Ao Vencedor, as Batatas
Citei Machado de Assis num post anterior, o que me fez lembrar de Quincas Borba, que, creio, é sua melhor obra. A teoria Humanitas, a idéia de que não há morte:
— Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas chegam apenas para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.(Cap. VI)
“A guerra é a conservação”, diz Machado; “Guerra é paz”, Diz George Orwell. Apesar da aparente concordância entre os autores, Quincas Borba é um livro impregnado de pessimismo e rabugice – assim como Memórias Póstumas de Brás Cubas -, enquanto que 1984 de Orwell não: aqui o que há é um realismo assustador, quase imponderável, que nos faz pensar “esse livro é sobre nossos dias”. Quanto às batatas, quem as herdará?
6 comments so far
Leave a reply


A melhor eu não sei, mas a pior é Dom Casmurro de longe.
esses seus posts que me fazem pensar e pensar…rs
Considero 1984 sombrio. E não consigo compará-lo com o hoje, mas o vejo como uma metáfora ao totalitarismo e à possibilidade de um controle que, de tão forte, acaba por torcer conceitos.
Gosto muito de Memórias Póstumas de Brás Cubas. O capítulo final, Das Negativas, é tocante. Sobre as batatas, acho que o Roberto Schwarz pode responder bem essa questão.
Abraços! Belo blog!
Oi amor
Quanto às batatas, quem as herdará?
Quanto às consequências, quem assumirá.
Ótimo texto.
jim
Adoro Dom Casmurro. Seria o livro da minha vida se eu não tivesse lido Cem Anos de Solidão…