Proustiano. Parte I

Já lhes contei sobre o jardim de infância? Lembro-me de ter chorado baldes no meu primeiro dia. Era uma escolinha particular que ficava no meu bairro, colorida, não muito grande, e feliz. Era feliz demais. Havia palhaços pintados nos muros. Sentia-me indefeso, preso, longe dos meus pais e da minha casa, como num campo de concentração. Na parede da minha sala havia um daqueles quadros que, na época, era moda ter: um menino chorando, desesperado. Porque ele chorava, ninguém sabia (hoje, sabe-se que há no quadro uma daquelas mensagens idiotas, que chamam subliminares). Certo é que eu olhava aquela imagem e chorava, chorava muito. Ninguém entendia. As carteiras da escolinha eram outro martírio. Eu não me sentava sozinho: à minha frente havia, distribuídos, mais três rostos desconhecidos, feios e tão desesperados quanto o meu. Mas logo aprendi a me virar. Ignorava-os. Mais: eu sempre tive asco aos divertimentos gratuítos, inúteis, baratos. Quando no intervalo de recreação, sentava-me à sombra do cajueiro – árvore anacardiácea – , pegava a minha merendeira do Snoop, abria-a, e fazia o meu lanche, olhando, com certo desdém, os garotos e garotas que brincavam, pulando e escorregando irracionalmente nos brinquedos quentes como o quê, sob o sol lancinante. Eu jamais brincava, jamais. Vinha a educadora, que ainda hoje conheço e é muito boa gente: 

___Vamos, Edson. Brinque um pouco. 

Mas eu era resoluto. Minhas únicas companhias eram a merendeira do Snoop e a sombra do cajueiro. Alguém dirá: “você não teve infância”, e eu direi:  

___Ora, e como não? Enquanto vocês torravam sob o sol, eu me divertia por dentro, me esbaldava, sentindo-me a criancinha mais especial de todas, bajulada pelas professoras e temida pelo meninos bobões. Eu, sim, tive infância.

Anúncios

5 comments so far

  1. Ferando on

    Edd
    A essência realamente não muda… interessante.

  2. Brunilda on

    Pessoas não mudam. Eu realmente acredito que uma infância nobre e aristocrática tem seus bons efeitos na vida adulta. Por isto vou obrigar meus filhos a decorarem Goethe e Petrarca enquanto seus coleguinhas se imundiciam na areia.
    Abraços! 😉

  3. Michelle on

    As vezes fico divagando sobre minha infância e me passa pela cabeça um país estrangeiro: porque as coisas eram feitas de modo tão diferente naquela época…
    Com esse ponto de vista você conseguiu fazer a sua infância parecer melhor do que realmente foi, ou não…
    Quando eu estava no jardim da infância a diretora chamou a minha mãe e “aconselhou” ela a cancelar minha matricula…

  4. amanda on

    engraçado, todo mundo se lembra do jardim de infância. eu não.
    minhas memorias parecem que começam na primeira série, na saudosa escola ‘pequeno principe’, no interior terra-roxa do paraná.

    e sim, eu era uma dessas crianças felizes que você tanto esnobava.
    ha.

  5. Natália on

    Oi meu anjo
    Eu fico só imaginando o meu Ninho debaixo de um cajueiro. Você não mudou muito meu amor, aposto que se na faculdade tivesse um cajueiro, você ficaria debaixo dele também.

    E é simplesmente por essas e outras que eu te amo tanto.

    Saudade do futuro!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: