Do que eu não gosto em um texto jornalístico

Não gosto de tanta objetividade, não gosto do lead clássico. Onde está o drama? E por que eu, achando um acontecimento terrível, não posso chamá-lo terrível? Vou dizer: até entendo a tentativa do jornalista de ser imparcial, passivo de opinião própria – que os leitores somente e tão somente possam achar o que quiserem da notícia. Mas nesse ponto sinto um certo conflito de ideologias: se o jornalista deve informar com fidelidade os fatos, e se tais fatos são sim terríveis, por que não dizê-los logo terríveis? Mas divago. O que eu quero dizer é que gosto do nariz de cera. Gosto das introduções literárias, tão comuns nos jornais de há alguns anos – era tão mais viva a coisa toda, mais humana e sincera e tal. Jornalistas que precisam se ater às suas regrinhas tão chatinhas (quase todos) são todos iguais. Apenas uma minoria consegue desenvolver algum estilo peculiar mesmo presa aos grilhões da profissão. E por isso os colunistas são tão lidos; a classificação de opinativa dada às colunas dos jornais quer dizer que elas não possuem classificação – a não ser os setoristas, que só sabem sobre o que sabem. Para ter uma idéia do tipo de jornalista a que me refiro, pensem em Nelson Rodrigues, Paulo Francis. Estes e alguns outros poucos são (ou eram) jornalistas que valem mesmo a pena serem lidos.

3 comments so far

  1. Maria on

    Não há escrita asséptica. Ou se há não vem de mão de gente. Concordo contigo, ou nos envolvemos na escrita e assumimos uma postura pessoal bem definida ou mais vale estar quietinho. Anyway, opiniões dão-se na mesa do café, um artigo – como um post – pode ser bem fundamentado e não deixar de ser pessoal e fruto de uma vivência, de uma circunstância, de um momento. Ou então teremos os 400 macacos a escrever as obras completas de Shakespeare…

  2. j. noronha on

    É extremamente contraditória essa linha “imparcial” no jornalismo brasileiro. A grande imprensa na mão de meia dúzia de famílias, todos os jornalistas com linhas bem definidas de como tratar determinados assuntos, o que pode e o que não pode…Enfim.
    E o cara não pode dizer que um acidente foi terrível, realmente eu nasci no País errado.

  3. Douglas Donin on

    Não sei não, Ed.

    Agora que comecei o jornalismo me assombro com o nível de irresponsabilidade das opiniões dos meus colegas. É “eu acho” para cá, “eu acho” para lá… “eu ouvi dizer” isso, “eu vi na TV” aquilo…

    Ninguém se dá ao trabalho de fundamentar, reforçar ou apresentar indícios que corroborem o que está dizendo. Objetividade em excesso é ruim, mas ainda prefiro a objetividade excessiva à achologia infundada e imbecil dos aspirantes a formadores à opinião com os quais convivo.

    Tem pessoas que simplesmente tem que se curvar á própria imbecilidade e ficar quietas .


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