Archive for março \30\UTC 2007|Monthly archive page

Je ne suis pas le denier des hommes

Puro machismo

Já quase entramos em abril e comprei, ontem, a Playboy de março para ler o texto do Ruy Goiaba, a entrevista com o Millôr e o artigo do Roberto Jefferson sobre a direita brasileira. As fotos? Ah, as fotos são aperitivos – e eu vou apanhar por isso.

E isso me lembrou que nada supera a mulher quando o assunto é machismo. Todas a quem você diga que comprou uma revista dessas para ler um artigo vão rir da sua cara. Exemplo: quando fui até à banca, perguntei se ainda havia a Playboy de março e a senhora me disse num estalo: “Você quer a de abril, não é não?” Eu disse que não, que precisava da de março devido a alguns textos, etc. Aí a senhora sorriu com a maior malícia e me disse: “mas você vai aproveitar, né?” Outro exemplo que comprova o quanto mulheres são machistas: minha namorada, quando estava lendo O Retrato de Dorian Gray, veio correndo me perguntar se o Basil Hallward e o Dorian eram homossexuais. Parêntesis: sei que há muito homem por aí que acha a mesma coisa, mas eu não achei, e isso na verdade é o que menos importa no livro; já as mulheres ficam intrigadíssimas com a possibilidade de acontecer algo mais entre o pintor e seu modelo. E já que falei do Millôr aí em cima, deixe-me citá-lo:

(…) Hoje as mulheres usam até expressões que não são delas. Dizem “Não enche meu saco”, quando deveriam dizer “Não enche meu útero”. (…) As mulheres jamais conseguirão ser mais calhordas que os homens. Não tem jeito. A filha do Sarney tentou e não conseguiu.

Ademais, toda essa história de a mulher querer igualdade entre os sexos, querer seu espaço-não-sei-onde, querer ser independente etc, etc, não passa de machismo. O feminismo é uma fraude.

Do que se aprende nos ônibus

Eu francamente não entendo quando as pessoas me chamam de preconceituoso. Ontem, tarde da noite, no ônibus p’ra casa, ouvia a conversa de duas moças (fibras fortes). Uma dizia à outra que iria num show de axé, mas que preferiria estar solteira para poder pegar [SIC] bastante. A outra, sabidinha, nos revelou – a mim também, ora – que é besteira resistir; que se fosse ela pegava mesmo [SIC]. E contou uma historinha muito ilustrativa: uma outra amiga tinha ido ao axé no ano anterior e se recusado a ficar [SIC] com um rapaz; e acabou levando um soco para aprender. Para essas pessoas a vida não pode ficar muito melhor que isso.

Para vossas questões tão pertinentes

Os cabides, vê?

É um mundo engraçado

O que acontece se eu sair por aí usando uma camiseta com os dizeres “100% Branco” ?

Sobre talentos e canalhas

Talentos não são gênios. São apenas pessoas comuns, dotadas das mesmas ferramentas mentais, porém com algo a mais que é quase intangível.” Ou seja, puxa-saquismo.

*

Vão dizer que gosto de reclamar, mas a verdade é que não dá para não falar sobre isso. Tenho pensado no assunto e considero, no mínimo, um ato de mau gosto o fato de as corporações (empresas, instituições) apostarem com tanta veemência no emburrecimento das pessoas. Há uma inversão de valores: o piegas tornou-se técnica motivacional, enquanto que a técnica fundamentada, inteligente, é posta de lado como, herr, ininteligível. Ao assistir uma palestra empresarial ou a uma aula de empreendedorismo, tenho a vaga impressão de que aquele mundo retratado pela fala do palestrante/ professor não é o meu, tampouco o dele. Vejo, nítida, a noção de idiotice estampada no semblante de quem fala. Tomei o exemplo do culto ao Talento Humano pois estou com um texto aqui ao lado (de um tal Eugênio M.) que parece pretender eliminar qualquer senso crítico do leitor, ou, em última análise, considerar o receptor já destituído d’alguma faculdade intelectual. São textos tão ruins que ofendem:

Aquelas que produzem, aquelas que dizem o que produzir, as que vendem o produzido, as que compram o necessário para produzir e por aí vai. E as pessoas que produzem, controlam, vendem e compram com qualidade acima da média, estas são consideradas os talentos.

Que quer dizer isso? Que os pobres assalariados que passam o dia sob o sol carregando latas de areia nas costas são, porque produzem, talentos reconhecidos? Quer dizer que o patrão corrupto que humilha hierarquicamente inferiores e diz o que deve ser feito é um talento fora de série? A moça do supermercado da esquina que trabalha para manter a casa e, por sorte, vende mais que a média é um talento? Tudo bem que sejam, cada um a seu modo, mas é isso mesmo que querem dizer os doutores do RH? Se ser talentoso é isso, o Brasil vai bem, obrigado.

É de pasmar a cara de pau com a qual os presidentes e diretores de empresas fazem vista grossa perante tanta idiotice. Me faz pensar naquela idéia de que conselhos, afinal, só servem para ser passados a outrem, jamais para serem utilizados.

Quando vejo um professor enchendo a boca para dizer  baboseiras tipo “vocês são o futuro do país” ou “vocês são talentos”, vejo um flagrante crime de Duplipensar [data vênia, Orwell] – e o pior é que os canalhas são bem pagos. Ah, sim, canalhice tem seu preço.

*

E não me entendam mal, isto não é  bravata. Não faço bravatas. O que ocorre é que tenho a little case com o assunto.

Tapinhas nas costas

Tenho na estante um livro chamado Maravilhas Do Conto Francês, que já li mas que não me “acrescentou” nada – engraçado como todos querem ser o tempo todo acrescentados, que mania mais estranha. É uma reunião de autores como Guy de Maupassant, Stendhal, etc. Não estou com o livro em mãos; mas há um conto cujo nome não me lembro e autor idem que conta uma história no mínimo irônica, que quero comentar com vocês. Recorro puramente à memória, corrijam-me se eu me estiver equivocando. É a história de um jovem que procura um velho aristocrata a fim de solicitar um emprego. Dutante a entrevista, o senhor pergunta ao jovem a respeito de suas atribuições, essas coisas. O aristocrata dispensa o rapaz, dizendo que entraria em contato caso tomasse alguma decisão. Frente ao escritório do Serviço Público há uma praça pela qual o jovem precisa passar para chegar à rua de destino. O Aristocrata ia acompanhado com os olhos os passos do jovem através da praça, quando este se abaixa para apanhar algo no chão. Grita o velho:

__Rapaz, encaminhe-se de volta até aqui.

Chegando lá, imaginando ter conseguido o emprego, o jovem diz “pois não, senhor.”

__O que foi que você encontrou no chão da praça?

__Um alfinete, senhor.

__Que pena, rapaz. Você não serve para o serviço público; se atém a detalhes demais.

Particularmente – permitam-me a redundância – , acho um charme um post inacabado.

Apologia da preguiça

Eu sou o oposto do workaholic, o que não quer dizer que eu não goste de trabalhar. Gosto e trabalho desde os 18 anos (o que?, vocês trabalham desde os 15?), sem parar. Eu só não consigo entender a mente de uma pessoa que não vive, trabalha. Que nasce, trabalha e morre. E como ninguém consegue ficar calado enquanto eu discurso, ouço “Então o que é viver, Ed?”, e respondo que não sei, só sei que viver não é trabalhar; digo, não pode ser só isso. “Mas Ed, de onde você tirou essa sua idéia?, sua família sempre foi tão trabalhadora…” Eu li Russel. Li o safado do Betrand Russel e o negócio mudou minha vida; aquela história do Elogio ao Ócio, da redução da jornada de trabalho para 4 horas diárias – vejam bem, 20 horas destinadas ao júbilo e à rede na varanda, para quem gosta de rede na varanda.

Ah, sério, eu tenho pena de quem não consegue dizer algo tão simples como “ai, que preguiça”. Se viver de acordo com as idéias Russelianas é algo hoje improvável, eu me permito então, no mínimo, sentir a santa e sincera preguiça. Senti-la e assumi-la. Vejo por aí gente que já não aguenta mais tanto trabalho mas não consegue, não pode assumir sua própria preguiça, por medo de que isso vá demonstrar algum desvio de caráter. Ora, preguiça demonstra preguiça, não mais que isso. E os benefícios, imediatos: digo “que preguiça” e meus olhos se enchem duma lágrima quente, num misto de sono, emoção e liberdade.

Do que não pode ser feito um blog

Chamaram-me “cínico simpático” alí ao mesmo tempo que me deram mais, herr, trabalho. Não vou escrever que é um meme. Não gosto da palavra. Meme. Não, não é um meme. É só mais uma variação do Questionário de Proust, que respondi há uns dias. E como responder a dois desses em menos de 15 dias demonstra uma imensurável falta de criatividade e uma vergonhosa incapacidade bloguística, vou adiar o negócio. Raquel, obrigado e tenha paciência, sim?

Um lema

“A realidade é chata, mas é ainda o único lugar onde se pode comer um bom bife.”

Woody Allen

Fitter, Happier more productive. Comfortable. Not drinking too much.

Eu não me dou bem com gente feliz demais, fico sem graça. Geralmente não sei o que dizer quando me perguntam se sou feliz. Que pergunta mais cretina. Respondo que vou bem, obrigado; mas assumir-me feliz, assim, uma pessoa feliz, eu não consigo. E quem convive comigo bem o sabe. Levo uma vida regrada, sem muitas aventuras: trabalho durante o dia, estudo à noite e leio no pouco tempo que me sobra entre uma atividade e outra. Não bebo, não fumo. Não tenho nenhum vício censurável – a não ser que os senhores leitores sejam por demais castos e me repreendam por libido exacerbada. Mas sou fiel, não me entendam mal. Namoro aos fins de semana e não devo me demorar muito mais para contrair casamento. Contrair, sim, mas não deixem que essas suas mentes espirituosas lhes remetam a algum tipo de enfermidade, que não é disso que trato. Voltando. Moro em casa, com família; tenho gato, cão e conforto. Apesar de estar sempre muito cansado, minha vida não é ruim. Ainda sim, me recuso a dizer que sou feliz. Acho que a felicidade está mais para uma paisagem mutável que para uma construção sólida. Tenho momentos muito bons, mas não os assumo. Gente feliz demais me irrita. Quem vive se dizendo feliz o tempo todo só pode estar praticando psicologia reversa.

não é uma tese

Vejo que todos estão muito ligados a essa coisa acreditar nas pessoas. Ter fé nas pessoas.  E meu primeiro impulso é colocar esse costume bonitinho frente à ordem cristã de que tolo é o homem que acredita no homem. Mas para falar a verdade eu estou com preguiça de escrever sobre isso.

uncategorized

E no final das contas nada tem fim.

semelhanças superficiais

Existe em todas as pessoas um desejo de superação em relação ao outro que, antes de ser uma teoria de Hobbes em Leviatã, é  característica primal do ser. Tal desejo de superação é tido pelas teorias modernistas como trunfo, como estratégia pensada a ser empregada em prol de uma, digamos, vida melhor. O tema é corrente em paletras institucionais e/ ou acadêmicas, utilizado sempre com o falso intuito de otimizar as ações humanas, como catalizador de vontades e desejos. Concordo que tal faculdade inerente ao homem seja, sim, motor para se atingir na vida certos objetivos. Concordo, resguardando-me de certas exceções, que é o desejo fator responsável por quaisquer conquistas que se possa adquirir. Mas entendo ser um argumento falacioso o utilizado em palestras, livros, programas de auditório e sites de conteúdo em tom auto-ajuda: o de que todo desejo de competição é benéfico. Mas divago.

E esse título não tem nada a ver mesmo, mas eu prefiro assim.

Não diga

Esses dias um colega da universidade comentou comigo que acha a Igreja Católica uma instituição falida. Vá achando.

D.F. Wallace

Ótima resenha sobre o livro Oblivion, de David Foster Wallace, aqui.

Uma história triste

Cap. 1

Vou contar uma história triste, porém muito ilustrativa para vocês. Educativa até, eu diria. Preciso voltar um pouco à minha doce infância, período no qual foram plantadas as sementes (sempre quis dizer isso!) para o que relatarei mais adiante. Eu tinha uns 10, 11 anos de idade. Em primeiro lugar, eu era um garoto muito displicente. Batia nas minhas irmãs, arrancava as cabeças de suas bonecas Bebê e passava a maior parte do tempo na rua, brincando de pega-pega, pique-esconde, futebol, etc. Na época eu cursava o 4° ano, estudava no período matutino e, apesar de ser o oposto de um cdf, tirava boas notas e tinha facilidade para aprender as matérias – Estudos Sociais, Ciências, História e tais. Já na época eu tinha um melhor amigo, que era o exemplo de aluno a ser seguido: estudioso, disciplinado, sério. Ele fazia todos os para-casas, ao contrário de mim que preferia, quando não estava na rua, jogar Atari. Esse meu amigo – chamemo-lo R. – era um ano mais velho que eu e já cursava o 5° ano; quando eu o chamava para que pudéssemos brincar na rua, respondia-me com voz calma:

_Não posso sair para brincar senão meu pai me bate, tenho que varrer o terreiro.

E não importava o quanto eu insistia, ele era muito, muito disciplinado. Outro dia, chamei R. novamente e ele me disse:

_Não posso sair para brincar, tenho que fazer o dever de casa.

E assim era. Lembro-me de incontáveis vezes ter ouvido minha mãe dizer: “Junior, não vá para a rua, faça como o R., vá estudar!” E eu ficava meio irritado, pois afinal de contas o R., apesar de meu amigo de infância, era tido como o idiota do bairro. Mas eu, sempre muito bom, não deixava de chamá-lo para brincar, ainda que a resposta fosse sempre negativa. Minha mãe ainda insistiu durante muito tempo para que eu seguisse o exemplo de R.: fosse mais dedicado aos estudos e ajudasse nos afazeres de casa. Eu jamais cedi.

Cap. 2

Alguns anos se passaram e eu acabei me afastando de R. Não por intenção, mas porque novas amizades foram sendo feitas, enfim, sabem como é. Eu tinha aqui uns 16 anos e já havia começado a ler livros como Dom Casmurro e Triste Fim de Policarpo Quaresma, e começava a sentir uma pontinha de prazer nisso. Lia quadrinhos e juntava dinheiro para comprar Graphic Novels no final do mês. Foi uma boa fase. Um dia uma notícia aterradora, inacreditável corria as ruas do meu bairro: R. havia levado bomba na escola. Esse foi o fim das comparações feitas pela minha mãe; alcancei R. e agora éramos da mesma sala, sentávamos lado a lado e minha notas não eram muito diferentes das suas; às vezes, melhores. O desespero de R. era visível por eu tê-lo alcançado, e, mais do que nunca, ele se trancava em casa para poder estudar e me mostrar quem era mais inteligente, quem se dava melhor em matemática, essas coisas de moleque. Minha alma blasé imperava e eu não dava a mínima, continuava brincando na rua e jogando vídeo-game até altas horas. Outro fim de ano e R. toma outra bomba, ficando para trás. O que era engraçado começava a ficar sério, estranho demais. Ele estudava tanto, era tão obediente aos pais, varria o terreiro, santo deus! Tempos depois eu soube que R. havia saído da escola, bem no ano em que terminei o 3° ano do Ensino Médio e me formei. Comecei a trabalhar e a ler muito, muito. Não tinha mais tempo para a rua e pouco para o vídeo-game, de modo que eu não via mais meu antigo amigo R. Tomamos caminhos distintos. Às vezes eu ouvia falar dele, mas somente comentários esparsos, desinteressantes. Mais algum tempo e eu estava na faculdade, lendo ainda mais e trabalhando. Em minha rua, nenhum rapaz que fosse exemplo pra mim. Eu era o exemplo.

Cap. 3 – final

No último natal, a mãe de R. convidou minha família para ir à sua casa, “como nos velhos tempos”. Fomos: eu, minha noiva e minha mãe. A mãe de R. me olhava e dizia “como cresceu, gente” e eu sorria sem graça. R. fez supletivo para se livrar do Ensino Médio e se converteu ao evangelho, sendo a Bíblia o único livro que lê, quando lê. Toca música góspel no violão e sonha em gravar um cd em inglês. Não estuda. Trabalhava, mas por algum motivo não o faz mais. Está com 25 anos. Há umas semanas, atendendo a um convite educado que fiz na noite de 25 de dezembro, foi à minha casa para conversarmos. Ficamos na sala, onde fica a maior parte dos meus livros, na estante. Ele me perguntou com o que estou trabalhando e respondi. Perguntou como é a faculdade, se eu gosto e tal. Eu disse que sim, que não é como eu esparava, porém agradável, e disse que ele devia fazer. Perguntei por qual curso ele se interessa e ele me respondeu “História”. Algo que notei a princípio enquanto conversávamos foi a sua falta de atenção ao que estava falando; ele comete digressões incríveis ao contar uma história, mais que o normal. “Talvez seja o jeito dele”, pensei. R. viu meus livros e se interessou. Quis ver alguns e eu disse que ficasse à vontade. Pegou o Introdução à Psicologia e perguntou-me se eu já o havia lido. Sim. Perguntou se já li a Bíblia. “Sim, a maior parte”, eu disse. Então eu o aconselhei a ler mais coisas além das escrituras e perguntei qual o último livro que ele havia lido, ao que me respondeu:

_O Escaravelho do Diabo! Nossa, é muito bom! Assim: tem lá o bicho, o escaravelho, e quando ele pica a pessoa, a pessoa vai para o lado negro!

Pensei em fazer uma piada com Star Wars mas imaginei que ele não entenderia. Eu me lembro de quando nos mandavam ler O Escaravelho, e isso já tem uns 15 anos. É um livro infantil da antiga Coleção Vagalume. Emprestei-lhe o Introdução à Psicologia e lhe recomendei que lesse com calma, estudando. Então ele olhou no relógio e falou que precisava ir embora, tinha que tomar um remédio. “Que remédio?”, perguntei surpreso. “Um aí, para fortalecer a mente”, ele me respondeu. Não entendi – ou entendi mas me fiz de parvo. Eu tinha só mais uma pergunta:

_R., por que você não está mais trabalhando?, o que houve?

_Estou com depressão, Edson. Eles me afastaram do trabalho.

 *

Moral: Não se pode forçar uma pessoa a ser inteligente; não se pode forçar uma pessoa a nada. A pressão tem constantemente efeito contrário; como um prego que, sob a força do martelo, entorta.

carta à minha intelectual favorita

Vou me despir de qualquer pompa lingüística, verborragia ou lugares-comuns para escrever este texto, que não só se faz necessário devido ao dia de hoje, mas, principalmente, em razão dos dias e anos que se passaram, durante os quais nos tornamos mais íntimos, cúmplices; mais visceralmente ligados e dependentes um do outro. Por mais cético que eu aparente ser quanto à maioria das coisas, incluindo relacionamentos, com você eu vivo uma outra realidade, na qual minhas concepções adquiridas ao longo do tempo são postas a um nível quase imperceptível. Ao seu lado, minhas certezas niilistas e minha visão apocalíptica do mundo entram em estado de suspensão. Você que suporta as minhas músicas muitas vezes estranhas, undergrounds demais para uma mulher; você que ouve sem reclamar os meus discursos mais inflamados quando estou no meio de uma argumentação, você que ri dos meus gritos roucos ao cantar uma música velha no seu videokê. Qualquer definição de amor que me apresentem eu a refuto, pois eu não preciso de definições, nós não precisamos de definições; somos o nosso próprio conceito, alheios – e eu agradeço – às opiniões de outrem. Chegamos a um ponto em que estamos acima; olhamos à frente e podemos ver mais que o horizonte: avistamos um futuro que se nos apresenta breve, iminente. E como você é a praticidade que em mim falta, você dirá “eu te amo, meu amor”, enquanto que eu me demoro, me alongo, tergiverso. Você é o meu fator de equilíbrio; você é o meu bom-senso. Em você eu encontro os motivos mais inescrutáveis para viver, pois, e você me conhece, eu não levo a vida a sério – ou pelo menos não levava antes de você surgir. Repito que estamos acima de qualquer definição – e essa é a minha opinião irredutível, não sujeita a questionamentos ou argumentos contrários. Você me fez melhor há tempos, e eu lhe sou grato de uma forma que talvez você não possa imaginar, mas sei que você pode sentir quando me olha com esses olhos claros e luminosos, e sorri, simples, de uma maneira que, em silêncio, é capaz de expressar tudo. Nosso amor não cabe no espaço de um beijo [data vênia, Drummond], mas está presente em cada pequena coisa que fazemos juntos. E eu amo você por motivos demais, tantos e incontáveis que nem contrariando a primeira linha deste texto eu me poderia fazer entender totalmente. Nosso amor é uno. Eu diria que você me é tão necessária quanto o ar, o sol, a lua; mas faço melhor: não digo. Vejamos até onde vai a imaginação da minha intelectual favorita, minha querida e amada, minha estrela.Amo você, até o fim do mundo. 

kriterion

Estou em estado de époche.

que preguiça dos reacionários

Vejam só o que um indivíduo unlink comentou aqui:

Puxa, que post mais vazio!
Você pode ter lido, mas não entendeu “A república”.
“E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna” Pelo dito acima tanto faz o cara ler “A república” ou “Platão em 90 minutos”.  Para alguém afirmar que “Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta.”, o grau de autoconsciência deve ser muito baixo. Não leste o teu próprio post? Esse sim, longe de ser ‘inútil e indispensável’, é apenas inútil. O seu blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória: “uau! eu li todos os clássicos! Todos são obsoletos! eu os superei!” Leia mais, escreva menos.”

E sabem, eu morro de preguiça dessas criaturazinhas. Morro de preguiça. Então, Rodrigo, se me estiver lendo, saiba que eu não escrevo para você nem tampouco para a sua estirpe. Excetuando-se os meus poucos leitores, eu escrevo para mim mesmo. Eu teria vergonha de postar um comentário como o que você postou. De gente reacionária o país está cheio, e isso me faz sentir pena dos que, como você, acham bonito o fazer-se entendedor de todas as cousas. Você não me conhece e eu não escrevo para você, dá para entender? Já filosofia eu não me desgasto discutindo-a com você, que, pelo que vejo, ainda está encantado com os livretos que mandam ler no ensino médio. Eu mal tenho que provar algo para mim, muito menos para gente como você. E dou-lhe um conselho: vá ler Eleanor H. Porter, faz mais o seu tipo.

enquanto a filosofia não vem

Há dias em que eu acho tudo um grande porre. Uma colega da universidade me pediu emprestado A República, de Platão, e ficou com  ele uns três meses. Quando me devolveu, eu não perguntei se ela havia lido. E imagino que não. Pelo menos não completamente. Eu li esse e outros clássicos da filosofia, e pelo menos metade eu classificaria como desnecessária, obsoleta. E ninguém precisa ler A República para entender o Mito da Caverna, afinal de contas. No entanto eu concordo que a filosofia seja “inútil e indispensável”, como escreve Josef Pieper:

É conhecido o prazer com que Sócrates – freqüentemente e de formas muitas vezes exageradas – gostava de ostentar o quão desajustado é o filósofo: ele mal sabe onde se localiza o fórum, não tem a menor idéia das disputas partidárias dos que almejam o poder, ignora completamente as questões relativas à ascendência nobre ou plebéia e mais – ironicamente referindo-se a si mesmo: “ele não sabe sequer que ignora tais coisas”. O riso da criada trácia que zomba de Tales por ter caído num poço, enquanto, caminhando, contemplava o céu, está reservado para todos os que se dedicam à filosofia em qualquer época.“Mas, não é o caso de ficarmos aqui repetindo o que todo mundo sabe. Além do mais, o próprio Sócrates não fala do filósofo como único objeto de riso. Também ele tem sua vez de rir quando, por exemplo, ouve “discursos pomposos” ou quando alguém louva o tirano. É então o filósofo quem ri, e, nesse caso, “a sério”, com fundamento na realidade. Contudo, não é tão importante saber quem ri de quem e com mais ou menos razão. Mais importante é, parece-me, indagar que significado poderia caber à filosofia na vida da sociedade humana.Quando falo aqui em “filosofia”, diga-se de passagem, não estou, é evidente, referindo-me a um determinado grupo de pessoas, nem a um grêmio de “especialistas”, cuja função social estaria em discussão. Sócrates afirmava que reconhecer a estirpe dos verdadeiros filósofos não é, de modo algum, tarefa fácil, mas “quase tão difícil como a dos deuses”. E recordemos suas palavras mais amargas: os maiores detratores da filosofia são aqueles que se autodenominam filósofos. Não estamos indagando, portanto, sobre a função de determinado grupo ou instituição, mas sobre o valor, para a comunidade humana, do filosofar em si mesmo, onde quer que ele se realize.O platônico Aristóteles expressa sua visão da filosofia na passagem da Metafísica em que afirma serem todas as ciências mais necessárias do que ela, embora nenhuma a supere em importância: necessariores omnes, nulla dignior. Ora, a “dignidade” da filosofia e a devida importância que possui no seio da comunidade humana deriva de que só ela pode produzir uma indispensável inquietação, formulada na seguinte questão: Em que consiste – uma vez que, com notável esforço de inteligência e trabalho, já tenhamos obtido tudo que é “necessário”, a satisfação de todas as necessidades vitais, a plenitude de recursos para manter a vida (em todos os sentidos) e a seguridade do viver -, em que consiste propriamente a vida (essa vida assim possibilitada), a vida verdadeiramente humana? Formular esta inquietante pergunta – em meio a todas as perfeições que o homem alcançou para si, no mundo -, e sustentar vigorosamente esta pergunta por um pensamento rigoroso e insubornável – esta é que é precisamente a função da filosofia e sua mais específica contribuição para o bem comum. Ainda que ela, por si mesma, não tenha capacidade de dar resposta cabal.

 

uma falsa idéia

Eu já disse que minhas aulas na faculdade estão decepcionantes? Engraçado é que estive comentando sobre isso com uns amigos e com minha noiva, e então quando li o ensaio do Soares Silva na Bravo deste mês ví que ele tratava do mesmo assunto. As instituições de ensino, se por um lado aumentarm em número, perderam em qualidade. Passei um semestre inteiro “aprendendo” como é o clima dentro duma redação jornalística (…). Mas deixemos de coisas óbvias.

Keats, Wilde, Proust & me

Eu não leio poesia, como já escrevi dantes, mas muito me agrada a história de John Keats (não, não li na wikipedia): rico e ocioso, passava os dias lendo; ou seja, a vida que eu queria ter. Keats morreu de tuberculose em 1821, e sobre seu túmulo foi inscrita a famosa sentença “Here lies one whose name was writ in water “, que ele mesmo escreveu. Conheci Keats num livro de ensaios de Oscar Wilde, Chá das Cinco com Aristóteles, no qual o dândi faz boas referências ao poeta, além de citar e comentar alguns poemas. E como a minha edição de Chá das Cinco é bilingue, dá para ter umas boas idéias da originalidade linguística de Keats, como trocadilhos e jogo de palavras, bem à maneira da literatura inglesa do século XIX. O Chá das Cinco, do Wilde, eu não conhecia até comprá-lo, há uns anos. Vasculhava as prateleiras duma Leitura aqui da capital quando ví a capa. Comprei no ato. É na verdade uma reunião de ensaios e críticas literária e social, do início da carreira de Oscar, antes de O Retrato de Dorian Gray ou qualquer outra obra conhecida. Wilde, vocês sabem, morreu em 1900, ano em que Proust fazia 29 anos e ainda não tinha publicado Em Busca do Tempo Perdido, cuja primeira parte só veio a público em 1913 e que só recentemente lí. Ai de nós que vivemos no século XXI.

Santíssimo guaraná

Está tudo mesmo à beira do ridículo, e os cristãos são uns frouxos. Sábado, tarde da noite, encontrava-me sentado frente ao computador, absorto nalguma matéria, enquanto minha intelectual favorita ronronava sonolenta sobre a cama, atrás de mim. Comentei-lhe algo sobre o que eu estava lendo – não consigo me lembrar o quê – e ela me respondeu que há, se não se enganava, no Maranhão um refrigenrante chamado Jesus, muito famoso, tanto que a Coca-Cola estaria interessada em comprar a marca. Pesquisei e encontrei, o que me foi motivo de riso. Penso que se uma coisa dessas acontece no Oriente Médio com o nome de Alá, boa coisa não sai. Lembra-se das charges? Então. Espero não passar a impressão de que eu ligue para o fato, eu não ligo. Mas acho no mínimo engraçado que não haja reclamações por parte dos fanáticos – e se há, são demasiado tímidas. E se a marca Jesus tem feito tanto sucesso como se diz, bom, deve ser, se não mais, uma bênção, não?

O questionário de Proust

Bem, eu queria de volta o Iluminismo, como já escrevi, mas não seria nada mal que pelo menos, pelo menos, o século dezenove voltasse. E já que uma modinha dos idos de 1890 está de volta à baila, para o meu prazer, deixe que eu a adira. O Questionário de Proust é uma lista de 29 perguntas que (…), e tem esse nome por ter se tornado famoso após as respostas do francês que nasceu no mesmo dia que eu, etc., etc. Ei-lo por mim respondido:

1. Qual é a sua maior qualidade?

Eu tenho bom gosto e me orgulho muito disso. Desde muito jovem lia muito e me envolvia com pessoas mais velhas e mais inteligentes que eu, e creio que tenha sido esse o meu impulso primeiro às artes, à filosofia, à literatura e ao jornalismo. E ainda que sejamos obrigados a conviver com todo tipo de pessoa durante o nosso amadurecimento, não me deixei influenciar. De modo que sou hoje um homem incorruptível – exceto por Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Shakespeare, o próprio Proust, etc.

2. E seu maior defeito?

E esse deve ser um defeito bruto, pois de modo algum eu consigo considerá-lo defeito. mas o senso comum, você sabe. Eu sou completamente intolerante. Por exemplo: certa vez precisei ir a uma festa com a minha noiva – quando ainda éramos namorados – e fiquei meio contrariado, pois não gosto muito de festa por causa do aglomerado de gente, essas coisas. Mas, bom, era uma festa infantil e eu fui. Tudo ia bem até meia noite, quando as crianças presentes começaram a ir embora e os adultos mais jovens e os adolescentes idiotas começaram a ficar animadinhos. A música, que já era ruim, ficou pior. A Xuxa deu lugar ao funk e o resto vocês imaginam. Eu fiquei fora de mim, completamente exasperado; o que gerou briga, desconforto e pressa de ir embora.

3. A característica mais importante em um homem?

A Paixão. Não no sentido romântico, mas total. Paixão pelas parcas coisas boas no mundo: a mulher, a literatura, o conhecimento, o cinema, a música e o chocolate.

4. E em uma mulher?

Reconhecer os poucos homens com as características que citei acima. E, claro, a fidelidade – ou você está pensando que há algum comunista aqui?

5. O que você mais aprecia nos seus amigos?

A busca pela verdade! Brincadeira. Aprecio a inteligência, e procuro somente ser amigo de pessoas intelectualmente privilegiadas. Por que? Ora, para que eu mantenha o velho hábito infantil de aprender mais e mais com os sabidinhos – c’est la vie.

6. Sua atividade favorita é…

Uma discussãozinha. Mas que seja inteligente, pois do contrário eu tenho preguiça. Além de cinema, teatro, a leitura, enfim. Um adendo: eu sempre estou acompanhado em tais atividades, nunca só, jamais.

7. Qual a sua idéia de felicidade?

Eu e minha intelectual favorita, mais velhos, vivendo bem, confortáveis e afastados das coisas mundanas (leia-se música ruim, gente ruim, clima ruim).

8. E o que seria a maior das tragédias?

Ficar sem dinheiro num país tropical.

9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?

Lord Henry Wotton.

10. E onde gostaria de viver?

Se no Brasil, no sul. Porto Alegre, talvez. Se noutro país, Irlanda. Aprendi a gostar da Irlanda com o Garth Ennis.

11. Qual sua cor favorita?

Preto.

12. Uma flor?

A papoula.

13. Um pássaro?

A cotovia (eu não sei que diabo de pássaro é esse, mas é com certeza o nome de pássaro mais legal que eu conheço).

14. Seus autores preferidos?

Dickens, Shelley, Shakespeare, Nabokov, Orwell, Waugh, Wilde, Dostoiévski, Joyce, Proust, Machado de Assis, Shopenhauer, Hobbes, Kafka, Salinger, Francis, Mencken, Eco, Baudrillard, etc.

15. O os poetas que mais gosta?

Keats e Manuel Bandeira. E alguma coisa do Pessoa.

16. Quem são seus heróis de ficção?

Jesse Custer (Preacher), por ser um pastor protestante que perdeu a fé e quer ter uma boa conversinha com Deus. E o Spider Jerusalém (Transmetropolitan) que é um jornalista muito, muito corrupto.

17. E as heroínas?

Humn. Lolita, se se pode assim considerá-la.

18. Seu compositor favorito é…

Dylan.

19. E os pintores que você mais curte?

Bosh e Van Gogh.

20. Quem são suas heroínas na vida real?

Minha mãe, que é divorciada há uns 12 anos e tem uma força de vontade incrível, perto da qual eu sou um gurí, um preguiçoso. E Natália, que está comigo em tudo e para tudo.

21. E quem são seus heróis?

São os poucos pelos quais me deixo influenciar, como disse mais acima. Escritores, artistas, músicos, amigos. São aqueles cujos conselhos eu seguiria, se pelo menos a maioria estivesse viva.

22. Qual sua palavra favorita?

Isso varia. No momento é “asco”.

23. O que você mais detesta?

Não gosto de gente que fica por aí falando coisas como “nossa, como fulano é pobre de espírito”, então não me confunda, pois o que vou dizer é absolutamente distinto: não gosto de gente pobre de vontade, de desejo, de ânsia por conhecimento. Não gosto de estagnação. Não gosto do modo como a maioria das pessoas aceita tudo o que há de ruim como se fossem coisas boas. Não gosto da falta de senso crítico. Não gosto do moralismo exacerbado.

24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?

Goebbels, o ministro da propaganda nazista.

25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?

Bom humor, otimismo.

26. Como você gostaria de morrer?

Sentado num banco de madeira, sob frondosa árvore, no meio de uma leitura – mas tanto melhor se der para esperar eu terminar o livro.

27. Qual seu atual estado de espírito?

Ansioso.

28. Que defeito é mais fácil perdoar?

Um  corte de cabelo ruim. O resto é mais difícil.

29. Qual é o lema da sua vida?

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

(este sou eu, sem filtro.)

Se tiverem coragem e paciência, respondam Tina, Carol, Edward, Elisabeth, Cleber, Rosângela e quem mais estiver, digamos, disposto.

Epifania

É comum basear um texto numa só palavra, mas corre-se o risco de o post parecer poético e não há nada que eu deteste mais. Perdoe a digressão, mas deixe-me escrever sobre isso. Não sei, é bem provável que a psicologia tenha todas as explicações para o fato em seus livros de autores barbudos. Não sei. Estou pensando na tendência besta que todos temos, desde pequenos, emberbes: a propensão ao romantismo, à poesia. E é um assunto vasto. Budistas do Tibet escrevem poesias, ora. Mas, entenda, não estou escrevendo contra a poesia, não é o quero dizer. Quero dizer que, quando jovens, as pessoas, indivíduos, os serezinhos humanos, quando escrevem – e aqui acabo de excluir uma boa parcela da humanidade – desejam, mais que tudo, serem poéticos, românticos, tocantes. Eu mesmo já o fiz e sei que é uma coisa besta, bem besta mesmo. E só tem uma explicação: mulher. Quando o homem começa a escrever coisas como “me é um júbilo incomesurável ouvir a sua voz” ele só pode estar só, entregue aos próprios artifícios – se é que me entende. E quando a mulher é que escreve uma baboseira assim, ora, não é por nada. É permitido às mulheres escrever esse tipo de baboseira. Um dia passa; se não, torna-se depressão ou algo assim. Mas passa. O meu romantismo eu deixo nas minhas palavras, soltas ao vento, em uma só direção. E olhe só eu sendo romântico.

A Epifania? Deixe para uma outra hora, sim?

E amanhã responderei o Questionário de Proust.

Lord i guess i’ll never know

As pessoas são todas muito boazinhas, né? Tão, tão simpáticas.

(whispering)

Eu já concordei antes com a idéia de que, se o Brasil tivesse participado de uma guerra mundial, ele seria um lugar melhor para se viver. Mas agora é tarde. Acho que a fase das potências pós-guerra já passou. Hoje é tudo muito sublimado; ninguém declara guerra a outra nação, e sim guerra contra o terrorismo, contra a opressão, você sabe. Além do mais, se se gasta com programas sociais, não se pode gastar com armamento – isso em teoria, sim, claro. Mas divago.

Bom, se não temos a guerra, tragam-me de volta o Iluminismo.

estética en passant

Há quem gaste mais palavras para falar disso, e bem o faz; no entanto fugirei à regra: procuro ser mesmo simplista, especialmente numa tarde de segunda-feira. Pensando no que escrevi uns posts atrás, sobre já ter usado blusa com estampa do Che há uns anos, lembrei-me de um outro fato igualmente pejorativo. A fase blusas-de-banda-de-rock. Você sabe, aquelas pretas. Bom, ainda hoje tenho uma do Pearl Jam, mas hoje prezo um certo grau de sutileza inexistente outrora. Eu era um rebelde – um rebelde esteta. Como a maioria, não tinha uma causa. Gostava de incomodar, chamar a atenção, sem quaisquer justificativas. Gostava de ser barrado na porta da escola na qual cursei o ensino médio, só para ter motivos para discutir com o porteiro. E, sim, eu era bom em discussões nessa época. Era a aurora da minha vida literária (oh!) e eu gastava o verbo, fazia citações a esmo, só para impressionar. E usava blusas de bandas obscuras, pouco conhecidas; sempre pretas. Minhas calças jeans tinham buracos em ambos os joelhos. Era estilo. No pescoço, penduricalhos ridículos, sem o menor fundamento. Em tempos de frio, blusas de flanela. Era década de 90 e isso era moda; o xadrez, o all star, a coisa toda. E hoje penso “como a idiotice é necessária!”, como ela nos faz ter algum orgulho quando olhamos pra trás. Quem nunca foi idiota, continua idiota sempre.

E é claro que daqui a uns 10 anos vou ler estas linhas e pensar “que parvo!”

Literatura é política

Eu gosto de ler notícias velhas, e foi lendo uma que me lembrei que Saramago é um escritor de esquerda. Em 2003 o nobel português rompeu relações com o governo cubano, que, a mando de Fidel Castro, fuzilou dois “transgressores”. José Saramago também é membro do Partido Comunista Português e autor de manifestos famosos – e agora me lembrei de um, lido, se não me falha a memória, no encerramento do Fórum Social Mundial, em 2002. Segue um trecho: 

“(…)Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.”

Eu não costumo ler autores de manisfestos. Não leio políticos. Irônico é que já li vários livros do Saramago – sendo Todos os Nomes o meu dileto – e nunca senti neles qualquer bravata em prol da humanidade; talvez até pelo contrário. Não sei que abismos separa os escrúpulos de um homem da sua posição política. Tenho certeza de que George W. Bush também condenou Fidel em 2003 – está bem, o meu exemplo foi muito radical; mas proposital – ou qualquer outro direitista. E escrevendo isto, contudo, sei que tudo é política. Se não de um país, de um homem.

Mas um detalhe: Fidel e Lula são cristãos, enquanto que Saramago é ateu.

*

Ontem, domingo, na falta do que fazer, assisti pela terceira vez Lost in Translation e pela primeira vez A Vida de Brian, do Monty Python.

*

E esse negócio de trabalhar, heim? Francamente.

O labirinto do fauno

O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, é o melhor filme lançado em muito tempo. Enquanto assistia-o, eu via, nítido, o Frodo e toda a trupe de Lord of the Rings sendo envergonhada, desacreditada. Noutro momento, o Fauno sai das sombras e dá tapinhas de luva na cara lavada do leão de Nárnia, o messias. O Labirinto do Fauno representa o fim da fantasia, o fim do Conto de Fada – ou mais propriamente a sua impossibilidade de coexistir com o atual e corrompido mundo real, que há muito superou ficção. É um filme triste, obscuro. Mas o melhor adjetivo que se aplica à obra de Del Toro é pungente. É um filme que incomoda: quanto mais próximo do final, mais caótico ele se nos apresenta, mais melancólico, mais real.