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Lógica desvairada

É de uma graça lamentável a quantidade de blogues com a pretensão de fazer jornalismo. E, além disso, um desperdício em se tratando de bons blogueiros, pessoas com algum potencial criativo. Uma pergunta corrente em entrevistas a leitores de blogues é: “O que você busca quando entra num diário virtual?” Ora, o hipertexto não funciona assim. Quando vasculho a internet, o que busco são idéias novas, ousadas, de cunho opinativo, mesmo. E isso significa que eu não tenho um tema pré determinado; muito pelo contrário, o que me agrada é a diversidade de pensamentos que se cruzam, os debates, o blá blá blá. Se eu quisesse saber de notícia, francamente, eu entraria nos portais especializados ou comprava um jornal. É tão triste entrar num blogue e ler uma notícia copiada do Uol ou, sei lá, do Diário do Nordeste. Notícia precisa ter credibilidade, coisa que em terra de blogueiro é conto da carochinha. Claro, claro que há exceções e não tenho que citá-las – mas, ainda sim, os que a possuem a tem dentro de certos limites. Mas, sinceramente, quem se importa com credibilidade no que tange a blogues? Eu me esbaldo lendo as críticas de cinema de não-críticos; me divirto imensamente lendo as impressões que um livro causa nos não-literatos; e o mesmo com a política, com a música. E opinião é algo bonito. O cinema não é produzido para cineastas, tampouco a literatura para literatos; de modo que ler num blogue as reverberações do autor sobre Schopenhauer, por exemplo, é uma chance única de acesso a um tipo de opinião crua, sem gatekeepers editoriais. A crítica sem critério é valiosíssima. É como uma pesquisa de opinião voluntária.

Acho que as pessoas devem além de ler, escrever mais. Eu mesmo, aqui, acostumado a postar nada mais que opinião, já fui muitas vezes mal compreendido por leitores que ainda enxergam tudo com um olhar meio ditador; e não as culpo, é herança cultural esse negócio de que opinar é perigoso.

Termino com Marco Aurélio, vesgo, dizendo que ou você é você ou vai acabar sendo confundido com seres indiferentes; um parvo, no mínimo:

“De certo modo, o homem é um ser que nos está intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suportá-lo. Mas desde que alguns deles me impeçam de praticar os actos que estão em relação íntima comigo mesmo, o homem passa à categoria dos seres que me são indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz. É certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espontâneo, as minhas disposições interiores não conhecem entraves, graças ao poder de agir sob condição e de derrubar os obstáculos. Com efeito, a inteligência derruba e põe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obstáculo à sua actividade. O que lhe embaraçava a acção favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir. ”

oui, oui

Chamam-me cínico, chato, irônico, elitista e o diabo. I don’t mind. Certo é que o que somos perante os outros é que nos garante a place no mundo como seres, criaturas. Penso que a faculdade de pungir está diretamente vinculada à qualidade de existência humana. Tanto é assim que somente sob situações de fome é que sentimos existir em nós algo cunhado estômago [data venia, Platão].

Vergonha da classe

Uma historinha verídica: amigo meu, bêbado, num bar, ao ver passar um cabeludo com uma camiseta com estampa do Che Guevara:

__Ô, esquerdinha! (gritando)

__Quando você deixar seu cabelo crescer, venha falar comigo!

__Pensei que estávamos falando de política…(sussurrando)

Eu também era de extrema esquerda até há uns anos, quando adolescente. Lia Marx e dava tudo por uma camiseta com estampa do Che – peça que, hoje, se vejo alguém usando, sorrio sarcástico. Não é que com o tempo nos tornamos direitistas; é que, com o tempo, vemos o quanto nossos professores falavam sério quando diziam ser o comunismo nada mais que utopia. E com extrema esquerda quero dizer que eu não comia na Mc Donald’s, lia Caros Amigos e colocava a culpa no sistema.

Francamente.

Os Verdadeiros Burros e os Falsos Loucos

O mais esperto dos homens é aquele que, pelo menos no meu parecer, espontâneamente, uma vez por mês, no mínimo, se chama a si mesmo asno…, coisa que hoje em dia constitui uma raridade inaudita. Outrora dizia-se do burro, pelo menos uma vez por ano, que ele o era, de facto; mas hoje… nada disso. E a tal ponto tudo hoje está mudado que, valha-me Deus!, não há maneira certa de distinguirmos o homem de talento do imbecil. Coisa que, naturalmente, obedece a um propósito.
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu…; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita.

Fiodor Dostoievski, in ‘Diário de um Escritor’

*

Comecei a leitura d’Os Irmãos Karamazov.

Cold

MySpace do artista/MySpace

Um post sem ranço, para não desagradar minha amiga Tina. Começam hoje os shows do Coldplay, em São Paulo. Ouço bastante o A Rush of Blood to the Head aos fins de semana, em casa; pricipalmente porque minha noiva não reclama muito das canções, ao contrário do que acontece quando ponho para tocar Marilyn Manson, imaginem só. Conheci Coldplay como todos – creio -: ouvindo Yellow, música do primeiro album, Parachutes. E gostei. Mas não fico fazendo comparações como quem não tem o que fazer. Por exemplo: dei uma lida rápida nas revistas Bizz e Rolling Stone Brasil de fevereiro   (cujas capas são quase idênticas) e a primeira compara a banda de Chris Martin ao Radiohead, enquanto a segunda coloca o U2 do outro lado da balança. É chato isso. Não gosto de Coldplay por se parecer com alguma outra coisa; gosto, simplesmente. E eu gostaria de ir aos shows, apesar de não gostar do aglomerado de gente. Gente é algo que irrita (Ed, olha o ranço!). Bom, não vou pois os ingressos esgotaram em dois dias e, além do mais, não moro em São Paulo. Enjoy.

Wit

O restaurante no qual eu almoço é caro porque a proprietária é escocesa e dá aula de inglês para marmanjos. Eu com isso? Ora, eu pago por isso. E no Brasil as coisas são mesmo assim: a gente vive pagando por assuntos que não nos competem. Só para citar um assunto recente – e me desculpem por estar falando de política; sei da deselegância disso -, a exemplo, o governinho quer usar o fgts do povinho para a realização do Plano de Aceleração do vocês sabem o quê. E pergunto: o pt tem a idéia magnífica e nós é que pagamos por tal? Acho melhor então um governo sem idéias, no piloto-automático. É isso, coloquem esse governo no piloto-automático. E me dizem “mas esse já não é um governo sem idéias?” Não, o pior é que não. A esquerda é cheia de idéias. Os barbados e bigodudos Lêem Marx e ficam cheios de idéias, as mais variadas. E neste ponto ouço sussurros aos meus ouvidos a dizerem que toda idéia é mesmo arriscada, que há de ser assim. Tudo bem, vá lá, que se arrisquem, ora, eu não ligo. Mas, e eu com isso?

Oh, os portugueses

Ainda que eu não acredite que eles tenham “descoberto” este país, há uns bons escritores portugueses que vêm chamando a atenção. O Cleber me apresentou na última semana o Pif-Paf, blog de Tiago Galvão, um gajo que tem muito a dizer – e o diz muito bem. Leiam por si mesmos, criaturinhas:

Sacaninha: J. D. Salinger é um sacaninha. Descobri The Catcher in the Rye, por mero acaso, enquanto procurava bom Jazz. Depois de uma dezena de páginas de uma biografia inútil de John Coltrane, seguido do morfanço glutão de dois hambúrgueres caseiros com meio quilo de queijo da serra cada, começo a leitura do Salinger. A verdade é que não sou um leitor muito sofisticado. Devoto da Experiência de Ler de C. S. Lewis, sou um excomungado. Ponho os senhores do Jazz como barulho de fundo, deito-me na cama, sobre uma almofada gigante comprada de propósito para o acto e, enquanto arroto batatas fritas, abato em pacotes aquilo que aumento em peso. No fundo, sou um porco, desde bolachas a tripas à moda do Minho ressequidas vai tudo para o bandulho. Digamos que a minha Experiência de Ler é todo um programa de engorda (Não contem: na adolescência, enquanto lia Eça, chegava a tocar uma nas descrições).

Mas vamos ao que interessa: Salinger é um filho da puta. A gente começa a ler, a gente começa a gostar, nos três primeiros capítulos, o gajo dá-nos uma boa piada por página como se de heroína se tratasse e, quando damos por nós, o livro acaba e estamos completamente viciados. Solução? Esquecer Salinger rapidamente, rezar para que os autores seguintes não saiam muito afectados e ler um livro de merda pelo meio para atenuar a comparação. Mas vamos ao fundo da questão, ao cerne da minha tese, ao busílis da minha dúvida metafísica (sempre desejei ter a eloquência de Cícero e dizer coisas à Prado Coelho), ou seja, a filha da putice de J. D. Salinger. Recuperado do choque e da falta de mais Salinger´s para digerir, contei sobre o senhor a amiga de confiança. A senhora, curiosa, faz pergunta central: «sobre que era o livro?». «O quê?», estranho eu. «A história, qual era a história?». Não há. A verdade é que não há história, não há enredo, não há nada. Só boa escrita. Só o bom do Salinger a passar duzentas páginas à frente da nossa cara a dizer: «olha como eu sou bom, olha como eu sou bom, olha como eu sou mesmo mesmo bom». E era. E é. Salinger limita-se a escrever bem. É preguiçoso e filho da puta, e escreve bem.

De resto, cada livro do senhor é um ponto a favor da saúde mental de qualquer indivíduo. Mark Chapman, inspirado por The Catcher in the Rye, esvaziou uma trinta e oito na peitaça de John Lennon. Eu mesmo, dotado de uma incomparável lucidez, a meio do livro, já engendrava planos deliciosamente maquiavélicos para dar um tiro nas nádegas do Al Gore, abrir a aorta da Hillary Clinton e mirar uma caçadeira na boca escancarada da Angelina Jolie. “

Ok computer

Oi, povo. Estive off-line desde sábado, 17.02. Alguém lá em cima não me queria blogando durante o carnaval, de modo que um raio – raio que o parta! – desceu à terra e queimou o meu modem. Deve ser pecado estar conectado durante o carnaval, ora.

About me

“O SemiÓtica é um dos melhores blogs por conseguir se destacar nunca indo pelo caminho mais fácil da linkania desvairada e seguindo por um terreno perigoso e muito díficil: ele registra pensamentos próprios.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças sociais, pelos políticos corruptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

Postagens que eu destaco: Como fazer a diferença com blogs, eu acho que sempre suspeitei de que o amor é uma falácia mas este texto confirmou, uma crítica aos ateus dos dias de hoje e uma questão lógica para terminar.

SemiÓtica
De:Ed
Primeiro post: 09/07/2006
No Technorati

Daqui: 1001 Gatos.

Carnavalle de mierda

Sou brasileiro não-praticante e não desisto nunca. Não, eu não gosto de carnaval, mas isso vocês já imaginavam. Toda a gente tem a mania (mania enjoada, digo outra vez) de extrair alguma vantagem do que é ruim. Afirmo resoluto que não estou fazendo isto, mas olha, é bom que essas pessoas que acham que o “carnaval nasceu no Brasil” e é cultura, que “é a cara do brasileiro” e tal, é bom que essas pessoas se reunam todas em seus guetos mal cheirosos; é bom que eles saibam que toda a música ruim é feita mesmo pra eles; é bom que aproveitem. Assim eu tenho mais sossego, eu e os meus. É bom que as coisas sejam assim bem definidas. Eu cá, eles lá. Eu detestaria ser confundido. Carnaval! Quem sabe se ele ainda fosse um costume exclusivamente europeu? Brasileiro estraga tudo, tudo.

Sobre editorias

Leio cultura, cidade e política, principalmente. Cultura porque – e isso deve ser óbvio – o assunto me atrai, geralmente. Também gosto da linguagem que, certamente, é direcionada ao leitor mais instruído. Contudo, acho que os cadernos de cultura deveriam ser maiores, digo, deveriam conter mais textos. E as fotos deveriam ser menores. Leio política por considerar um dever. Passei pela fase em que eu achava tedioso e leio sempre, se não em jornal impresso, em sites. E aqui muito me chama a atenção o cuidado que os jornalistas têm em relação à linguagem, à abordagem e tal. Incrível como independência é uma qualidade (e um requisito) cada vez mais escassa nos jornais do país, ainda que se afirme o contrário. Mas leio, é bom saber dos assuntos que envolvem os governantes, ainda que pela metade. Sun Tzu é que tinha razão: é preciso conhecer o inimigo.

Das editorias que leio, cidades é a que leio menos. Minha própria cidade não é um assunto que faça parte das minhas prioridades no que tange a informação, digo sinceramente. E sei, sei que essa não é uma conduta aconselhável para quem quer que queira se tornar um jornalista, mas eu não disse que não leio. Leio, mas não muito. Não leio esportes, automóveis e economia. Sobre esportes, francamente, eu nem tenho muito que dizer. Tenho uma só palavra para aquelas páginas preenchidas com fotos de jogadores que não conheço e aqueles textos cheios de jargões tão pobres: asco.

Olha, o caderno de automóveis eu nem abro. Acho bonito, acho bacana, mas há o que ler? Não são só fotos? Não sei. Já economia eu gostaria muito de ler. É como um dever que, ainda, não consigo cumprir. Mas esse é um caso temporário. Não leio porque não entendo bem os gráficos todos, os termos, essas coisas. Mas ler e entender o caderno de economia é uma meta.

Quanto ao fato de alguns cadernos como cultura e economia estarem perdendo espaço nos tablóides populares de Belo Horizonte: bom, acho mesmo que faz total sentido tal fenômeno. Um sentido péssimo, diga-se. Jornais como o “Aqui” e o “Super” são direcionados a classes menos privilegiadas e para pessoas – e aqui não importa a classe – que têm preguiça de ir a uma banca e comprar um jornal decente. Entendo que não haja caderno de cultura nos jornais populares, pois a maior parte dessa gente não se interessa por cultura, tampouco economia. Ainda que pobreza não justifique falta de intelecto. Uma amiga disse que as pessoas estão lendo mais; se isso é assim tão bom eu não sei. E creio ser desnecessário dizer que eu acho o fato um disparate. É sabido que as empresas que produzem tais tablóides lucram, e muito, com o número exorbitante de vendas, mas, ora, os jornais não deveriam estar a serviço do leitor? Não seria esse um jornalismo de desinformação?

Waits

“Her hair spilled like root bear.”

Tom Waits

Só por dizer

Manhã de quinta-feira e minhas olheiras chegam às minhas orelhas – sem trocadilho.

Então, porque o coração gasta-se, é que escrevo. Poderia escrever a esmo, a qualquer outro, ou a outro qualquer, mas é essa magnetização – de imã – que me faz pender a este lado. E dizem que se morre aos poucos logo depois que se nasce.  Morro um pouquinho todos os dias, a cada momento mais, principalmente pela manhã, ao acordar. Aliás, esse acordar é quase um morrer, de tão doloroso, de tão triste, de tão mórbido, mesmo. Morro muito pela manhã. Aí vivo durante o dia. Só não espere que eu venha com papo de luz do sol e tal, eu é que não; não gosto da luz do sol. Nem é a luz. É a temperatura da luz que me incomoda. Então trabalho muito, à sombra. Aí vem faculdade, bate aquele cansaço e a vontade de apertar o fuck-you no teclado. Mas isso é charme que só, porque não se tem esse luxo. Isso é outra coisa. Aí morro mais um pouquinho à noite, tarde da noite, quando já não dá mais. E durmo e acordo pra morrer mais uma vez. E assim é que se vive a vida: morrendo aos pouquinhos para se viver um pouco melhor.

Quê dizer mais? Dormi com a Introdução à Economia ao meu lado e tive sonhos de grandeza.

Panem et circenses

O que me separa dos artistas circenses, atores e dançarinos não é só o meu sedentarismo. Ontem fui a um espetáculo de dança, num teatro. Aplaudi. Bonito mesmo o que esse pessoal é capaz de fazer. Mas funciona assim: eu na platéia, confortável, e eles no palco aos pulos, passos ensaiados, essas coisas. Juro que gostei.

Modos

Então que esse rapaz, o Noronha, passou-me mais uma daquelas coqueluches* blogosferianas. Devo revelar os meus modos pra com os leitores deste blog – que não são muitos, eu bem sei. (Tarde chuvosa, uma preguiça que impera, os pés apertados dentro dos sapatos pretos: acho mesmo que é uma bela ocasião para revelar os meus modos pra com meus parcos leitores.) Divago, mas pelo prazer de fazê-lo.

Eu sou uma boa pessoa, apesar de ser às vezes confundido como chato ou até mesmo elitista – vejam só. Mas é só uma confusão, não passa disso. (Veja como saio do assunto para, mais adiante, retomá-lo.) E me deu vontade de citar Mencken: “É pecado pensar mal dos outros, mas raramente é engano.” Não uma vontade à toa. Cito especificamente tal frase pois é comum que, ao conhecer um novo blog, eu logo pense “Oh, que chatice esse blog” e, tão logo penso isso, esses blogs que a priori imaginei tediosos e enfadonhos, se tornam os meus prediletos. Torno-me leitor fiel, comentador fiel, etc. Mas voltemos: eu devo falar dos meus leitores e não do Eu Leitor.

Eu os trato assim: Sabe quando você recebe em casa aquela visita que há muito não vê, de quem gosta muito e a quem quer agradar? Pois sou assim com a maiora dos meus leitores, mantendo-os na sala, confortáveis e tendo todas as respostas às suas, digamos, curiosidades. Dou atenção. Se algum dia a visita não vem, vou eu até lá, como quem diz “eu faço questão”. Não vou negar que há ocasiões – raríssimas, raríssimas – em que eu fico distante, como o anfitrião que fica na cozinha se ocupando de outras coisas enquanto a visita se deixa estar na sala, com sede, mexendo nos seus retratos de família.

Sem mais.

Carol, Edward e Jorge Nobre, façam a gentileza.

*Verbete aqui utilizado no sentido ridículo adquirido nos anos 70, se não me engano, que quer dizer mania, hábito, essas coisas.

Predileções

Ouço falar de gente que se diz “eclética” e me dá um certo nojo. Gente que se diverte – de verdade – em casas de forró, axé, funk carioca, pagode e todo esse tipo de apelação. É comum encontrar pessoas assim por aí, elas estão por toda parte. Ainda que eu evite qualquer contato, ocasionalmente é preciso ser no mínimo educado com essas pessoas, como por exemplo dentro do elevador ou na fila do supermercado (com educado quero dizer que você não tem que cuspir na pessoa). Eu já perguntei a uma dessas figuras:

-Você gosta mesmo dessas músicas?

E é engraçado que ela – a pessoa – olha você com aquela expressão “‘tá me tirando, heim?” e pergunta o motivo da dúvida. Eu, fingindo simplicidade, geralmente digo:

-Ah, não há conteúdo algum nas letras, umas coisas sem sentido, vulgares até.

E agora a parte que eu mais acho cretina:

-É, mas ‘tô nem aí pra letra. O ritmo é muito bom pra dançar, lava a alma, sabe?

E me dá uma vontadezinha de vomitar, mas aguento firme. São coisas assim que me fazem pensar, quanto mais o tempo avança (em direção a sabe lá o quê), que para se ter bom gosto é preciso ter um mínimo de instrução intelectual. E aqui não me refiro somente a música, mas a tudo. Todos tem a mania enjoada de dizer que “cada um tem um gosto” e que “o que é bom pra mim pode não ser bom pra você”, e creio nisso tanto quanto creio em Alá. Não, a qualidade de uma obra musical ou literária não depende da predileção de uma ou outra pessoa. Não me diga, por exemplo, que na sua opinião – ou no seu “gosto” – Eleanor H. Porter é melhor que Virgínia Woolf, porque não é, de jeito nenhum. E eu não gosto de nenhuma. Mas há o fato: Virgínia é melhor e ponto. Aí ouço “que comparação infame”. Pois é, comparações são infames, e elas servem para isso mesmo.

Há algum tempo eu me divertia em discussões assim. Não é sadismo, é que é realmente divertido ver uma pessoa defendendo sem argumentos algo sem valor. Aí eu empresto um livro leve – um Salinger -, um cd leve – um Radiohead -, e digo “leia”, “ouça”, com a melhor das intenções. Sim, eu já fiz isso, ainda que me custasse bastante emprestar certas coisas.

Acho mesmo que o bom gosto está relacionado com o nível de intelecto do sujeito. Isso não exclui, claro, as chances de haver nas universidades e nos meios acadêmicos cultos ao mau gosto, pois são também comuns nesses lugares gente de instrução atrofiada. Essas pessoas “ecléticas” estão por toda parte, em todos os níveis socias, e é difícil discutir com elas. Por isso não discuto mais, não pessoalmente. Ou acabo dizendo, para encerrar a conversa, que eu é que sou chato mesmo – o que não é verdade, não, nem de longe.

Pode ser radicalismo, mas tenho a impressão de que o mau gosto da sociedade é culpado pelas injustiças socias, pelos políticos corrúptos, pelo analfabetismo presidencial, por leis como a Rouanet e por best-sellers como Sabrina.

Questões lógicas

Mas a vida não é toda um tradeoff?

Um lado, o outro lado

Agora a moda são blogs de direita, de esquerda e, se houvesse alguma outra definição porca, ela haveria de ser igualmente utilizada. Francamente, será que essa trupe não leu o que escreveu aquele dândi inglês que foi encarcerado por crime de homossexualismo? Como era mesmo? “Definir é limitar”. É, é isso.

07.02.07

Clodovil chamou Chinaglia de mal-educado, como se todos no plenário fossem educadíssimos e letrados.

*

Na China já estão à venda balões em formato de porcos rosas em homenagem ao ano do suíno, que começa no dia 18. Agora você entende porque no Brasil vendê-se balões de todos os formatos, de todos os bichos.

*

E outro pacote-bomba explodiu na Grã-Betanha. Que medo do PAC.

Mnemósine

Voltaire escreveu isso há quanto tempo mesmo?

“Aquele que está disposto a matar pela sua fé é um crente falso. Persegue os outros porque não tem certeza em sua crença. Um cientista nunca se disporá a lutar pelos fatos que aponta. Nenhuma guerra foi originada pela solução de um teorema geométrico. Mas os padres têm a arrogância de assassinar seus semelhantes por um sistema de teologia que não passa de um mito  e por um conjunto de dogmas que não são mais que opiniões. Tais homens são lunáticos perigosos, e sua atividade perniciosa deve ser represada a todo custo.”

Hey man, slow down

Chamo fariseus aqueles que me chamam preguiçoso. Sentir preguiça é uma graça, só isso. Perceba que escrevo sentir, pois praticá-la me é ainda um tabu. Ainda. Alguns valores são necessários para se manter uma preguiça saudável.

Não, Tina, não me esqueci da “importância” conferida à ONU desde sua criação, no pós Segunda Guerra. Eu é que nunca ví uma Organização mais desorganizada. Quanto ao Protocolo de Kyoto, não vou nem comentar. It’s a shame.

Não tenho o hábito de ler biografias, tendo poucos livros do gênero em minha estante: um sobre John Lennon, outro sobre Jim Morrison e, ainda sobre música, um sobre os Beatles. E  dois sobre Hitler (que também cantava, né?), sendo um deles Anatomia de Uma Tirania, do alemão Herman Zumerman, se me recordo bem. O que eu queria dizer é que tenho me interessado por algumas biografias de escritores e jornalistas, como Nabokov e Paulo Francis. Mas não vou linkar, estou com preguiça. Alguém me sugere uma boa biografia?

E a partir de hoje eu não vou p’ra casa ao sair daqui. Recomeçam as aulas e recomeça o meu esforço para suportar a verborragia dos professores acadêmicos. Sorte p’ra mim.

Eu disse que estou com preguiça?

ONU (óbvio, nações unidas)

Leio que a ONU está culpando o homem pelas mudanças no clima, o efeito estufa, essas coisas. Quanta novidade! É como se minha mãe me culpasse pelo derretimento da margarina que deixei fora da geladeira.