cumprimento

Olá. O que eu estou a fazer por aqui, não é mesmo? Este blog não acabou, ora?

Este blog acabou

Sem muitas explicações. Como há um tempo eu disse que aconteceria, estou de mudança, e em boa companhia. Leiam-me, a partir de hoje, aqui: http://breviario.org/ , mais especificamente aqui: http://breviario.org/sententia . Atualizem vossos blogrolls.

Um abraço e até lá.

Sigo, empertigado

Amiga a quem conheço pessoalmente argüiu-me outro dia sobre a minha conduta. A ela interessava saber se minha personalidade demonstrada aqui no blogue é também praticada ativamente no mundo real. Respondo: não, no mundo real sou pior. A vida real exige um certo nível de sutileza pouco praticada na prosa direitista, e é essa mesma sutileza o maior agravante presente no ato da dissimulação. Impede-me também o meu conservadorismo de entrar em discussão por coisa pouca; e estou sempre a me esquivar de conversas tortuosas, de companhias má vestidas, de ambientes desagradáveis, de sacripantas. Com tudo isso um sorrisinho forçado vai muito bem, além do quê não faz mal. E se insistem em saber acerca do sabor do cinismo, digo apenas que, tal como na culinária, a fome é o melhor tempero.

Coldbrainsnobodyfaultbutmyown

Agora que ponho-me a escrever são 21h19. Hoje recusei-me a sair de casa; na verdade mal pisei fora do meu quarto, exceto para ir ao salão – ter o cabelo bem aparado é obrigação de homens civilizados. Recusei-me hoje a toda atividade quotidiana: não escrevi (até agora), não almocei, não compareci à universidade, não li nada – salvo os acidentes, porque a leitura é muitas vezes um acidente. Sendo desnecessárias quaisquer justificativas para tais abstinências, listo duas: o frio e a decorrente preguiça, que só não configuram um clássico ardil22 pois, se a minha preguiça fizesse surgir o inverno, teríamos geada todo o ano. E eu não diria que passei o dia “olhando o tempo”, porque isso é coisa de gente sem o que fazer. Eu não olhei o tempo, e as cortinas de meu quarto mantiveram-se fechadas durante todo o dia para coibir qualquer chance de o sol aqui lançar suas luzes felicíssimas. Parêntesis: este é mais um motivo pelo qual não gosto do sol; essa idéia de que o astro quentinho simboliza alegria me mata de tédio e aborrecimento. Fim dos parêntesis. O pouco tempo que estive fora de minha cama usei-o para arrumar aqui umas coisas. Mais exatamente, para me livrar de alguns papéis e objetos; uns já destituídos de valor, outros, no momento, destituídos da capacidade de agradar-me como antes. Livrei-me, por exemplo, de um antigo aparelho de som no qual ouvia meus LPs. De modo que agora – e digo sem o menor remorso – não mais tenho onde reproduzir os chiados de David Bowie, Bob Dylan, Secos e Molhados, Caetano, Black Sabbath, Pink Floyd, Elvis, Beatles, Lennon, Doors, Yes, para citar alguns. E que bom, minha vida está mais limpa agora. Outras tralhas mantive ainda guardadas, mas não escapam à próxima arrumação. Sinto-me um taumaturgo ao ver toda a utilidade de um par de sapatos desaparecer no momento em que toca o cesto de lixo. O descompromisso é uma dádiva.

Olá

Estive a preparar um post, mas sigo tentando guardá-lo, melhor, reservá-lo para momento mais oportuno, a exemplo do amigo Rafael. E que ridículo isso de escrever um post que, na verdade, não é um post mas um aviso, uma verdadeira satisfação quem me lê dirigida. À metalinguagem o meu mais sonoro não. Até a vista.

não me esperem por esses dias

Sendo a paciência uma virtude o preguiçoso está a salvo.

wittgenstein: facts

“Ah, mas eu imaginava que a faculdade me mandaria ler os clássicos”. Eu também achava. Então, se você pretende ganhar uma discussão-de-estação-de-metrô ou, no mínimo, perdê-la honradamente, saia dessa mesa suja de bar e vá ler alguma coisa que preste.  

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Sou mesmo muito intrometido, e por isso vou um pouquinho além da bibliografia obrigatória do jornalismo – que, diga-se, é uma grande merda. Gosto dos Apocalípticos, da Escola de Frankfurt e tal, mas não é suficiente.  

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Deixem-me contar-lhes uma história que me apraz particularmente: a história de Wittgenstein. Ludwing Wittgenstein, em sua fase de acadêmico na Inglaterra, foi aluno de Bertrand Russel, cuja obra Principia Matematica, de 1913, tentava reduzir todo o imbróglio matemático à simples e pura lógica. Wittgenstein, ainda mais ambicioso e polemista que Russel, disse que seu primeiro livro, Tractatus Logico-Philosophicus (1922),  marcaria o fim da filosofia (caso ele tivesse um blog, este estaria desde já linkado). Após alguns anos lecionando numa escola Austríaca, Ludwing retorna à Inglaterra para declarar – vejam bem – que estava equivocado. Consequência? Passou os 18 anos seguintes liderando um grupinho de estudos (dando aulas particulares, diria-se hoje), em Cambridge. Uma lástima. Mas, voltando ao Tractatus, ele determinou que o mundo consiste de fatos. O mundo é uma totalidade de fatos, não de coisas. “Fato” é quando você faz uma verdadeira afirmação sobre algo (coisa). Um blog é uma coisa; a afirmação “este blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória” é um fato. O mundo como o conhecemos não passa de uma reunião de fatos conhecidos. Noutras palavras: é a linguagem a responsável pelo nosso senso de universo, nosso meio e nossas experiências (o que não pode ser dito, não pode ser conhecido). 

Os chamados Positivistas Lógicos, um então grupinho de jovens (arg) filósofos, foram profundamente influenciados pelas idéias de Wittgenstein. Eles acreditavam que tudo aquilo que não pudesse ser empiricamente demonstrado (na prática, you know) era mero contra-senso (como artes, literatura, etc). Wittgenstein não concordou com isso, no entanto e felizmente. Ele se interessava excessivamente pelo que não podia ser comprovado, e permaneceu obcecado por realidades não demonstráveis. Em sua segunda obra, Investigações Filosóficas (só publicada postumamente, em 1953), o ex-aluno de Russel pareceu abandonar totalmente o pensamento presente no Tractatus. Ele mesmo chegou a afirmar que suas primeiras idéias eram fruto de uma juventude ambiciosa demais e, mais que isso, simplista demais. Se antes Wittgenstein havia tratado as palavras como indicadores ou símbolos das coisas no mundo, em Investigações Filosóficas ele amplia essa visão: o significado das palavras não depende daquilo a que elas se referem, mas de como são utilizadas.

E com isso vos digo que não importa muito sobre o que eu escrevo aqui; mais uma vez digo Não me levem tão a sério, e, principalmente, não levem a si mesmos tão a sério. Trabalhem seus textos, que é coisa mais importante. 

Um abraço.

Meus sentimentos

E eu me sinto como um velho  precoce, sentado na cadeira de balanço na varanda de minha casa; olho para o tempo e é como se eu já houvesse vivido tudo o que há para se viver. Olho o tempo e as pessoas, principalmente as pessoas, e tudo o que consigo pensar é Que merda.

Runners dial zero

Oi, olá. Já perguntaram “mas você não estava de férias?”, mas a verdade é que sinto falta daqui. O blog me dá essa impressão de que há algo que vale a pena, pessoas com as quais vale a pena dialogar. Quantos leitores de verdade eu tenho, uns dez? Esse sisteminha do wp me mostra uma média de 400 acessos por dia, o que quer dizer que a) há muito aspirante a semioticista por aí b) que gente à toa, puxa. Meus dias de ócio estão a correr tranquilos, Russel bem que sentiria uma invejinha. Tenho assistido a alguns filmes que estavam na lista, como Boa noite e Boa Sorte, dirigido pelo dude do Plantão Médico; The Prestige; Shopgirl. Assisti mais uma vez a Match Point, do velho Allen, para ver se me saia da cabeça a primeira e má impressão que tive, mas nesse sentido não obtive assaz êxito. Livros: há uma semana terminei o Franny & Zooey, do Salinger, e por esses dias estou lendo o Extremely Loud & Incredibly Close, do neófito Jonathan Safran Foer – um livro grandioso.

Poucos sabem, mas eu tenho um livro. Chama-se L’ange et la Bête, e não é nada religioso. Findei-o há uns dois anos, e o eu atual não o aprova. Eu melhorei, e é preciso melhorá-lo. Conversando com amigos, sugeriram-me deixá-lo como está, pois assim terei uma prova da minha evolução. Mas não sei. Se não o revisar, não há chances de que eu tente publicá-lo. Quem sabe fique guardado para uma edição póstuma? 

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Humanismo: interesse pelo homem, por tudo que ele pode realizar de elevado, profundo e glorioso. Com o humanismo vem também a tentativa de reformar, de “humanizar a prática religiosa, reduzindo a doutrina aos ensinamentos morais de Cristo e abolindo quanto possível as formas rituais exteriores” do culto. O humanista é aquele que, guiado por sua ânsia de absoluto, retorna à filosofia platônica (estou falando demais de Platão, desculpem) e cria romanticamente o seu mundo ideal, mundo que nasce de um processo de idealização. Eu já fui muito humanista, hoje sou um quase-humanista.

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Hoje meu humor não esteve dos melhores. E é por isso que aqui estou a escrever – não, não sou de acordo com o que disse o Vinícius. Escreve-se, sim, em momentos agradáveis; o que acontece é: o cenho franzido dá ao texto umas doses de sangue e vida necessárias.

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Ontem acordei com a notícia de que um familiar fora baleado. Um primo, não próximo o suficiente para me tirar o sono, não suficientemente distante para eu não me tocar. Falei com ele há pouco, e esperamos que tudo vá bem. 

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Há alguns anos eu me correspondia por carta com um ex-professor, escritor e amigo chamado Ezequias Eliud. Numa das correspondências ele escreveu “(…) penso no quanto estamos autômatos. Secaram nossas vidas em louvor ao labor dos dias. Não estamos em direção às luzes; elas nos devoram.” E lamentavelmente é preciso concordar.

A que ponto

Durante toda a semana tenho participado de palestras e debates sobre literatura na universidade Estácio de Sá, aqui em Belo Horizonte. O tema de ontem foi blogs e literatura on line; em virtude disso as autoras do Mothern estiveram lá, dando umas aulinhas sobre blogs e falando do trabalho que realizam. Mas o que me espantou mesmo, no fim das contas, foi a quantidade de estudante de comunicação que não sabe o que é um blog. As perguntas idiotas iam surgindo e eu ia diminuindo na minha cadeira. Que vergonha, que vergonha. Foram assuntos: blogs que viram livros, livros que viram blogs, o caso Meg, etc.

Dou palestras sobre cinismo, canalhice e dissimulação. Convidem-me.

escusa

Ah, sim. Fiquei muitíssimo feliz com a vitória da direita na França, senhores. E é só.

bored

Hoje eu recebi uma ligação. Uma pessoa oferecendo-me lugar num negócio muito promissor. “Empreendedor”, como chamam. Dizia-me ele que fui escolhido pelo meu intelecto; e que sua inteligência está num nível invejável. Mas não estava se gabando, ele me garantiu. D’acordo com meu interlocutor, meus conhecimentos o ajudarão muito; ficaremos ricos, etc, etc.

Então, se há algo muito grave para ser dito, não diga.

Alguma felicidade

  

“Trabalha, trabalha, escreve, escreve tanto quanto possas, tanto quanto sejas arrebatado por tua musa. Este é o melhor corcel, a melhor carruagem para escapar da vida” [Gustave Flaubert] 

Pretendendo não me ater ao cliché de que a felicidade é feita de momentos, procurarei me ater, portanto, aos momentos – e que o encontro da felicidade seja um mero acaso, um acontecimento, uma fatalidade (como creio que, afinal, é mesmo). 

Não sei quanto a vocês, mas quanto mais tomo conhecimento de teorias várias sobre todo assunto possível de ser analisado, mais evito alguma citação – que minha tese será uma, quando se fizer necessária; e enquanto isso minhas referências vão aparecendo sublimadas, feitas inteligíveis a alguns bons olhos que me lêem. E sendo ainda mais franco, prefiro muitas vezes revelar meus pensamentos à la jazz, improvisados mesmo, bebop, ainda que sob o risco de escrever besteiras (neste ponto peço a vossa atenção; mais exatamente ao verbete ‘besteiras’, que mais adiante revelará grande relevância neste texto). 

Lembro-me de ter escrito aqui mesmo, já há algum tempo, que o presente não existe. Que tudo, absolutamente, pertence ao pretérito. E isso é uma grande felicidade, vejam bem. Há uma idéia muito difundida por aí que diz sobre a necessidade, melhor, sobre a obrigatoriedade de se viver o momento acima de todas as coisas. Essa idéia (cujo termo que a intitula é usualmente escrito em latim a fim de cheirar a alguma imponência ou pompa) é tão (desculpem) esburacada, tão cretina. E nem perco o meu tempo chamando-a totalitarista, ditatorial. Não chega a tanto. É, no mínimo, nome para livretos de auto-ajuda e, no máximo, idiota. E assim escrevo algumas linhas que vão julgar desnecessárias, mas não o são. Não o são: o fato de o tempo presente inexistir faz do carpediem um sonho à toa, uma tolice. (Pronto, a partir do parágrafo seguinte vocês podem trazer o tempo presente de volta, se preferirem.) 

E deixem-me escrever algumas palavrinhas sobre a liberdade – tão comumente ligada à felicidade. Ser livre é assumir para si mesmo que a liberdade não existe. A liberdade incondicional não existe; a liberdade dos filmes de hollywood em carros a toda velocidade em estradas vazias, essa existe. É um raciocínio muito básico e verdadeiro: liberdade não é um estado físico, não é um lugar; liberdade não passa de uma sensação, de um tipo específico de sentimento que depende unicamente de grilhões, ocupações precedentes. É uma sorte que ninguém alcance a liberdade de que tanto falam, pois a liberdade perpétua é a maior das prisões. O homem não nasceu para isso, acreditem-me.  

Peço escusa para fazer aqui uma referência explícita à doutrina platônica da beleza, segundo a qual tudo o que é belo deve tal condição a uma idéia anterior e superior que lhe serviu de excepcional modelo. Noutras palavras, é contemplando as coisas belas que nossa alma pode ascender ao belo em si mesma. E o motor que é capaz de conduzir o homem a tal conhecer superior é o amor. Amor à literatura, ao conheciemento e à mulher (uma pequena apologia ao hedonismo).  

E eis aqui um texto escrito na horizontal, se me entendem. Felicidade. Acordei às 11h, peguei o livro ao lado da cama e pus-me a lê-lo esta manhã. Faz frio. Felicidade. Depois do café matinal, coloco uma música e volto à leitura. Toca o telefone e é a minha modelo; a voz macia do outro lado produz uma nota única, num certo tom de je t’aime. Felicidade. Falo besteiras e procrastino as obrigações. Sinto o cheiro que vem da cozinha. Vejo meus livros sobre o móvel; os papéis desorganizados; os objetos incomunicáveis.  

Ser feliz, creiam, é abster-se de toda sobriedade. Estar feliz é permitir-se momentos de suspensão do juízo. E se nada disso fizer sentido, tanto melhor. Assim é a felicidade. 

“Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola.” [Machado de Assis] 

Rev, um abraço.

celeuma

Como se um diálogo fosse, um diálogo em que só eu fale. Mas isso é monólogo, dirão. Pois não, insisto que seja um diálogo para que não me chamem reacionário. Vejam bem, dou-lhes espaço; dou-lhes a vez; passo a chance. Ah, mas às vezes é mesmo preferível não dizer nada. Quem gere a conversa não é a voz, é o ouvido.

O berço familiar

Em casa, somos uns pulhas. Em minha casa não há diálogo, não há bom dia e boa noite. Somos uns frios. Uns deselegantes. Uns mal educados. Mas tenho lá os meus motivos. Filho de pais devidamente divorciados, sou o homem, o primogênito. Moro com minha mãe – a quem, claro, os adjetivos acima não cabem – e irmãs. Duas irmãs, mais novas, além de pulhas, ecléticas. Para a minha sorte, passo a maior parte do dia fora de casa; no trabalho e na universidade. Ao chegar, à noite, passo direto pela sala e dirijo-me ao quarto, onde tenho alguma paz. Digo alguma pois não posso dizer plena. Se estou tentando dormir, a tv exibe toda a sua potência na sala. Se estou a estudar, sou constantemente incomodado pelo ecletismo que vem dos cômodos contíguos; pelas risadas altas às altas horas, pela falta de bom senso. Chamam-me velho e levanto as mãos a agradecer. Eu não voltaria à minha adolescência por nada, nada. Se atendem a um telefonema a mim dirigido, dizem “telefone” e logo sei. Se me chamam ao portão de minha casa, dizem “Estão lhe chamando lá fora” e logo também sei. É uma comunicação objetiva, direta, seca, quase  jornalística. Sem emoção, paixão, ênfase, sentimentalidade ou empatia. Sou quase o Teddy do conto do Salinger, mas perco no quesito dramaturgia. Não queria ser como os Corleone, pois as consequências de minha aversão não se limitariam a caretas de desaprovação e a textos como este. Melhor ser eu. Eu que, outro dia, acordei sobressaltado com batidas desesperadas à porta do meu quarto, em plena madrugada. Eram minhas irmãzinhas. Estavam assustadas: havia um ladrão caminhando lá fora, em nossa residência.

*

Ah, um adendo:

Este que vos escreve irá gozar de férias do ofício a partir de hoje, por 30 dias. Sorriam felizes, acólitos; posto quando puder.

Na aula de jornalismo

“Ser idiota é a nossa especialidade.”

Corta o que é inútil

Passo os dias a evitar certos assuntos, muitos assuntos, pautas chatíssimas. Levo o Inutila Truncat a sério demais e, mais que cortar palavras, corto textos inteiros, raciocínios completos. O papa que vem, o sul-coreano que mata mais de 30, Baudrillard que passa definitivamente à matrix. Dou de ombros. Dificilmente escrevo sobre temas que leio em mídias comuns, ou que a maioria dos blogs explore à exaustão. Então vos digo: leiam jornais, leiam muito, todos os dias, todos os cadernos; percorram os classificados, leiam economia e saberão sobre o que não falar. Proponho contrariar a idéia de que os jornais são responsáveis pelos assuntos sobre os quais trataremos com o amigo durante o almoço, ou no metrô, de volta à casa. Isso pois, se dependermos do jornalismo para termos boas conversas durante o nosso dia, estaremos irremediavelmente fodidos.

Sétimo dia

Concordo que o sábado seja dia de descanso total. Às vezes até penso em entrar para uma igreja adventista, mas sou imediatamente desarmado por outros motivos. Enfim. Acordei cedo no sábado, cumpri minhas obrigações higiênicas, peguei o café e corri para a sala. No dvd, The Godfather I. Ainda que meio sonolento, assiti as três horas de filme sem nenhum labor. Após a sessão Coppola, voltei ao meu quarto – que estava uma bagunça infernal. Se minha noiva chegasse e encontrasse o quarto como estava, ai de mim. Organizei a papelada em pastas. Coisas de faculdade numa, blogs impressos noutra e documentos vários numa terceira. Tirei o pó, varri o taco, troquei o lençol da cama. Coloquei os livros em ordem de tamanho, com as lombadas alinhadas. Guardei as revistas. Tirei a poeira do computador e lhe passei na tela um pano úmido. Trabalho quase teminado, ela chegou: “Quê é isso?” Ora, amor, estou arrumando o quarto pra você. Sorriso. “Pega água pra mim?” Claro, amor. ( É dever de todo homem pegar água para uma mulher.) Cada coisa em seu lugar, fui ao banho. Uma hora depois eu estava lindo, you know. Minha independência como homem é vigente em dias úteis; aos fins de semana eu sirvo a ela e ela me serve. Uma relação de mútua servidão, como deve ser. Pois bem. Ela quis sorvete e dirigimo-nos à sorveteria. Chocolate suíço e quetais. Ósculos gelados. No caminho de volta à casa, ela deseja frutas. Vamos ao mercado. Pêras, ameixas e caquis (que ela passou mais ou menos meia hora tocando com a ponta dos dedos, com cuidado, para fazer uma boa escolha). Detesto caqui. Vamos ao caixa, pagamos. Ela me entrega a sacola e diz “toma”, com um sorrisinho sublimado. Casa; quarto; partida de xadrez. Dou-lhe xeque em poucas jogadas e ela deixa cair o corpo para trás, demonstrando desistência.

(parte censurada, este é um blog conservador)

Início de noite, deitamo-nos lado a lado a ler Calvin & Hobbes. “Que tal colocar no forno a lasanha?”, ela diz. Claro, amor. Vou à cozinha, parte da casa por mim muito pouco frequentada. Com um ruído irritante, ligo o fogão elétrico. Ajusto o timer para 45 minutos e volto ao quarto. Ligo o computador. Um amigo está on-line. Lasanha pronta, vamos os dois à cozinha. Ela prepara o suco enquanto eu queimo as mãos. Jantamos. Ela se deita e adormece. Deveria acordá-la para que pudéssemos cumprir uma vez mais a atividade conjugal, mas tenho dó. À meia-noite, falo baixinho aos ouvidos dela que ela deveria colocar uma roupa de dormir e ir ao banheiro. Ela o faz. Deitamo-nos e ela novamente adormece. Eu ainda passo algumas horas acordado, pensando em minhas posses e em nada – coisas que, aliás, se confundem.

Corleone

Don Michael Corleone

“Mantenha seus amigos próximos. Seus inimigos, mais próximos ainda.”

Ignorância é força

Acho literária a idéia evangelizada por aí de que o conhecimento corrompe. Acho até que este é um dos poucos pontos do cristianismo com o qual eu tenha alguma afinidade, ainda que por puro sadismo [apesar de Jó ter pedido sapiência a Deus quando lhe foi permitido um desejo]. Mas, vergonha a minha, nisso,  eu e PT concordamos concomitantemente.

Eu Lírico

Eu sofro de algum tipo de bloqueio intelectual quando em presença de amigos. Muito raramente falo de algo que escrevi aqui, e jamais, jamais digo “entre no meu blog” (e aconselho que façam o mesmo) , e nunca me referi a mim mesmo como blogueiro profissional, que é o que está na moda (E eu acho demodê). Não digo, porém, que amigos meus nunca entraram aqui e me leram. Já. E o resultado é sempre o mesmo: “nossa, você acha mesmo isso?”, “Você está sendo muito radical”, “As pessoas precisam ser mais flexíveis”. Razão? Os amigos não entendem nada de licença poética. Nada. Zero. That’s all. Então prefiro evitar que pessoas a quem conheço pessoalmente me leiam, porque eu morro, juro, morro de preguiça de me ficar explicando. Mas por que amigos não conseguem entender os excessos, as metáforas? Tenho um amigo, ainda jovem (19, creio), que insiste em me ler, ainda que raramente. Ele se encontra ainda naquela fase do Pseudo. Pseudo isso, Pseudo aquilo. E me chama de Comedor de Ovelhas, seja lá o que isso signifique na cabeça de uma pessoa de 19 anos. Então, ele lê alguns textos meus e discorda em tudo, uma beleza. Mas é claro que não contrapõe nenhum argumento, apenas não concorda. E vejam vocês que ele ainda não começou a ler Nietzsche (quando o fizer, será uma tragédia, porque pessoas que não entendem licença poética não podem, de jeito nenhum, ler Nietzsche; começam a levar tudo a sério demais, aliás um erro comum do século XXI).

Então, é isso o que eu queria dizer a vocês: não mostrem, em hipótese alguma, seus blogs a seus amigos (exceto às amigas pelas quais tenham alguma intenção não declarada; elas vão achar o máximo).

Ah, c’mon

Qual é o assunto em voga? A vinda do Papa? Não vou falar do papa. Seguinte: eu estou cansado. As provas e os trabalhos da faculdade estão me matando. Tenho dormido muito, muito mal. E isso não é uma reclamação, é o grito de uma ave de rapina [foi assim que aquela maluca escreveu?]. No próximo mês estarei de férias, o que significa que vou dormir muito e acordar com dor em todo o corpo todos os dias, assistir desenhos animados e a alguns filmes que estão na lista, como Scoop, Maria Antonieta e tais. Vou brincar com o cachorro e me deixar arranhar pelo safado daquele gato. Preciso também colocar algumas leituras em dia. Como o Irmãos Karamazóvi, que comecei mas não terminei. Nunca leia Dostoiévski no ônibus, eu digo. Vou alí, mas volto depois.

VI

O homem, chamá-lo mito, não passa de apelação.

V

Todo homem é uma pilha.

IV

Toda mulher fica nervosinha no pós-coito?

III

Minha vida segue. O quê, eu não sei.

II

Comprei uma bolsa da moda para não ter que carregar a moda nas mãos.

I

Este blog é um raso exercício de auto-adulação masturbatória.

Do que eu não gosto em um texto jornalístico

Não gosto de tanta objetividade, não gosto do lead clássico. Onde está o drama? E por que eu, achando um acontecimento terrível, não posso chamá-lo terrível? Vou dizer: até entendo a tentativa do jornalista de ser imparcial, passivo de opinião própria – que os leitores somente e tão somente possam achar o que quiserem da notícia. Mas nesse ponto sinto um certo conflito de ideologias: se o jornalista deve informar com fidelidade os fatos, e se tais fatos são sim terríveis, por que não dizê-los logo terríveis? Mas divago. O que eu quero dizer é que gosto do nariz de cera. Gosto das introduções literárias, tão comuns nos jornais de há alguns anos – era tão mais viva a coisa toda, mais humana e sincera e tal. Jornalistas que precisam se ater às suas regrinhas tão chatinhas (quase todos) são todos iguais. Apenas uma minoria consegue desenvolver algum estilo peculiar mesmo presa aos grilhões da profissão. E por isso os colunistas são tão lidos; a classificação de opinativa dada às colunas dos jornais quer dizer que elas não possuem classificação – a não ser os setoristas, que só sabem sobre o que sabem. Para ter uma idéia do tipo de jornalista a que me refiro, pensem em Nelson Rodrigues, Paulo Francis. Estes e alguns outros poucos são (ou eram) jornalistas que valem mesmo a pena serem lidos.

canalha II

Estou ficando velho. Sei disso por já perceber em mim o rabugento civilizado que serei aos 40 anos. Até lá, no que toca a caráter, não mudarei muito. Até os sapatos que uso hoje são os mesmos que usarei mais tarde. O homem  aos 25 anos prefere pensar e agir como se mais velho fosse, como se estivesse irremediavelmente cansado. Enquanto que a mulher aos 25 é uma mulher aos 25, e só. Sou além de cínico, rabugento. No entanto sou bem quisto, bem amado, e não me espanta. Mulheres inteligentes (pouquíssimas, you know) têm predileção pelo homem de gênio; preferem o chato ao rapaz razoável. Ademais, os canalhas as defendem melhor em situação que peça reações mais enérgicas.

Esta é uma lição, se é que não me fiz compreender suficientemente bem.

canalha

Andam por aí a reclamar do uso exacerbado de metáforas. A mim aborrece mais a exposição exacerbada da realidade.

“Caudfield”

Salinger não merece os fãs que tem. Isso explica o fato de tantas pessoas – uma boa parte dos que se entendem intelectuais – não gostarem d’O Apanhador. E juro que agorinha, pesquisando comunidades no orkut, num instante de iluminação,  eu me uni ideologicamente a essas pessoas. Ler algo como “para todos que se identificam com o Holden Caudfield (…)” mata qualquer um de vergonha.

Nigger again

O branco é canalha às escondidas, já o negro o prefere ser às claras mesmo – principalmente perante câmeras,  microfones e outros aparatos de gente moderninha. Racismo é um negócio fascinante. O que faz espantar é a aura mitológica que há em volta do preto, negro, moreno, whatever. Acho que o mais prudente seria mesmo fazer pose de normal, assim como fazem brancos e amarelos. São tantas quotas, programas especiais, auxílios, empurrãozinhos que me fazem pensar no Estado como um pai que, tendo o filho uns 2000 anos, ainda o ensina lições sobre como andar de bicicleta. Domingo último passava no Fantástico uma reportagem sobre um tal novo tipo de preconceito: a obrigatoriedade de o negro ter boa aparência para se conseguir um emprego. (Microfone ligado e o negro a falar, como um coitado, que o fizeram cortar o cabelo, retirar os dreadlocks, só por causa de um trabalho. Dizia que o estilo de se vestir, o cabelo e tal era para reforçar sua identidade cultural. Ora, essa premissa da boa aparência vale para todos, não é?) Imagino o negro a trocar o terno por um bermudão após um dia de trabalho, colocar no pescoço uma corrente, modificar o modo de andar e sair à rua dizendo coisas como Yo! e Mano e o vizinho a perguntar: “Aonde vai vestido assim?”

__Vou alí, reforçar a minha identidade cultural.

E por favor, eu suplico, não me venham falar que eu me esqueci da história, do quanto os negros foram açoitados no passado, do quanto sofreram. Não me venham falar da Ku Klux Klan. Ou direi que justamente por isso, exatamente por terem passado por tantos percalços, eles têm a obrigação de se igualar moralmente não por meio de programas de governo ou por cabelos impermeáveis, mas através do intelecto. Mais que isso não peço nem espero.

*

Ainda sobre isso, um ótimo texto aqui.

nota

Sei que devo estar me mostrando bastante desligado deste blog nos últimos dias – situação que decorre do fato de eu estar realmente atarefado; digo, muito atarefado. Mas eu volto. Deixo, por ora, uma boa nova: muito provavelmente o SemiÓtica será transferido para um coletivo. Sem mais detalhes, puxa; tenham paciência, curiosos.

Claro, nada mais que a verdade

O Diabo veste Prada e eu vou levando. Feriado prolongado sempre me deixa com a sensação de que quem se está prolongando demais sou eu. Durmo mal quando devo dormir bem e me fica essa dor de cabeça durante todo o dia. Meu conselho é nunca dormir fora de casa – a não ser que seja num canto muito confortável. Ela na cozinha arrumando sei-lá-o-quê. Pós-almoço e eu aqui: quarto em penumbra porque assim o prefiro. A luz me fere os olhos, se bem que faz tempo chuvoso – e isso já me conforta, um pouco. Atendo a algumas ligações de alguns “colegas”. Perguntam-me sobre o que farei nesses dias e me saio com uma resposta retórica, e isso quer dizer que não respondo. Reafirmo que o colega é o último refúgio das considerações. Evito pensar no trabalho, que me perdoe o Voltaire. Há uma reportagem que preciso editar e ela deve estar na minha caixa de e-mail. Evito acessar minha caixa de e-mail. Meu celular se encontra (?) quase sem bateria; tanto melhor. Minha postura frente a vida não é das mais exemplares, mas eu prefiro assim. Sou mesmo um cínico; ouço dizer que os efeitos do aquecimento, you know, estão acontecendo mais rapido que o previsto. Penso que talvez, talvez as previsões é que tenham sido tardias. Como ligar o timer do fogão após anos de forno aquecido. Não há pelo que se lamentar. Sorte de quem não é mundano.

Às vezes exigir de uma frase que ela seja um título é querer demais

 

Esses dias um amigo me disse que não era cult falar mal de ‘300’, só porque eu demonstrei a minha impaciência para com essa gente que não sabe falar d’outra coisa que não sobre mais uma adaptação dum quadrinho do Frank Miller para o cinema. O último, Sin City, eu vi e – com o perdão da palavra – achei uma droga. Eu não estava querendo parecer cult, que idéia! “Já é, né?”, disse a segunda pessoa do diálogo. “Você é quem diz”, eu disse para acabar com o papo. Por exemplo, estreou Scoop, do Woody Allen, e vocês não me viram aqui falando nem bem nem mal do filme, embora saibam que gosto de Woody Allen. Esse pessoal de blog gosta muito de opinar, e ainda que eu admire isso, há momentos em que é melhor ficar calado.

Sim, eu sou muito conservador. E disperso em relação a algumas coisas. Esqueci, por exemplo, que dia é a páscoa. Nunca me lembro desse negócio de segundo domingo de abril e toda essa lenga lenga. Perguntei para a menina do setor de frente e ela me disse “domingo”. E uau, porque eu não comprei lhufas para mon chou. Ainda.

Ontem saí aqui da OAB ao meio dia. Trabalho de radiojornalismo, entrevistas para serem feitas com algumas fontes na Polícia Federal e etc. Tema: crimes no orkut. E eu nunca falei de orkut aqui também, imagino. Mas, quê dizer? Sim, eu tenho, o link está aí ao lado e tudo, mas não sou nenhum orkutaholic. Tenho preguiça.

E essa semana dizem que é santa. Então ‘tá. Fato é que não trabalho amanhã, e isso sim é de uma santidade sem tamanho. Não gente, eu sou católico. Batizado e tudo. Com a água, é. Mas sou bastante avesso a religiões – inclusive com a minha -, mas ainda acho algumas igrejas bem bonitas, a arquitetura, o barroco, etc. E me lembrei de dizer uma coisa: quanto à notícia de que o papa vai impor que as igrejas católicas voltem a rezar as missas em latim, ela só vale para as igrejas de verdade. Pobres que mal entendem o português não têm que se preocupar, de jeito nenhum.

E eu não falei também do novo hábito que desenvolvi nos últimos meses: ler blogs impressos. Quer dizer, eu imprimo alguns textos de alguns blogs e levo para ler no ônibus ou durante uma aula chata na faculdade. Alguns blogs que recomendo a vocês, ótimos para serem lidos quando impressos: esse, esse outro, esse aqui, esse e esse. Não dá para comentar, é verdade, mas vá por mim, é legal.

That’s all, folks.

Animal Farm

Ah, sim, lendo Orwell. Veja bem.

 A cara de parvo do leitor é um momento iluminado.

Notas

Então passei todo o sábado com a minha pequena. Sorvete, partidas de xadrez e algo mais que não me é permitido aqui dizer, sob risco de retaliação.

Ontem, domingo, calor infernal à tardezinha, pus-me novamente a jogar xadrez com um amigo. No media player tocava Is This It?, Strokes, enquanto eu fumava o bispo tombado do adversário. Na Last Night dei-lhe xeque.

À noite, shopping para buscar minha pequena – ela trabalha aos domingos, para a minha estupefação. Passei na Leitura e fiquei na dúvida entre o novo do Paul Auster, Viagens do Scriptorium, e o Nine Stories, do Salinger. Comprei o Salinger e, terminando o primeiro conto – “Feito isso, foi sentar-se na cama desocupada, olhou para a moça, apontou a pistola e deu um tiro em sua própria têmpora direita” – juro que fiquei bastante chocado.

Enquanto corto as unhas

O problema da modernidade é assumir-se avant-guard demais.

Je ne suis pas le denier des hommes

Puro machismo

Já quase entramos em abril e comprei, ontem, a Playboy de março para ler o texto do Ruy Goiaba, a entrevista com o Millôr e o artigo do Roberto Jefferson sobre a direita brasileira. As fotos? Ah, as fotos são aperitivos – e eu vou apanhar por isso.

E isso me lembrou que nada supera a mulher quando o assunto é machismo. Todas a quem você diga que comprou uma revista dessas para ler um artigo vão rir da sua cara. Exemplo: quando fui até à banca, perguntei se ainda havia a Playboy de março e a senhora me disse num estalo: “Você quer a de abril, não é não?” Eu disse que não, que precisava da de março devido a alguns textos, etc. Aí a senhora sorriu com a maior malícia e me disse: “mas você vai aproveitar, né?” Outro exemplo que comprova o quanto mulheres são machistas: minha namorada, quando estava lendo O Retrato de Dorian Gray, veio correndo me perguntar se o Basil Hallward e o Dorian eram homossexuais. Parêntesis: sei que há muito homem por aí que acha a mesma coisa, mas eu não achei, e isso na verdade é o que menos importa no livro; já as mulheres ficam intrigadíssimas com a possibilidade de acontecer algo mais entre o pintor e seu modelo. E já que falei do Millôr aí em cima, deixe-me citá-lo:

(…) Hoje as mulheres usam até expressões que não são delas. Dizem “Não enche meu saco”, quando deveriam dizer “Não enche meu útero”. (…) As mulheres jamais conseguirão ser mais calhordas que os homens. Não tem jeito. A filha do Sarney tentou e não conseguiu.

Ademais, toda essa história de a mulher querer igualdade entre os sexos, querer seu espaço-não-sei-onde, querer ser independente etc, etc, não passa de machismo. O feminismo é uma fraude.

Do que se aprende nos ônibus

Eu francamente não entendo quando as pessoas me chamam de preconceituoso. Ontem, tarde da noite, no ônibus p’ra casa, ouvia a conversa de duas moças (fibras fortes). Uma dizia à outra que iria num show de axé, mas que preferiria estar solteira para poder pegar [SIC] bastante. A outra, sabidinha, nos revelou – a mim também, ora – que é besteira resistir; que se fosse ela pegava mesmo [SIC]. E contou uma historinha muito ilustrativa: uma outra amiga tinha ido ao axé no ano anterior e se recusado a ficar [SIC] com um rapaz; e acabou levando um soco para aprender. Para essas pessoas a vida não pode ficar muito melhor que isso.

Para vossas questões tão pertinentes

Os cabides, vê?

É um mundo engraçado

O que acontece se eu sair por aí usando uma camiseta com os dizeres “100% Branco” ?

Sobre talentos e canalhas

Talentos não são gênios. São apenas pessoas comuns, dotadas das mesmas ferramentas mentais, porém com algo a mais que é quase intangível.” Ou seja, puxa-saquismo.

*

Vão dizer que gosto de reclamar, mas a verdade é que não dá para não falar sobre isso. Tenho pensado no assunto e considero, no mínimo, um ato de mau gosto o fato de as corporações (empresas, instituições) apostarem com tanta veemência no emburrecimento das pessoas. Há uma inversão de valores: o piegas tornou-se técnica motivacional, enquanto que a técnica fundamentada, inteligente, é posta de lado como, herr, ininteligível. Ao assistir uma palestra empresarial ou a uma aula de empreendedorismo, tenho a vaga impressão de que aquele mundo retratado pela fala do palestrante/ professor não é o meu, tampouco o dele. Vejo, nítida, a noção de idiotice estampada no semblante de quem fala. Tomei o exemplo do culto ao Talento Humano pois estou com um texto aqui ao lado (de um tal Eugênio M.) que parece pretender eliminar qualquer senso crítico do leitor, ou, em última análise, considerar o receptor já destituído d’alguma faculdade intelectual. São textos tão ruins que ofendem:

Aquelas que produzem, aquelas que dizem o que produzir, as que vendem o produzido, as que compram o necessário para produzir e por aí vai. E as pessoas que produzem, controlam, vendem e compram com qualidade acima da média, estas são consideradas os talentos.

Que quer dizer isso? Que os pobres assalariados que passam o dia sob o sol carregando latas de areia nas costas são, porque produzem, talentos reconhecidos? Quer dizer que o patrão corrupto que humilha hierarquicamente inferiores e diz o que deve ser feito é um talento fora de série? A moça do supermercado da esquina que trabalha para manter a casa e, por sorte, vende mais que a média é um talento? Tudo bem que sejam, cada um a seu modo, mas é isso mesmo que querem dizer os doutores do RH? Se ser talentoso é isso, o Brasil vai bem, obrigado.

É de pasmar a cara de pau com a qual os presidentes e diretores de empresas fazem vista grossa perante tanta idiotice. Me faz pensar naquela idéia de que conselhos, afinal, só servem para ser passados a outrem, jamais para serem utilizados.

Quando vejo um professor enchendo a boca para dizer  baboseiras tipo “vocês são o futuro do país” ou “vocês são talentos”, vejo um flagrante crime de Duplipensar [data vênia, Orwell] – e o pior é que os canalhas são bem pagos. Ah, sim, canalhice tem seu preço.

*

E não me entendam mal, isto não é  bravata. Não faço bravatas. O que ocorre é que tenho a little case com o assunto.

Tapinhas nas costas

Tenho na estante um livro chamado Maravilhas Do Conto Francês, que já li mas que não me “acrescentou” nada – engraçado como todos querem ser o tempo todo acrescentados, que mania mais estranha. É uma reunião de autores como Guy de Maupassant, Stendhal, etc. Não estou com o livro em mãos; mas há um conto cujo nome não me lembro e autor idem que conta uma história no mínimo irônica, que quero comentar com vocês. Recorro puramente à memória, corrijam-me se eu me estiver equivocando. É a história de um jovem que procura um velho aristocrata a fim de solicitar um emprego. Dutante a entrevista, o senhor pergunta ao jovem a respeito de suas atribuições, essas coisas. O aristocrata dispensa o rapaz, dizendo que entraria em contato caso tomasse alguma decisão. Frente ao escritório do Serviço Público há uma praça pela qual o jovem precisa passar para chegar à rua de destino. O Aristocrata ia acompanhado com os olhos os passos do jovem através da praça, quando este se abaixa para apanhar algo no chão. Grita o velho:

__Rapaz, encaminhe-se de volta até aqui.

Chegando lá, imaginando ter conseguido o emprego, o jovem diz “pois não, senhor.”

__O que foi que você encontrou no chão da praça?

__Um alfinete, senhor.

__Que pena, rapaz. Você não serve para o serviço público; se atém a detalhes demais.

Particularmente – permitam-me a redundância – , acho um charme um post inacabado.

Apologia da preguiça

Eu sou o oposto do workaholic, o que não quer dizer que eu não goste de trabalhar. Gosto e trabalho desde os 18 anos (o que?, vocês trabalham desde os 15?), sem parar. Eu só não consigo entender a mente de uma pessoa que não vive, trabalha. Que nasce, trabalha e morre. E como ninguém consegue ficar calado enquanto eu discurso, ouço “Então o que é viver, Ed?”, e respondo que não sei, só sei que viver não é trabalhar; digo, não pode ser só isso. “Mas Ed, de onde você tirou essa sua idéia?, sua família sempre foi tão trabalhadora…” Eu li Russel. Li o safado do Betrand Russel e o negócio mudou minha vida; aquela história do Elogio ao Ócio, da redução da jornada de trabalho para 4 horas diárias – vejam bem, 20 horas destinadas ao júbilo e à rede na varanda, para quem gosta de rede na varanda.

Ah, sério, eu tenho pena de quem não consegue dizer algo tão simples como “ai, que preguiça”. Se viver de acordo com as idéias Russelianas é algo hoje improvável, eu me permito então, no mínimo, sentir a santa e sincera preguiça. Senti-la e assumi-la. Vejo por aí gente que já não aguenta mais tanto trabalho mas não consegue, não pode assumir sua própria preguiça, por medo de que isso vá demonstrar algum desvio de caráter. Ora, preguiça demonstra preguiça, não mais que isso. E os benefícios, imediatos: digo “que preguiça” e meus olhos se enchem duma lágrima quente, num misto de sono, emoção e liberdade.

Do que não pode ser feito um blog

Chamaram-me “cínico simpático” alí ao mesmo tempo que me deram mais, herr, trabalho. Não vou escrever que é um meme. Não gosto da palavra. Meme. Não, não é um meme. É só mais uma variação do Questionário de Proust, que respondi há uns dias. E como responder a dois desses em menos de 15 dias demonstra uma imensurável falta de criatividade e uma vergonhosa incapacidade bloguística, vou adiar o negócio. Raquel, obrigado e tenha paciência, sim?

Um lema

“A realidade é chata, mas é ainda o único lugar onde se pode comer um bom bife.”

Woody Allen

Fitter, Happier more productive. Comfortable. Not drinking too much.

Eu não me dou bem com gente feliz demais, fico sem graça. Geralmente não sei o que dizer quando me perguntam se sou feliz. Que pergunta mais cretina. Respondo que vou bem, obrigado; mas assumir-me feliz, assim, uma pessoa feliz, eu não consigo. E quem convive comigo bem o sabe. Levo uma vida regrada, sem muitas aventuras: trabalho durante o dia, estudo à noite e leio no pouco tempo que me sobra entre uma atividade e outra. Não bebo, não fumo. Não tenho nenhum vício censurável – a não ser que os senhores leitores sejam por demais castos e me repreendam por libido exacerbada. Mas sou fiel, não me entendam mal. Namoro aos fins de semana e não devo me demorar muito mais para contrair casamento. Contrair, sim, mas não deixem que essas suas mentes espirituosas lhes remetam a algum tipo de enfermidade, que não é disso que trato. Voltando. Moro em casa, com família; tenho gato, cão e conforto. Apesar de estar sempre muito cansado, minha vida não é ruim. Ainda sim, me recuso a dizer que sou feliz. Acho que a felicidade está mais para uma paisagem mutável que para uma construção sólida. Tenho momentos muito bons, mas não os assumo. Gente feliz demais me irrita. Quem vive se dizendo feliz o tempo todo só pode estar praticando psicologia reversa.

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