Últimos Suspiros: “Deixem-me morrer em paz!”, disse Voltaire. E empacotou.

Remexendo aqui nas minhas papeladas, encontrei um número da já extinta revista Bundas, mais especificamente a número 21, de novembro de 1999. Lembrei-me imediatamente de um ótimo texto de Sérgio Augusto sobre os últimos suspiros de gente famosa, nela publicado. Não sei se se o encontra por aí, então reproduzo-o aqui, digitado, letra por letra:

Pé na cova

Nunca fui de colecionar objetos de forma obsessiva e sistemática. Ao contrário da maioria dos meus colegas de infância e adolescência, não me rendi à tentação de juntar, com desvelo, flâmulas, postais, estampas Eucalol, selos, moedas e caixas de fósforo. Guardei, sim, um monte de gibis, revistas e recortes, preferindo investir meu tempo e minha energia em algo que, se bem praticado, pode ser, segundo Walter Benjamin, uma arte: fazer anotações. Escrever é fácil, difícil é fazer anotações. (Esta eu anotei de memória, saindo quentinha da boca do Ivan Lessa.) Se vício de jornalista, não sei, pode ser. O fato é que, desde a mais tenra idade, eu anoto. Não tudo, mas um bocado de um bocado de coisas, que mais cedo ou mais tarde eu acabo compartilhando com vocês. Hoje, por exemplo, vou compartilhar com vocês a minha coletânea de últimos suspiros. Sim, eu poderia ter escolhido outro tema – as grandes gafes da história, as mais hilariantes mancadas do cinema, da ciência e da locução esportiva, as mais ridículas rimas da poesia, os mais fulminates passa-foras de todos os tempos, as primeiras e últimas frases  mais brilhantes da literatura, os trechos mais pernósticos e obscuros da sociologia e da teoria literária, as mais estapafúrdias desculpas de gente famosa para não tomar banho todo dia, etc. – mas, em homenagem a finados, optei pelas derradeiras palavras comprovadamente pronunciadas por figuras famosas em seu leito de morte.

Por ordem de entrada em cena, ou melhor, de saída de cena, Sócrates é o primeiro da lista. Ao abrochar a clâmide (naquele tempo, 399 a.c., não se abotoava o paletó ainda), ele disse a Crito: “Eu devo um galo e Esclépio; você vai se lembrar da dívida?”. Tamanha insipidez só ganhou posteridade por ser antiquíssima e socrática. Sabe-se que Platão morreu (em 347, a.C.) agradecendo ter nascido homem, grego e no século de Péricles, mas ninguém anotou sua lapidar despedida, se é que de fato foi lapidar. Tão lapidar quanto a de Nero (68 d.C.): “Que grande artista morre dentro de mim!”. Também há controvérsias sobre as últimas palavras de Rabelais (1553). Uns dizem que foi “Estou indo para o grande talvez”. Prefiro a outra: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

Rosseau e Voltaire morreram n0 mesmo ano (1778). O primeiro despediu-se mais, digamos, pomposamete (“Vou ver o por do sol pela última vez”) do que o segundo (“Me deixem morrer em paz”). Mas não tanto quanto Diderot, que ao bater as botas, seis anos depois, parecia estar no meio de uma conferência e não com o pé na cova. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, pontificou o enciclopedista, e em seguida apagou. Dos poetas ingleses do século XIX, nenhum, nem mesmo o exuberante Byron, esticou as canelas tão teatralmente quanto o tuberculoso John Keats (1821). Nos braços do pintor Joseph Severn, ouvindo uma sonata de Brahms, balbuciou: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim.” Byron apenas anunciou, em 1824, que ia ou tinha de dormir – e nunca mais acordou.

A despedida de Goethe (1832), citada a torto e a direito, talvez seja a mais célebre de todas: “Mais luz!”, pediu ele, súplica que o escritor americano O. Henry repetiria 78 anos depois: “Ascendam as luzes! Eu não quero ir pra casa no escuro.” Outro alemão, Hegel, que desencarnou um ano antes de Goethe, também deu um show, sobretudo de niilismo: “Só um homem conseguiu me entender… e ele não me entendeu direito”. Não foi menos incrédulo que o farewell, de James Joyce (1941): “Será que ninguém me entende?” – se é que eu entendi o sentido da frase original: “Does nobody understand?”

Em matéria de desespero, raros defuntaram como Edgar Allan poe (1849), segundo alguns, implorando que Deus tivese pena de sua “pobre alma”, e, segundo outros, rogando a um amiogo que lhe estourasse os miolos com uma pistola. O escritor Hector Hugh Munro, vulgo Saki, nem precisou implorar por um tiro, já que morreu do balaço de um franco-atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Suas últimas palavras? “Apague a porcaria desse cigarro”. O franco-atitador estava fumando, na escuridão da noite.

O historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle (1881) desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora…” – e mais não disse. Algo parecido murmurou Henry James antes de bafuntar, em 1916: “Então é isso, enfim, as coisas distintas…”. T.T. Barnum, o mais célebre dono de circos e mafuás do mundo, nem se deu conta de que estava prestes a bater o prego. Numa noite de 1891, perguntou: “Como foia a venda de ingressos hoje no Madison square Garden?”, e entregou sua alma a Deus. Oscar Wilde provou até o fim (1900) que era um frasista de gênio: pediu champanhe, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e empacotou. Tolstoi (1910) expirou perguntando sobre como morriam os camponeses e D.H. Lawrence (1930) dizendo para a enfermeira que estava se sentindo melhor. Bernard Shaw (1950) não se deixou enganar e sobre a enfermeira que dele cuidava despejou a seguinte imprecação: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Estava mesmo.

José Veríssimo, um dos seis amigos que acompanharam os últimos minutos de Machado de Assis (1908), jura que o bruxo do cosme velho comentou que “a vida é boa” antes de dar seu último suspiro. Por muito tempo pensei que Graciliano Ramos (1953) tivesse ido desta pra melhor passando a mão no rosto de sua mulher, Heloísa, e murmurando “Mamãezinha”, mas um recém biógrafo assegura que suas derradeiras palavras foram “Estou acabado”. Sérgio Porto (1968) apagou pedindo à empregada de sua mãe que não olhasse pra ele, prova de que nem todo humorista morre fazendo piada. José do Patrocínio Filho era um tremendo gozador e nem quando esticou o pernil, em 1929, franziu o cenho. Condenado pelos médicos a tomar leite humano, pois mais nada o apetecia, à primeira demonstração de dificuldade da enfermeira para por numa colherzinha o leite extraído dos alvos e belos seios de uma ama-seca, Zeca abriu um olho e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?” – e nem sequer para mamar abriu mais a boca.

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14 comments so far

  1. Francine on

    Que coragem de digital tudo isso!

    Eu não lembrava mais que lia essa revista! rs

    gostei do seu blog!
    🙂

  2. elisabetecunha on

    Que pena que Bundas saiu de publicação, grande revista!Grande Ziraldo!!!!
    Quanto a frase que mais me identifiquei(quando estiver no meu leito de morte….xô) foi a de Oscar Wilde- Vou pedir minha última taça de champangne, é uma morte muito chic!!!!
    Tenha uma excelente semana com a Natália,diz a ela para ir lá no meu encanto. um cheiro!!
    um dia venha com a Nat conhecer a Bahia, é muito singular e maravilhosa!!

  3. Alessandra Carvalho on

    olha lá o blog-experience Biblioteca. bj

  4. Michelle on

    Nossa!!!
    Eu tava no 1ano de jornalismo qdo lançou essa revista, acho que cheguei a comprar todos os exemplares…
    A segundo exemplar foi a que mais me chamou atenção:
    É preciso peito pra anunciar em bundas!
    Era o formato da caras…
    Sensacional!!!

  5. Lino Resende on

    Ed:
    O texto é ótimo. E a lembrança das citações dos grandes nomes, melhor. Mas, com certeza, eu fico com o Zeca: mamar é bem melhor.

  6. tina oiticica on

    Gosto muito de ler abobrinhas, principalmente advindas de celebridades assim. Muito poucas conhecia; Nero, é manjado. Poe, eu nem sabia que tinha falado nada. Sempre ouvi falar que morreu na sarjeta. Muito boa esta coleção. Obrigada pelos momentos de instrução.

  7. rodrigo de lemos on

    grazie.

    as frases do voltaire e do rousseau sintetizam por que o primeiro é grande e o segundo um pedante detestável.

  8. j. noronha on

    Disparado, Oscar Wilde. Mas os comentários do autor sobre as frases são melhores ainda.

  9. Raquel Moniz on

    🙂 “Desçam as cortinas, a farsa acabou.” esta é a minha favorita.

  10. Edward Bloom on

    Hehe, essa das anotações é muito boa. É do Garotos da fuzarca, do Lessa. Acho que ele tava conversando com o pai, uma mulher e o Mário de Andrade no centro de São Paulo, quando o Mário de Andrade perguntou se ele seria como o pai, um escritor e ele disse isso: Não, escrever livros qualquer um consegue. Eu só vou tomar notas. Invejo ele por isso hehe.

  11. Caroline on

    Fááálaaa caro amigo… Ôôô Édi.
    Aki, gostei do olhar 43, meio de lado.
    Bjo (Com todo respeito a Sr. Natália Lain)

  12. Tai on

    Olá!
    Primeiramente, agradeço pela visita a meu blog.
    Adorei o texto de Sérgio Augusto…! Frases bem interessantes, em!? rsrs…!
    Da proxima vez em que der uma mexidinha no meu blog lhe linkarei, ok!?
    Té +…!

  13. Natália on

    É meu amor, vc digitou esse texto e não fez o seu trabalho, né? Vai ganhar beliscão no braço.

    Beijos.
    Te amo

  14. Rev. Ibrahim Cesar on

    Bem, gostei de seu blog no entanto prefiro outra versão para as últimas palavras de Voltaire.Eu não ligo se não é a verdadeira mas saca só: Dizem que quando Voltaire estava morrendo, o padre que foi fazer sua extrema unção pediu-lhe para renunciar Satã,o que o bom sacana respondeu:
    – Não é hora de fazer inimigos.


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