Xmas time

Eu não sei mais o que é o natal. Quando criança, talvez soubesse. Lembro-me da minha época de neurônios atrofiados. Época feliz. Acho mesmo que a única felicidade consiste em ser ignorante. Além disso, o que há são momentos, hiatos de fugaz alegria. Lembro-me de seguir procissões católicas pelas ruas do meu bairro – uma fila de senhorinhas fiéis e netos curiosos, todos segurando uma vela acesa na mão queimada pela cera. Época em que eu levava para casa ramos abençoados pela santa água do padre da paróquia. Havia também um pão. Não sei se o chamavam d’outra coisa. Mas era um pão, duro, que devíamos colocar no armário da cozinha a fim de não faltar alimento. Esses e outros rituais. Época feliz. O natal tinha o maior significado. As mínimas coisas tinham valor. Volto, por exemplo, a um desses natais de minha infância. Recordo-me que minha mãe, não tendo suficientes condições para presentear-me com um vídeo-game de última geração ou coisa que o valha, deu-me um daqueles quebra-cabeças numéricos, de mão. Aqueles em que você deve mexer os números na vertical e na horizontal até que consiga colocá-los na ordem, de 1 a 9. lembro-me e quase escorre uma lágrima – sou muito sentimental por esses dias. Vocês não podem imaginar a felicidade que tal presente me deu. Vocês não fazem idéia de como tal acontecimento permanece em minha memória, fixo, como se houvesse ocorrido ontem. Isso faz uns 18 anos. Coisa que hoje já não existe mais. As crianças de hoje são umas esnobes. Os jovens, uns cretinos. Dá-me asco, só de imaginar. E eu tenho pena. Muita pena. Faz alguns anos que não piso numa igreja, mas o período em que o fiz foi importante para mim. Igualmente, há anos não celebro o natal como o fazia antes, mas minha infância ignóbil foi peça fundamental para o meu crescimento. O natal hoje é ainda mais piegas que no meu tempo. Mais feito de out-doors e garrafas pet recicladas que com o que chamam coração.

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15 comments so far

  1. Ingrid Steinstrasser on

    Neurônios atrofiados ou ainda não-desenvolvidos?

    Realmente… Bah, natal… Escrevi esse dias sobre isso, abominando as ceias com perus estufados, etc e tal.

    “As crianças de hoje são umas esnobes. Os jovens, uns cretinos.”

    Pois digo mais, além de esnobes, são mal-educadas. Os pais, hoje em dia, não sabem dizer “não” e acabam cedendo a tudo. E sim, os jovens são uns cretinos. Tá tudo uma merda, tá tudo perdido.

    OBS: sou só um pouquinho pessimista… Ehehehe.

  2. Ingrid Steinstrasser on

    Putz, como cheguei no teu blog??? Fuçando por aí… Tô sempre em busca de blogs bons. Achei o teu. Esse mundo virtual não é fantástico?

  3. mcarvalho on

    Obrigado!!!!!

  4. elisabetecunha on

    Edd: Você sempre me surpreendendo com um texto intocável, perfeito.
    Criei meu filho Rodrigo sem medo de dizer NÃO NÃO NÃO ele hj sabe que só pode querer , aquilo que pode ter. Se tiver sonhos, ele que aprenda a realiza-los sozinho, quebrando a cara, perdendo, ganhando. LIMITE é fundamental!!!! I LOVE NAT E EDD!!!!

  5. Rita Copetti de Queiroz on

    Natal…

    eu acho o seguinte, quando mais velhos ficamos menos abrimos a cabeça pro novo. Crianças mal educadas e esnobes… jovens cretinos… blza tem muitos por ai, mas antes tbm tinha, hoje tem mais gente no mundo. Alguem me disse esses dias, “a irmã do fulano so sabe ver aquela novelinha dos rebeldes, a guria não faz mais nada e so briga com a mãe, onde esse mundo vai parar…”, pohh fala serio, que tipo de pais são esses que permite isso? Os que não sabem dizer não, as tais crianças mal educadas… Agora os jovens cretinos são os que se apavoram com isso na minha opinião. Eu sempre acho que se nao esta gostando faz melhor, mostra que é possivel, enfim faça por merecer! Natal é uma época mágica pra mim, e eu nem acredito em papai noel, mas eu acredito nas pessoas!!! Isso mesmo, eu acredito nas pessoas, todos temos algo bom pra acrescentar, e o natal tem um pouco disso, ele renova as esperanças. To sendo fantasiosa? talvez, mas eu sou mais que positiva. bjinhos e FELIZ NATAL!

  6. Francine R on

    Muito bom o texto. Intimista, adoro!

  7. Clara on

    Oi, Edd!

    A coisa mais legal do natal pra mim, hoje em dia, é ver os olhos de crianças simples quando ganham presentes. Essas crianças que já estão acostumadas a ficar em grandes filas para receberem esmolas de doações, e que mesmo preteridas e insignificantes, sorriem largamente ao receberem os restos da sociedade injusta que as gerou. Elas conseguem, naquele instante fugaz, serem livres e felizes. Isso é o que me comove…

    (*Não consigo mais acessar meu blog… T__T
    Acho que vou ter que fazer outro – tudo culpa do maldito blogger beta – e talvez saia de órbita, mas espero voltar logo!)

    Beijos!

  8. Pensamentos S O L T O S on

    Vagueando por entre tempos

  9. Maíra on

    tens razão, o natal hj não é como o de antigamente, lembro com tantas saudades dos natais com a família reunida na casa da minha avó… Hoje em dia se transformou em consumo apenas…

    Obrigada pela visita no Caravela, volte sempre!

    Bjos

  10. Joana on

    Hoje em dia está tudo mais comercial. Um dia desses, no mês passado, estava conversando com o meu primo de 6 anos e perguntei a ele o que ele havia pedido ao papai noel de presente de natal. Uma dessas peguntas que a gente faz tentando distrair uma criança, sabe? E ele olhou para mim, abriu um sorriso e disse: “Eu sei que papai noel não existe, tá?”. E depois disso, me peguei pensando, no porquê dele desejar tanto um presente.
    Não, na minha época eu gostava de esperar pelos presentes porque existia a magia de um homem misterioso que entraria pela minha janela e me deixaria algo interessante de presente. Mas se não existe mais tal magia e se os fatores religiosos por si só já foram esquecidos, então para que tanta hipocrisia?

    Na verdade o nome do meu blog inicialmente se deu por causa do filme sim. Na verdade, eu sou boderline, e não tenho pseudologia fantastica, mas também, quando ouvi o nome desse disturbio no filme fiquei curiosa e resolvi pesquisar sobre o assunto. Escolhi como nome do blog, porque no meu blog eu escrevo todos os meus pensamentos fantasiosos e devaneios, é como contar uma pequena mentira, que lá no fundo tem todo um contexto real.

  11. Fernando Carvalho on

    O natal realmente perdeu aquela magia, aquele encanto de antigamente, me lembro que esperava, contava os dias para que ele chegasse, e hoje, quando assusto já é véspera de natal.

    Edd, falei que ia comentar, mais cedo ou mais tarde.
    Depois dê uma olhada no novo, ainda em fase de construção… hehe…

  12. Lia on

    Oi, Edd

    passei aqui para contar sobre o livro “Kafka de Cramb”. É claro que Kafka original é bom, é melhor sim. Mas achei fantásticos os desenhos de Crumb. O livrinho simples vale a pena.

    Um beijo, menino!

  13. Natália on

    Oi meu anjo!
    Quando vc me disse que tinha escrito outro texto sobre o Natal pensei sinceramente que era outra crítica, mas até fiquei emocionada quando li tal relato de sua infância.
    Vc mais que ninguém sabe minha opinião quanto ao Natal e suas comemorações. Eu dou granças a Deus por ter vivido em uma época que o Natal fazia um sentido diferente para mim, claro que eu adorava ganhar presentes, mas a emoção de esperar o Papai Noel e até correr atrás dele sempre fazia valer a noite.
    Eu descobrir que o bom Velhinho não existia só porque reconheci os sapatos de um tio emprestado que se vestia de Papa Noel.

    Te amo meu amor.

  14. Edson Junior Lain on

    Te amo, Nat.
    Essa sua historinha mais parece coisa de filme..

  15. Luiz on

    Você é o Zeca Camargo?


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