Archive for janeiro \31\UTC 2007|Monthly archive page

A reminder

Um belo texto aqui: 

“A Internet é o fim da profissão de jornalista. Ou pelo menos da dignidade dela. O mais digno, barrigudo e pomposo jornalista corre o risco de ser xingado por um molequinho em Mogi das Cruzes. Ou de ser contestado num detalhe qualquer por um sujeito vagamente desequilibrado que mora entre pilhas de jornais velhos no Baixo Leblon. Não importa se o texto estava liricamente, solenemente, melancolicamente, maravilhosamente escrito. O sujeito do Baixo Leblon coloca logo abaixo do texto: “Adolpho Bloch nunca disse isso, e posso provar” – seguido de nove parágrafos com citações, inclusive, do próprio Adolpho Bloch dizendo que nunca disse isso. Logo abaixo, uma mensagem do molequinho de Mogi das Cruzes: “Hua hua hua hua! O cara mentiu malandro! Se liga mané!!!!!!! Valeeeeeeuuuuuuu!!!!” ” (Alexandre Soares Silva)

E uma bela resenha aqui:

“Como eu tenho o péssimo costume de não falar sobre sexo, vivo procurando outros meios para me destacar e claro que nunca consigo porque é realmente difícil competir a atenção com alguém que está sem as calças. Não é verdade? Todo mundo acha muito legal, muito descolado falar sobre sexo na frente dos outros, muito natural, porque, alôoo, estamos no século XXI e etc., mas eu acho tão inconveniente falar sobre pinto e bunda. Será que só eu acho isso? Será que só eu acho de mau gosto uma conversa sobre pinto e bunda? Pra mim é estranho entender como alguém, tendo todos os assuntos do mundo, resolve falar sobre pinto e sobre bunda. A esta altura, minhas leitoras moderninhas já estão pensando “vai ordenhar vaca, ô puritano filho-da-puta”, mas não é puritanismo, não recrimino o sexo. Só acho que as pessoas deveriam ter a tendência natural de evitar falar sobre isso, como deveriam ter a tendência natural de evitar comer com os pés. Só isso.” (Edward Bloom)

*

Eu vou levando. Ando com a leitura um bocado esburacada, tenho começado alguns livros mas não terminado. Bom, terminei O Caminho de Swann. Lí Biajoni e Galera. Reli uns trechos de Lolita. E falando em Nabokov, estou bastante ansioso para ler Ada ou Ardor. Semana que vem recomeçam as minhas aulas e terei que lidar com economia. Okay. Ótimo.

Minha noiva leu De Profundis, do Oscar, e ficou de me escrever suas impressões para que eu postasse, mas ainda não o fez. Acho que jamais conheci uma mulher que tivesse lido De Profundis, no duro mesmo.

Vou alí almoçar, sim?

Há coisas que não se faz

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Estava outro dia na Avenida do Contorno quando pararam ao meu lado dois sujeitos que supus serem pai e filho. O menor em prantos, com umas figurinhas d’algum time de futebol nas mãos, e o não tão maior porém mais velho todo alterado, o cenho franzido, a barba por fazer, só fazia xingar o guri: “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!” O outro chorava, vermelho e sem resposta para as difíceis questões do pai tão mais experiente. Um público se formava em torno do show. De repente o pai, num salto, tomou das mãos da chorosa criança o pacote de figurinhas e lançou-o com força na sarjeta próxima. Chovia. Adeus figurinhas e não preciso escrever mais nada, exceto que há coisas que simplesmente não se faz. Não se deve gritar nem para uma criança nem para ninguém coisas tipo “cumé qui cê teve coragem de dá sete real nessa porcaria?!”, porque, além da óbvia deselegância do ato, é um mau exemplo linguístico. Imagine se a criança, além de crescer revoltada e começar a ouvir Charlie Brown Jr., aprender a falar como o pai? Há coisas que não se faz, como, por exemplo, ficar assistindo a uma cena dessas.

Capitain Bauer (e outras considerações)

 

Acir Galvão, um amigo dos tempos em que atravessávamos noites desenhando ao som d’alguma banda grunge década de 90 – sim, tive essa fase -, tornou-se um grande artista. Enquanto o caminho que tomei foi o das letras e do jornalismo, ele tornou-se design e, hoje, estuda Belas Artes, fazendo cada vez melhor o que sempre soube fazer. O que eu queria dizer é o seguinte: ele tem uma teoria – posso dizer teoria? – de que o Capitão América contemporâneo é o Jack Bauer, o herói da cultuada série 24 Horas. Ele explica:

“O Capitão America de hoje não é o Steve Roger: É o Jack Bauer.O Capitão America foi criado não apenas para incentivar adolescentes a se alistarem, Mulher Maravilha não foi criada apenas para levar mulheres às industrias em tempos de guerra e incitar orgulho por parte de seus maridos e filhos que morreram lutando pelo estilo de vida americano. Eles existiram, ACIMA DE TUDO, para ensinar as CRIANÇAS e ADOLESCENTES os conceitos de uma AMÉRICA VITORIOSA contra a ameaça vermelha, mesmo que essa vitória sendo muito mais dos RUSSOS do que da própria América.

Hoje a América precisa justificar seus atos a partir  novos símbolos, novos heróis.Mostrando para os adolescentes e adultos de hoje as justificativas das medidas de retaliação extremas, invasões premeditadas, e outras medidas de precaução como a criação de armas letais em massa.Também estão preparando sua mente para aceitar mortes. Muitas mortes. Morte de pessoas aos montes, caindo como moscas, ainda que por um “bem maior”. Que é justamente o bem maior Deles.

Seria a ficção imitando a realidade?

Os Heróis são símbolos daquilo que é certo e direito. São ícones que, trabalhados de diversas formas, se utilizam de todos os arquétipos do consciente humano para se tornarem referência do conceito de certo e errado para nós mesmos.

Quando todo esse poder é utilizado de maneira irresponsável e egoísta, a crise se tornar algo incontrolável. É completamente possível e correto afirmar que o conceito de CERTO e ERRADO está muito distorcido hoje em dia. Também com heróis como os de hoje em dia, cada um defendendo um ponto de vista muito particular, simplesmente não dando a mínima para nada, não fico surpreso com esse tipo de resultado.Os heróis do novo século defendem a pena de morte. Defendem o roubo. Defendem o homossexualismo (nada contra, mas é um ponto de vista.) Os negros. Os brancos os asiáticos….

Eles deveriam defender o CERTO e o ERRADO:

MATAR é ERRADO, seja quem for. ROUBAR é ERRADO. PRECONCEITO é ERRADO. Ponto final.

Mas se o cara for um estuprador-assassino-ladrão-sonegador-de-imposto-filha-da-puta de marca maior? Se o ladrão estiver roubando para comer? E se o preconceito me defende das pessoas erradas?Os dias estão assim. Esses argumentos existem. E até mesmo os heróis da era de ouro mudaram seu ponto de vista em suas novas interpretações para o novo século. Até mesmo SUPERMAN matou dois caras no seu novo filme. E o pior:  a grande MAIORIA nem percebeu.

A colocação de Edsons Junior é muito correta e não vou me repetir aqui. A questão que fica no ar é:

Quem são os seus heróis? Quem são os heróis dos seus filhos?

É bom começarem a se perguntar isso, e a ver filmes e séries como algo que vai além do entretenimento. Porque é assim que se deve assistir.

E para finalizar sobre Jack BAUER:

Ele é um HERÓI que faz, sem hesitar, tudo aquilo que está ao SEU ALCANCE para salvar o dia, mas, diferente da AMÉRICA que ele tanto defende, ele não ganha ABSOLUTAMENTE NADA em troca… apenas se FODE e fica vivo para salvar mais um dia!”

Meu vizinho Schopenhauer

Meu vizinho Arthur Schopenhauer jogava pedras sobre o meu telhado

Então que esse senhor, o Schopenhauer, morou algum tempo ao pé de minha casa. Falava sozinho e, em noites mais quentes, não dormia; ficava bastante agitado e punha-se a lançar pedras sobre os telhados das casas próximas. Certo dia acertou minha casa. Pus-me logo de pé, assustado mas já imaginando ser mais uma traquinagem do senhor Schop – era como o chamávamos. Disse a ele que não fizesse isso, que poderia quebrar minhas telhas, ao que ele me respondeu que minha casa não existia, tampouco as telhas. Dizia que tudo não passava de Representação.

 

Tinha umas idéias bem originais esse Schopenhauer, devo admitir.

Call the indians

Fausto Wolff no JB, ontem:

“(…) Países tecnicamente mais bem equipados do que nós estão sofrendo bem mais os estragos promovidos pelas súbitas mudanças atmosféricas. Entretanto, há muito estavam informados dessa possibilidade e montaram suas defesas. No Brasil, se os cientistas informaram ao governo, este não informou a imprensa, que não informou ao povo. Resultado: o Brasil enfrenta a maior catástrofe climática de sua história e nada foi feito para evitá-la. Sugiro que contratem índios – não os que têm muito contato com os urbanóides e correm o risco de serem incendiados – para vigiar à beira dos rios. Assim que a primeira cobra subir correndo numa árvore, é hora de remover as populações ribeirinhas para lugares mais seguros.”

*

Feriado hoje em São Paulo. Sortudos.

Sexo Anal, um livro para românticos

 Sexo Anal, por Luiz Biajoni

Sexo Anal, de Luiz Biajoni, é um livro para o mais empertigado romântico. Não pelas incríveis histórias e acontecimentos que nele vão se sobrepondo, ou pelas demosntrações de amor de uma ou outra personagem no decorrer da narrativa, mas pela lição final que é nada menos que um tapa de luvas, sem as luvas, nas convenções, nos dogmas romanescos dos moralistas.  

Sexo Anal é arte maior pois seu autor, blogueiro, jornalista e escritor – “ma non troppo“, brinca Luiz – teve coragem de escrever sem papas na língua o que poucos tem a ousadia de sequer pensar. Não espere aqui metonímias, eufemismos, perífrases ou qualquer outra figura de linguagem que pretenda mitigar o sentido d’algum verbete pouco comum nos livros da sua estante. Luiz diz o que tem de ser dito:

“O cu é marrom, a merda é marrom, a imprensa é marrom e até a terra, pra onde a gente vai debaixo no fim, é marrom. A vida não tem cor! Que se fodam todos os hipócritas que não vêem isso! Que morram! Faço o meu trabalho e o meu trabalho é esse: contar as histórias que todos querem que eu conte. As histórias que a polícia quer quer eu conte, as histórias que o filho-da-puta do Beto quer que eu conte, as história que o público ignorante quer ler. Só isso. É tudo um interesse de merda! Os anunciantes estão pagando por essa merda, os leitores pagam por essa merda… E até você está nessa história por causa de toda essa merda!”

E chamá-lo obsceno é não compreendê-lo. Considerá-lo impudico é não ter tato o bastante para perceber o que nele há de peremptório no que tange a abordagem temática. O livro de Luiz Biajoni é, de longe, um romance de ruptura. Não é pop, mas rock. Não é a ducha limpa que você toma quando chega em casa, e sim a lama que um carro em alta velocidade lança sobre a barra da sua alva calça limpa. Leia o livro, sinta os espasmos no cenho, ódio – que seja. Nada melhor que umas boas doses de verdade crua para fazer com que nos sintamos vivos.

***

E só para constar: Sexo Anal foi lançado em 2005 e, até hoje, nenhuma editora brasileira que se preze se dispôs a publicá-lo. Isso mostra bem como o mercado editorial deste país é estúpido, não publicando a maior parte dos trabalhos que não seja produzida acima da linha do equador. O “país do futuro” me dá vergonha. O livro está disponível para download, em formato PDF, no blog do autor. 

(SIC)

Janer Cristaldo:

“Leio que a Conferência Nacional dos Bispos no Brasil posicionou-se contra o uso da chamada “pílula do dia seguinte” por considerar que o médoto pode ser um abortivo. Para o secretário geral da CNBB, Dom Odilo Scherer, a pílula é um método contraceptivo emergencial, ou seja, é uma substância ingerida para impedir a ocorrência de uma gravidez, mesmo tendo havido uma concepção. Deixem de papas na língua, senhores bispos. Digam logo: “Nós, segundo milenar tradição da Igreja, somos contra todos os prazeres que o corpo possa usufruir. Se houver prazer, que haja punição. Sexo, só para procriar. Se alguém quiser ter onze filhos, só tem direito a onze relações durante toda sua vida”.

E todo demais prazer anátema seja!”

Daqui.

Antifashion

Sabem o Mr. Manson, do cocadaboa.com? Pois é. Ele também foi convidado para “cobrir” o SPFW (…).

(ex)perimentalismo

Parou no topo do morro e inspirou o ar que achava puro, num momento de íntima paz que raramente se tem num dia dos dias de hoje, e disse que para si mesmo que seria feliz, mas que não o seria exatamente naquele momento porque a felicidade é coisa que afasta a inspiração, e isso ele aprendeu com o poeta que leu. Quis olhar estrelas, mas era dia e só o que via era o sol queimando a feia  paisagem que se podia ver alí, daquele monte sujo mas romanticamente amarelado.

À la mode

Eu e ela numa mesa de restaurante de forro xadrez discutindo Woody Allen me parece mais coisa de filme do Woody Allen, vocês não acham?

Ela:

__Amor, eu até hoje não entendi aquela piada, saco sô!

Eu:

__Meu bem, não é para entender.

Ora!

ohh

 

“A monogamia é como estar obrigado a comer batatas fritas todos os dias.”

Não é verdade, Miller, não é verdade.

Epístola aos pósteros

É mesmo essa a minha filosofia de vida.

A vida, o universo e tudo o mais

 “Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega do Braço Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia.

Este planeta tem – ou melhor, tinha – o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos por cima, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.

Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima idéia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.

E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo, e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.”

D.A.

É um bom começo

Acho que comecei mesmo bem o ano – pelo menos no tangente a literatura. Não vou citar outra vez os estrangeiros e famosos e clássicos e tal que tenho obrigação de ler; cito, sim, dois brasileiros: Luiz Biajoni e Daniel Galera. Terminei há uns dois dias a leitura de “Sexo Anal”, do Luiz, e postarei as minhas impressões no final de semana, com mais tempo para escrever, enfim (o livro está disponível para download no blog do autor). E comecei ontem a leitura de “Dentes Guardados”, do Galera, que é excelente, mesmo (igualmente disponível no blog). Quando estiver findada a leitura, escrevo a respeito.

I hope that you choke

Amiga minha acaba de me contar que, não sei onde, meliantes abordaram uma mulher na rua e roubaram – pasmem – seu cabelo. É, cortaram o negócio. Aposto que eram cabelos dourados.

*

Ah, leiam isso aqui. Diz tudo.

Gente demais

Vocês não acham que há gente demais nesse mundo? Francamente, Isso me faz pensar na China. Mas até que há quem valha a pena, claro. Suponha-se que a top abaixo seja burríssima:

Фотограф Amber Gray

        E que este senhor seja, ao contrário do que demonstra a aparência, um mestre, um sábio:

Новые работы фотографа Andrew Farrington... Портреты...

Onde habita a beleza? Em quais conceitos está fundamentada a humanidade? Sério, não tem gente demais, não? Acho que é essa a causa da confusão.

Dos objetivos pessoais para 2007 e da importância dos blogs nesse mesmo ano

Eu já havia postado meus objetivos, a convite do Ibrahim, mas fui bem largado, verdade. Sou rapaz direito, então vou postar novamente a pedido do meu amigo do Espírito Santo, Lino Resende.

Falando sério:

  1. Vou noivar;
  2. Vou tirar habilitação de automóvel;
  3. Vou ler mais que ano passado;
  4. Escrever, idem;
  5. (o quinto ítem é o principal, pois dele dependem as resoluções acima) Vou ganhar algum dinheiro, juntar e tal. Preciso ter alguma garantia financeira fazendo o que sei fazer – e para o que estou estudando: escrever. Eu gosto, mas não dá para ser um jornalista trabalhando com administração, francamente.

*

Eu havia prometido à Fernanda que escreveria um post sobre o assunto, mas o tempo anda parco. Mas comento aqui. Lino, Inagaki e outros já postaram a respeito, e não tenho que falar muito, mas ressalto: os blogs estão se tornando deveras importantes. Além de formadores de opinião, eles estão sendo cada vez mais reconhecidos como ferramentas de mídia e criadores de conceitos. A exemplo, o blog Oficina de Estilo, das consultoras de imagem Cristina Zanetti e Fernanda Resende, foi oficialmente credenciado pelo SPFW para realizar a cobertura da próxima edição do evento. Mais no blog das moças.

Folk you

 Literatura – Histórias Fantásticas, Adolfo Bioy Casares
Por Rodrigo Damasceno
Histórias Fantásticas reúne contos publicados entre 1948 e 1969; uma década de produção que já coloca o nome de Casares entre os grandes da literatura latino-americana.

Top Seven Scream & Yell: os melhores livros do último ano, os melhores filmes, blogs e toda essa coisa de cultura pop.

Ao Vencedor, as Batatas

Citei Machado de Assis num post anterior, o que me fez lembrar de Quincas Borba, que, creio, é sua melhor obra. A teoria Humanitas, a idéia de que não há morte:

 — Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)

“A guerra é a conservação”, diz Machado; “Guerra é paz”, Diz George Orwell. Apesar da aparente concordância entre os autores, Quincas Borba é um livro impregnado de pessimismo e rabugice – assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas -, enquanto que 1984 de Orwell não: aqui o que há é um realismo assustador, quase imponderável, que nos faz pensar “esse livro é sobre nossos dias”. Quanto às batatas, quem as herdará?

En passant

O ano de 2005 existiu? O que eu fiz em 2005? O que você fez?

*

Bom filme esse.

Please could you stop the noise?

O pensamento é um letreiro de aeroporto. Já pararam para pensar sobre o milhão de coisas que se pensa em um segundo? Tina me disse que Proust escrevia como pensava, daí sua escrita prolixa – foi a melhor descrição que ouvi sobre o autor de O Caminho de Swann. Mas não falo disso. Pensa-se muito, faz-se pouco, verdade. 90% do nosso pensamento é reprimido não porque ele vá incomodar ou ser incoveniente, mas porque é inútil. Inutila Truncat. Pensa-se muito  e melhor quando se está caminhando. Dizem que no consultório de Freud havia um pequeno declive no chão, bem no meio da sala – ele pensava andando de um lado para outro. Não, não vou caminhar aqui agora, não. Penso, aqui sentado na cama, no suco de maracujá que há pouco tomei, penso no filme que assisti. No emprego que ainda não consegui e nas causas do mau tempo. Penso que vocês leriam mais devagar este texto se soubessem como o escrevi. Não, não  estou bêbado, vou desapontar. Eu sempre estou assim sábados à noite, mas é uma solidão boa, necessária até. O dia já foi cheio. Full Time. Mais que pensar, eu sinto que o suco de que vos falei começa a fazer algum efeito. Penso em literatura russa, inglesa, francesa, alemã, mas, por fim, penso que literatura não é geografia.

Pessimista, mas non troppo

Sabem, estou com o Folha de São Paulo aqui sobre a mesa e ia postar umas noticiazinhas pitorescas, mas não, isso não se faz, definitivamente. Mas ver a foto do Bush chorando na cerimônia em homenagem a mais um soldado americano morto no Iraque me enjoou um pouco porque ele, Bush, ofende os cínicos natos. Eu admiro qualquer cinismo que esteja abaixo da linha onde você precise ser ashohashin para estar em voga. Agrada-me o cinismo intelectual, o cinismo de Voltaire, Oscar Wilde e de Nelson Rodrigues, esses sim, grandes homens. Acho que um indivíduo ofende mais com farisaísmo como o do presidente que com ironia ou sarcasmo. É lamentável a constatação de que o sentimento inerente às sociedades contemporâneas não passe, no fim das contas, de vergonha, vergonha da humanidade, vergonha de ser parte dessa raça deprimente e, cada vez mais, decadente.

Vertigens

Juro que vou vomitar.

*

Minha noiva é tão boazinha e zen e tudo o mais. Parece o Dalai Lama.

*

E o Machado falava com propriedade quando disse ser o homem uma contradição. É engraçado (não tem nada de engraçado) que, com o tempo, a gente adquira uns hábitos estranhos. Devo estar mesmo ficando velho, sei lá. Pois ontem cheguei em casa com vontade de ouvir Jethro Tull enquanto lia umas matérias da piauí deste mês e, concomitantemente, o livro do Luiz Biajoni. Pensei em ligar o pc mas logo desisti: só consigo ouvir Jethro Tull, Pink Floyd e a maioria das bandas anos 70 se for em LP. E eu tenho um daqueles sons velhos da Sharp, preto, que não mais grava, não mais sintoniza perfeitamente as minhas rádios diletas mas, sim, ainda toca os meus discos antigos. E assim foi. Liguei a velharia e voilà: senti aquela agulha limpando a poeira do vinil, tão barulhenta quanto um trem descarrilhado.

Música para suprir a minha falta de criatividade. A letra é do David Bowie, mas eu gosto muito da versão do The Walflowers – com o filho do Bob Dylan, sabe? Jacob Dylan, acho.

I I wish you could swim
Like the dolphins
Like dolphins can swim
Though nothing
Will keep us together
We can beat them
For ever and ever
Oh we can be Heroes
Just for one day

I
I will be king
And you
You will be queen
Though nothing will
Drive them away
We can beat them
Just for one day
We can be Heroes
Just for one day

I I can remember
Standing
By the wall
And the guns
Shot above our heads
And we kissed
As though nothing could fall
And the shame
Was on the other side
Oh we can beat them
For ever and ever
Then we can be Heroes
Just for one day

We could be Heroes
We could be Heroes
We could be Heroes
We could be Heroes just one day

I’ll lay me down in a bunker

Outro dia, escrevi uma crítica a um livro que julguei ser auto-ajuda. O autor, em sua total razão, comentou o meu post, dizendo que eu estava errado, defendendo o seu trabalho. Certo, certíssimo. Eu faria o mesmo. Mas – quanta digressão! -, eis o que eu queria dizer: meu blog foi encontrado n’algum sistema de busca pela frase – pasmem: “livro de auto-ajuda para feio”. E como isso me deprime, Deus. Eu gostaria de demonstrar aqui as minhas condolências ao autor desta busca – quase espiritual, diga-se -, dessa odisséia por uma vida melhor, mais confortável e – por que não? – cheia de beleza.

Je suis Blasé

Permitam que eu não fale do caso YouTube/ Cicarelli. Já cansou e, no fim das contas, não deu muita coisa mesmo. Já desbloquearam a coisa toda.

***

Tempo tresloucado por aqui: sol do 5º inferno pela manhã e, agora, está para desabar o céu lá fora. Digo, muita chuva, no duro mesmo.

***

E deixem eu indicar o blog do “jovem economista kantiano observa o mundo, dois parágrafos de cada vez.”

It’s too late, baby

Havia hoje no ônibus, ao meu lado, uma senhora – uns 50, 55 anos – lendo “O Porquê do Hímem”. Não entendi, juro que não. Esta vida é um mistério.

Emagreça dormindo

“A maior parte das frases de efeito e de mentiras por vaidade que foram gastas desde que o mundo é mundo por pessoas a quem estas apenas diminuíam foram empregadas com inferiores.”

Proust é confuso. E o faz propositalmente, a fim de enganar o inimigo. Mas o que ele quer dizer é simples: quem usa frases de efeito só o faz perante pessoas que considera inferiores. Ou, ainda, que pessoas importantes só fazem questão de assim parecerem na presença de humildes. Imaginem só o embaraço de um burguês ao ser confundido com um prole por um prole. Já entre ilustres, tal preocupação é inexistente. Noutras palavras – como posso dizer? -, os Sus scrofa se reconhecem entre sí – pelo cheiro. 

Filosofias de Gueto, parte I

“Ah, eu vou ao baile funk* porque dá muita mulher.”

*Leia-se também ‘forró’, ‘axé’, ‘pagode’ ou coisa que o valha.

Meus clichês

Então o Ibrahim mandou-me um e-mail convidando-me a escrever sobre os meus planos para este ano. Okay: (Não farei tópicos) Primeiro, ficarei rico. Bom, não tão rico. Mas ganharei algum dinheiro, isso sim. Afinal, tenho muito o que fazer – coisas relativas a meu noivado oficial, casa e carro (Deixem-me com minha utopia). Também vou ler muito. Pretendo ler mais que ano passado, que, diga-se, não foi um ano ruim. E escrever. Não só aqui no blog, mas noutros meios também. E vou continuar evitando os chatos e os funkeiros, assim como em 2006. Não converso com quem ouve funk. Não olho para quem ouve funk. Não tenho nenhum tipo de relação com quem ouve funk. E também tenho asco de quem mexe o pezinho ao som de…vocês sabem. Este ano vou ser também um aluno exemplar na faculdade. Em verdade, sempre o fui, mas no último semestre eu estive desmotivado com a coisa toda, o que resultou num trabalhinho especial. Vou continuar não participando de amigo-ocultos, vou continuar não tomando sol e continuar mantendo as cortinas do meu quarto fechadas – aliás, cortinas servem para ficar fechadas, do contrário elas tornar-se-iam obsoletas. Quanto à minha barba ruiva, não sei se a deixo crescer. Natália não gosta. Mas seria uma boa mudar esteticamente. Continuo cínico, irônico, sarcástico. Mas não sádico, eu não sou sádico.

Crise

Eu estava com crise de indentidade blogueira, não sabia que layout usar. Mas agora vai.

Picardia

Então que eu estava lendo Hesse e ela, minha noiva, o tomou de mim ontem. Vou voltar ao Proust.

Ahamn

Enforcaram o Saddam e ele virou mártir lá pelas bandas do Oriente Médio. Aqui nos enforcam todos os dias e o que nos tornamos? Martini?

O Lobo da Estepe e eu

A leitura desenvolve em nós desejos infames. É natural que uma criança, quando absorta num conto de fadas, imagine-se na história, rodando e rodando nos carrocéis da imaginação. Mas agora, eu, aos 24 anos, lendo O Lobo da Estepe, querer ser Harry Haller já é demais. Se bem que é um estilo sedutor de vida: não trabalhar, viver só, num quarto alugado, lendo, escrevendo, fumando e tomando vinho tinto italiano. É por isso que eu amo a literatura. Coisas tão…feéricas.

Inspire, expire

Sabem aquela cena do filme Beleza Americana em que uma personagem, num dos melhores momentos do filme, capta, com uma filmadora, uma sacola plástica rodopiando ao vento enquanto descreve a cena como uma das coisas mais belas que já viu? É um belo momento. Hoje, quando sentado no banco do ônibus esperando  sua partida, eu olhava para fora, através da janela, entre o sono que hoje me massacra e a obrigação de vir para o trabalho. Ví um pássaro. Acho que era um pardal, mas não sou especialista em pássaros nem nada. Ele estava no canteiro. Pulava de um lugar para outro. Às vezes beliscava algo que encontrava, às vezes não encontrava nada mas me parecia bem feliz em estar alí, em poder, no mínimo, procurar por algo. Como se valesse mesmo a pena. Não que eu tenha que assumir uma posição otimista para iniciar um novo ano. Não é isso e isso não faz o meu tipo. A questão é que tenho muito o que fazer. Há muito a ser feito. Ontem, primeiro dia do ano, eu ouvi:

__Vamos trocar de alianças em outubro?

E sinto que há coisas que me afetam profundamente. Eu sou um cético 99%, e o que me resta de crença eu deposito em algumas poucas coisas realmente importantes em minha vida. Ainda que blasé, eu, no fundo, me preocupo demais com as coisas e com as pessoas à minha volta. Isso me atinge. É isso. Acho que este é um texto otimista, ao meu modo. As coisas – como chamam – acontecem. Eu só quero, agora mais que nunca, ter algum controle sobre elas.