runners dial zero

Oi, olá. Já perguntaram “mas você não estava de férias?”, mas a verdade é que sinto falta daqui. O blog me dá essa impressão de que há algo que vale a pena, pessoas com as quais vale a pena dialogar. Quantos leitores de verdade eu tenho, uns dez? Esse sisteminha do wp me mostra uma média de 400 acessos por dia, o que quer dizer que a) há muito aspirante a semioticista por aí b) que gente à toa, puxa. Meus dias de ócio estão a correr tranquilos, Russel bem que sentiria uma invejinha. Tenho assistido a alguns filmes que estavam na lista, como Boa noite e Boa Sorte, dirigido pelo dude do Plantão Médico; The Prestige; Shopgirl. Assisti mais uma vez a Match Point, do velho Allen, para ver se me saia da cabeça a primeira e má impressão que tive, mas nesse sentido não obtive assaz êxito. Livros: há uma semana terminei o Franny & Zooey, do Salinger, e por esses dias estou lendo o Extremely Loud & Incredibly Close, do neófito Jonathan Safran Foer – um livro grandioso.

Poucos sabem, mas eu tenho um livro. Chama-se L’ange et la Bête, e não é nada religioso. Findei-o há uns dois anos, e o eu atual não o aprova. Eu melhorei, e é preciso melhorá-lo. Conversando com amigos, sugeriram-me deixá-lo como está, pois assim terei uma prova da minha evolução. Mas não sei. Se não o revisar, não há chances de que eu tente publicá-lo. Quem sabe fique guardado para uma edição póstuma? 

***

Humanismo: interesse pelo homem, por tudo que ele pode realizar de elevado, profundo e glorioso. Com o humanismo vem também a tentativa de reformar, de “humanizar a prática religiosa, reduzindo a doutrina aos ensinamentos morais de Cristo e abolindo quanto possível as formas rituais exteriores” do culto. O humanista é aquele que, guiado por sua ânsia de absoluto, retorna à filosofia platônica (estou falando demais de Platão, desculpem) e cria romanticamente o seu mundo ideal, mundo que nasce de um processo de idealização. Eu já fui muito humanista, hoje sou um quase-humanista.

***

Hoje meu humor não esteve dos melhores. E é por isso que aqui estou a escrever – não, não sou de acordo com o que disse o Vinícius. Escreve-se, sim, em momentos agradáveis; o que acontece é: o cenho franzido dá ao texto umas doses de sangue e vida necessárias.

***

Ontem acordei com a notícia de que um familiar fora baleado. Um primo, não próximo o suficiente para me tirar o sono, não suficientemente distante para eu não me tocar. Falei com ele há pouco, e esperamos que tudo vá bem. 

***

Há alguns anos eu me correspondia por carta com um ex-professor, escritor e amigo chamado Ezequias Eliud. Numa das correspondências ele escreveu “(…) penso no quanto estamos autômatos. Secaram nossas vidas em louvor ao labor dos dias. Não estamos em direção às luzes; elas nos devoram.” E lamentavelmente é preciso concordar.

A que ponto

Durante toda a semana tenho participado de palestras e debates sobre literatura na universidade Estácio de Sá, aqui em Belo Horizonte. O tema de ontem foi blogs e literatura on line; em virtude disso as autoras do Mothern estiveram lá, dando umas aulinhas sobre blogs e falando do trabalho que realizam. Mas o que me espantou mesmo, no fim das contas, foi a quantidade de estudante de comunicação que não sabe o que é um blog. As perguntas idiotas iam surgindo e eu ia diminuindo na minha cadeira. Que vergonha, que vergonha. Foram assuntos: blogs que viram livros, livros que viram blogs, o caso Meg, etc.

Dou palestras sobre cinismo, canalhice e dissimulação. Convidem-me.

escusa

Ah, sim. Fiquei muitíssimo feliz com a vitória da direita na França, senhores. E é só.

bored

Hoje eu recebi uma ligação. Uma pessoa oferecendo-me lugar num negócio muito promissor. “Empreendedor”, como chamam. Dizia-me ele que fui escolhido pelo meu intelecto; e que sua inteligência está num nível invejável. Mas não estava se gabando, ele me garantiu. D’acordo com meu interlocutor, meus conhecimentos o ajudarão muito; ficaremos ricos, etc, etc.

Então, se há algo muito grave para ser dito, não diga.

Alguma felicidade

  

“Trabalha, trabalha, escreve, escreve tanto quanto possas, tanto quanto sejas arrebatado por tua musa. Este é o melhor corcel, a melhor carruagem para escapar da vida” [Gustave Flaubert] 

Pretendendo não me ater ao cliché de que a felicidade é feita de momentos, procurarei me ater, portanto, aos momentos – e que o encontro da felicidade seja um mero acaso, um acontecimento, uma fatalidade (como creio que, afinal, é mesmo). 

Não sei quanto a vocês, mas quanto mais tomo conhecimento de teorias várias sobre todo assunto possível de ser analisado, mais evito alguma citação – que minha tese será uma, quando se fizer necessária; e enquanto isso minhas referências vão aparecendo sublimadas, feitas inteligíveis a alguns bons olhos que me lêem. E sendo ainda mais franco, prefiro muitas vezes revelar meus pensamentos à la jazz, improvisados mesmo, bebop, ainda que sob o risco de escrever besteiras (neste ponto peço a vossa atenção; mais exatamente ao verbete ‘besteiras’, que mais adiante revelará grande relevância neste texto). 

Lembro-me de ter escrito aqui mesmo, já há algum tempo, que o presente não existe. Que tudo, absolutamente, pertence ao pretérito. E isso é uma grande felicidade, vejam bem. Há uma idéia muito difundida por aí que diz sobre a necessidade, melhor, sobre a obrigatoriedade de se viver o momento acima de todas as coisas. Essa idéia (cujo termo que a intitula é usualmente escrito em latim a fim de cheirar a alguma imponência ou pompa) é tão (desculpem) esburacada, tão cretina. E nem perco o meu tempo chamando-a totalitarista, ditatorial. Não chega a tanto. É, no mínimo, nome para livretos de auto-ajuda e, no máximo, idiota. E assim escrevo algumas linhas que vão julgar desnecessárias, mas não o são. Não o são: o fato de o tempo presente inexistir faz do carpediem um sonho à toa, uma tolice. (Pronto, a partir do parágrafo seguinte vocês podem trazer o tempo presente de volta, se preferirem.) 

E deixem-me escrever algumas palavrinhas sobre a liberdade – tão comumente ligada à felicidade. Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe. A liberdade incondicional não existe; a liberdade dos filmes de hollywood em carros a toda velocidade em estradas vazias, essa existe. É um raciocínio muito básico e verdadeiro: liberdade não é um estado físico, não é um lugar; liberdade não passa de uma sensação, de um tipo específico de sentimento que depende unicamente de grilhões, ocupações precedentes. É uma sorte que ninguém alcance a liberdade de que tanto falam, pois a liberdade perpétua é a maior das prisões. O homem não nasceu para isso, acreditem-me.  

Peço escusa para fazer aqui uma referência explícita à doutrina platônica da beleza, segundo a qual tudo o que é belo deve tal condição a uma idéia anterior e superior que lhe serviu de excepcional modelo. Noutras palavras, é contemplando as coisas belas que nossa alma pode ascender ao belo em si mesma. E o motor que é capaz de conduzir o homem a tal conhecer superior é o amor. Amor à literatura, ao conheciemento e à mulher (uma pequena apologia ao hedonismo).  

E eis aqui um texto escrito na horizontal, se me entendem. Felicidade. Acordei às 11h, peguei o livro ao lado da cama e pus-me a lê-lo esta manhã. Faz frio. Felicidade. Depois do café matinal, coloco uma música e volto à leitura. Toca o telefone e é a minha modelo; a voz macia do outro lado produz uma nota única, num certo tom de je t’aime. Felicidade. Falo besteiras e procrastino as obrigações. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Vejo meus livros sobre o móvel; os papéis desorganizados; os objetos incomunicáveis.  

Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade. Estar feliz é permitir-se momentos de suspensão do juízo. E se nada disso fizer sentido, tanto melhor. Assim é a felicidade. 

“Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola.” [Machado de Assis] 

Rev, um abraço.