Predileções

Ouço falar de gente que se diz “eclética” e me dá um certo nojo. Gente que se diverte – de verdade – em casas de forró, axé, funk carioca, pagode e todo esse tipo de apelação. É comum encontrar pessoas assim por aí, elas estão por toda parte. Ainda que eu evite qualquer contato, ocasionalmente é preciso ser no mínimo educado com essas pessoas, como por exemplo dentro do elevador ou na fila do supermercado (com educado quero dizer que você não tem que cuspir na pessoa). Eu já perguntei a uma dessas figuras:

-Você gosta mesmo dessas músicas?

E é engraçado que ela – a pessoa – olha você com aquela expressão “‘tá me tirando, heim?” e pergunta o motivo da dúvida. Eu, fingindo simplicidade, geralmente digo:

-Ah, não há conteúdo algum nas letras, umas coisas sem sentido, vulgares até.

E agora a parte que eu mais acho cretina:

-É, mas ‘tô nem aí pra letra. O ritmo é muito bom pra dançar, lava a alma, sabe?

E me dá uma vontadezinha de vomitar, mas aguento firme. São coisas assim que me fazem pensar, quanto mais o tempo avança (em direção a sabe lá o quê), que para se ter bom gosto é preciso ter um mínimo de instrução intelectual. E aqui não me refiro somente a música, mas a tudo. Todos tem a mania enjoada de dizer que “cada um tem um gosto” e que “o que é bom pra mim pode não ser bom pra você”, e creio nisso tanto quanto creio em Alá. Não, a qualidade de uma obra musical ou literária não depende da predileção de uma ou outra pessoa. Não me diga, por exemplo, que na sua opinião – ou no seu “gosto” – Eleanor H. Porter é melhor que Virgínia Woolf, porque não é, de jeito nenhum. E eu não gosto de nenhuma. Mas há o fato: Virgínia é melhor e ponto. Aí ouço “que comparação infame”. Pois é, comparações são infames, e elas servem para isso mesmo.

Há algum tempo eu me divertia em discussões assim. Não é sadismo, é que é realmente divertido ver uma pessoa defendendo sem argumentos algo sem valor. Aí eu empresto um livro leve – um Salinger -, um cd leve – um Radiohead -, e digo “leia”, “ouça”, com a melhor das intenções. Sim, eu já fiz isso, ainda que me custasse bastante emprestar certas coisas.

Acho mesmo que o bom gosto está relacionado com o nível de intelecto do sujeito. Isso não exclui, claro, as chances de haver nas universidades e nos meios acadêmicos cultos ao mau gosto, pois são também comuns nesses lugares gente de instrução atrofiada. Essas pessoas “ecléticas” estão por toda parte, em todos os níveis socias, e é difícil discutir com elas. Por isso não discuto mais, não pessoalmente. Ou acabo dizendo, para encerrar a conversa, que eu é que sou chato mesmo – o que não é verdade, não, nem de longe.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças socias, pelos políticos corrúptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

23 comments so far

  1. Ítalo de Paula Pinto on

    Concordo em gênero, número e grau com seu artigo. Gosto se discute sim. Também tenho dificuldades em tolerar estes tipos de indigentes…

    Grande abraço…

  2. Lia on

    Qdo eu tinha Orkut uma das minhas Comunidades era “Eu odeio gente eclética” rs

  3. Fran on

    ah, Edd.. deixa essas pessoas serem felizes, vai..rsrs

  4. Fernanda on

    adoro a categoria “it’s a shame”. acho uma shame e quase feel sorry for them. (quase.) vc é incrível, é por isso que vc ganha link no meu blog diarinho de adolescente-adulta.

  5. elisabetecunha on

    EDD: Que pena, eu já tinha comprado vários cds para vc:
    1- HARMONIA DO SAMBA
    2- TATI QUEBRA-BARRACO
    3-WANDO
    4- ASA DE AGUIA
    5- CALIPSO
    *que pena , acho que vou dar para LIA WINTER agora!!!
    beijos!!!!

  6. Rosangela on

    Eu amo a Woolf e o Salinger! Seu post me faz lembrar de que 80% de minha classe de alunos “odiou” O Apanhador no Campo de Centeio. Eles me disseram isso com todas as letras, mas acho sinceramente que não entenderam a leitura. Nem mesmo depois da discussão. Foi um caos, porque ouvi muitos falarem da facilidade do Paulo Coelho… Ai!

    Abraços e bom fim de semana!

  7. j. noronha on

    E tem também a clássica “mas ele tem uma voz ótima”. Outra coisa detestável são os leitores de “livro espírita”. Eu costumo perguntar “quem foi o morto que escreveu esse?” São casos que garantiriam absolvição imediata no caso de homicídio.

  8. Natália on

    Amor,
    As vezes você pega pesado!
    Mas eu admiro sua forma de ver os fatos.

    Eu te amo

    Beijos

  9. elisabetecunha on

    EDD: O que é que o AMOR não faz, não é mesmo???
    Natt: Ele é ácido, mas é doce……..i love vcs dois!!!
    Tenham um ótimo final de semana!!!!! aparece tem post novo,e foi eu que escrevi…..tá cara?? 🙂

  10. Rosangela on

    Olá Ed! Dou aula de língua/lingüística e literatura estrangeira. Imagina que alguém achou o livro do Kafka terrível?! Bom, vou remando contra a maré, mas como é doce o desafio da literatura, não é mesmo?!

    Bom fim de semana!!

  11. Jorge Nobre on

    Nossa senhora!

    É absurdo que as pessoas achem que para lavar a alma é preciso sujar a cabeça.

  12. O Fim da Várzea on

    Como você trata seus leitores?

    O Ademir Silva me convidou para participar do meme “comunicação com os leitores“, ou como tratamos as pessoas que comentam nossos artigos.
    Atualmente, eu tenho dividido os comentários em três categorias:
    O comentador habitual, ass…

  13. elisabetecunha on

    Consegui meu objetivo : TE ASSUSTAR! =O hueuehueuheeh

  14. Jacqueline Lafloufa on

    Então, eu acho que até uns e outros se salvam dentro de certos ritmos. Eu não sou fã de samba, mas o que muitos (inclusive eu) chamam de sambinha (tipicos de Chico Buarque) são bem legaizinhos.

    Realmente, as vezes o bom gosto está associado ao nivel intelectual das pessoas. Ou não. Acho que algumas delas curtem essa de “fingir que não estão ouvindo o que está sendo cantado” e apenas seguir o ritmo. É o caso das famosas musicas em ingles que se “canta” no Brasil, e se manda pra namorada, coisas afins, sem nem ao menos saber que coisa o cantor está dizendo. Um clássico pra mim é aquela Sexed Up do Robie Willians, que ele manda a namorada a merda. Estava ouvindo uma dessas radios pop e um cara mandava essa musica pra namorada dele, e dizia que a amava muito.
    completamente incoerente. Mas não se esqueça: Estamos NO BRASIL.

    Mas é assim mesmo, temos que ver que estamos falando de musicas de massa, de musicas que ao menos tentam fazer uma identificação de uma comunidade, tipo o Rap, o Funk, esses estilos musicais assim assado. Mas eu gosto de dizer que NO GERAL eles não são bons, mas que se um dia tivemos que, por uma fatalidade, ouvir muitos e muitos titulos de um tipo de musica que não gostamos, ou (um melhor caso) por indicação de alguém, é capaz de acharmos coisas que são realmente boas.

    .
    ..

    Acho que falei demais. Mas eu me empolgo com discussões também.
    Não vejo a menor necessidade de sair ganhando nela, mas adoro ver os muitos pontos de vista sobre algum assunto em especifico.

  15. elisabetecunha on

    Tenham uma linda semana,vc e Natt🙂

  16. tina oiticica on

    Não me importa o que os intelectuais pensem do gosto do povão. Estou assustada com a intolerância no Brasil, que sempre teve fama de ser um país afável.
    Por coincidência estou ouvindo um LP do Bob Dylan.
    Mau gosto já foi/é movimento de arte aqui; camp da Divine e do John Waters.
    Gosto de tanta coisa díspare. Compreendo quem não compreenda Kafka. Se tivesse fama de ser fácil intelectual não lia.

    Ah, Edd, seu elitismo me deceepciona muito.

  17. kkkarol on

    Outro dia fui a uma peça de teatro onde, em um determinado momento cada ator devia falar de um arrependimento de sua vida. Um deles chegou a dizer que tinha muito preconceito com o funk, e outros estilos de músicas populares… Mas quando ouviu a música “Se ela dança, eu danço”, não resistiu ao ritmo. E ele se arrependeu de ser tão preconceituoso, por achar que quem curte funk e samba, é só favelado… por sempre generalizar. E começou a aprender a ser mais maleável…
    Sinceramente, acho que gosto se discute sim (de forma civilizada… claro) Mas não acredito que o gosto musical tenha a ver com intelecto… Posso muito bem gostar de uma música pela melodia, pela letra, ou outro fator…

    Música é ritmo, diversão… e claro, cultura, sinceridade… prazer!

    Ah… E eu adoro sertanejo e forró !!!! =)

  18. w.Moscolini on

    Pois é, concordo que o gosto geralmente vem acentuado ao nível de instrução da pessoa. Difícil dizer o que é bom de se ouvir hoje em dia em nosso país, pra ler então eu prefiro nem tentar!!!

  19. Maria Júlia on

    Por felicidade ou infelicidade minha entrei acidentalmente aqui.Nunca tinha visto esse site.Não posso discordar do quão bem você escreve.Mas devo discodar da sua forma simplista de se referir às pessoas que pensam diferente de você.Se você tem vontade de vomitar(como disse) em quem têm gostos diferentes do seu,então você, definitivamente, não pode mais viver no Planeta Terra.
    Ouvimos muito falar na tal “mass media” e bem sabemos que estilos como axé,forró,funk possuem uma maior popularidade.Isso não quer dizer porém,que todas essas pessoas sejam intelectualmente inferiores a você.Talvez sejam até mais inteligentes,não apenas por respeitarem o gosto alheio,mas por não ficarem “imitando” bizarramente um estereótipo(no seu caso,a chamada “elite intelectual”),para então se sentir parte de um grupo.
    Besteira essa,de achar que inteligente tem que gostar de música “clássica” por exemplo.Talvez isso seja o que os intelectuais inventaram pra converter e manipular seus seguidores,assim como a cultura de massa faz com o seu público.
    É…você pode não crer em Alá…
    Mas se remotamente,você descobrisse que Einsten gostava de axé(surralista isso obviamenete,mas serve para fins de ilustração),você acreditaria que ele era um burro.E você por não gostar de axé e ter escrito aqui,um inteligente.É isso???
    Ceticismo é coisa de gente com a “mente pequena”.
    Pense nisso!

    Ah,idéias são discutidas.Nada contra você,aliás nem te conheço.
    Gosto de ler blogs,quanto ao restante:você tem uma ótima criatividade!
    Valeu.

  20. Ed on

    Maria,

    agradeço a visita e atenção dispensada em escrever um comentário deste tamanho (oh!). Digo que gostei da sua coragem em me escrever desta forma – é preciso ter coragem para escrever, certo? Infelizmente o uso da sentença “pense nisso” deu um tom de auto-ajuda ao seu texto, e me ficou uma impressão final bem fraquinha. Você deve ser estudante de comunicação, certo? Enfim.

    E você foi mais que surrealista ao imaginar um Einsten que gostasse de axé, francamente. E a escolha do exeplo de um homem inteligente foi também simplista, para utilizar as suas palavras. Uma criança também citaria Einsten.

    E, olha, eu sou mesmo um cético. Você acertou em cheio. Mas não sei em que parte deste texto eu fiz uso desse conceito ou demonstrei meu niilismo.

    Por fim, digo-lhe apenas que sou antes, se assim deseja, um arrogante que ousa expressar sua opinião que um hipócrita, fariseu que discursa dizendo que é um homem plural, um misto de culturas e influências, um brasileiro sempre de braços abertos a todas as formas de identidade social etc, etc. Há de se ter coragem também para ter opinião, num país onde tal faculdade é cada vez mais evitada.

    Volte sempre.

  21. Família « SemiÓtica on

    […] a quem, claro, os adjetivos acima não cabem – e irmãs. Duas irmãs, mais novas, além de pulhas, ecléticas. Para a minha sorte, passo a maior parte do dia fora de casa; no trabalho e na universidade. Ao […]

  22. Ninja on

    “…um homem plural, um misto de culturas e influências, um brasileiro sempre de braços abertos a todas as formas de identidade social etc, etc.”

  23. […] Edd., do Semiótica; […]


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