Nigger again

O branco é canalha às escondidas, já o negro o prefere ser às claras mesmo – principalmente perante câmeras,  microfones e outros aparatos de gente moderninha. Racismo é um negócio fascinante. O que faz espantar é a aura mitológica que há em volta do preto, negro, moreno, whatever. Acho que o mais prudente seria mesmo fazer pose de normal, assim como fazem brancos e amarelos. São tantas quotas, programas especiais, auxílios, empurrãozinhos que me fazem pensar no Estado como um pai que, tendo o filho uns 2000 anos, ainda o ensina lições sobre como andar de bicicleta. Domingo último passava no Fantástico uma reportagem sobre um tal novo tipo de preconceito: a obrigatoriedade de o negro ter boa aparência para se conseguir um emprego. (Microfone ligado e o negro a falar, como um coitado, que o fizeram cortar o cabelo, retirar os dreadlocks, só por causa de um trabalho. Dizia que o estilo de se vestir, o cabelo e tal era para reforçar sua identidade cultural. Ora, essa premissa da boa aparência vale para todos, não é?) Imagino o negro a trocar o terno por um bermudão após um dia de trabalho, colocar no pescoço uma corrente, modificar o modo de andar e sair à rua dizendo coisas como Yo! e Mano e o vizinho a perguntar: “Aonde vai vestido assim?”

__Vou alí, reforçar a minha identidade cultural.

E por favor, eu suplico, não me venham falar que eu me esqueci da história, do quanto os negros foram açoitados no passado, do quanto sofreram. Não me venham falar da Ku Klux Klan. Ou direi que justamente por isso, exatamente por terem passado por tantos percalços, eles têm a obrigação de se igualar moralmente não por meio de programas de governo ou por cabelos impermeáveis, mas através do intelecto. Mais que isso não peço nem espero.

*

Ainda sobre isso, um ótimo texto aqui.

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16 comments so far

  1. tarsischwald on

    Concordo.

    Por outro lado… é mais fácil para os brancos falarem, né?
    Pra variar a teoria na prática…

    A rapaziada é racista mesmo. Engraçado… eu tenho alguns preconceitos ruins, péssimos mas nunca fui racista. Tipo encho a boca mesmo para falar. Nunca fez diferença nenhuma a raça pra mim.

    Acho que isso é um privilégio de mestiço, que ainda não pegou no país dos mestiços.. rs..

    Abs!

  2. kkkarol on

    Deviam extinguir o termo “raça” do vocabulário…..

  3. maria on

    Post corajoso e coerente. Trabalho com identidades. Naturalizar é mesmo o melhor remédio. Se tem a pele de uma cor ou outra, se tem uma qualquer diferença ou deficiência sensorial ou motora, se pertence a um partido ou ideologia ou religião ou seja qual for a sua orientação sexual, realmente, por muito que tenha passado, não dá para ficar a chorar pendurado em memórias de outros. Cada um de nós tem que fazer a sua memória própria, é essa que fica. Humanos, parece-me, é a designação ideal, estranhos numa terra estranha todos somos em algum momento…

  4. Ítalo de Paula Pinto on

    Matou a pau cara! Gostei demais do seu artigo. Estou contigo e não abro !

    Grande abraço …

  5. Natália on

    Eu me lembro deste assunto! Discutimos sobre ele. Eu, deitada na rede. Você, sentado em uma cadeira desconfortável fazendo massagem em meus pesinhos.
    Ai, ai isso sim é que é vida!

    Concordo com a Maria, foi muito corajoso de sua parte escrever sobre esse assunto.
    Parabéns meu amor! A cada dia que passa tenho mais orgulho do homem da minha vida.

    Beijos,

    Natália

  6. Edson Junior Lain on

    Obrigado.

    Amor, luv ya.

  7. jorge nobre on

    Se uma pessoa tem preconceito contra minha raça, eu evito esta pessoa. Tão simples.

    Se posso ganhar uma mamata do governo com minha identidade cultural, eu também vou promover minha identidade cultural. E eu não posso imaginar prova maior que negros e brancos são iguais.

    Eu sou a favor das cotas nas universidades públicas, Ed. As cotas nas universidades públicas irão transformar os campi em campos de batalhas na guerra racial. Isso irá desmoralizar a universidade pública. E essa desmoralização será boa para o Brasil. Quando um professor de universidade pública propõe alguma coisa, devemos fazer o contrário para dar certo. Um dia o povo vai entender isso. E cotas nas universidades públicas ajudarão o povo a entender isso.

  8. Edson Junior Lain on

    É, jorge, desmoralizar as universidades públicas do país não seria mal, se é que ainda resta algum moral. Entendo seu raciocínio, perfeitamente até – mas creio que jamais levantarei bandeira em favor das cotas do governo.

  9. kkkarol on

    Também concordo Ed… As cotas devem existir para pessoas que não tem situação econômica favorável. Não é a raça, mas sim as questões sociais que impedem/dificultam uma pessoa de entrar em uma faculdade… Assim como existem negros pobres, existem brancos pobres também……..

  10. Clara on

    Esse tema me comove. Eu queria não ser branca nem negra, queria era ir ficando transparente até que os preconceitos todos evaporassem. Nesse momento acho que alcançaria a compreensão da verdade – numa visão surpreendente…

    Oká kô dogbá
    (provérbio nagô – “Os dedos não são iguais”)

  11. Hermenauta on

    ehehehe.

    Bom, muito bom. Racismo ao contrário não vai resolver nada, IMHO.

    Agora diz aí, seu cinismo intefere com suas atividades mecenáticas? Senão tenho um projetinho aê para reforçar minha identidade cultural que está precisando de patrocinador. Envolve uma ida ao Taiti e a compra de alguns bens de consumo durável, coisa pouca. 🙂

    E ficou bunito o template.

  12. Ninja on

    “(…) e os mestiços, ponto de mutação?”

    Daqui há algum tempo, talvez, mas só talvez, o conceito de raça fique ainda mais abstrato. As cotas, não. Além de limitarem o acesso de determinada raça à universidade, camuflam uma deficiência ainda maior: sistemática. É claro, não dá pra generalizar. O estado do Piauí, por exemplo, um dos menores pibs, tem a melhor educação do país _ onde tem. O conhecimento está ao alcance de todos, basta esticar a mão. E a universidade não é sua premissa. Ou é? Quiça as opções fossem malhar o cérebro ou os glúteos. Mas a lei da selva…

  13. elisabetecunha on

    Têm ranço e vc que começa…………..e Frida Kalo não era feia , era horrível mesmo, e ai?

    😉

  14. Edson Alves Jr. on

    Hmm… O problema, acho, está mais na matéria, que errou o alvo do problema. Entrevista de emprego foi um exemplo mal-escolhido – afinal, como você disse, a premissa vale para todos. Acho bastante provável que algum racismo se esconda nessa exigência, mas é algo difícil de comprovar com o empirismo raso de uma reportagem televisiva.

    O melhor seriam as revistas policiais, que têm uma lógica racista peculiar – “Nego passa se tem aparência de trabalhador, se parece mala *, leva rodo”. Ou seja, se vc gosta de se vestir no estilo rapper e é negro, é automaticamente suspeito. É um troço que nem pode ser chamado de “micro-fascista”, é fascista mermo.

    Sobre essa coisa toda de cotas e racismo, eu vou usar um artifício que o mundo dos blogs me permite, que é linkar alguém que já escreveu melhor o que eu penso sobre o assunto, o Tiago Thuin:

    http://sambadoaviao.blogspot.com/2007/01/o-meu-problema-com-i-cotas.html

    Ah, também tem uma Carta aos Reaças** dele que é muito boa:

    http://sambadoaviao.blogspot.com/2005/09/carta-aos-reaas.html
    http://sambadoaviao.blogspot.com/2005/09/treplicando.html

    Uma idéia minha é um dia juntar o Hermenauta e o que ele chama de “nata da blogoseira” pra fazer um blog com nome “Saudades do Zé Guilherme Merquior”, só de cartas a reaças como essa que eu linkei. 🙂

    *Termo pernambucano para “ladrão, bandido”. Pra não ficar no já clássico “alma sebosa”.
    **Não, eu não acho que o que vc falou nesse post é coisa de reaça, apesar de discordar. Só pra não ter mal-entendido. 😉

  15. Jean Piter Inzaghi on

    Se alguém puder me dizer o que é negro agradecerei.
    Tenho Brisavós italianos e alemães. Avós Argentinos e Brasileiros.
    Dai entraram indios e negros. O resultado? Sou eu! O que sou eu?
    Um rapaz de cabelos negros ondulados e péle amarela!

    A inferioridade é uma condição de espírito. Se você se incomoda com o preconceito é porque o aceita.

    Agora, convenhamos, o velho comportamento humano. Fazer de coitado para receber um benefício. Não é isso que estamos vendo?

    Os negro não querem se igualar, querem superar para retribuirem as pisadas que seus antepassados sofreram.

    Por fim, se ainda querem mais espaço, pergunto-lhes:
    Quem e Tiger Wood? Mike Tyson?
    Will Smith? Morgan Freeman? Samuel L. Jackson?
    Colin Powel? Kofi Anan? Beyoncé? Halle Barry?
    Lázaro Ramos? Mohamed Ali? Pelé? Couby Brian? etç… 1000 outros

  16. Carolzinha Acefala! on

    Programas como estes do fantástico, ao tratarem desse assunto, nada mais quer, na verdade, do que promover a “cultura do racismo”!E todos se comovem. Inclusive o governo e esses programas de cotas.


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