enquanto a filosofia não vem

Há dias em que eu acho tudo um grande porre. Uma colega da universidade me pediu emprestado A República, de Platão, e ficou com  ele uns três meses. Quando me devolveu, eu não perguntei se ela havia lido. E imagino que não. Pelo menos não completamente. Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta. E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna, afinal de contas. No entanto eu concordo que a filosofia seja “inútil e indispensável”, como escreve Josef Pieper:

É conhecido o prazer com que Sócrates – freqüentemente e de formas muitas vezes exageradas – gostava de ostentar o quão desajustado é o filósofo: ele mal sabe onde se localiza o fórum, não tem a menor idéia das disputas partidárias dos que almejam o poder, ignora completamente as questões relativas à ascendência nobre ou plebéia e mais – ironicamente referindo-se a si mesmo: “ele não sabe sequer que ignora tais coisas”. O riso da criada trácia que zomba de Tales por ter caído num poço, enquanto, caminhando, contemplava o céu, está reservado para todos os que se dedicam à filosofia em qualquer época.“Mas, não é o caso de ficarmos aqui repetindo o que todo mundo sabe. Além do mais, o próprio Sócrates não fala do filósofo como único objeto de riso. Também ele tem sua vez de rir quando, por exemplo, ouve “discursos pomposos” ou quando alguém louva o tirano. É então o filósofo quem ri, e, nesse caso, “a sério”, com fundamento na realidade. Contudo, não é tão importante saber quem ri de quem e com mais ou menos razão. Mais importante é, parece-me, indagar que significado poderia caber à filosofia na vida da sociedade humana.Quando falo aqui em “filosofia”, diga-se de passagem, não estou, é evidente, referindo-me a um determinado grupo de pessoas, nem a um grêmio de “especialistas”, cuja função social estaria em discussão. Sócrates afirmava que reconhecer a estirpe dos verdadeiros filósofos não é, de modo algum, tarefa fácil, mas “quase tão difícil como a dos deuses”. E recordemos suas palavras mais amargas: os maiores detratores da filosofia são aqueles que se autodenominam filósofos. Não estamos indagando, portanto, sobre a função de determinado grupo ou instituição, mas sobre o valor, para a comunidade humana, do filosofar em si mesmo, onde quer que ele se realize.O platônico Aristóteles expressa sua visão da filosofia na passagem da Metafísica em que afirma serem todas as ciências mais necessárias do que ela, embora nenhuma a supere em importância: necessariores omnes, nulla dignior. Ora, a “dignidade” da filosofia e a devida importância que possui no seio da comunidade humana deriva de que só ela pode produzir uma indispensável inquietação, formulada na seguinte questão: Em que consiste – uma vez que, com notável esforço de inteligência e trabalho, já tenhamos obtido tudo que é “necessário”, a satisfação de todas as necessidades vitais, a plenitude de recursos para manter a vida (em todos os sentidos) e a seguridade do viver -, em que consiste propriamente a vida (essa vida assim possibilitada), a vida verdadeiramente humana? Formular esta inquietante pergunta – em meio a todas as perfeições que o homem alcançou para si, no mundo -, e sustentar vigorosamente esta pergunta por um pensamento rigoroso e insubornável – esta é que é precisamente a função da filosofia e sua mais específica contribuição para o bem comum. Ainda que ela, por si mesma, não tenha capacidade de dar resposta cabal.

 

7 comments so far

  1. tarsischwald on

    DÁ-LHE NIILISMO, tchê!

    Já te disse. Abandone tudo e entre para alguma torcida organizada.

    Eis o sentido da filosofia contemporânea!
    😉

  2. rodrigo on

    Puxa, que post mais vazio!
    Você pode ter lido, mas não entendeu “A república”.

    “E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna”

    Pelo dito acima tanto faz o cara ler “A república” ou “Platão em 90 minutos”.

    Para alguém afirmar que “Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta.”, o grau de autoconsciência deve ser muito baixo. Não leste o teu próprio post? Esse sim, longe de ser ‘inútil e indispensável’, é apenas inútil. O seu blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória: “uau! eu li todos os clássicos! Todos são obsoletos! eu os superei!”

    Leia mais, escreva menos.

  3. Edson Junior Lain on

    Rodrigo:
    “auto-adulação masturbatória”? Ai, que preguiça…

  4. […] Mar 13th, 2007 by Edson Junior Lain Vejam só o que um indivíduo unlink comentou aqui: […]

  5. Caio Marinho. on

    Esse negócio de ser tudo um porre é um porre mesmo. E quando fica desse jeito, tudo vai junto: literatura, filosofia, saco.

  6. Ítalo de Paula Pinto on

    O clima anda quente por aqui, hã ?

    abraços …

  7. flávio bicudo on

    O site interzona está repleto de textos de filosofia e literatura e podemos ao lê-los alcançar uma outra dimensão, Rimbaud, artaud, Nietzsche, Deleuze, Ricardo Rodrigues, Tiago Jonas, Sérgio Resende são gritos não nomes….

    Flávio Bicudo


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: