O elogio ao ócio

             “Acho que as pessoas trabalham demais hoje em dia”, frase dita pela primeira vez em 1935 pelo filósofo Betrand Russel, traduz perfeitamente o meu sentimento em relação às sociedades contemporâneas, ditas civilizadas. À medida que o homem deixou de trabalhar para viver e passou a viver para trabalhar, houve uma queda exorbitanete da capacidade criativa do indivíduo, que, hoje, não é mais livre para fazer coisas de que realmente goste. Por que isso acontece? Imagino a obviedade desta resposta, nos dias de hoje. O modelo político regente é como uma bota sobre as nossas cabeças. Mas não é meu desígnio, aqui, fazer bravata contra um ou outro modelo de Estado, tampouco idealizar uma política libertária, que nos vá amparar.

            O ócio atualmente é visto com maus olhos, como vadiação, mediocridade e, principalmente, como sinal de miséria. Esquece-se, porém, da importância da despreocupação e da diversão na educação de um jovem, por exemplo, ou de como o ócio foi (e é ) essencial à literatura e à filosofia. Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos. Aqui, gostaria de ressaltar um ponto crucial ao entendimento do meu texto. Quando os pensadores gregos, após anos de dedicação, finalmente conceberam suas obras, eles pensavam em angariar algum tipo de lucro? Não. Esse pensamento de que de que o trabalho lucrativo é o principal objetivo da vida é um erro, e Russel nos alerta sobre isso: 

A idéia de que as atividades desejáveis são aqueleas que dão lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas.           

E ainda: 

O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empresgos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho.O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo (…). Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida. 

            Esta visão não tem o objetivo utópico de eliminar o trabalho, mas fazer pensar uma reestruturação, baseada nas possibilidades abertas pelos modernos métodos de produção. O “conhecimento inútil” é o objetivo do ócio, e mais pessoas deveriam ter a chance de praticá-lo. Diz a história: o viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, em Nápoles, disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada.

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33 comments so far

  1. Alessandra Carvalho on

    Seu post tem muito a ver com meus pensamentos de hj, de ontem,enfim… ai,ai.. 🙂 Muito bom!

  2. elisabetecunha on

    Edson: Você abordou um tema muito importante.Nessa correria de trabalhar, competir, trabalhar, competir,os meus motores entraram em colapso e adquiri uma grave depressão, onde ainda estou me curando. Tive que parar, dar um tempo, fazer coisas que já não tinha mais tempo: Ler, ouvir música, contemplar artes, admirar a natureza,ir ao cinema, comer pipoca, abraçar meu marido e filho, dizer o quanto eles são iimportantes para mim. Isso é muito sério, as pessoas estão esquecendo de viver para manter um status, isso é muito sério.O MEU BLOG também me ajuda, portanto, posso considerar que a qualidade de minha vida só fez crescer e melhorar.
    o texto está impecável, parabéns!
    obrigada pela visita!

  3. maria thereza on

    adorei a parte que diz que devemos todos gastar nosso dinheiro! e viva o ócio, a preguiça e a vadiagem!

  4. Fernanda on

    (e eu adorei a moça que adorou “que todos devemos gastar dinheiro”!!!) eu tenho o privilégio de trabalhar com o que mais amo fazer, mas só descobri que podia dar certo depois de tentar o caminho descrito no texto: primeiro fiz Direito pra ser advogada e ganhar dinheirinho. depois de formada tratei de estudar pra trabalhar (bem) com moda, e agora sim tô ganhando alguma coisa – e feliz da vida! no fim, quando tenho tempos de ócio fico torcendo pra voltar ao trabalho…. (valeu o “estudo”, né?!?!!!)

  5. Lia on

    Existe uma preocupação maior com o dinheiro do que em ser feliz. Já me preocupei demais com o dinheiro, fui feliz. Mas hoje não sou feliz no meu trabalho. Estou mudando de área e aos poucos estou descobrindo minha verdadeira vocação. E não estou pensando no dinheiro. Muitas pessoas que convivem comigo não entendem… Elas precisam ler esse teu post 🙂

    Um beijo

  6. Raquel Moniz on

    Realmente hoje em dia somos escravos do trabalho, e em muitos casos, por opção, por escolha, por gosto.

    A má gestão de tempos (culpada na maior parte dos casos), que deveria incluir tirar algum tempo extra do trabalho para a família, para os amigos… tornou-no outsiders da sociedade, da familia, da cultura, dos nossos hobbies…

  7. Rhana on

    O Homem perde tempo na tecnologia, problemas, trabalho que esquece que a melhor coisa que existe está em valorizar e exercer o poder da mente! Por isso que eu acho que eu nasci na década errada!!!

  8. Rhana on

    O Homem perde tempo na tecnologia, problemas, trabalho que esquece que a melhor coisa que existe está em valorizar e exercer o poder da mente! Por isso que eu acho que eu nasci na década errada!!! Somos escravos também dos nossos desejos!!!!

  9. elisabetecunha on

    Edsun , obrigada pelo comentário, você é um amor!!
    ps. Eu sei, já tem dona! bjs!

  10. Clara Gomes on

    Ueba! Vamos ser todos caramujos!

    (*duvido que qualquer psicologia explique o pensamento maluco de nós, mulheres!)

  11. tina oiticica on

    Ed:

    Li este post ontem. Não comentei, assim como não posso comentar, porque não tenho opinão formada a respeito. Vejo muitas pessoas para as quais o trabalho é lenitivo face a problemas insolúveis. Boa tarde para você.

  12. Edson Junior Lain on

    Comentário da Evelyn, no meu orkut:

    De forma que se hoje o ‘ócio’ só é caracterizado negativamente em relação ao trabalho, antigamente na Idade Média e Grécia ocorria justamente o contrário (daí o definição em negativo de trabalho, tido como a negação do ócio ‘neg-otium’). A grande tragédia dos nossos tempos foi ter-se perdido a dimensão transcendente do mundo que justificava uma ‘vita contemplativa’ em oposição ao estrato mais irrelevante da ‘vita activa’e o mundo hoje sufoca-se em sua própria imanência desdivinizada.
    Beijos!

  13. Emily on

    ai céus, você não pode ficar fazendo essas apologias aqui nas minhas leituras não: eu e a minha pesquisa para Economia Política estamos muito sensíveis neste momento. *suspiros*

  14. Emily on

    sério! hahaha! estou sob temperatura alta do planalto central. o calor dos trópicos realmente não deve por à prova o caráter dos humanos. ou deve? ê, vida de gado…

  15. Natália on

    Trabalho? Ócio?
    Você sabe meu amor que já provei dos dois, e pode apostar a vida corrida e sem tempo da Miraís não era tão mau.

    Você está escrevendo cada vez melhor,
    que orgulho do meu noivo.

    Beijos

    Natália

  16. elisabetecunha on

    Natália , parabéns pelo seu noivo.
    apareça no ENCANTO também!

  17. elisabetecunha on

    Edson: Têm post sobre Vinícius lá no “encanto”,aparece e convida a Natália ,ok?
    bjs!

  18. Jorge Wagner on

    esse final, sobre o viajante… muito bom! hehe

    abs

  19. elisabetecunha on

    Edson: Que bom que gostou do post! Leva a Natália lá pra conhecer. Se vc quiser me dar dicas de poetas e artistas plásticos para os meus posts, será bem vinda a idéia.
    Ótimo final de semana para vc e Natália!
    Aqui em Salvador está o maior sol, acho que vai dar praia no final de semana ! Oba!

  20. Jane Pilla on

    Vc já leu o “Ócio Criativo” de Domenico Demasi?
    http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=1&ProdId=91581&ST=SE
    Tks 4 post:>

  21. opicadordegelo on

    Não tenho, com muita pena do meu pai, jeito para o negócio. Infelizmente, o não ser bom na negação do ócio, não quer dizer nada. É preciso praticar todos os dias a ociosidade. 🙂
    Concordo plenamente com este elogio.

  22. Fernanda on

    quantas fãs!

  23. maria thereza on

    esse template tá bem melhor pra ler seus posts!
    enfim, comentando nesse texto de novo só pra dizer que você está no meu blogroll =)

  24. André Julião on

    Perfeita essa visão do ócio, do qual compartilho plenamente. Mas é só defender isso e logo os “velhos” (e eles podem ter de 0 a 100 anos) já te reprimirem, te achando um vagabundo…

  25. Luciana on

    Edd, adorei o texto!!! … um trecho chamou `muito` a minha atencao… “Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos.“ … caramba! estou trabalhando muito… preciso de mais tempo ou de me ocupar menos! rs..

  26. Caroline on

    É… concordo com a Lu. Também estou trabalhando mto… mas no meu blog…. rs
    Como “boa” (nos dois sentidos) publicitária:
    Entre vc também… http://criacao.wordpress.com/
    😉 hihihihi
    Bjus

  27. Lena Alves on

    Adorei o texto, achei legal sua colocação de Sócrates e Platão como operários. Imagina só eles trabalhando em uma jornada 220 horas mensais, ou mais! O capitalismo faz isso com o individuo do mundo moderno. E nossa identidade é cada dia mais fragmentada. E não temos mais tempo para uma interação face a face. Como diz Bertrand Russel: “Tudo isto é preliminar. Quero dizer, com toda a seriedade, que muitos males estão sendo causados ao mundo moderno pela crença na virtude do trabalho, e que o caminho para a felicidade e prosperidade está em uma diminuição organizada do trabalho”.
    bjos

  28. Ócio, man. Ócio « SemiÓtica on

    […] Estou oficialmente de férias (Segundo o Fernando, eu já estava de férias há muito; mas não é verdade). Não é nenhum tratado de Russel, mas vou tentar viver um ócio criativo até fevereiro. Comecei por Proust, e a leitura já está avançada. […]

  29. Ítalo de Paula Pinto on

    Poxa, muito interessante ! Gostei mesmo, viu ? Às vezes percebo isso quando falo sobre meu blog. As pessoas não vêem utilidade em escrever na internet, pois isso não está diretamente angariando retorno financeiro.

    É Foda!

    abraços …

  30. Realmente, tenho estudado o “ato de educar” e não me espanta que a visão de boa parte das pessoas sobre educação seja converter o ser humano em máquina produtiva. O objetivo oculto, fazer uma sociedade melhor, foi trocado por fazer uma mais lucrativa. Completo seu argumento, lembrando que o Filósofo citado afirmava que não havia nada mais idiota q

  31. Realmente, tenho estudado o “ato de educar” e não me espanta que a visão de boa parte das pessoas sobre educação seja converter o ser humano em máquina produtiva. O objetivo oculto, fazer uma sociedade melhor, foi trocado por fazer uma mais lucrativa. Completo seu argumento, lembrando que o Filósofo citado afirmava que não havia nada mais idiota que o mundo atual e citava o aumento de produtividade de uma fábrica de alfinetes. Como a produção de alfinetes já completa toda a demanda, mas ao invés de fazer com que as pessoas tivessem mais tempo para descansar, provocava a demissão de pessoas “excedêntes”.

    ABS.

  32. […] li Russel. Li o safado do Betrand Russel e o negócio mudou minha vida; aquela história do Elogio ao Ócio, da redução da jornada de trabalho para 4 horas diárias – vejam bem, 20 horas destinadas ao […]

  33. […] novinho mas já surrado, porque sapato de hoje em dia não resiste mais à levada do dia-a-dia. Bertrand Russel poderia ter mudado tua vida. Você liga a tevê e coloca na novela por ato falho, está mesmo […]


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