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Amigo Oculto

Eu poderia falar da chateação de se ter de andar pelos corredores lotados das Lojas Americanas, tendo os pés pisoteados e o olfato nocauteado pelo cheiro do povo – essa espécie tão difundida –; poderia discorrer sobre o dinheiro mal investido em presentes descartáveis – porque hoje todo presente é descartável –; poderia ainda detalhar o quão enjoativos são aqueles abraços das tias do interior que você nunca, nunca vê, mas que no dia 25 aparecem só para lhe dar uns tapinhas no rosto e dizer “como você cresceu, querido”; ou dizer sobre quando estamos cansados, precisando dormir – e daí que é natal? – e não conseguimos, tantos são os fogos de artifício estourando sobre as nossas cabeças, de todas as cores e formas. Há também os vinhos ruins, a farofa – há algo pior que farofa? –, o peru que esfriou, o churrasco inoportuno, a fumaça, os bêbados, a música ruim de madrugada, a nostalgia, as promessas, os vestidos bregas, os penteados e toda essa coisa natalina. Mas vou me ater ao amigo-oculto. Você sabe: é aquele ritual besta de fim de ano em que você escreve seu nome num papelzinho, mistura noutros papeizinhos com nomes d’outras pessoas e põe tudo num saco ou caixa de sapato e agita. Aqui começa a avacalhação: o nome que você tirar é o seu amigo-oculto. Descrevo: geralmente essa pessoa misteriosa – o mistério é o principal detalhe – é oculta mesmo, até para você. Você lê a letra torta, pensa, e não consegue descobrir quem é – afinal, há na casa: primos de segundo, terceiro graus; o namorado da irmã da sua cunhada que levou a família e amigos; vizinhos; a irmã e o namorado da empregada; tios e tias distantes; avós; a comadre da sua mãe; o amigo de infância que há anos não aparecia; aquele garoto carente que mora na sua rua e sempre vai lhe desejar boas-festas; os colegas de faculdade que só querem a sua cerveja e as menininhas ingênuas que querem realmente ganhar um lindo presente do amigo-oculto bonzinho. Isso pra mim é o fim da festa, se é que houve alguma. Podem chamar-me ranzinza ou do que for, eu não vou ligar. Fato é que dar presente pra quem não se conhece é detestável, e tenho certeza de que essa é a opinião de muitos – opinião não declarada, claro. Não há nada pior que você tirar o maldito papelzinho e descobrir que tem que comprar um presente para o irmão da tia da sua namorada que você não faz idéia se vai com a sua cara. Aliás, você também não vai com a cara dele. Mas pior que presentear, é ser presenteado. Imagine você: ter que abraçar aquela madrinha que você nem sabia que tinha, sentindo de perto o perfume importado do país vizinho, e ainda ter de dizer “nossa, adorei!”. Isso, sorrindo. Sorrindo sempre. E há o inimigo-oculto, equivalente inverso da brincadeira. Ou seja, você pode ser presenteado com um sapo, uma lagartixa, uma lagarta, um cd de uma banda que você odeia ou um abraço – o que eu acho mais pavoroso – daquela pessoa de cuja cara você tem asco. Mas apesar disso, eu prefiro os inimigos – que são essenciais. Eles são mais sinceros, mais transparentes. Apesar de oculto, não há nada mais explícito que um inimigo.

Últimos Suspiros: “Deixem-me morrer em paz!”, disse Voltaire. E empacotou.

Remexendo aqui nas minhas papeladas, encontrei um número da já extinta revista Bundas, mais especificamente a número 21, de novembro de 1999. Lembrei-me imediatamente de um ótimo texto de Sérgio Augusto sobre os últimos suspiros de gente famosa, nela publicado. Não sei se se o encontra por aí, então reproduzo-o aqui, digitado, letra por letra:

Pé na cova

Nunca fui de colecionar objetos de forma obsessiva e sistemática. Ao contrário da maioria dos meus colegas de infância e adolescência, não me rendi à tentação de juntar, com desvelo, flâmulas, postais, estampas Eucalol, selos, moedas e caixas de fósforo. Guardei, sim, um monte de gibis, revistas e recortes, preferindo investir meu tempo e minha energia em algo que, se bem praticado, pode ser, segundo Walter Benjamin, uma arte: fazer anotações. Escrever é fácil, difícil é fazer anotações. (Esta eu anotei de memória, saindo quentinha da boca do Ivan Lessa.) Se vício de jornalista, não sei, pode ser. O fato é que, desde a mais tenra idade, eu anoto. Não tudo, mas um bocado de um bocado de coisas, que mais cedo ou mais tarde eu acabo compartilhando com vocês. Hoje, por exemplo, vou compartilhar com vocês a minha coletânea de últimos suspiros. Sim, eu poderia ter escolhido outro tema – as grandes gafes da história, as mais hilariantes mancadas do cinema, da ciência e da locução esportiva, as mais ridículas rimas da poesia, os mais fulminates passa-foras de todos os tempos, as primeiras e últimas frases  mais brilhantes da literatura, os trechos mais pernósticos e obscuros da sociologia e da teoria literária, as mais estapafúrdias desculpas de gente famosa para não tomar banho todo dia, etc. – mas, em homenagem a finados, optei pelas derradeiras palavras comprovadamente pronunciadas por figuras famosas em seu leito de morte.

Por ordem de entrada em cena, ou melhor, de saída de cena, Sócrates é o primeiro da lista. Ao abrochar a clâmide (naquele tempo, 399 a.c., não se abotoava o paletó ainda), ele disse a Crito: “Eu devo um galo e Esclépio; você vai se lembrar da dívida?”. Tamanha insipidez só ganhou posteridade por ser antiquíssima e socrática. Sabe-se que Platão morreu (em 347, a.C.) agradecendo ter nascido homem, grego e no século de Péricles, mas ninguém anotou sua lapidar despedida, se é que de fato foi lapidar. Tão lapidar quanto a de Nero (68 d.C.): “Que grande artista morre dentro de mim!”. Também há controvérsias sobre as últimas palavras de Rabelais (1553). Uns dizem que foi “Estou indo para o grande talvez”. Prefiro a outra: “Desçam as cortinas, a farsa acabou.”

Rosseau e Voltaire morreram n0 mesmo ano (1778). O primeiro despediu-se mais, digamos, pomposamete (“Vou ver o por do sol pela última vez”) do que o segundo (“Me deixem morrer em paz”). Mas não tanto quanto Diderot, que ao bater as botas, seis anos depois, parecia estar no meio de uma conferência e não com o pé na cova. “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, pontificou o enciclopedista, e em seguida apagou. Dos poetas ingleses do século XIX, nenhum, nem mesmo o exuberante Byron, esticou as canelas tão teatralmente quanto o tuberculoso John Keats (1821). Nos braços do pintor Joseph Severn, ouvindo uma sonata de Brahms, balbuciou: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim.” Byron apenas anunciou, em 1824, que ia ou tinha de dormir – e nunca mais acordou.

A despedida de Goethe (1832), citada a torto e a direito, talvez seja a mais célebre de todas: “Mais luz!”, pediu ele, súplica que o escritor americano O. Henry repetiria 78 anos depois: “Ascendam as luzes! Eu não quero ir pra casa no escuro.” Outro alemão, Hegel, que desencarnou um ano antes de Goethe, também deu um show, sobretudo de niilismo: “Só um homem conseguiu me entender… e ele não me entendeu direito”. Não foi menos incrédulo que o farewell, de James Joyce (1941): “Será que ninguém me entende?” – se é que eu entendi o sentido da frase original: “Does nobody understand?”

Em matéria de desespero, raros defuntaram como Edgar Allan poe (1849), segundo alguns, implorando que Deus tivese pena de sua “pobre alma”, e, segundo outros, rogando a um amiogo que lhe estourasse os miolos com uma pistola. O escritor Hector Hugh Munro, vulgo Saki, nem precisou implorar por um tiro, já que morreu do balaço de um franco-atirador durante a Segunda Guerra Mundial. Suas últimas palavras? “Apague a porcaria desse cigarro”. O franco-atitador estava fumando, na escuridão da noite.

O historiador e filósofo escocês Thomas Carlyle (1881) desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora…” – e mais não disse. Algo parecido murmurou Henry James antes de bafuntar, em 1916: “Então é isso, enfim, as coisas distintas…”. T.T. Barnum, o mais célebre dono de circos e mafuás do mundo, nem se deu conta de que estava prestes a bater o prego. Numa noite de 1891, perguntou: “Como foia a venda de ingressos hoje no Madison square Garden?”, e entregou sua alma a Deus. Oscar Wilde provou até o fim (1900) que era um frasista de gênio: pediu champanhe, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e empacotou. Tolstoi (1910) expirou perguntando sobre como morriam os camponeses e D.H. Lawrence (1930) dizendo para a enfermeira que estava se sentindo melhor. Bernard Shaw (1950) não se deixou enganar e sobre a enfermeira que dele cuidava despejou a seguinte imprecação: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Estava mesmo.

José Veríssimo, um dos seis amigos que acompanharam os últimos minutos de Machado de Assis (1908), jura que o bruxo do cosme velho comentou que “a vida é boa” antes de dar seu último suspiro. Por muito tempo pensei que Graciliano Ramos (1953) tivesse ido desta pra melhor passando a mão no rosto de sua mulher, Heloísa, e murmurando “Mamãezinha”, mas um recém biógrafo assegura que suas derradeiras palavras foram “Estou acabado”. Sérgio Porto (1968) apagou pedindo à empregada de sua mãe que não olhasse pra ele, prova de que nem todo humorista morre fazendo piada. José do Patrocínio Filho era um tremendo gozador e nem quando esticou o pernil, em 1929, franziu o cenho. Condenado pelos médicos a tomar leite humano, pois mais nada o apetecia, à primeira demonstração de dificuldade da enfermeira para por numa colherzinha o leite extraído dos alvos e belos seios de uma ama-seca, Zeca abriu um olho e sugeriu: “Doutor, não é melhor eu mamar?” – e nem sequer para mamar abriu mais a boca.

Blasfêmias Oficiais

Não sei bem onde começou, mas lembro-me de ter lido algo do tipo num blog americano, que também não sei qual. Mas isso não interessa. O negócio é que o assunto chegou por aqui. Lí primeiro no blog no Cleber, e agora o meme me foi passado pela Evelyn, de cujos textos gosto muito. É simples: devo escolher três escritores que, por uma razão ou outra, desisti de ler. É blasfêmia na certa, mas é aí que reside o quê da coisa toda. À questão:

  • Graciliano Ramos: Por Deus, eu não consigo ler o alagoano por nada neste mundo. Meus ex-professores me excomungariam, eu sei. Assim como há muitos aí fascinados por Vidas Secas e Angústia – duas de suas principais obras – que, se pudessem, armariam-me um cerco numa esquina escura. Tentei ler quando cursava o Ensino Médio, tentei ler para a ocasião em que prestei vestibular, e nada. Meus motivos para não conseguir lê-lo não são nada especiais. Em verdade, digo que acho um porre, digo, uma chatice seus livros, sua linguagem, seu estilo. Ah, também detesto seus neologismos. Já cansou.
  • D. H. Lawrence: Eu sei, sei que esta é uma blasfêmia das grandes, uma heresia, quase. Mas o que vale é a veracidade dos depoimentos preconceituosos. Sempre lí literatura inglesa; gosto da pompa, dos trejeitos, da língua. Mas Lawrence eu não consegui. Tenho em minha estante um exemplar de Women in Love – que é considerado seu romance mais importante – que já tentei ler umas duzentas vezes. Não dá. Este romance despertou em mim o preconceito por toda a sua respeitadíssima obra, de modo que nem perdi meu tempo tentando ler Lady Chatterley’s Lover.
  • Vladimir Nabokov: Okay, confesso que amo Lolita. Sou homem e, no fundo, tenho algum instinto primitivo que não me permite qualquer aversão ao tema que Vladimir abordou. Ví os filmes, reagi às imagens e comprei o livro. Tentei, tentei, tentei. Mas não passei da metade. Não tenho certeza se foi culpa da linguagem ou da tradução. Não gostei do rítimo. Não gostei da estrutura. E também não me agradam livros estilo diário, e Lolita tem um pouco disso. Gosto de Lolita (s), mas desisti do autor.

É isso. Repasso o meme à amiga Mariana, à Fernanda,  à Tina, à Alessandra, ao Lino e à Caroline.

Coisas, non sense coisas

Aí vem a Lispector dizer que a vida é um soco no estômago. Já Salinger me diz, com seu ar blasé, que não há grandes aspirações na vida, a não ser ser, no máximo, um apanhador num campo de centeio (…). E penso: tenho mesmo é que me preparar para o futuro. Penso e paro, porque me lembro do Orwell dizendo “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre”. São personas experientes que me dizem tais coisas. E eu confio. O que vou fazer? Confio. E sorrio, sarcástico, quando penso nas frases de efeito que por aí há para refutar o pessimismo, tipo aquela do mago Paulo que já não suporto mais: “O universo conspira a nosso favor”. Francamente, eu fico com o pessimismo. Obrigado.

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Ontem eu dormi cedo. Como um anjo, dizem. Há tempos não fazia isso e, hoje, acordei tonto, com ressaca de sono. E foi bom. Um prazer quase, eu diria.

Come on die young

Porque o domingo é uma janela para o muro do vizinho é que aqui estou entregue à letargia dominical, quase um legume morto ouvindo mogwai e escrevendo em espasmos e convulsões num fluxo não pontuado como um Kerouac à morfina nossa de cada dia. E chove lá fora.

O elogio ao ócio

             “Acho que as pessoas trabalham demais hoje em dia”, frase dita pela primeira vez em 1935 pelo filósofo Betrand Russel, traduz perfeitamente o meu sentimento em relação às sociedades contemporâneas, ditas civilizadas. À medida que o homem deixou de trabalhar para viver e passou a viver para trabalhar, houve uma queda exorbitanete da capacidade criativa do indivíduo, que, hoje, não é mais livre para fazer coisas de que realmente goste. Por que isso acontece? Imagino a obviedade desta resposta, nos dias de hoje. O modelo político regente é como uma bota sobre as nossas cabeças. Mas não é meu desígnio, aqui, fazer bravata contra um ou outro modelo de Estado, tampouco idealizar uma política libertária, que nos vá amparar.

            O ócio atualmente é visto com maus olhos, como vadiação, mediocridade e, principalmente, como sinal de miséria. Esquece-se, porém, da importância da despreocupação e da diversão na educação de um jovem, por exemplo, ou de como o ócio foi (e é ) essencial à literatura e à filosofia. Imagine-se Sócrates e Platão operários numa sociedade capitalista, com jornadas de 8 a 12 horas diárias, e dê adeus à filosofia de séculos. Aqui, gostaria de ressaltar um ponto crucial ao entendimento do meu texto. Quando os pensadores gregos, após anos de dedicação, finalmente conceberam suas obras, eles pensavam em angariar algum tipo de lucro? Não. Esse pensamento de que de que o trabalho lucrativo é o principal objetivo da vida é um erro, e Russel nos alerta sobre isso: 

A idéia de que as atividades desejáveis são aqueleas que dão lucro constitui uma completa inversão da ordem das coisas.           

E ainda: 

O que essa gente esquece é que as pessoas geralmente gastam o que ganham e gastando geram empresgos. Quando uma pessoa gasta seu rendimento, está alimentando com este gasto tantas bocas quanto as que esvazia com seu ganho.O verdadeiro vilão, sob este ponto de vista, é o indivíduo que poupa. Uma das maneiras mais comuns de se aplicar a poupança é emprestando-a ao governo (…). Melhor seria, obviamente, que ela gastasse seu dinheiro, mesmo que fosse no jogo ou na bebida. 

            Esta visão não tem o objetivo utópico de eliminar o trabalho, mas fazer pensar uma reestruturação, baseada nas possibilidades abertas pelos modernos métodos de produção. O “conhecimento inútil” é o objetivo do ócio, e mais pessoas deveriam ter a chance de praticá-lo. Diz a história: o viajante que, ao ver doze mendigos deitados ao sol, em Nápoles, disse que queria dar uma lira ao mais preguiçoso. Onze se levantaram para disputá-la, e então o viajante a deu ao décimo segundo. Foi uma decisão acertada.

Amour

Ora, meu amor, acessar minha caixa de e-mail logo de manhã, hoje, dia 14, e ter me aguardando um texto tão lindo e inspirado é mais que um presente. É uma dádiva. Sou o homem mais feliz quando você me demonstra esse amor maravilhoso, esse sentimento tão puro e, cada vez mais, crescente. Há em mim uma alma pulsante, ansiosa demais pelo futuro, pela vida que é nossa e que temos de viver, juntos. Olho para o meu passado, de solslaio, e não vejo mais que sombras, névoas espessas, brumas. Você representa demais para mim. Você é símbolo, é ícone e é índice. Você é ciência exata. É um coeficiente perfeito. É a minha prova particular e irrefutável de que existe o amor, ainda que a ele possamos dar nomes diversos e ainda que sua conotação esteja, nesses dias tão estranhos, corrompida. Você é maior porque se difere do meio.Você é minha Lótus que nasce em meio à lama. Você é meu budismo. Meu politeísmo e meu monoteísmo.

O presente não existe

O presente é uma falácia. O que chamamos de tempo presente é tão relativo, tão fugaz. Esse condicionamento barato. Essa psique alterada. Eu digo que só existem dois tempos: o passado e o futuro. Vamos, faça o teste. Diga “agora”, e quando terminar a palavra, ela já será pretérito. Pense em fazer algo. Planeje o futuro. E, ação realizada, ela deixa de existir no futuro e passa a fazer parte do passado. Mas e o exato momento em que se realiza a ação?, você se pergunta. Eu digo que tal momento é um fenômeno. É a exata transição temporal, extremamente sutil. Penso em escrever essa frase e, a cada palavra, cada letra digitada, vejo o passado tomando aquilo que era futuro. Vêem? A concepção de “presente” nos vale para alimentar filosofias clichês como “viva intensamente”, “viva o presente” e “consuma hoje, você pode não estar vivo amanhã”. O presente consola pois “o hoje nos pertence” e, além dele, não possuímos mais nada. Uma ova! Se há alguém aí com provas de que esse tal “presente” existe, por gentileza, reportem-me.

1984/ 2006

É realmente incrível a qualidade premonitória da obra máxima de George Orwell. Há alguns meses lí no A Folha de São Paulo que operadoras de telefonia fixa dos EUA mantém contratos sigilosos com o governo. Objetivo? Armazenar informações sobre os cidadãos americanos: quais os seus contatos, para onde ligam diariamente e com que frequência. Isso, claro, para a segurança do país pós 11/9. Mas não é dos EUA que quero falar. Que diabo de história é essa de “regulamentar a internet”? Quer dizer que, como se já não bastasse todos os cadastros identificatórios que precisamos realizar desde que nascemos (tipo sanguineo, impressão digital, pesinho (!), identidade, cpf, pis, carterinha disso e daquilo e sei mais lá o quê!), ainda teremos que informar todos os nossos dados para ler uma notícia num portal ou para entrar num blog? Valha-me! O estado já é detentor de toda informação a nosso respeito. Essa tal proposta de lei (cuja votação foi adiada ontem), que pretende livrar-nos dos crimes virtuais, parece não prever a facilidade com a qual ela pode ser burlada. Há, aqui, um perigo iminente. Se aprovada tal lei, nós teremos nossos dados, completinhos, circulando na rede, cadastrados em tudo quanto é site que acessemos. Claro que o proposto é assegurar a segurança, a nossa. Mas vá saber. Isso me parece mais uma facilidade para hackers de plantão, que não precisarão mais instalar aquelas geringonças clonadoras de cartão de crédito no seu Caixa Eletrônico. Estaremos (agora mais no centro) das mãos do Grande Irmão.

Minha namorada indie e outras histórias

Ela é indie e nem sabia. Mas sempre levou o maior jeito pra coisa. Bonita, branquinha, meiguinha e “falsa-magra”, como chamam. Os cabelos pretos sobre a face alva sempre me causaram aquela impressão cinematográfica de maquilagem. Mas eu vejo em zoom e constato: não há pó de areia ou d’outra coisa. Sem maquilagem. A  franja que eu sempre insisti para que ela deixasse, ela deixou. Linda. E é mais linda que as modelos das fashion week porque não é superficial. Porque sei da beleza que lá dentro mora, digo, habita. Pois, pois. Então eu insisti que ela era índie, mas ela dizia que não. Aí eu disse que compraria um par de tênis All Star pra ela. E brancos, que são mais característicos. Então ela foi lá e comprou os tênis primeiro que eu. Ela é tão prática, sabem? Agora, começou a andar de All Star branco e de blusa listada, só para me impressionar. Aos fins de semana ela ouve, comigo, Black Rebel Motorcycle Club e faz troça de uma música que, segundo seu ouvido afiado, se parece com Quê-co-cê-foi-fazer-lá-mato-Maria-Chiquinha, aquela breguice. Ela faz troça, mas acha bonito e até confunde com a trilha de Cowbe, que ela também adora. Mas eis o que eu queria dizer: ontem, em plena terça-feira (que pra mim é mais dia dos mortos que 02/11), chegou de surpresa em minha casa, sob chuva. Os cabelos presos, os pés molhados, cansada e bela. Foi uma surpresa bem boa. Ela é indie e se parece com uma das Cansei de Ser Sexy. Digo isso e ela faz um gesto, colocando a mão direita sobre a fronte, dizendo: “cansei!”.

Godard Literato

Estive ontem na abertura da I Mostra de Cinema da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. Em palestra, o psicólogo, cineasta e doutorando em literatura comparada Mário Alves Coutinho disse que em sua tese pretende provar que Jean Luc Godard, o polêmico cineasta francês, conseguiu com sua obra produzir, concomitantemente, cinema e literatura. Voíla.

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A capa da Piauí n°2:

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E vocês já conhecem o Universo Anárquico?

I don’t like the drugs but the drugs like me

Sabe quando bate aquela preguiça? É, então. Deve ser sintoma de segunda-feira. Tsc. Vou para a faculdade lendo Kerouac. Isso é mais. Menos é mais.

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 Uma pergunta: que roupa você vestiu hoje? E vai vestir o quê amanhã?

Mostra de Cinema

Essa semana haverá mostra de cinema nacional na Faculdade Estácio de sá aqui de Belo horizonte, no Prado. Diretores, atores e cineastas convidados para um bate-papo após cada sessão. O jornalismo, a publicidade e o Marketing estarão lá.

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Saddam Hussein havia dito, há uns meses, que merecia ser fuzilado, que queria morrer com a honra de um militar. Pois, pois. “Saddam Hussein foi condenado à morte na forca pela matança de 148 habitantes xiitas do povoado de Dujail, ao norte de Bagdá, em 1982.”

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“Às vezes um charuto é apenas um charuto.” (Freud)

Proustiano. Parte I

Já lhes contei sobre o jardim de infância? Lembro-me de ter chorado baldes no meu primeiro dia. Era uma escolinha particular que ficava no meu bairro, colorida, não muito grande, e feliz. Era feliz demais. Havia palhaços pintados nos muros. Sentia-me indefeso, preso, longe dos meus pais e da minha casa, como num campo de concentração. Na parede da minha sala havia um daqueles quadros que, na época, era moda ter: um menino chorando, desesperado. Porque ele chorava, ninguém sabia (hoje, sabe-se que há no quadro uma daquelas mensagens idiotas, que chamam subliminares). Certo é que eu olhava aquela imagem e chorava, chorava muito. Ninguém entendia. As carteiras da escolinha eram outro martírio. Eu não me sentava sozinho: à minha frente havia, distribuídos, mais três rostos desconhecidos, feios e tão desesperados quanto o meu. Mas logo aprendi a me virar. Ignorava-os. Mais: eu sempre tive asco aos divertimentos gratuítos, inúteis, baratos. Quando no intervalo de recreação, sentava-me à sombra do cajueiro – árvore anacardiácea – , pegava a minha merendeira do Snoop, abria-a, e fazia o meu lanche, olhando, com certo desdém, os garotos e garotas que brincavam, pulando e escorregando irracionalmente nos brinquedos quentes como o quê, sob o sol lancinante. Eu jamais brincava, jamais. Vinha a educadora, que ainda hoje conheço e é muito boa gente: 

___Vamos, Edson. Brinque um pouco. 

Mas eu era resoluto. Minhas únicas companhias eram a merendeira do Snoop e a sombra do cajueiro. Alguém dirá: “você não teve infância”, e eu direi:  

___Ora, e como não? Enquanto vocês torravam sob o sol, eu me divertia por dentro, me esbaldava, sentindo-me a criancinha mais especial de todas, bajulada pelas professoras e temida pelo meninos bobões. Eu, sim, tive infância.

Viajando no cavalo de Hoffman

Trabalhar depois de um feriado é um martírio. Minha mente está absorta entre ontem e amanhã, ou em qualquer outro dia, menos no hoje, dia presente, tempo presente.

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Passei na banca e comprei, enfim,  a Piauí. Vejamos.

Olá. Enfim comprei a Piauí. Ainda não lí mais que uma página, mas lerei mais ainda hoje. Cheguei aqui na empresa e coloquei-a sobre a mesa. Um colega passou: “você viu Jô Soares ontem?” Não, eu disse. Então ele me explicou que alguém da revista esteve no programa, falando da revista e tal, das capas…
Agora, pensando bem, Piauí é a típica revista para ser comentada no programa do Jô – Cult, ainda que pseudo.

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Também estou lendo a Rolling Stone Brasil, n°1.

Matérias boas, apesar de um esforço visível para se aproximar dos textos da original americana. Boas entrevistas. Boas fotos.

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Esse barulho do ar-condicionado às vezes me enche.