Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

*

Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

7 comments so far

  1. Como eu nunca chegarei a uma conclusão prática e objetiva sobre as questões que envolvem a Política com a Literatura, faço o seguinte despacho (no sentido da macumba mesmo):
    Polítitica é um mal absolutamente necessário. Literatura é um bem absolutamente imprescindível. Todo o restante é intermediário, a vida é só um artefato se vc não lidar bem com essas duas ciências.
    Tá. É simplista, mas estou novamente em processo de “descoisificação” do mundo, para quem sabe me sentir um pouco menos fragmentado.

    Putz, quanta palavra chata em plena segunda de manhã.

    Em tempo: Lost (o seriado) é bacana. Fidel e Lula, não são bacanas. Ghost Rider é divertido. Trabalhar, não.

  2. jorge nobre on

    Eu tentei ler Saramago, e não consegui. Tentei ler o “Memorial do Convento”. Achei letal de chato.

    Não seja por eu detestar a esquerda. O Garcia Marquez, que é pior ainda que Saramago em política (pelo menos o portuga rompeu com Castro, o colombiano nem isso), é um dos favoritos.

  3. Caiocito on

    O Saramago se arrisca mais na linguagem, no estilo. Mesmo sendo bastante descritivo, como García Marquez, não chega ser cansativo. As opiniões políticas, nenhum escritor, artista e etc são bons opinistas.

  4. Ricardo T. on

    Notícias novas: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=16916 (em espanhol)

    “Yo no he roto con Cuba. Sigo siendo amigo de Cuba, pero me reservo el derecho de decir lo que pienso, y decirlo cuando entienda que debo decirlo”

  5. j. noronha on

    Ed, o teu blog deu tilt, tá um template muito esquisito, estourado na lateral. E o texto tá ruim de ler, pelo menos no Firefox.

  6. marcus on

    Aqui no FF 2.0 tá legal, exceto pela parte com a citação do Saramago. A fonte está muito pequena.

    Eu li três Saramago: Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Apesar de achar sua escrita meio estranha no início, logo me acostumei com o ritmo da sua pontuação bizarra e daí foi só alegria.

    Exceto, talvez, pela minha ignorância em relação à história de Portugal entre dezembro de 1935 e setembro de 1936, o que me deixou boiando em alguns trechos de O Ano da Morte…

  7. Caio Marinho. on

    O template ficou legal, mas citação do Saramago ficou pequeeena.

    No Sartre, também dá pra sentir essa dicotomia do político com o moral-filosófico (ou espiritual, anyway around).

    Nunca vi LiT, mas A Vida De Brian tenho em VHS. Todos os filmes dos Pythons são bons, inclusive os no YouTube.

    Ah, e do Saramago só li aquele fininho, A Ilha Alguma-coisa: era paradidático.


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